A Acha - Guy de Maupassant


  Grandes Autores

A Acha
Guy de Maupassant

Era um pequeno salo, todo forrado de reposteiros espessos, e discretamente
perfumado. Um fogo vivo flamejava numa grande lareira, a cujo canto, uma s
lmpada derramava uma luz branda, suavizada por um abajur de renda antiga, sobre
duas pessoas que conversavam.
Ela, a dona da casa, uma velhota de cabelos brancos, era uma dessas velhas
adorveis, de pele sem rugas, fina como papel de seda e perfumada, toda
impregnada de perfumes, penetrada at  carne das essncias finas, uma dessas
velhas que exalavam, quando se lhes beija  a mo, o mesmo odor suave que nos
salta ao olfato quando abrimos uma caixa de p de ris florentino.
Ele, era um velho amigo que ficara solteiro, um amigo de todas as semanas, um
companheiro na viagem da existncia. S isso, alis.
Haviam parado de conversar fazia um minuto pouco mais ou menos, e ambos olhavam
o fogo,  sonhando qualquer coisa vaga, num desses silncios amigos da gente que
no sente a necessidade de estar sempre falando para se lamentar mutuamente.
E, de sbito, uma grossa acha, um tronco eriado de razes inflamadas, ruiu.
Pulou por cima das grelhas e, arrojado no salo, rolou pelo tapete, espalhando
fascas de fogo.
A velha deu um gritinho e levantou-se como para fugir, enquanto ele, com a ponta
do p, lanava outra vez na lareira o enorme pedao de madeira, avivando a sola
dos sapatos todos os carves em brasa que o rodearam.
Evitando o desastre, sentiu-se um forte cheiro a chamusco. O homem sentou-se
novamente diante de sua amiga e, olhando, sorrindo para ela, disse, apontando a
acha, posta novamente no fogo: -Eis porque nunca me casei.-
Ela observou-o, assombrada, com esse olhar curioso que tm as mulheres quando
querem saber alguma coisa, esse olhar das mulheres j entradas em anos, de uma
curiosidade refletida, complicada, s vezes maliciosa. E perguntou-lhe:
- Como assim?
- Ohh,  toda uma histria, prosseguiu, uma histria triste e feia.
Meus antigos camaradas mais de uma vez estranharam a frieza surgida de repente
entre mim e um dos meus melhores amigos, Julien.  No compreendiam como dois
ntimos, dois inseparveis como ns, pudessem transformar-se de um dia para
outro em duas pessoas quase estranhas. Eis o segredo de nosso afastamento.
Morvamos juntos. Nunca nos separvamos; e a amizade que nos ligava parecia to
forte que nada era capaz de quebr-la.
Uma noite, ao entrar, anunciou-me seu casamento.
Senti um golpe no peito, como se me tivessem roubado ou trado. Quando um amigo
se casa,  um amigo perdido, e para sempre. A afeio ciumenta de uma mulher,
essa afeio desconfiada, inquieta e carnal, no tolera o apego vigoroso e
franco, este apego de esprito, de corao e de confiana que existe entre dois
homens.
Acredite, qualquer que seja o amor que os solde um ao outro, o homem e a mulher
so sempre estranhos de alma, de inteligncia; permanecem beligerantes; so de
raas diferentes; deve haver sempre um domador e um domado, um senhor e um
escravo; seja um ou outro; nunca os dois so iguais. Estreitam as mos e as mos
estremecem de ardor; contudo, jamais as apertam numa larga e forte presso leal,
dessa presso que parece abrir os coraes, desnud-los, num arranque de
sincera, forte e viril afeio. Manda a sabedoria que, ao invs da gente se
casar e procurar, como consolao, para os dias da velhice, filhos que nos
abandonem, procuremos um bom e slido amigo, e envelheamos com ele nessa
comunho de pensamentos que no pode existir seno entre dois homens.
Enfim, meu amigo Julien casou. Sua mulher era bonita, encantadora, uma pequenina
loura frisada, viva, rechonchudinha, que parecia ador-lo.
A princpio ia pouco a casa deles, receando estorvar sua ternura, ao aparecer
demasiado; e algumas vezes, quando regressava  casa de noite, cogitava em
seguir seu exemplo, decidindo-me por uma mulher, to triste e vazia me parecia a
casa.
Parecia que se amavam; no se separavam nunca. Certa noite Julien escreveu-me,
pedindo-me que fosse jantar com eles. Fui. -Meu velho, disse ele, levantando-se
da mesa, tenho que me ausentar para tratar dum negcio. No estarei de volta
antes das onze; mas, s onze em ponto, estarei aqui. Conto com voc para que
faa companhia a Berthe.-
A jovem esposa sorriu: -Fui eu, alis, disse, quem teve a idia de mandar
cham-lo.-
Apertei-lhe a mo: - Voc  muitssimo amvel.- e senti em meus dedos uma longa
e amigvel presso. No dei importncia ao caso. Sentamo-nos  mesa; e, s oito
horas, Julien partiu.
Mal ele saiu, uma espcie de singular mal-estar surgiu bruscamente entre mim e a
sua mulher. Nunca nos tnhamos visto sozinhos e, apesar de nossa intimidade, que
crescia dia a dia, o tte--tte colocava-nos numa nova situao. Comecei por
falar de coisas vagas, dessas coisas insignificantes com que se enchem os
silncios embaraosos. Ela no me respondia nada e permanecia diante de mim, do
outro lado da lareira, de cabea baixa, o olhar indeciso, um p estendido para o
fogo, como que perdida numa difcil meditao. Quando esgotei todas as minhas
idias banais, calei-me.
 curioso como s vezes  difcil achar coisas que dizer. Pois bem; eu sentia
que havia qualquer coisa de novo no ar, algo invisvel, um no sei qu
impossvel de expressar, essa advertncia misteriosa que nos previne das
intenes secretas, boas ou ms, de outra pessoa a nosso respeito.
Esse silncio penoso durou algum tempo. Depois, Berthe disse-me: -Bote uma acha
ao fogo, meu amigo; est-se apagando. Fui ao cesto da lenha, colocado
justamente como o seu, e peguei uma acha, a mais grossa de todas, dispondo-a em
pirmide sobre os outros pedaos de madeira, quase inteiramente consumidos.
E fez-se novamente silncio.
Passados alguns minutos, a acha ardia de tal modo que nos crestava o rosto. A
jovem levantou os olhos para mim, dois olhos que me pareceram estranhos. -Faz
muito calor aqui, disse; vamos para ali, para o canap.-
E eis-nos a caminho do canap:
Depois, de repente, cravou-me os olhos no rosto: -Que faria voc se uma mulher
dissesse que o ama?-
Respondi, muito embaraado: -Francamente, no considerei o caso, mas... mas,
dependeria da mulher.-
Ento, ela comeou a rir, com um riso seco, nervoso, agitado, um desses falsos
risos que se diriam capazes de partir vidros finos e acrescentou:
-Os homens nunca so audazes nem maliciosos.-Calou-se, para prosseguir pouco
depois: -Voc nunca esteve apaixonado, Paul?-
confessei-lhe que sim, j havia estado apaixonado. -Conte-me isso&#8221;, pediu ela.
Contei-lhe uma histria qualquer. Ela ouvia-me atentamente, com sinais
freqentes de reprovao e desprezo; e de sbito: -No, no, voc no entende
nada disso. Para que o amor seja bom  preciso, penso eu, que nos perturbe o
corao, tora os nervos, assole a cabea, que seja -; como diria? -; perigoso,
mesmo terrvel, quase criminoso, quase sacrlego; que seja uma espcie de
traio; quero dizer que deve romper os obstculos sagrados, as leis, os laos
fraternais; um amor tranqilo, fcil, sem perigos, legal, ser, realmente,
amor?-
No sabia que responder, e fazia para mim mesmo esta reflexo filosfica: !
Crebro feminino, a ests tu, em toda a tua nudez!
Tomara, ao falar, um ar indiferente, quase cnico; e, apoiada nos coxins,
alongou e deitou a cabea no meu ombro, o vestido um pouco levantado, deixando
ver uma meia de seda vermelha que os lampejos do fogo inflamavam de quando em
quando.
Passado um minuto, disse: -Tem medo de mim?-Protestei. Apoiou-se abertamente no
meu peito e, sem olhar-me, continuou: -E se eu lhe dissesse, eu, que o amo, que
faria voc?-no me deu tempo para encontrar uma resposta; lanou-me os braos
ao pescoo, e, atraindo-me bruscamente a cabea, seus lbios juntaram-se aos
meus.
Ah, minha querida amiga, acredite que aquilo no era nada divertido! Enganar
Julien, eu, tornar-me o amante dessa  pequena louca perversa e astuta,
horrivelmente sensual, que decerto no se contentava com o marido? Trair
constantemente, enganar sempre, brincar de amor pela simples atrao do fruto
proibido, do desafio ao perigo, da amizade trada! No, isso no era para mim.
Mas, que fazer? Imitar Jos? Papel estpido e, alm disso, muito difcil, porque
ela estava ensandecida em sua perfdia, inflamada de audcia, palpitante e
obstinada. Oh! Que quem nunca sentiu na boca o beijo profundo duma mulher
disposta a entregar-se me lance a primeira pedra...
Enfim, um minuto mais... Voc compreende, no ? Um minuto mais e eu era... no,
ela era... perdo, ele  quem era!... ou melhor teria sido, quando um terrvel
rudo nos fez dar um salto.
A acha, sim, a acha amiga saltava para o salo, derrubando a p, o guarda-fogo,
rolando como um furaco de chama, pegando fogo ao tapete e caindo numa poltrona
que ia infalivelmente incendiar.
Precipitei-me como um louco, e, ao lanar para a lareira o tio salvador, a
porta abriu-se bruscamente! Julien entrou, todo jovial, gritando: -J estou
livre, o negcio terminou duas horas mais cedo!-
Sim, minha amiga, se no fosse a acha, eu teria sido apanhado em flagrante
delito. E j imagina as conseqncias!
Conduzi-me da para o futuro de modo a no me voltar a ver em situao
semelhante, jamais, jamais, jamais! Apercebi-me, ento, que Julien estava frio
comigo. Sua mulher, evidentemente, solapara nossa amizade; e, pouco a pouco,
afastou-me de sua casa; e deixamos de ver-nos.
E no me casei. Compreende, agora?




A clebre r saltadora
Mark Twain
De acordo com o pedido de um amigo meu, que me escrevera do Leste, fui visitar o
bondoso palrador que  o velho Simon Wheeler, e, como me fora pedido,
perguntei-lhe por Leonidas W. Smiley, amigo de um meu amigo; e aqui conto do
resultado. Tenho uma secreta desconfiana de que Leonidas W. Smiley  um mito;
que o meu amigo jamais conheceu tal personagem; e que apenas conjeturou que, se
eu perguntasse ao velho Wheeler por ele, isso lhe lembraria o seu infame Jim
Smiley e faria com que ele me ocupasse e me aborrecesse mortalmente com alguma
diablica recordao do outro, to enfadonha como intil para mim. Se era essa a
sua inteno, o caso surdiu efeito.
Encontrei Simon Wheeler dormindo junto ao fogo da sala do bar da velha e
arruinada taberna do antigo campo mineiro de Angel; reparei que era gordo e
calvo e que havia uma expresso de cativante gentileza e simplicidade nas suas
feies tranqilas. Despertou e cumprimentou-me. Disse-lhe que um amigo meu me
encarregara de fazer algumas investigaes acerca de um companheiro querido de
sua infncia, chamado Leonidas W. Smiley -; Rev. Leonidas W. Smiley, - um jovem
sacerdote de quem ele ouvira dizer que em tempos residira em Angel Camp.
Acrescentei que, se Mr. Wheeler me pudesse dar algumas informaes acerca desse
Rev., lhe ficaria muito grato.
Wheeler fez-me recuar para um canto bloqueou-me ai com a sua cadeira, depois
fez-me sentar e desenrolou a montona narrativa que se segue a este pargrafo.
Nunca sorriu, nunca franziu as sobrancelhas, nunca a sua voz mudou do tom suave
e cheio com que, de princpio, a afinara, nunca mostrou o mais ligeiro sinal de
entusiasmo; mas, atravs da infindvel narrativa, havia um impressivo ardo e uma
sinceridade que claramente me mostravam nem pela imaginao lhe passar que
houvesse qualquer  coisa de ridculo ou cmico na sua histria; considerava-a
como um assunto importante e encarava seus dois heris como talentos de especial
fineses. Para mim o espetculo de um homem desfiando serenamente uma histria
to original, sem nunca sorrir, era estranhamente absurdo. Como j disse,
pedi-lhe que me contasse o que sabia do Rev. Leonidas Smiley e ele respondeu-me
como se segue. Deixei-o prosseguir como bem quis, sem o interromper uma vez
sequer.
Houve aqui um sujeito de nome Jim Smiley, no inverno de 49 -; ou talvez na
primavera de 50 -; no me recordo bem, mas o que de qualquer  forma me fez
lembrar que foi ou em um ou em outra  porque me lembro que o grande canal ainda
no estava terminado quando vim a primeira vez para aqui; mas, fosse como fosse,
ele era o homem mais interessante que havia por essas bandas, sempre a apostar
qualquer  coisa que aparecesse, desde o momento que pudesse arranjar algum que
apostasse pela parte oposta; e, no caso de no poder, mudava ele de parte. O que
conviesse ao adversrio, convinha-lhe a ele -; de qualquer forma ficava
satisfeito, desde o momento que pudesse apostar. Apesar disso, tinha muita
sorte, uma sorte invulgar -; ganhava sempre. Estava sempre pronto a espera de uma
oportunidade. Qualquer coisa a que nos referssemos, esse homem oferecia-se logo
para apostar nisso, dando-nos o partido que mais nos agradasse, como j tive
ocasio de dizer. Se havia uma corrida de cavalos, no final ou o vamos cheio de
dinheiro ou, ento, arruinado; se havia um combate de ces, ele apostava;
apostava se havia um combate de galinhas; at mesmo se dois pssaros estivessem
pousados em uma cancela, apostava qual deles levantava vo primeiro; ou, se
havia uma reunio no campo de mineiros, l estava para apostar no Padre Walker,
que ele considerava a criatura com maior poder de persuaso dos arredores, o que
ele era em verdade e, alm disso, um bom homem. Se visse um percevejo partir
para qualquer lugar, apostaria consigo prprio quanto tempo levaria ele para
chegar ao seu destino e, se aceitasse a aposta, seguiria o bicho at o Mxico,
sem saber para onde se dirigia nem quanto tempo gastaria na viagem. Muitos dos
rapazes aqui conheceram o Smiley e podem contar-lhes coisas acerca dele. Nada
lhe importava -; apostava em qualquer coisa, o raio do homem. A mulher do padre
Walker esteve doente durante bastante tempo e parecia j no poder salvar-se;
mas, uma manh, Smiley encontrou-o e perguntou-lhe como ela estava. -Louvado
seja o Senhor pela sua infinita misericrdia, melhorou to rapidamente que se
por boa em um instante- e Smiley, sem pensar, disse: -Pois bem, aposto dois
dlares e meio como ela no melhorar&#8221;.
Ora, este Smiley tinha uma gua -; os rapazes chamavam-lhe uma pileca, mas de
brincadeira, porque ela na verdade, era melhor do que isso -; e ganhava dinheiro
com aquele animal, embora tivesse asma, tuberculose ou outra qualquer doena.
Costumavam dar-lhe duzentas ou trezentas jardas de avano e, depois, a
ultrapassavam. Mas, quase no fim da corrida, a gua excitava-se e, desesperada,
vinha por a fora atabalhoadamente, levantando uma poeira tremenda e fazendo uma
barulheira com a tosse e os espirros -; e o caso  que ganhava sempre por uma
cabea.
E tinha um cachorro buldogue que, ao olharmos para ele, parecia no valer meio
tosto e que dir-se-ia servir apenas para vaguear por a, a espera de uma
oportunidade para roubar qualquer coisa. Mas logo que se apostava nele,
tornava-se um co diferente; o maxilar inferior distendia-se como castelo de
proa de um navio e os dentes brilhavam como navalhas. E um co qualquer podia
desafi-lo, e persegui-lo, e mord-lo, e vir-lo de costas duas ou trs vezes
que Andrew Jackson -; assim se chamava o cachorro -; no se enfurecia; mostrava,
mesmo, satisfao, como se no esperasse outra coisa. Dobradas e quadruplicadas
as apostas, logo que todo o dinheiro estivesse apostado, o cachorro, de repente,
agarrava-se  perna traseira do outro co e no a largava -; no dava dentadas,
compreende, apenas o filava, e ali ficaria um ano, se fosse preciso, se no
atirassem a esponja ao sr. Smiley, que sempre ganhou com aquele cachorro, at
que um dia apostou contra um co ao qual faltavam as pernas traseiras, que
haviam sido cortadas por uma serra circular. Depois dos habituais preparativos e
do dinheiro estar todo apostado, o cachorro, como era costume, tentou filar o
adversrio; mas de repente, viu que tinha sido intrujado e que o outro co
estava, por assim dizer, rindo dele. Dando mostras de muito surpreendido e
desencorajado, j no tentou sequer ganhar a luta, tendo ficado bastante
miltrado. Olhou para Smiley, para lhe dizer que se lhe despedaava o corao e
que a culpa era dele por lhe ter apresentado um co a que faltavam as pernas
traseiras, seu principal trunfo em um combate e, depois, coxeando durante um
bocado, deitou-se e morreu. Era um bom cachorro aquele, e havia de tornar-se
famoso se tivesse vivido, porque tinha qualidades para isso; era um gnio, tenho
a certeza, embora ele nunca tivesse a oportunidade para falar nisso; mas, se
assim no fosse, era impossvel que um co pudesse lutar como ele lutava.
Sinto-me sempre triste quando penso no seu ltimo combate e na maneira como
decorreu.
Ora bem, esse Smiley tinha ces rateiros, e galos, e gatos, uma grande
quantidade de bichos, que no deixava ningum descansar e era a maneira de ele
sempre ter qualquer coisa em que apostar. Um dia apanhou uma r, levou-a para
casa e disse que ia educ-la; e durante trs meses no fez outra coisa, no ptio
de sua cada, que no fosse ensin-la a saltar. E, na verdade, ensinou-a bem.
Dava-lhe um pequeno piparote, e era v-la girar no ar, dar um salto mortal, ou
mesmo dois, se tivesse tomado balano e cair de p, como se fosse um gato.
Ensinou-a a apanhar moscas e mantinha-a em prtica constante, de maneira que,
mal ela via uma mosca, a caava logo. Smiley dizia que uma r do que precisava
era de educao para fazer tudo o que quisesse -; e eu acredito. Pois se vi por
Daniel Webster aqui no cho -; Daniel Webster era o nome da r -; e gritar
-moscas, Daniel, moscas-e, mais depressa do que voc leva a pestanejar, ela
saltava e apanhava uma mosca ali no balco, e tornava a pular para o cho, to
segura como se fosse um pedao de lama, coando o lado  da cabea com a pata
traseira, to indiferente como se  estivesse convencida de que o que fazia era o
que todas as rs faziam. Nunca se vira uma r assim; to modesta, to obediente,
embora to habilidosa. E, ento, quando se tratava de saltar uma superfcie
lisa, podia ir mais longe, em um simples salto, do que qualquer outro animal da
sua espcie. Saltar em terreno liso era a sua especialidade, compreende? E,
quando era esse o caso, Smiley apostava nela todo o dinheiro que tinha. Smiley
tinha um orgulho enorme desta r e, diga-se de passagem, com razo, pois que
pessoas viajadas diziam que ela batia todas as rs que tinham visto.
Ora, Smiley guardava o animal numa gaiola e costumava traz-lo aqui,  espera de
apostas. Um dia, um estranho foi ter com ele e disse-lhe: -Que tem voc nesta
caixa?-
E Smiley respondeu com indiferena: -Podia ser um papagaio, um canrio, mas no
 -;  apenas uma r.-
E o homem agarrou na gaiola e voltando-a de um e outro lado, observou o bicho
cuidadosamente e disse: -Hum... pois . Mas para que ela serve?-
- Ora, a est -; disse Smiley -; para uma coisa serve ela, julgo eu, consegue
saltar mais do que qualquer outra r da cidade de Calaveras. O homem tornou a
pegar a gaiola, ps-se a olhar muito tempo e, com cuidado, devolveu-a e disse,
intencional:
- No vejo nada nesta r que a torne melhor do que qualquer outra.
- Talvez -; disse Smiley -; voc entenda e rs, ou no; talvez tenha tido
experincia, talvez no passe de um amador. Seja como for, fico na minha e
aposto quarenta dlares em como ela pode saltar mais do que qualquer r de
Calaveras.
- Eu, aqui, sou apenas um estranho e no tenho r, mas se tivesse uma, apostava
-; disse o homem depois de pensar um minuto.
Ao que Smiley respondeu:
- No faz mal; se voc me segurar a caixa, vou buscar-lhe uma r. O homem
segurou, ento, na caixa, ps quarenta dlares no lado dos de Smiley, sentou-se
e esperou.
E ali esteve durante muito tempo a pensar e repensar; depois tirou a r para
fora, abriu-lhe a boca, agarrou uma colher de ch e encheu-a de gros de chumbo
-; encheu-a quase at os queixos -; e p-la no cho. Smiley tinha ido ao pntano e
por l andou a mexer na lama um bom pedao, at que, por fim, apanhou uma r;
trouxe-a, deu-a ao homem e disse:
- Agora, se voc est de acordo, eu a coloco aqui ao lado de Daniel, com as
patas dianteiras na mesma linha e dou o sinal de partida. Ateno: Um, dois,
trs, salta! E ele e o outro tocaram nas rs, e a nova r saltou, mas Daniel fez
um esforo, contorceu-se toda, encolheu os ombros como um francs, mas nada,
nada se podia mexer; estava ali pregada, como se fosse uma bigorna; era como se
estivesse ancorada. Smiley ficou mui admirado e bastante desgostoso, mas, claro
est, no fazia idia alguma da razo daquilo.
O outro recebeu o dinheiro e afastou-se, ao chegar a porta, apontou o dedo para
Daniel -; assim -; tornou a dizer:
- No vejo nada nessa r que a torne melhor do que qualquer outra.
Smiley ali ficou, coando a cabea e olhando para Daniel durante algum tempo,
at que por fim, disse:
Mas que diabos  que teria acontecido  r? Ter ela qualquer coisa? Parece
estar muito inchada! Agarrou Daniel pelo pescoo, levantou-a e disse:
- Diabos me levem se ela no pesa, pelo menos, cinco libras!
E, voltando-a de cabea para baixo, viu-a vomitar uma poro de escumilha.
Quando viu o que aquilo era, ficou furioso, pousou a r e foi atrs do outro,
mas no chegou a apanhar. E...
Nesta altura, Simon Wheeler ouviu que o chamavam, e levantou-se para ver o que
era. Voltando-se para mim, enquanto andava, disse:
- Deixe-se ficar onde est, descansando, que eu no me demoro um segundo.
Mas, com vossa licena, no achei que a continuao da histria do empreendedor
vagabundo Jim Smiley fosse de molde a fornecer-me grandes informaes a respeito
do Rev. Leonidas e, por isso, levantei-me para sair.
 porta encontrei o afvel Wheeler, de volta; agarrou-me por um boto do casado
e recomeou:
- Ora, este Smiley tinha uma vaca amarela, s com um olho, sem cauda, ou, antes,
s com um toco, como se fosse uma banana, e...
- Ora, diabos levem o Smiley mais as atribuies da sua candisse eu,
jovialmente, e, despedindo-me do velho, fui-me embora.





A MULHER DO FARMACUTICO
Anton Tchecov

A cidadezinha de B., composta de duas ou trs ruas tortas, dorme um sono
profundo. No ar parado tudo  silncio. Ouve-se apenas, ao longe, decerto alm
da cidade prxima, o tenorzinho ralo e rouco dos latidos de um co. Aproxima-se
a madrugada.
H muito tempo que tudo dorme. S no dorme a jovem esposa do farmacutico.
Tchornomordik, dono da farmcia de B. Por trs vezes ela j se deitou - mas o
sono teima em no vir - e no se sabe porqu. Ela sentou-se junto  janela
aberta, de camisola, e olha para a rua. Est com calor, aborrecida, entediada -
to entediada que tem at vontade de chorar, mas por que - tambm no se sabe.
Sente um bolo esquisito no peito, querendo subir para a garganta a toda hora...
Atrs, a alguns passos da mulher, aconchegado junto  parede, ronca
pacificamente o prprio Tchornomordik. Uma pulga voraz grudou-se-lhe ao nariz,
mas ele no a sente, e at sorri, porque sonha que na cidade todos esto
tossindo e compram-lhe incessantemente -Gotas do Rei da Dinamarca-. Agora no 
possvel acord-lo nem com picadas, nem com canhes, nem com carinhos.
A farmcia fica quase na beira da cidade, de modo que a mulher do farmacutico
pode ver  campina, bem longe. Ela v como pouco a pouco clareia a borda oriental
do cu, e depois fica rubra, como que do claro de um grande incndio. De
repente, de trs de uma touceira distante, aparece uma grande lua de cara larga.
Est vermelha (em geral a lua, quando sai de trs dos arbustos, costuma estar,
no se sabe porque, horrivelmente encabulada).
Sbito, no silncio noturno, ressoam passos  e o tinir de esporas. Ouvem-se
vozes.
-Devem ser oficiais voltando do distrito policial, para o acampamento- - pensa a
mulher do farmacutico.
Pouco depois, aparecem dois vultos vestidos com as tnicas brancas de oficiais;
um grande e gordo, o outro menor e mais esguio... Preguiosamente arrastando os
ps, eles vm andando ao longo da cerca, a conversar em voz alta. Chegando at a
farmcia, os dois vultos comeam a andar ainda mais devagar e olham para as
janelas.
- Cheira  farmcia... - diz o magro. - E  uma farmcia mesmo! Ah, j me
lembro... estive aqui na semana passada, comprei leo de rcino. De um
farmacutico de cara azeda e queixada de burro. E que queixada, homem! Foi com
uma dessas que Sanso matava os filisteus.
- Hum... - diz o gordo com voz de baixo. - Dorme a botica. E o boticrio tambm
dorme. Aqui, Obtiossov, existe uma boticria bonitinha.
- Eu a vi. Ela me agradou muito... Diga-me, doutor, ser possvel ela amar essa
queixada de burro? Ser possvel?
- No, decerto ela no o ama - suspira o doutor com expresso de quem tem pena
do farmacutico. - E agora, dorme a belezinha atrs da janelinha! Hein,
Obtiossov? Descobriu-se com o calor... a boquinha entreaberta... e a perninha
pende para fora da cama... Vai ver, o burro do farmacutico nem entende nada
desta riqueza... Para ele, qui, uma mulher ou uma garrafa de cido carblico,
 a mesma coisa!
- Sabe duma coisa, doutor? - diz o oficial, parando. - Vamos entrar na farmcia
e comprar qualquer coisa. Quem sabe, vai dar pra ver a -farmacutica-.
- Que idia! No meio da noite!
- E da? Ento eles no tm obrigao de atender tambm  noite? Vamos, amigo!
- V l...
A mulher do farmacutico, escondida atrs da cortina, ouve a campainha
esganiada. Com um rpido olhar para o marido, que ronca como dantes e sorri
beatificamente, ela enfia o vestido, pe os sapatos nos ps descalos e corre
para a farmcia.
Atrs da porta de vidro percebem-se duas sombras. A mulher do farmacutico aviva
o fogo da lmpada e corre para abrir a porta, e j no est to aborrecida, nem
entediada, nem tem vontade de chorar, s o corao bate com muita fora. Entram
o gordo doutor e o esguio Obtiossov. Agora j d para examin-los. O barrigudo
doutor  moreno, barbudo e desajeitado. Ao menor movimento, a tnica lhe estala
no corpo e o suor lhe umedece o rosto. J o oficial  rosado, glabro, efeminado
e flexvel como um relho ingls.
- O que desejam os senhores? - pergunta a mulher do farmacutico, aconchegando o
vestido sobre o seio.
- D-nos... eeehh... quinze copeques de pastilhas de hortel.
A mulher do farmacutico alcana sem pressa o pote na prateleira e pe-se a
pesar. Os compradores, sem piscar, fitam-lhe as costas; o doutor franze o rosto
como um gato satisfeito, mas o tenente est muito srio.
-  a primeira vez que vejo uma senhora trabalhando numa farmcia - diz o
doutor.
- Isso no tem nada de extraordinrio... - responde a mulher do farmacutico,
olhando de esguelha para o rosto rosado de Obtiossov. - Meu marido no tem
auxiliares, e eu sempre o ajudo.
- Ah,  assim... pois a senhora tem aqui uma farmcia muito simptica... Que
quantidade destes... diversos potes! E a senhora no tem medo de mexer com estes
venenos! Brrr!
A mulher do farmacutico fecha o pacotinho e entrega-o ao doutor. Obtiossov
d-lhe quinze copeques. Meio minuto passa em silncio. Os homens se entreolham,
do um passo em direo  porta, entreolham-se novamente.
- D-nos dez copeques de bicarbonato! - diz o doutor. A mulher do farmacutico,
movendo-se preguiosa e lentamente, torna a estender a mo para a prateleira.
- Ser que no existe aqui na farmcia alguma coisa assim... - balbucia
Obtiossov, mexendo os dedos - alguma coisa assim, sabe, alegrica, um fluido
vitalizante qualquer... gua de Seltzer, talvez? A senhora tem gua de Seltzer?
- Tenho - responde a mulher do farmacutico.
- Bravo! A senhora no  mulher, e sim uma fada. Arranje-nos trs garrafinhas!
- A mulher do farmacutico embrulha apressada o bicarbonato e desaparece na
escurido atrs da porta.
- Que fruto! - diz o doutor, piscando um olho. - Uma rom dessas, Obtiossov, nem
na ilha da Madeira voc encontra. Hein? Que acha? Entretanto... est ouvindo o
ronco?  o prprio senhor farmacutico que se digna repousar.
Um minuto depois, volta a mulher do farmacutico e pe sobre o balco cinco
garrafas. Ela acaba de voltar do poro e por isso est corada e um pouco
excitada.
- Pssst... mais baixo - diz Obtiossov, quando ela, abrindo as garrafas, deixa
cair o saca-rolhas. - No faa tanto barulho, seno vai acordar o marido.
- E que  que tem, se o acordar?
- Ela est dormindo to gostoso... sonhando... com a senhora...  sua sade!
- E depois - diz o doutor com sua voz de baixo, arrotando devido  gasosa - os
maridos so uma historia to cacete, que fariam bem se dormissem o tempo todo.
, com esta aginha seria bom um vinhozinho tinto.
- Essa agora, que idia! - ri a mulher do farmacutico.
- Seria excelente! Pena que nas farmcias no vendam bebidas espirituosas!
Entretanto... a senhora deve vender vinho como remdio. A senhora tem -vinum
gallicum rubrum-?
- Tenho.
- Ento! Traga-o aqui! Com os diabos, carregue-o para c.
- Quantos desejam?
- -Quantum satis!- Primeiro a senhora nos d uma ona para cada copo, e depois,
veremos... Hein, Obtiossov? Primeiro, com gua, e depois, per se...
O doutor e Obtiossov sentam-se junto ao balco, tiram os qupis e pem-se a
beber o vinho tinto.
- Mas este vinho, fora  confessar,  o que h de pssimo! -Vinum
ruinzissimum-. Porm, na presena de... eeeh... ele parece um nctar! A senhora
 encantadora, madame! Beijo-lhe em pensamentos a mozinha.
- Eu pagaria caro para poder faz-lo sem ser em pensamentos! - diz Obtiossov. -
palavra de honra! Eu daria a vida!
- O senhor, por favor, deixe disso... - diz a senhora Tchornomordik,
enrubescendo e fazendo uma cara sria.
- Mas como a senhora  coquete! - ri o mdico em voz baixa, fitando-a de
esguelha, com ar malandro. - Os olhinhos soltam chispas, do tiros: pif! Paf!
Meus parabns! A senhora venceu! Fomos derrotados!
A mulher do farmacutico observa os seus rostos corados, ouve a sua tagarelice e
logo tambm fica animada. Oh, ela j est to alegre! Ela entra na conversa, ri,
coquete, dengosa, e at, aps longas splicas dos compradores, bebe umas duas
onas de vinho tinto.
- Os senhores oficiais deveriam vir mais vezes para a cidade, l do acampamento
- diz ela - porque seno aqui  um horror de cacete! Eu quase morro.
- E no  para menos! - horroriza-se o doutor - uma rom assim... maravilha da
natureza... neste deserto! Como to bem o disse Griboiedov: -Para o deserto!
Para Saratov!- Mas j  tempo de irmos. Muito prazer em conhec-la... imenso!
Quanto devemos?
A mulher do farmacutico ergue os olhos para o teto e fica muito tempo movendo
os lbios.
- Doze rublos, quarenta e oito copeques! - diz ela.
Obtiossov tira do bolso uma carteira recheada, remexe longamente no mao de
notas e paga.
- Seu marido dorme deliciosamente... tem sonhos... - murmura ele, apertando a
mo da mulher do farmacutico em despedida.
- No gosto de ouvir tolices...
- Que tolices so essas? Pelo contrrio... no so tolices... At Shakespeare j
disse: -Feliz quem jovem foi na juventude!-
- Solte a minha mo!
Finalmente, os compradores, aps prolongadas despedidas, beijam a mo da mulher
do farmacutico e, hesitantes, como que ponderando se no esqueceram alguma
coisa, saem da farmcia.
E ela corre depressa para o quarto e senta-se junto da mesma janela. Ela v como
o doutor e o tenente, saindo da farmcia, preguiosamente se afastam uns vinte
passos, depois param e comeam a cochichar entre si. Sobre o que ser? Seu
corao palpita, as fontes latejam, e por que - ela mesma no sabe... O corao
bate com fora, como se aqueles dois, cochichando l fora, estivessem decidindo
seu destino.
Uns cinco minutos depois, o doutor separa-se de Obtiossov e se afasta, ao passo
que Obtiossov volta. Ele passa pela farmcia uma vez, outra... Ora se detm
perto da porta, ora recomea a caminhar... Finalmente, cautelosa, tilinta a
campainha.
- O que foi? Quem est a? - Ouve ela de repente a voz do marido. - Esto
tocando l fora, e voc no escuta! - diz o farmacutico, severo. - Que
desordem!
Ele se levanta, veste o roupo, e, cambaleando meio adormecido, arrastando os
chinelos, vai para a farmcia.
- O que... deseja? Pergunta ele a Obtiossiov.
- D-me... d-me quinze copeques de pastilhas de hortel.
Com infinito resfolegar, bocejando, adormecendo em p e batendo com os joelhos
no balco, o farmacutico escala a prateleira e alcana o pote.
Dois minutos depois, a mulher do farmacutico v Obtiossov sair da farmcia e,
depois de alguns passos, jogar as pastilhas de hortel na estrada poeirenta.
Detrs da esquina, ao seu encontro, vem o doutor... Os dois se juntam e,
gesticulando, desaparecem na nvoa matinal.
- Como sou desgraada! - diz a mulher do farmacutico, olhando com raiva para o
marido, que se despe apressado para voltar a dormir. Oh! Como sou desgraada! -
repete ela, debulhando-se, de repente, em lgrimas. - E ningum, ningum
compreende...
- Esqueci quinze copeques sobre o balco - balbucia o farmacutico, puxando o
cobertor. - Guarde, por favor, na gaveta.
E adormece imediatamente.






O Ardil
Guy de Maupassant
O velho mdico e a jovem doente palestravam ao p da lareira.
Ela estava apenas pouco incomodada, com essas indisposies femininas que as
mulheres bonitas tm, s vezes: um pouco de anemia, de nervos, um bocadinho de
fadiga, dessa fadiga de que costumam sofrer os recm-casados ao fim do primeiro
ms de unio, quando se casam por amor.
Ela, estendida no sof, conversava: -No, doutor, nunca compreendi que uma
mulher enganasse o marido. Admito mesmo que no goste dele, que no cumpra suas
promessas, seus juramentos! Mas como ousar dar-se a o outro homem? Como esconder
isso aos olhos de todos? Como poder amar com mentira e traio?-
O mdico sorria.
- fcil. Garanto-lhe que pouco nos detemos em todas essas sutilezas quando nos
invade o desejo de pecar. Tenho mesmo a convico de que uma mulher no est
madura para o verdadeiro amor seno depois de ter passado por todas as
promiscuidades e por todos os fastios do casamento, o qual no , segundo um
homem ilustre, seno uma troca de maus humores durante o dia e de maus odores
durante a noite. Nada mais verdadeiro. Uma mulher s pode amar apaixonadamente
depois de Ter sido casada. Se eu a puder comparar com uma casa, diria que ela
no  habitvel seno quando um marido j lhe fez a faxina.
-Quanto  dissimulao, todas a mulheres a tm para dar e vender nessas
ocasies. As mais simples so maravilhosas e livram-se com gnio das situaes
mais difceis.-
Mas a jovem senhora mostrava-se incrdula.
-No, doutor, s se sabe, passado o momento, o que se devia ter feito nas
ocasies perigosas, e as mulheres,  certo, perdem mais facilmente a cabea do
que os homens.-
O mdico levantou os braos.
-Passado o momento, diz? A ns, os homens, a inspirao chega sempre tardia.
Mas, a vocs!... A propsito, vou contar-lhe uma pequena histria ocorrida a uma
de minhas clientes, a quem eu daria absolvio sem confisso, como se costuma
dizer.
-O caso deu-se numa cidade de provncia.
-Certa noite, em que eu dormia profundamente, nesse pesado primeiro sono to
difcil de perturbar, pareceu-me em um sonho confuso, que os sinos da cidade
tocavam a incndio.
-Acordei de sbito: era a minha campainha, a da rua, que tocava
desesperadamente. Como meu criado parecia no responder, agitei, por meu turno,
o cordo pendido na minha cama; e logo bateram as portas, e alguns passos
quebraram o silncio da casa adormecida. Depois, Jean apareceu, trazendo-me uma
carta que dizia: -Mme Lelivre pede encarecidamente ao doutor Simon o favor de
passar imediatamente por sua casa.-
-Refleti alguns segundos. Pensei: crise de nervos, vapores, bobagens, e estou
muitssimo cansado. E respondi: -O doutor Simon, bastante indisposto neste
momento, roga a Mme Lilivre o favor de chamar seu confrade, o Sr. Bonnet.-
-Meia hora mais tarde, aproximadamente, a campainha da rua soou de novo e Jean
veio dizer-me: - uma pessoa, homem ou mulher, no sei, ao certo, de tal modo se
oculta, que quer falar urgentemente com o senhor. Diz que vai nisso a vida de
duas pessoas.-
-Levantei-me. -Mande entrar-
-Esperei sentado na cama.
-Apareceu uma espcie de fantasma negro, que se descobriu quando Jean partiu.
Era Mme Berthe Lelivre, uma senhora muito nova ainda, casada havia trs anos
com um gordo comerciante da cidade que passava por Ter desposado a mais linda
moa da provncia.
-Estava horrivelmente plida, com essas crispacoes de rosto da gente angustiada,
e as mos trmulas; tentou falar duas vezes sem que um nico som lhe sasse da
boca. Por ltimo, balbuciou: -Depressa... depressa... Doutor... Venha. Meu...
meu... amante est morto no meu quarto...-
-Parou, arquejante, e depois prosseguiu: -Meu marido... voltar... em breve do
clube.-
-Saltei da cama, sem mesmo pensar que estava em camisa, e vesti-me em poucos
segundos. Depois perguntei: -Foi a senhora quem esteve aqui, h pouco?-Ela, de
p como uma esttua, petrificada pela angstia, murmurou: -No, era a minha
criada... ela sabe...-E uma espcie de grito de dor horrvel saiu-lhe dos
lbios e, depois duma sufocao que a fez arquejar, chorou, chorou perdidamente
entre soluos e espasmos durante um minuto ou dois; as lgrimas pararam,
estancaram, como secas, dentro, pelo fogo, e tornou-se tragicamente alma: -Vamos
depressa!&#8221;, disse.
-Estava pronto, mas resmunguei: -Caramba! No me do tempo nem para atrelar o
coup.--Tenho l embaixo um, - respondeu - o dele, que o esperava&#8221;; cobriu-se
at os cabelos. Partimos.
-Sentada a meu lado, na escurido da noite, agarrou-me bruscamente a mo e,
triturando-a em seus dedos finos, balbuciou com abalos na voz, abalos sados do
corao lancinado: -h! Se o senhor soubesse como sofro! Amava-o, amava-o
perdidamente, como uma insensata, havia seis meses.-
-Perguntei-lhe: -Esto acordados, l em casa?-Respondeu: -No, ningum, exceto
Rosa, que sabe de tudo.-
Paramos diante da sua porta; todos dormiam, com efeito; entramos sem fazer
barulho e subimos na ponta dos ps. A empregada, consternada, estava sentada na
primeira escada do alto, com uma vela acesa ao seu lado, sem coragem para ficar
velando o morto.
Entrei no quarto. Tudo estava revolvido como depois duma briga. A cama
amarrotada, machucada, desfeita, estava aberta, parecia esperar; um lenol
arrastava-se at ao tapete; toalhas molhadas, com as quais tinham friccionado as
fontes do rapaz, viam-se por terra, ao lado duma bacia e dum copo. E um singular
cheiro a vinagre de cozinha, misturado com aromas de Lubin saa da porta,
causando enjos.
O cadver, estendido de costas, jazia no meio do quarto.
Aproximei-me; observei-o, toquei-o, abri-lhe os olhos, apalpei-lhe as mos;
depois, voltando-me para as duas mulheres, que tiritavam como se estivessem
geladas, disse-lhes: -Ajudem-me a deit-lo na cama.-E deitamo-lo com todo o
cuidado. Auscultei-lhe, ento, o corao e cheguei-lhe um espelho  boca.
Depois, disse: -Nada a fazer; vistamo-lo depressa.-E foi uma coisa horrorosa
ver aquilo.
Peguei-lhe nos ombros um a um como se fossem dum enorme boneco, estendi-o sobre
as roupas que as mulheres iam me dando. Calamo-lhe as meias, vestimo-lhe as
cuecas, os cales, o colete, depois o palet, custando-nos muito enfiar-lhe os
braos nas mangas.
-Para apertar as botas, as duas mulheres puseram-se de joelhos, enquanto eu
alumiava; mas como os ps tinham inchado um pouco, foi espantosamente difcil.
Terminada a horrvel toalete, examinei nossa obra e disse: - preciso pente-lo
um pouco.-A empregada foi buscar o pente e a escova da amante; mas como tremia
e arrancava, em movimentos involuntrios, os cabelos longos e amaranhados, Mme
Lelivre apossou-se violentamente do pente, e arranjou-lhe a cabeleira com
doura, como que o acariciando. Fez-lhe a risca, passou-lhe a escova pela barba,
retorceu-lhe suavemente os bigodes com os dedos, como costumava fazer, decerto,
nas intimidades do amor.
E, de repente, soltando o que tinha nas mos, agarrou na cabea inerte do
amante, e olhou longamente, desesperadamente, para essa face morta, que no lhe
sorria mais; depois, deixando-se cair sobre ele, estreitou-o nos braos,
beijando-o com furor. Seus beijos caam, como golpes, na boca fechada, nos olhos
extintos, nas fontes, na fronte. Depois, chegando-se ao ouvido dele, como se ele
pudesse ainda ouvir, como para pronunciar a palavra que torna os abraos mais
ardentes, repetiu, dez vezes seguidas, numa voz dilacerante: -Adeus, meu amor.-
Mas no relgio soava a meia-noite.
Tive um sobressalto. -Ohh, diabo, meia-noite,  hora de fechar o clube. Vamos,
senhora, coragem!
Levantou-se. Ordenei: -Levemo-lo ao salo.-Pegamos os trs nele e,
levantando-o, sentei-o num canap, acendendo depois os candelabros.
-A porta da rua abriu-se e fechou-se pesadamente. Era o marido que entrava.
Gritei: -Rosa, depressa, traga-me as toalhas e a bacia; arrume o quarto. Mas
despache-se, meu Deus!  o sr. Lelivre que chega.-
Ouvia os passos que subiam, que se aproximavam.
E o marido, estupefato, parou  entrada da porta, de charuto na boca. Perguntou:
-Que h? Quem ? Que  isso?
Fui-lhe ao encontro. -Meu bom amigo, estamos aqui num grande embarao.
Demorei-me at tarde em sua casa cavaqueando com sua esposa e este amigo, que me
trouxe no seu carro. Mas, a certa altura, desmaiou, inesperadamente, e h duas
horas que, apesar de todos os nossos esforos, ainda no conseguimos faz-lo
voltar a si.  No quis chamar gente estranha. Ajude-me, pois, a desc-lo;
tratarei melhor dele em casa.-
O esposo, surpreendido, mas sem desconfiar, tirou o chapu; depois levantou nos
braos seu rival inofensivo. Eu atrelei-me entre as pernas do morto como um
cavalo entre dois varais e eis-nos descendo a escada, que agora a mulher
alumiava.
Quando chegamos  porta, endireitei o cadver e falhei-lhe, dando-lhe coragem,
para enganar o cocheiro: -Vamos, meu bravo amigo, isso no  nada; j se ente
melhor, no  verdade? Coragem, vamos, um pouco de coragem, faa um pouco de
esforo e tudo passar.-
Senti que caa, que me deslizava nas mos; propinei-lhe um grande soco nas
costas que o lanou para diante o fez balanar no carro. Subi depois, atrs
dele.
O marido, inquieto, perguntava-me: -Ser coisa grave?-Respondi-lhe: -No&#8221;,
sorrindo e olhando para a mulher. Ela havia dado o brao ao esposo legtimo e
mergulhava o olhar fixo no fundo escuro do coup.
-Apertei-lhe as mos e mandei tocar para casa do defunto. Durante todo o trajeto
o morto se pendurou  minha orelha direita.
Quando chegamos  casa dele, anunciei que tinha perdido os sentidos no caminho.
Ajudei a subi-lo ao quarto, depois dei a certido de bito; representava uma
nova comdia diante daquela famlia inconsolvel. Enfim, voltei para cama, no
sem blasfemar contra os apaixonados.-
O doutor calou-se, sorrindo sempre.
A jovem esposa, crispada, perguntou:
-Por que me contou o senhor essa espantosa histria?-
Fez-lhe uma galante reverncia!
-Para lhe oferecer meus servios, se a ocasio de apresentar.-





O substituto
Guy de Maupassant
- Mme Bonderoi?
- Sim, Mme Bonderoi.
- No  possvel.
- Posso garantir-lhe.
- Mme Bonderoi, a velha dama das coifas de renda, a devota, a santa, a
respeitvel Mme Bonderoi de cabelinhos revoltos e falsos que parecem colados em
volta do crnio.
- Ela mesma.
- Voc est doido?
- Juro-lho.
- Conte-me l isso com todos os pormenores!
- Ento, oua. No tempo do Sr. Bonderoi, o antigo notrio, Mme Bonderoi
utilizava-se, ao que se diz, dos escreventes, para seu servio particular.  uma
dessas respeitveis burguesas de vcios secretos e princpios inflexveis, como
h muitas. Gostava dos moos bonitos. Que h nisso de estranho? No gostamos
ns, tambm, de moas bonitas?
Morto o velho Bonderoi, a viva comeou a viver dos seus rendimentos, pacata e
irreprochvel. Freqentava assiduamente a igreja, falava desdenhosamente do
prximo e no dava pasto s ms lnguas.
Depois envelheceu, e  hoje essa pequenina e respeitvel senhora que voc
conhece, toda dengosa, quizilenta, m.
Eis aqui a inverossmil aventura ocorrida na ltima quinta-feira.
Como voc sabe, o meu amigo Jean d&#8217;Anglemare  capito de drages, aquartelado
no faubourg de La Rivette.
Chegando outro dia de manha ao quartel, soube que dois homens de sua companhia
se tinham propinado uma formidvel surra. A honra militar tem leis severas.
Houve duelo. Depois, os soldados reconciliaram-se; e, interrogados por seu
oficial, contaram-lhe o motivo da questo. Tinham-se batido por Mme Bonderoi.
- Oh!
-  o que lhe digo, me amigo, por Mme Bonderoi.
Mas demos a  palavra ao cavalariano Saballe:
-Vou contar-lhe tudo, meu capito. H cerca de dezoito meses, passeando pela
avenida, entre as seis e sete horas da tarde, abordou-me uma paisana.
-Disse-me, como quem me pergunta o caminho: -Militar, quer ganhar honradamente
dez francos por semana?-
Respondi-lhe sinceramente: -Pois no, Madame! s suas ordens.-
Ento ela acrescentou: -Procure-me amanh, ao meio-dia. Sou Mme Bonderoi, Rua de
La Tranchs, 6.
- No faltarei, madame; esteja descansada.
Depois, deixou-me com um ar de muito satisfeita, acrescentando: -Agradeo-lhe
muito, militar.-
- O agradecido sou eu, Madame.
No descansei, de impacincia, at o dia seguinte.
Ao meio-dia, chamei  sua porta.
Ela mesma veio abrir, em pessoa. Tinha um molho de fitas pequeninas, na cabea.
-Despachemo-nos, disse, porque pode entrar a empregada.
Respondi-lhe: -Despachar-me? Com muito gosto, mas que devo fazer?-
Ento, ela se ps a rir e redargiu: -No te faas de sonso, grande finrio!-
Palavra de honra, meu capito, que no compreendi nada.
Sentou-se pertinho de mim, e disse-me: -Se repetes uma palavra de tudo isto,
vais dar com os ossos numa priso. Jura que sers mudo.-
Jurei-lhe o que queria. Mas ainda no compreendia nada. Suava em bica. Tirei o
capacete e, de dentro, o leno. Ela pegou no leno e secou-me os cabelos das
fontes. Nessa altura, pregou-me um beijo e disse-me ao ouvido:
-Aceitas?-
Respondi: aceito tudo o que a senhora quiser. No estou aqui para outra coisa.-
Fez-me ento, compreender abertamente por meio de outras manifestaes. Quando
vi do que se tratava, pus o capacete em cima duma cadeira e demonstrei-lhe que
um drago no pode recuar nunca, meu capito.
Verdade seja dita, o caso no me sorria muito, porque a paisana no estava,
digamos, na primeira juventude.
Mas a gente no pode ser muito exigente no ofcio, porque a grana anda muito
escassa. E depois, temos que sustentar a famlia. Eu dizia comigo: -So cem
soldos para o papai.-
Feito o frete, meu capito, preparei-me para me retirar. Queria que eu ficasse
um pouco mais.
Mas eu disse-lhe: -Tratos so tratos, madame. Um clice custa dois soldos, e
dois, quatro.-
Compreendeu bem o meu raciocnio e meteu-me na mo um pequeno napoleo de dez
francos. No gosto muito dessa moeda. Corre para o fundo do bolso e, quando as
calas esto mal cosidas, vai parar s botas, ou no se encontra mais.
E, pensando nisto, no tirava os olhos dessa placa dourada. Ela contemplou-me,
corou, interpretou mal minha expresso e perguntou-me:
-Achas pouco?-
Respondi-lhe:
-No  precisamente isso, madame, mas se no lhe faz grande diferena, gostaria
de ter duas peas de cinco.-
Deu-mas e retirou-se.
H ano e meio que isso dura, meu capito. Vejo-a todas as teras-feiras, 
noite, quando meu capito tem a bondade de me dar licena. Prefere de noite,
porque a empregada j est deitada.
Na ltima semana senti-me um tanto indisposto e baixei  enfermaria. Na
tera-feira, no houve meio de sair, e eu me remoa os fgados por aqueles dez
francos, a que j estava habituado.
E pensei: -Se no vai l ningum, estou frito; pegar, com certeza, num
artilheiro.- E a idia revoltava-me.
Ento, mandei chamar o Paumelle, que  da minha terra, e disse-lhe a coisa:
-Cinco para ti e cinco para mim, est feito?-
Concordou e partiu. Tinha-lhe dado todas as indicaes. Chamou; veio ela abrir;
mandou-o entrar; no lhe olhou para a cabea, e no reparou logo que no era o
mesmo.
O senhor compreende, meu capito, um drago de capacete parece-se com outro
drago.
Mas, de pronto, descobriu a transformao, e perguntou com ar colrico:
-Quem  voc? Que quer daqui? No o conheo!
Ento Paumelle lhe explicou. Disse-lhe que eu estava adoentado e que o havia
mandado para me substituir.
Olhou-o de alto a baixo, fez-lhe jurar o segredo, e aceitou-o depois, como 
natural, visto que o Paumelle tambm  bem parecido.
Mas quando aquele sabido voltou, meu capito, no me quis dar os cinco francos.
Se fossem para mim, no teria dito nada, mas eram para o meu pai, e quando me
tocam nisso no admito brincadeiras.
Eu, ento, disse-lhe:
-No so processos muito delicados para um drago; ests desonrando o uniforme.-
-Levantou-me a mo, capito, dizendo-me que um frete desses valia mais do que o
dobro.
Cada qual tem a sua opinio, no  verdade? Ningum o obrigou a aceitar. E
preguei-lhe um soco no nariz. O meu capito j sabe o resto.-
O capito;Anglemare ria a bandeiras despregadas, quando me contava a histria.
Mas fez-me tambm jurar o segredo a que se havia comprometido com os dois
soldados. Espero, pois, que voc no me traia; prometa-me guardar isso para
voc?
- No tenha receio. Mas que soluo teve o caso?
-  muito simples. H mil como esse! A velha Bonderoi conserva os seus dois
drages, marcando dia certo para cada um. Assim todo o mundo est contente.
- Formidvel! Extraordinria essa histria!
- E aos velhos pais no falta o po na mesa. A moral est satisfeita.


A BUENA DICHA
Alarcn
I
No sei em que dias do ms de agosto do ano de 1816 chegou s portas da
capitania-geral de Granada certo cigano esfarrapado e grotesco, de sessenta
anos, tosquiador de ofcio e de apelido ou sobrenome Heredia, cavalgando busco
asneiro, cujos arneses se reduziam a uma soga atada ao pescoo; e, mal ps o p
em terra, disse, com a maior sem-cerimnia, -que queria ver o capito-general.-
Escusa acrescentar que semelhante pretenso excitou sucessivamente a resistncia
da sentinela, os risos das ordenanas, e as dvidas e hesitaes dos
ajudantes-de-campo, antes de chegar ao conhecimento do Excelentssimo Senhor Dom
Eugnio Portocarrero, conde de Montijo, a esse tempo capito do antigo reino de
Granada... todavia, como era aquele homem de muito bom humor e sabia muita coisa
acerca de Heredia, clebre pelos seus chites, cambalachos e amor ao alheio...
com permisso do logrado dono, - ordenou deixassem passar o cigano.
Penetrou este na sala de S. Exa. dando dois passos adiante e um atrs, maneira
como costumava andar nas circunstncias graves e, pondo-se de joelhos, exclamou:
- Viva Maria Santssima e viva V. Mce, que  o senhor do mundo inteirinho!
- Levanta-te; deixa-te de bajulaes e dize-me o que se te oferece... -
respondeu o conde com aparente secura.
Heredia ficou tambm srio, e disse muito desenvolto:
- pois, senhor, aqui estou para que me sejam dados os mil reais.
- Que mil reais?
- Os que V. Mce ofereceu h dias, ao que apresentar os sinais de Parrn.
- Qu? Pois o conhecias?
- No senhor.
- Ento...
- Mas agora o conheo.
- Como?
-  muito simples. Procurei-o, vi-o, trago-lhe os sinais e peo a minha
recompensa.
- Tens certeza de que o viste? - exclamou o capito, com um interesse que se
sobreps s suas dvidas.
O cigano pegou a rir e respondeu:
- Est  claro! Dir V. Mce: - Este cigano  como todos, e quer-me enganar.-Deus
me castigue se minto! Ontem vi Parrn.
- Mas sabes tu a importncia do que dizes? Sabes que faz trs anos que se
persegue esse monstro, esse bandido sanginrio que ningum conhece nem nunca
pde ver? Sabes que todos os dias roupa, em diferentes pontos das serras, a
alguns passageiros e depois os assassina, pois diz que os mortos no falam e que
esse  o nico meio de nunca ser colhido pela justia? Sabes, enfim, que ver
Parrn  encontrar-se com a morte?
O cigano tornou a rir, e disse:
- E no sabe V. Mce que o que no pode fazer um cigano no h quem o faa neste
mundo? H quem conhea quando  verdadeiro o nosso riso ou o nosso pranto? J
ouviu V. Mce falar de alguma raposa que saiba de tantas velhacarias como ns?
Repito, meu general, que no somente vi Parrn, mas cheguei a falar com ele.
- Onde?
- No caminho de Tzar.
- D-me provas disso.
- Escute, V. Mce. Ontem pela manh fez oito dias que camos, eu e meu burrico,
em poder de uns ladres. Manietaram-me muito bem e me levaram por barrancos dos
diabos ate dar com uma pracinha onde acampavam os bandidos. Uma cruel suspeita
me atormentava. - Ser esta a gente de Parrn? - dizia comigo mesmo a cada
instante. - Ento, no h remdio, matam-me! Pois esse maldito faz questo de
que nenhuns dos olhos que vejam sua fisionomia tornem a ver coisa alguma.-
Estava eu fazendo essas reflexes quando me apareceu um homem vestido de
macareno, com muito luxo e, dando-me uma pancadinha no ombro, e sorrindo com
extrema graa, me disse: - Compadre, eu sou Parrn! Ouvi isto e cair de costas
foi obra de um momento. O bandido comeou a rir. Levantei-me desfigurado, pus-me
de joelhos e exclamei em todos os tons de voz que pude inventar: - Bendita seja
a tua alma, rei dos homens!... quem no havia de conhecer-te por esse porte de
prncipe real que Deus te deu? E existe me que pare tais filhos! Jesus! Deixa
que eu te d um abrao, filho meu! Mal se veja na hora da morte o ciganinho se
no tinha ganas de encontrar-te para dizer-te a buena dicha e dar-lhe um beijo
nessa mo de imperador! Eu tambm sou dos teus! Queres que te ensine a trocar
burros mortos por burros vivos? Queres vender como potros os teus cavalos
velhos? Queres que eu ensine francs a uma mula?
O Conde de Montijo no pde conter o riso... E logo perguntou:
- E que respondeu Parrn a tudo isso? Que fez?
- O mesmo que V. Mce: rir-se a bandeiras despregadas.
- E tu?
- Eu, senhorzinho, ria-me tambm. Mas me corriam pelas suas lgrimas grandes
como laranjas.
- Continua.
- Em seguida me estendeu a mo e disse-me: - Compadre, voc  o nico homem de
talento que at hoje caiu em meu poder. Todos os demais tm o maldito costume de
procurar entristecer-me, de chorar, de queixar-se e de fazer outras tolices que
me deixam de mau humor. S voc me fez rir; e se no fossem essas lgrimas...--
Qu, senhor! Mas so de alegria!-- -Acredito. Bem sabe o Demnio que  a
primeira vez que me rio de h seis ou oito anos a esta parte! Verdade  que
tambm no chorei... Mas acabemos com isso. Ei, rapazes!-Num abrir e fechar e
olhos, rodeava-me uma nuvem de trabucos. - -Jesus me proteja-comecei a gritar.
- -Detende-vos! - exclamou Parrn. - No se trata disso ainda. Chamei-vos para
vos perguntar que foi que tomaste a este homem.-- -Um burro em plo.-- -E
dinheiro?-- -Trs duros e sete reais.-- -Bem, deixa-nos a ss.-Todos se
afastaram. - -Agora dize-me a buena dicha.-exclamou Parrn, estendendo-me a
mo. Tomei-a; meditei um pouco; vi que era ocasio de falar formalmente e,
disse-lhe com as veras de minha alma: - Parrn, tarde ou cedo quer me tires a
vida, quer a conserves... morrers enforcado!-
- Isto j sabia eu... - respondeu o bandido com absoluta serenidade. - dize-me
quando.-Pus-me a sofismar. - -Este homem - pensei - vai-me poupar a vida;
amanh chego a Granada e abro o bico; depois de amanh o colhem... depois
comear o sumrio...-- -Queres saber quando? - respondi-lhe em alta voz. -
Pois olha! Vai ser no ms que vem.-Parrn estremeceu, e eu tambm, vendo que o
amor prprio de adivinho me podia sair pelo tampo da cabea. - -Pois olha,
cigano... - retorquiu Parrn, muito lento - vais ficar em meu poder... Se por
todo o ms que vem no me enforcarem, enforco-te eu a ti, to certo como
enforcaram a meu pai! Se eu morrer nesse tempo, ficars livre.-- -Muito
obrigado! - disse eu intimamente. - Perdoa-me... depois de morto!-E me
arrependi de haver marcado um prazo to curto. Ficamos pelo dito: fui conduzido
 furna onde me encerraram e Parrn montou sua gua e foi-se por aquelas
brenhas...
- Vamos, j compreendo... - exclamou o Conde de Montijo. - Parrn morreu; tu
ficaste livre, e por isso sabes os sinais dele.
- Muito ao contrrio, meu general! Parrn est vivo, e aqui principia o mais
negro de minha histria.
II
- Passaram-se oito dias sem que o capito voltasse a ver-me. Como pude perceber,
no havia aparecido por ali desde a tarde em que li a buena-dicha, o que nada
tinha de raro, segundo me contou um dos meus guardies. - -Saiba voc - disse-me
ele - que o chefe vai ao Inferno de vez em quando e s volta quando bem lhe
parece. E a verdade  que no sabemos nada do que faz durante suas largas
ausncias.-Entretanto,  custa de rogos, e como recompensa de haver lido a
buena-dicha de todos os ladres, predizendo-lhes que no seriam enforcados e
levariam uma velhice muito tranqila, eu tinha conseguido que todas as tardes me
tirassem da furna e me prendessem a uma rvore, pois em minha clausura sufocava
de calor. Escusa dizer, porm, que nunca faltava ao meu lado um par de
sentinelas. Uma tarde, por volta das seis horas, os ladres, que tinham sado do
servio naquele dia s ordens do segundo de Parrn, regressaram ao acampamento
trazendo consigo, manietado como pintam a Nosso Pai Jesus Nazareno, um pobre
ceifeiro de quarenta e cinco anos, que se lamentava de partir o corao. -
-Dai-me os meus vinte duros! - dizia ele. - Ah, se soubsseis com que
dificuldade os ganhei. Um vero inteiro a ceifar sob o fogo do sol!... Um vero
inteiro longe da minha gente, da minha mulher e dos meus filhos! Como hei de
perder esse dinheiro, que para mim  um tesouro? Piedade, senhores! Dai-me os
meus vinte duros! Dai-mos, pelas dores de Maria Santssima!-Uma gargalhada de
escrnio respondeu as queixas do pobre pai. Eu tremia de horror na rvore a que
estava atado; porque ns, os ciganos, tambm temos famlia. - -No sejas
louco... - exclamou afinal um bandido, dirigindo-se ao ceifeiro. - Fazes mal em
pensar no teu dinheiro, quando tens maiores cuidados com que te ocupares...--
-Como!-- disse o ceifeiro sem compreender que houvesse desgraa maior que
deixar seus filhos sem po. - -Ests em poder de Parrn!-- -Parrn... No o
conheo!... Nunca ouvi esse nome... Venho de Sevilha.-- -Pois, meu amigo,
Parrn quer dizer a morte. Todo aquele que cai em nosso poder,  necessrio que
morra. Assim, pois, faze testamento em dois minutos e encomenda a alma em outros
dois. Preparem! Apontem! Tens quatro minutos.-- -Vou aproveit-los... Ouvi-me,
por compaixo!... -  -Fala.-- -Tenho seis filhos... e uma infeliz, direi viva,
pois vejo que vou morrer... leio em vossos olhos que sois piores do que feras.
Sim! Piores! Porque as feras de uma mesma espcie no se devoram umas s outras.
Ah, perdo! No sei o que digo. Cavalheiros, algum de vs h de ser pai. No h
entre vs  algum que seja pai? Sabeis o que so seis crianas passando um
inverno sem po? Sabeis o que  uma me que v morrer os filhos de suas
entranhas dizendo: -Estou com fome, estou com frio?&#8217; Senhores, eu no quero
minha vida seno para eles! Que  a vida para mim? Uma srie de trabalhos e
privaes! Porm devo viver para meus filhos! Filhos meus!-E o pai se arrastava
pelo cho e levantava para os ladres uma cara... Que cara! Parecia a dos santos
que Nero atirava aos tigres, segundo dizem os padres pregadores. Os bandidos
sentiram alguma coisa lhes mexer dentro do peito, pois se olharam uns aos outros
e, vendo que todos estavam vendo a mesma coisa, um deles se atreveu a diz-la.
- Que foi? - perguntou o capito-general, profundamente comovido daquele relato.
- Ele disse: - Cavalheiros, o que vamos fazer Parrn nunca o saber.-- Nunca...
nunca...-- tartamudearam os bandidos. - -Ande, v embora, bom velho-- exclamou
ento um deles, que at chorava. Eu tambm fiz sinal ao ceifeiro para que se
fosse sem perda de tempo. O infeliz levantou-se lento. - -Pronto... v embora!-
- repetiram voltando as cosas. O ceifeiro estendeu a mo maquinalmente. - -Achas
 pouco? - gritou um. - Pois no  que ele quer o dinheiro? V... v embora. No
nos tente a pacincia!-O pobre pai afastou-se chorando, e em pouco desapareceu.
Meia hora tinha transcorrido, empregada pelos ladres em jurar uns aos outros
no dizer nunca ao seu capito que haviam poupado a vida a um homem, quando de
sbito apareceu Parrn, trazendo o ceifeiro na garupa de sua gua. Os bandidos
retrocederam espantados. Parrn apeou-se muito devagar, arriou a sua escopeta de
dois canos e, apontando seus camaradas, disse: - -Imbecis! Infames! No sei como
no vos mato todos! Vamos! Entregai a este homem os duros que lhe roubastes!-Os
ladres tiraram os vinte duros e os deram ao ceifeiro, o qual se prostrou aos
ps daquela personagem que dominava os bandoleiros e tinha to bom corao.
Ento, Parrn lhe disse: - -V com Deus! Se no fossem as suas indicaes, nunca
teria dado com eles. J v que desconfiava de mim, sem motivo! Cumpri a minha
promessa. A tens os seus vinte duros. E com isso, em marcha!-O ceifeiro
abraou-o repetidas vezes e afastou-se muito alegre. Mas no teria dado
cinqenta passos, seu benfeitor chamou-o novamente. O pobre homem apressou-se em
voltar sobre os calcanhares. - que manda o senhor? - perguntou-lhe, desejando
ser til ao que  tinha devolvido a felicidade a sua famlia. --Conheces
Parrn?-perguntou-lhe o prprio. - No o conheo.- -Ento enganas-te! -
replicou o bandoleiro. - Eu sou Parrn.- O ceifeiro quedou estupefato. Parrn
levou a espingarda ao rosto e disparou os dois tiros contra o ceifeiro, que caiu
redondo no solo. - -Maldito sejas!-- foi tudo o que disse. Em meio do terror
que me tirou a viso, observei que a rvore em que estava atado estremecia de
leve, e que minhas ligaduras afrouxavam. Uma das balas, depois de ferir o
ceifeiro, dera na corda que me ligava ao tronco e a tinha partido. No deixei
transparecer que estava livre, e aguardei ocasio para me escapar. Enquanto
isso, dizia Parrn aos seus, apontando o ceifeiro: - -Agora podereis roub-lo.
Sois uns imbecis... uns canalhas! Soltar este homem, para ele ir, como foi,
gritando pelas estradas reais! Se, assim como fui eu quem o encontrou e se
inteirou do que ocorria, fossem os migueletes, ele teria dado os vossos
endereos e o do nosso abrigo, como deu a mim. Bem, basta de sermo e enterrai
esse cadver para que no empeste.- Enquanto os ladres cavavam a sepultura,
afastei-me pouco a pouco da rvore e precipitei-me no barranco prximo. J era
noite. Protegido pelas sombras, sa a toda brida e,  luz das estrelas, avistei
o meu burrico, que comia tranqilamente, atado a um azinheiro. Cavalguei-o e no
parei at chegar aqui. Portanto, senhor, d-me os mil reais e eu darei os sinais
de Parrn, que ficou com os meus trs duros e meio.
Ditou o cigano os sinais do bandido; cobrou desde logo a soma oferecida e saiu,
deixando assombrados ao conde Montijo e ao sujeito, ali presente, que nos narrou
todos estes pormenores.
Resta-nos saber se acertou ou no Heredia ao dizer a buena-dicha a Parrn.
III
Quinze dias depois da cena que acabamos de narrar, a pelas nove horas da manh,
muitssima gente ociosa presenciava, na rua de So Joo, a reunio de duas
companhias de Migueletes que deviam sair s nove e meia em busca de Parrn, cujo
paradeiro, assim como seus sinais pessoais e de todos os seus companheiros, o
Conde de Montijo tinha, afinal, averiguado.
O interesse e a emoo do pblico eram extraordinrios, e no menos a solenidade
com que os migueletes se despediam de suas famlias e amigos para seguir a to
importante empresa. Tal o espanto que chegara a infundir Parrn em todo o antigo
reino granadino!
- Parece que j vamos formar - disse um miguelete a outro - e no vejo o cabo
Lpez.
- Por minha f!  estranho, pois ele sempre  o primeiro a chegar quando se
trata de sair em busca de Parrn, a quem odeia com os seus cinco sentidos!
- Ento, no sabeis o que se passa? - disse um terceiro miguelete.
- Ol!  o nosso novo camarada. Como vais em nosso corpo?
- Muito bem - respondeu o interrogado.
Era este um homem plido e de porte distinto, em que o traje de soldado
destoava.
- Com que ento, dizias? - replicou o primeiro.
- Ahh, sim! Que o cabo Lopez faleceu - respondeu o miguelete, plido.
- Manuel... que dizes? Isso no pode ser!... Eu mesmo vi Lpez esta manh, como
te vejo a ti...
O chamado Manuel retorquiu friamente:
- Pois faz meia hora que Parrn o matou.
- Parrn? Onde?
- Aqui mesmo! Em Granada! Na Cuesta del Perro foi encontrado o cadver de Lpez.
Quedaram todos silenciosos, e Manuel comeou a assobiar uma cano patritica.
- L se vo onze migueletes em seis dias! - exclamou um sargento. - Parrn se
props a exterminar-nos!
- Mas como  que ele est em Granada? No amos busc-lo  na Sierra de Loja?
Manuel deixou de assobiar e disse com a sua habitual indiferena:
- Uma velha que presenciou o crime diz que, apenas matou a Lpez, ele prometeu
que, se fssemos busc-lo, teramos o prazer de v-lo...
- Camarada! s de uma calma assombrosa! Falas de Parrn com um desprezo...
- Ento, que  Parrn mais do que um homem? - respondeu Manuel com altivez.
- Para a forma! - gritaram a essa altura vrias vozes.
Formaram as duas companhias e principiou a lista nominal. Em tal momento acertou
de passar por ali o cigano Heredia, o qual se deteve, como todos, a ver aquela
tropa to luzida.
Notou-se que Manuel, o novo miguelete, teve um estremecimento e recuou um pouco,
como para se ocultar atrs dos companheiros.
A esse tempo Heredia o fitou e, dando um grito e um salto como se o houvesse
picado uma vbora, deitou a correr para a Rua de So Jernimo.
Manuel levou a carabina ao rosto e alvejou o cigano.
Mas outro miguelete teve tempo de mudar a direo da arma, e o tiro perdeu-se no
ar.
- Est louco! Manuel enlouqueceu! Um miguelete perdeu o juzo - exclamaram
sucessivamente os mil espectadores daquela cena.
E oficiais e sargentos e paisanos rodeavam aquele homem, que lutava por escapar,
e ao qual, por isso mesmo, subjugavam com maior fora, oprimindo-o com perguntas
e recriminaes e ditrios, que no lhe arrancaram nenhuma resposta.
Neste comenos Heredia fora preso na Praa por alguns transeuntes que, vendo-o
correr depois de haver soado aquele tiro, tomaram-no por malfeitor.
- Levem-me  capitania geral! - dizia o cigano. - Tenho de falar com o Conde de
Montijo!
- Que Conde Montijo nem nada! - responderam-lhe os seus detentores. - A esto
os migueletes, e eles vero o que h de fazer com a tua pessoa!
- No importa... - respondeu Heredia. - Mas tenha cuidado que Parrn no me
mate...
- Como Parrn? ... que diz este homem?
- Vinde e vereis.
Assim dizendo, o cigano fez-se conduzir  presena do chefe dos migueletes e,
apontando Manuel, disse:
- Meu comandante, esse  Parrn, e eu sou o cigano que deu h quinze dias os
seus sinais ao conde de Montijo!
- Parrn! Parrn est preso! Parrn era um miguelete!... gritaram muitas vozes.
- No me resta dvida... - dizia entretanto o comandante, lendo os sinais que
lhe havia dado o capito-general. -  f que fomos estpidos! Mas a quem teria
ocorrido procurar o capito dos ladres entre os migueletes que iam prend-lo?
- Tolo que fui! - exclamava ao mesmo tempo Parrn, mirando o cigano com olhos de
leo ferido. -  o nico homem a quem poupei a vida! Mereo o que me acontece!
Na semana seguinte, enforcaram Parrn.
O que (seja dito para concluir dignamente) no significa devais acreditar na
infalibilidade de tais vaticnios, e ainda menos que fora acertada a conduta de
Parrn a de matar todos os que chegavam a conhec-lo... Significa to somente
que os caminhos da Providncia so inescrutveis  razo humana; doutrina que, a
meu ver, no pode ser mais ortodoxa.








A CIGARRA  E A FORMIGA

La Fontaine
A Cigarra, a cantar passara o estio;
Eis que assopra o Nordeste, e se acha balda;
Sem migalha de mosca, um de verme.
Vai, gritando lazeira,
A Formiga, pedir, sua vizinha,
Que lhe empreste algum gro para ir vivendo,
T que a nova Estao, bem-vinda, aponte.
Diz-lhe: "A f de Cigarra, antes de agosto.
Pagarei tudo, principal e juros."
No ser fcil no emprstimo,
 na Formiga a mcula mais leve.
Com que diz a que vem pedir emprestado:
"Em que lidavas do calor na quadra?"
(Cigarra) Ai! faa-me favor. eu, noite e dia,
Cantava a quantos iam, quantos vinham.
(Formiga) Cantavas? Muito folgo. Dana agora.

A igreja do diabo - Machado de Assis

CAPTULO I / DE UMA IDIA MIRFICA
Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em  certo dia, teve a idia de
fundar uma igreja. Embora  os seus  lucros fossem contnuos e grandes, sentia-se
humilhado com o papel avulso que  exercia desde sculos, sem organizao, sem
regras, sem cnones,   sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos
remanescentes divinos, dos descuidos e obsquios humanos. Nada fixo, nada
regular. Por que no teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio
eficaz de combater as outras religies, e destru-las de uma vez.
 -- V, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, brevirio
contra brevirio. Terei a minha missa, com vinho e po   farta, as minhas
prdicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesistico. O meu credo ser
o ncleo universal dos espritos, a minha igreja uma tenda de Abrao. E depois,
enquanto as outras  religies se combatem e se dividem, a minha igreja ser
nica; no acharei diante de mim, nem Maom, nem Lutero. H muitos modos
de afirmar; h s um de negar tudo.
  Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabea e estendeu os braos, com um gesto
magnfico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para
comunicar-lhe a idia, e desafi-lo; levantou os olhos, acesos de dio, speros
de vingana, e disse consigo: --  Vamos,  tempo. E rpido, batendo as asas, com
tal estrondo que abalou todas as provncias do abismo, arrancou da sombra  para
o infinito azul.
 CAPTULO II / ENTRE DEUS E O DIABO
  Deus recolhia um ancio, quando o Diabo chegou ao cu. Os serafins que
engrinaldavam o recm-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar 
entrada com os olhos no Senhor.
  -- Que me queres tu? perguntou este.
  -- No venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo,  mas por todos
os Faustos do sculo e dos sculos.
  -- Explica-te.
  -- Senhor, a explicao  fcil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro
esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas ctaras e
alades o recebam com os mais divinos coros...
  -- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doura.
  -- No, mas provavelmente  dos ltimos que viro ter convosco.
No tarda muito
que o cu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preo, que  alto. Vou
edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou
cansado da minha desorganizao, do meu reinado casual e adventcio.  tempo de
obter a vitria final e completa. E ento vim dizer-vos isto, com lealdade, para
que me no acuseis de dissimulao... Boa idia, no vos  parece?
  -- Vieste diz-la, no legitim-la, advertiu o Senhor,
  -- Tendes razo, acudiu o Diabo; mas o amor-prprio gosta de ouvir o aplauso
dos mestres. Verdade  que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e
uma tal exigncia... Senhor, deso  terra; vou lanar a minha pedra
fundamental.
  -- Vai.
  -- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
  -- No  preciso; basta que me digas desde j por que motivo, cansado h tanto
da tua desorganizao, s agora pensaste em fundar uma igreja?
  O Diabo sorriu com certo ar de escrnio e triunfo. Tinha alguma idia cruel no
esprito, algum reparo picante no alforje da memria, qualquer cousa que, nesse
breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao prprio Deus. Mas
recolheu o riso, e disse:
  -- S agora conclu uma observao, comeada desde alguns  sculos, e  que as
virtudes, filhas do cu, so em grande nmero comparveis a rainhas, cujo manto
de veludo rematasse em franjas  de algodo. Ora, eu proponho-me a pux-las por
essa franja, e traz-las todas para minha igreja; atrs delas viro as de seda
pura...
  -- Velho retrico! murmurou o Senhor.
  -- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos ps, nos templos do mundo,
trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo p, os lenos
cheiram aos mesmos cheiros, as   pupilas centelham de curiosidade e devoo
entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, -- a indiferena, ao
menos, -- com que esse cavalheiro pe em letras pblicas os benefcios que
liberalmente espalha, -- ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer
dessas matrias necessrias  vida... Mas no quero parecer que me detenho em
cousas midas; no falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de
irmandade, nas procisses, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma
comenda... Vou a negcios  mais altos...
  Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel
fitaram no Senhor um olhar de splica, Deus interrompeu o Diabo.
  -- Tu s vulgar, que  o pior que pode acontecer a um esprito da tua espcie,
replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas  est dito e redito pelos
moralistas do mundo.  assunto gasto; e se no tens fora, nem originalidade
para renovar um assunto gasto, melhor  que te cales e te retires. Olha; todas
as minhas legies mostram no rosto os sinais vivos do tdio que lhes ds. Esse
mesmo ancio parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
  -- J vos disse que no.
  -- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um
naufrgio, ia salvar-se numa tbua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida,
que se debatiam j com a morte; deu-lhes a tbua de salvao e mergulhou na
eternidade. Nenhum pblico: a gua e o cu por cima. Onde achas a a franja de
algodo?
  -- Senhor, eu sou, como sabeis, o esprito que nega.
  -- Negas esta morte?
  -- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos
outros, para um misantropo,  realmente aborrec-los...
  -- Retrico e subtil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama
todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas,
vai! vai!
  Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silncio;
os serafins, a um sinal divino, encheram o cu  com as harmonias de seus
cnticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e,
como um raio, caiu na terra.

CAPTULO Ill / A BOA NOVA AOS HOMENS
Uma vez na terra, o Diabo no perdeu um minuto. Deu-se pressa  em enfiar a
cogula beneditina, como hbito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina
nova e extraordinria, com uma voz que reboava nas entranhas do sculo. Ele
prometia aos seus discpulos  e fiis as delcias da terra, todas as glrias, os
deleites mais ntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para
retificar a noo  que os homens tinham dele e desmentir as histrias que a seu
respeito contavam as velhas beatas.
  -- Sim, sou o Diabo, repetia ele; no o Diabo das noites sulfreas,  dos
contos sonferos, terror das crianas, mas o Diabo verdadeiro e  nico, o
prprio gnio da natureza, a que se deu aquele nome para  arred-lo do corao
dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou  o vosso verdadeiro pai. Vamos l:
tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um trofu e um
lbaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
  Era assim que falava, a princpio, para excitar o entusiasmo, espertar os
indiferentes, congregar, em suma, as multides ao p de si.E elas vieram; e logo
que vieram, o  Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser
na boca de um esprito de negao. Isso quanto  substncia, porque, acerca da
forma, era umas vezes subtil, outras cnica e deslavada.
  Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substitudas por outras, que
eram as naturais e legtimas. A soberba, a luxria, a preguia foram
reabilitadas, e assim tambm a avareza, que declarou no ser mais do que a me
da economia, com a diferena que a me era robusta, e a filha uma esgalgada. A
ira tinha a melhor defesa na existncia de Homero; sem o furor de Aquiles, no
haveria a Ilada: "Musa, canta a clera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo
disse da gula, que produziu as melhores pginas de Rabelais, e muitos bons
versos do Hissope; virtude to superior, que ningum se lembra das batalhas de
Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda
pondo de lado essas razes de ordem literria ou histrica, para s mostrar o
valor intrnseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na
boca e no ventre os bons manjares, em grande cpia, do que os maus bocados, ou a
saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor,
expresso metafrica, pela vinha do Diabo, locuo direta e verdadeira, pois no
faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto 
inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades
infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas  as outras, e ao prprio
talento.
  As turbas corriam atrs dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes
golpes de eloqncia, toda a nova ordem de cousas, trocando a noo delas,
fazendo amar as perversas e detestar as ss.
  Nada mais curioso, por exemplo, do que a definio que ele dava da fraude.
Chamava-lhe o brao esquerdo do homem; o brao direito era a fora; e conclua:
muitos homens so canhotos, eis tudo. Ora, ele no exigia que todos fossem
canhotos; no era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros;
aceitava a todos, menos os que no fossem nada. A demonstrao, porm, mais
rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casusta do tempo chegou a
confessar que era um monumento de lgica. A venalidade, disse o Diabo, era o
exerccio de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua
casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapu, cousas que so tuas por uma razo
jurdica e legal, mas que, em  todo caso, esto fora de ti, como  que no podes
vender a tua opinio, o teu voto, a tua palavra, a tua f, cousas que so mais
do que tuas, porque so a tua prpria conscincia, isto , tu mesmo? Neg-lo 
cair no obscuro e no contraditrio. Pois no h mulheres que vendem os cabelos?
no pode um homem vender uma parte do seu sangue  para transfundi-lo a outro
homem anmico? e o sangue e os cabelos,   partes fsicas, tero um privilgio
que se nega ao carter,  poro moral do homem?
Demonstrando assim o princpio, o Diabo no   se demorou em expor as vantagens
de ordem temporal ou pecuniria; depois, mostrou ainda que,  vista do
preconceito social, conviria dissimular o exerccio de um direito to legtimo,
o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto , merecer
duplicadamente.
  E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Est claro que  combateu o
perdo das injrias e outras mximas de brandura e cordialidade. No proibiu
formalmente a calnia gratuita, mas induziu  a exerc-la mediante retribuio,
ou pecuniria, ou de outra espcie; nos casos, porm, em que ela fosse uma
expanso imperiosa da fora imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum
salrio, pois equivalia a fazer pagar a transpirao. Todas as formas de
respeito foram  condenadas por ele, como elementos possveis de um certo decoro
social e pessoal; salva, todavia, a nica exceo do interesse. Mas  essa mesma
exceo foi logo eliminada. pela considerao de que o interesse, convertendo o
respeito em simples adulao, era este o  sentimento aplicado e no aquele.
  Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a
solidariedade humana. Com efeito, o amor do prximo era um obstculo grave 
nova instituio. Ele mostrou que essa regra era urna simples inveno de
parasitas e negociantes insoldveis; no se devia dar ao prximo seno
indiferena; em alguns  casos, dio ou desprezo. Chegou mesmo  demonstrao de
que a  noo de prximo era errada, e citava esta frase de um padre de  Npoles,
aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo
regmen: "Leve a breca o prximo! No h prximo!" A nica hiptese em que ele
permitia amar ao prximo era  quando se tratasse de amar as damas alheias,
porque essa espcie  de amor tinha a particularidade de no ser outra cousa mais
do que o amor do indivduo a si mesmo. E como alguns discpulos achassem que uma
tal explicao, por metafsica, escapava  compreenso das turbas, o Diabo
recorreu a um aplogo: -- Cem pessoas tomam aes de um banco, para as operaes
comuns; mas cada acionista  no cuida realmente seno nos seus dividendos:  o
que acontece aos adlteros. Este aplogo foi includo no livro da sabedoria.
CAPTULO IV / FRANJAS E FRANJAS
A PREVISO do Diabo verificou-se.  Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava
em franja de algodo, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa s urtigas e
vinham alistar-se na igreja nova. Atrs foram chegando as outras, e o tempo
abenoou a instituio. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; no havia
uma regio do globo que no a conhecesse, uma lngua que no a traduzisse, uma
raa que no a amasse. O Diabo alou brados de triunfo.
Um dia. porm, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiis, s
escondidas, praticavam as antigas virtudes. No as praticavam todas, nem
integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, s ocultas. Certos glutes
recolhiam-se a comer frugalmente trs ou quatro vezes por ano, justamente em
dias de preceito catlico; muitos avaros davam esmolas,  noite, ou nas ruas mal
povoadas; vrios dilapidadores do errio restituam-lhe pequenas quantias; os
fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o corao nas mos, mas com o mesmo
rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaando os outros.
  A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e
viu que lavrava muito. Alguns casos eram at incompreensveis, como o de um
droguista do Levante, que envenenara longamente uma gerao inteira, e, com o
produto das drogas socorria os filhos das vtimas. No Cairo achou um perfeito
ladro de camelos, que tapava a cara para ir s mesquitas. O Diabo deu com ele 
entrada de uma, lanou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia
ali roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com  efeito,  vista do Diabo e foi
d-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Al. O manuscrito beneditino
cita muitas outra  descobertas extraordinrias, entre elas esta, que desorientou
completamente o Diabo. Um dos seus melhores apstolos era um calavrs, varo de
cinqenta anos, insigne falsificador de documentos, que possua uma bela casa na
campanha romana, telas, esttuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa;
chegava a meter-se na cama para no confessar que estava so. Pois esse homem,
no s no furtava ao jogo, como ainda dava gratificaes aos criados. Tendo
angariado a amizade de um cnego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa
capela solitria; e, conquanto no lhe desvendasse nenhuma das suas aes
secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal
pde crer tamanha aleivosia. Mas no   havia duvidar; o caso era verdadeiro.
  No se deteve um instante. O pasmo no lhe deu tempo de refletir, comparar e
concluir do espetculo presente alguma cousa anloga ao passado. Voou de novo ao
cu, trmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de to singular
fenmeno. Deus ouviu-o com infinita
complacncia; no o interrompeu, no o repreendeu, no triunfou,  sequer,
daquela agonia satnica. Ps os olhos nele, e disse:
  -- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodo tm  agora franjas de
seda, como as de veludo tiveram franjas de algodo.Que queres tu?  a eterna
contradio humana.






A MORTE E O DESGRAADO
La Fontaine
De feixes de Montano assoberbado
Pobre Matteiro, que co'a carga verga
Vinha gemendo, a passos mal seguros,
Em busca da palhoa fumarenta.
Mais no podendo j, dbil, anciado,
Deita os feixes no cho, recorda penas.
(Mat) Soube eu, desde que hei nascido, o que era gosto?
H quem mais pobre que eu, no mundo seja?
Nunca hora de descanso, e o po nem sempre!
Mulher, filhos, tributos e soldados
Credor, lavor sem paga
So a pintura cabal d'um desgraado.
A Morte chama, - e a Morte no remacha; -
Ei-la - a que lhe pergunta:
(Morte) Que desejas de mim?
(Mateiro) Que me ajudes, e muito diligente,
A por-me s costas estes feixes todos...


xxx

A raposa e a cegonha

La Fontaine
O compadre raposo fez seu gasto,
E  comadre Cegonha deu convite;
Convite apoucadinho, e sem amanho:
Umas papas. - No vivia o Raposo
A la grande.
E n'um prato as tais papas ps na mesa.
C'o longo bico seu picava o prato
A cegonha, mas nada recolhia.
Gil Raposo, co'a lngua varredoida,
O prato alimpa em duas lambedelas. -
Por se vingar do logro,
Deixa passar uns tempos,
E convida a Cegonha. Eis ele logo:
(Rap.) Com muito gosto. Eu c, c'os meus amigos
Cerimnias no uso.
- A hora-dada,  casa vai correndo
Da hospeda Cegonha.
Louva-lhe a cortesia; - bem guizada.
E a ponto acha a comida.
Nunca a Raposos falha a boa gana.
J s c'o cheiro lhe regala a cerne
Cortadinha em midos comesinhos.
No st a tudo. - Acod um embeleco,
Que  vir  mesa a carne
N'um vaso de gargalo mui comprido. -
E a Comadre ir picando
C'o bico at ao fundo;
Mas a tromba de Gil tendo outro talhe,
Foi-lhe fora em jejum voltar a toca
To vergonhoso e murcho
C'o rabinho entre as pernas, cabisbaixo,
Qual Raposo agarrado por galinhas.
Burles, convosco falo: Esperai outro tanto.


Atravs do vu
A. Conan Doyle
 Ele era um fronteirio enorme, cabeludo e de rosto sardento, descendente direto
de uma tribo dada ao roubo de gado em Liddesdale. Apesar de sua descendncia,
era um cidado to sensato e sbrio quanto podia se desejar, vereador em
Melrose, presbtero da Igreja e presidente da seo local da Associao Crist
de Moos. Seu nome era Brown - e se via impresso como -Brown and Handiside-,
sobre as grandes mercadorias da rua principal. Sua esposa, Maggie Brown, era
Armstrong antes de se casar, e vinha de uma velha famlia de camponeses nos
ermos de Teviothead. Era de baixa estatura, moreninha e possua olhos negros,
alm de um temperamento estranhamente nervoso para uma mulher escocesa. No se
podia encontrar maior contraste entre o homem grande e trigueiro e a pequena
mulher morena, porm ambos eram da terra, at onde podia alcanar a memria.
Um dia - era o primeiro aniversrio de seu casamento - eles saram juntos para
ver as escavaes do Forte Romano em Newstead. No era um lugar particularmente
pitoresco. Da ribanceira norte do Tweed, exatamente onde o rio forma  uma curva,
estende-se uma rampa suave de terra arvel. Atravs desta corriam os valos dos
escavadores, expondo, aqui e ali, velhos trabalhos de pedra, indicando os
alicerces das antigas muralhas. Havia sido um lugar enorme, pois o acampamento
possua cinqenta acres de extenso e o forte, quinze. De qualquer modo, tudo
era fcil para eles, uma vez que o Sr. Brown conhecia o fazendeiro proprietrio
da terra. Sob sua direo, passaram uma longa tarde de vero inspecionando as
valas, as covas, as muralhas e toda a estranha variedade de objetos que
esperavam ser transportados para o Museu de Antigidade de Edimburgo.  A fivela
de um cinturo de mulher havia sido desenterrada naquele mesmo dia e o
fazendeiro estava discorrendo sobre isto, quando seus olhos se fixaram no rosto
da Sra. Brown.
- Sua boa senhora acha-se cansada, disse ele. Talvez seja melhor descansar um
pouco antes de continuar.
Brown olhou para a esposa. Ela estava plida, certamente, e seus olhos escuros,
luminosos e estranhos.
- O que  Maggie? Cansada? Acho que  hora de regressarmos.
- No, no, John, continuemos.  maravilhoso. Igual a um pas de sonho. Tudo
parece estar to chegado e perto de mim. Quanto tempo os romanos permaneceram
aqui, Sr. Cunningham?
- Longo tempo, senhora. Se a senhora visse as covas de lixo das cozinhas,
compreenderia que levaria muito tempo para ench-las.
- E por que eles partiram?
- Bem, senhora, por todos os sinais, partiram porque tiveram de o fazer. O povo
das vizinhanas no podia suport-los mais, por isso levantaram-se e queimaram o
forte. Pode ser a marca de fogo nas pedras.
A mulher estremeceu ligeiramente.
- Uma noite feroz... horrvel, disse ela. O cu devia estar vermelho aquela
noite... e estas pedras cinzentas tambm.
- Sim, acho que se encontravam rubras, disse seu marido.  uma coisa estranha,
Maggie, e talvez fossem suas palavras que a ocasionasse; mas pareo ver este
incidente mais claro do que jamais vi qualquer coisa em minha vida. A luz
brilhava na gua.
- Sim, a luz brilhava na gua. E a fumaa agarrava-se  garganta. E todos os
selvagens estavam gritando.
O velho fazendeiro comeou a rir.
- A senhora escrever uma histria acerca do velho forte, disse ele. Eu o tenho
mostrado a mais de um indivduo, mas nunca ouvi explicao to clara. Algumas
pessoas tm o dom.
Haviam bordejado a margem do fosso, e um poo abria sua boca  direita deles.
- Aquele poo possui 14 ps de profundidade, disse o campons. Imaginem o que
retiramos do fundo? Bem, era somente o esqueleto de um homem com uma lana ao
lado. Penso que a empunhava quando morreu. Ora, como pode um homem com uma lana
achar-se num buraco destes? No estava enterrado, porque eles queimavam seus
mortos. Que conclui disso, senhora?
- Ele saltou ao fundo para livrar-se dos selvagens, disse a mulher.
- Bem,  plausvel e um dos professores de Edimburgo no poderia apresentar
melhor explicao. Gostaria que estivesse aqui, senhora, para responder s
nossas dificuldades. Aqui est o altar que encontramos semana passada. H uma
inscrio. Disseram-me que  latim que significa que os homens deste forte
agradecem a Deus por sua segurana.
Examinaram a velha pedra gasta. Havia dois VV largos e profundamente entalhados,
no topo.
- Que significam estes dois VV, perguntou Brown.
- Ningum sabe, respondeu o guia.
- Valeria Victrix, disse a senhora, suavemente. Seu rosto se encontrava mais
plido que nunca, os olhos muito distantes, como quem observa pelas passagens
obscuras das abbadas dos sculos.
- Que  isto? perguntou o marido, asperamente.
Ela estremeceu como algum que acorda de um sono.
- Acerca de que falvamos? perguntou.
- Destes VV na pedra.
- No h dvida de que  somente o nome da legio que erigiu o altar.
- Sim, mas voc lhe deu um nome especial.
- Realmente? Que absurdo! Como poderia eu saber qual era o nome?
- Voc disse algo... Victrix, suponho.
- Acho que estava conjecturando. Este lugar me d o sentimento singular de no
ser eu prpria, mas outra pessoa.
- Sim,  um lugar misterioso, disse seu marido, olhando ao redor com uma
expresso quase de medo em seus olhos cinzentos e agressivos. Tambm sinto isto.
penso que somente lhe desejaremos boa noite, Sr. Cunningham, e regressaremos a
Melrose.
Nenhum deles pde sacudir a estranha impresso que lhes havia sido deixada, pela
visita s escavaes. Era como se algum miasma houvesse subido daquelas valas
midas e passado ao sangue deles. Toda a tarde permaneceram silenciosos e
pensativos, mas os poucos comentrios que faziam mostravam que o mesmo objeto
ocupava a mente de cada um. Brown passou a noite sem repouso na qual teve um
sonho estranho e bem concatenado, to vvido que ele acordou transpirando e
tremendo como um cavalo amedrontado.  Tentou descrev-lo  sua mulher quando se
sentaram para o lanche, de manh.
- Foi a coisa mais clara, Maggie, disse ele. Nada que me aconteceu quando
acordado tem sido  mais claro do que isto. sinto-me como se estas mos
estivessem pegajosas de sangue.
- Conte-me devagar, disse ela.
- Quando comeou eu estava numa encosta. Encontrava-me deitado no cho. Este era
spero e havia moitas de urzes. Tudo ao meu redor era somente escurido, mas eu
podia ouvir o sussurro das respiraes dos homens. Afigurava-se uma grande
multido em ambos os lados ao meu redor, mas no podia ver ningum. s vezes,
havia um baixo tinido de ao, e ento um nmero de vozes sussurrava -Silncio!-.
Eu tinha uma clava nodosa na mo e esta era guarnecida de pontas de ferro na
extremidade. Meu corao batia rapidamente, e eu sentia que pairava um momento
de grande perigo. Uma vez deixei cair minha maa, e as vozes todas ao meu redor
ordenaram na escurido -Silncio!-. Apoiei minha mo no cho e toquei o p de
outro homem deitado  minha frente. Havia outros ao meu alcance de ambos os
lados. Mas no disseram nada.
Ento todos comeamos a nos mover. A encosta inteira parecia estar rastejando
para baixo. Existia um rio no sop e uma ponte de madeira com arcos altos. Alm
da ponte viam-se muitas luzes - tochas numa muralha. Os homens rastejantes
dirigiam-se todos em direo  ponte. No houve som de espcie alguma, porm uma
quietude aveludada. Ento ouviu-se um grito na escurido, o brado de um homem
que era apunhalado no corao, subitamente. Aquele nico grito elevou-se durante
um momento e depois ouviu-se o rugir de mil vozes furiosas. Eu estava correndo.
Todos corriam. Uma luz vermelha brilhou e o rio tornou-se uma faixa rubra. Podia
ver meus companheiros agora. Eram mais demnios do que homens, figuras ferozes
vestidas de peles, com o cabelo e a barba caindo em torrentes. Estavam todos
furiosos de raiva, saltando enquanto corriam, as bocas abertas, os braos em
agitao, a luz vermelha batendo em seus rostos. Corri tambm, e gritei
maldies como os demais. Ento ouvi um grande estralejar de madeira que soube
que as paliadas tinham cado. Percebi um silvo alto em meus ouvidos e eu me
achava consciente de que as flechas voavam ao meu redor. Ca no fundo de um valo
e vi uma mo estendida de cima. Segurei-a e fui puxado. Olhamos para baixo e
vimos homens prateados segurando suas lanas para o alto. Alguns dos nossos
saltaram sobre as pontas. Ns os seguimos e matamos os soldados antes que
pudessem desenterrar as lanas dos corpos novamente. Eles gritavam alto em uma
lngua estrangeira, mas no tivemos misericrdia. Caminhamos sobre eles como uma
onda, e os espezinhamos para baixo da lama, pois eram poucos e o nmero dos
nossos infindvel.
Encontrei-me entre edifcios e um destes estava incendiado. Vi as chamas
ressaindo atravs do telhado. Corri e achei-me s entre os edifcios. Algum
cruzou correndo  minha frente. Era uma mulher. Segurei-a pelo brao e
segurando-lhe o queixo, voltei seu rosto a fim de que a luz do fogo o
iluminasse. Quem voc pensa que era, Maggie?
A esposa umedeceu os lbios secos.
- Era eu, disse ela.
Ele olhou para ela, surpreso.
-  certo seu palpite, disse. Sim, era exatamente voc. No simplesmente
parecida, voc compreende. Era voc, voc prpria. Eu vi a mesma alma nos seus
olhos amedrontados. Voc parecia branca e formosa, maravilhosa  luz do fogo. Eu
tinha somente um pensamento na cabea - lev-la para longe comigo; conserv-la
toda para mim no meu lar em algum lugar nas colinas. Voc arranhou meu rosto.
Levantei-a sobre o ombro e procurei achar um caminho para fora da luz do
edifcio em chamas e de retorno  escurido.
- Ento aconteceu a coisa que relembro mais que tudo. Voc est doente, Maggie.
Devo parar? Meu Deus! voc tem no rosto o mesmo olhar que possua a noite
passada no meu sonho. Voc gritou. Ele veio correndo  luz do fogo. Sua cabea
estava desprotegida; seu cabelo era negro e encaracolado; e ele tinha uma espada
nua na mo, curta e larga, pouco maior que uma adaga. Ele lanou-se contra mim,
mas tropeou e caiu. Segurei-a com uma das mos, e com a outra...
Maggie havia saltado, ficando de p, com feies contradas.
- Marcus! Gritou ela. Meu belo Marcus! Oh, seu animal! Fera! bruto! Houve um
estardalhao de xcaras de ch, quando ela caiu para a frente, sobre a mesa,
inconsciente.
Nunca falam daquele incidente isolado e estranho em sua vida de casados. Por um
instante, a cortina do passado tinha sido afastada, e algum estranho lampejo de
uma vida esquecida tinha sido mostrado a eles. Mas o vu caiu, para nunca mais
levantar-se. Vivem em seu crculo estreito - ele na sua loja, ela no lar - e no
obstante horizontes mais novos e amplos formaram-se vagamente em torno deles,
desde aquela tarde de vero no fragmentado Forte Romano.



O HOMEM DE MEIA-IDADE E DUAS DAMAS SUAS
La Fontaine

          Com meia idade, e j meio-grisalho
          Certo homem assentou, que j era tempo
          De cuidar n'uma esposa. Ora ele tinha
          Cum quibus;
          E quem os tem escolhe ao tabuleiro. -
          Todas em agradar-lhe se esmeravam;
          Mas no tinha tanta nsia o Namorado:
          No acerto estava o ponto.
          Quem mor quinho porm tinha em seu seio
          Duas vivas eram:
          Uma j bem-madura, outra inda verde.
          A madura, com arte, remendava
          Estragos da Natureza.
          Ambas rindo com ele, ambas brincando,
          Animando, anediando-lhe o cabelo,
          Tirava a Velha quantos pretos via,
          Para ajeitar o amante  sua idade;
          A Moa, com mais gana se ia aos brancos.
          Tal recado se deram na melena,
          Que ficou nua. - O tal, que deu f da obra:
          (Hom.) Senhoras, que to bem me encalvecesteis,
          Mais ganhei, que perdi. Dou-vos mil graas.
          De esposar no tratemos;
          Que entendi da calvice, que cada uma
          De vs quer, que a seu gosto,
          E no ao meu, eu viva.
          Calvo ou no calvo, fico-lhe obrigado
          Da lio que me deram.



O lobo e o cordeiro
La Fontaine
  Melhor razo foi sempre do mais forte;
      J o ponho em pratos limpos.
      Na clara veia d'um regato a sede
      Um cordeiro matava.
      Chega esfaimado um Lobo, andando a corso
      (Lobo) Quem te deu auso (diz em raiva aceso)
      De vires enturvar a gua que eu bebo?
      (Cord.) Oh no se agaste Vossa Majestade,
      Mas antes considere,
      Que alm de passos vinte, estou mais baixo,
      Bebendo na corrente
      E no posso turvar-lhe, em conseguinte,
      Por modo algum a veia aonda bebe.
      (Lobo) Que a enturvas digo: e sei que o ano passado
      Disseste mal de mim.
      (Cord) Como o podia
      Eu, que nato no era; eu, que ainda mamo?
      (Lobo) Pois disse-o teu irmo, se o no disseste.
      (Cord.) No tenho irmo.
      (Lobo) Pois disse-o um teu parente.
      Que vs, e vossos ces, vossos pastores,
      Nao me poupais em ditos
      Ouvi-o a muitos; tenho de vingar-me.
      - N'sto, ao cerrado mato o leva o Lobo;
      sem mais processo o come.





Quem conta um conto...
Machado de Assis
I
Eu compreendo que um homem goste de ver brigar galos ou de tomar rap. O  rap,
dizem os tomistas, que alivia o crebro. A briga de galos  o Jquei Clube dos
pobres. O que eu no compreendo  o gosto de dar notcias.
E todavia quantas pessoas no conhecer o leitor com essa singular vocao? O
noveleiro no  o tipo muito vulgar, mas tambm no  muito raro. H famlia
numerosa deles. Alguns so mais peritos e originais que outros. No  noveleiro
quem quer.  ofcio que exige certas qualidades de bom cunho, quero dizer as
mesmas que se exigem do homem de Estado. O noveleiro deve saber quando lhe
convm dar uma notcia abruptamente, ou quando o efeito lhe pede certos
preparativos: deve esperar a ocasio e adaptar-se os meios.
No compreendo, como disse, o ofcio de noveleiro.  coisa muito natural que um
homem diga o que sabe a respeito de algum objeto; mas que tire satisfao disso,
l me custa a entender. Mais de uma vez tenho querido fazer indagaes a esse
respeito; mas a certeza de que nenhum noveleiro confessa que o , tem impedido
a realizao deste meu desejo. No  s desejo,  tambm necessidade; ganha-se
sempre em conhecer os caprichos do esprito humano.
O caso de que vou falar aos leitores tem por origem um noveleiro. L-se depressa
porque no  grande.
II
H coisa de sete anos, vivia nesta boa cidade um homem de seus trinta anos, bem
apessoado e bem falante, amigo de conversar, extremamente polido, mas
extremamente amigo de espalhar novas.
Era um modelo do gnero.
Sabia como ningum, escolher o auditrio, a ocasio e a maneira de dar a
noticia.
No sacava a notcia da algibeira como quem tira uma moeda de vintm para dar B
um mendigo.
No, senhor.
Atendia mais que tudo as circunstncias. Por exemplo: ouvira dizer, ou sabia
positivamente que o Ministrio pedira demisso ou ia pedi-la. Qualquer noveleiro
diria simplesmente a coisa sem rodeios. Lus da Costa, ou dizia  coisa
simplesmente, ou adicionava-lhe certo molho para torn-la mais picante.
As vezes entrava, cumprimentava as pessoas presentes, e, se entre elas alguma
havia metida em poltica, aproveitava o silencio causado pela sua entrada, para
fazer-lhe uma pergunta deste gnero:
- Ento, parece que os homens...
Os circunstantes perguntavam logo:
- Que ? Que h?
Lus da Costa puxava os punhos e dizia negligentemente:
-   o Ministrio que pediu a demisso.
- Ah! sim? quando?
-Hoje.
-Sabe quem foi chamado?
- Foi chamado o Zzimo.
Mas por que caiu o Ministrio?
 - Ora, estava podre.
Etc., etc.
Ou ento:
- Morreram como vieram.
- Quem? Quem? Quem?
Lus da Costa puxava os punhos e dizia negligentemente: todos, e em vez de dizer
com simplicidade.
- Os ministros.
Suponhamos agora que se tratava de uma pessoa qualificada que devia vir no
paquete: Adolfo Thiers ou o prncipe de Bismarck.
Lus da Costa puxava os punhos e dizia negligentemente:
-Veio no paquete de hoje o prncipe Bismarck.
Ou ento;
-o Thiers chegou no paquete.
- Chegaria o paquete?
-Chegou, dizia o circunstante.
-o Thiers veio?
-Veio.
Aqui entrava a admirao dos ouvintes com que se deliciava Lus da Costa, razo
principal do seu oficio.
III
No se pode negar que este prazer era inocente e quando muito singular.
Infelizmente no h bonito sem seno, nem prazer sem amargura. Que mel no deixa
um travo de veneno? perguntava o poeta da "Jovem Cativa", eu creio que nenhum
nem sequer o de alvissareiro.
Lus da Costa experimentou um dia as asperezas do seu oficio.
Eram duas horas da tarde. Havia pouca gente na loja do Paulo Brito, cinco
pessoas apenas. Lus da Costa entrou com o rosto fechado como homem que vem
pejado de alguma notcia.
Apertou a mo a quatro das pessoas presentes; a quinta apenas recebeu um
cumprimento, porque no se conheciam. Houve um rpido instante de silncio, que
Lus da Costa aproveitou para tirar o leno da algibeira e enxugar o rosto.
Depois olhou para todos e soltou secamente essas palavras:
- Ento fugiu a sobrinha do Gouveia? Disse ele rindo.
- Que Gouveia?
- O major Gouveia, explicou Lus da Costa.
Os circunstantes ficaram muito calados e olharam de esguelha para o quinto
personagem,  que por sua parte olhava para Lus Costa.
Voltaram-se para um dos circunstantes:
- O major Gouveia da Cidade Nova? Perguntou o desconhecido ao noveleiro.
- Sim, senhor.
Novo e mais profundo silncio.
Lus da Costa, imaginando que o silncio era efeito da bomba que acabava de
queimar, entrou a referir os pormenores da fuga da moa em questo. Falou de um
namoro com um alferes, da oposio do major ao casamento, do desespero dos
pobres enamorados, cujo coracao, mais eloqente que a honra, adotara o alvitre
de saltar por cima dos moinhos.
O silncio era sepulcral.
O desconhecido ouvia atentamente a narrativa de Lus daCosta, meneando com muita
placidez uma grossa bengala que tinha na mo.
Quando o alvissareiro acabou, perguntou-lhe o desconhecido:
- E quando foi esse rapto?
- Hoje de manh.
- Oh!
- Das oito para as nove horas.
- Conhece o major Gouveia?
- De nome.
- Que idia forma dele?
- No formo idia nenhuma. Menciono o fato por duas circunstncias. A primeira 
que a rapariga  muito bonita. . .
-Conhece-a?
Ainda ontem a vi.
- Ah! A segunda circunstancia ...
- A segunda circunstncia e a crueldade de certos homens em tolher os movimentos
do corao da mocidade. o alferes de que se trata dizem-me que c um moo
honesto, e o casamento seria, creio eu, excelente. Por que razo queria o major
imped-lo?
- O major tinha razes fortes, observou o desconhecido,
-Ah! conhece-o?
- Sou eu.
Lus da Costa ficou petrificado. A cara no se distinguia da de um defunto, to
imvel e plida ficou. As outras pessoas olhavam para os dois sem saber o que ia
sair dali. Deste modo correram cinco minutos.
IV
No fim de cinco minutos, o major Gouveia continuou:
-  Ouvi toda a sua narrao e diverti-me com ela. Minha sobrinha no podia fugir
hoje de minha casa; visto que ha quinze dias se acha em Juiz de Fora.
Lus da Costa ficou amarelo.
-  Por essa razo ouvi tranqilamente a histria que o senhor acaba de contar
com todas as suas peripcias. o fato, se fosse verdadeiro, devia causar
naturalmente espanto, porque, alm do mais, Lcia  muito bonita, e o senhor o
sabe porque a viu ontem.. .
Lus da Costa tornou-se verde.
-A noticia entretanto, pode ter-se espalhado, continuou o major Gouveia, e eu
desejo liqidar o negcio pedindo-lhe que me diga de quem a ouviu ..
Lus da Costa ostentou todas as cores do arco-ris.
-Ento? disse o major, passados alguns minutos de silncio.
-Sr. major, disse com voz trmula Lus da Costa, eu no podia inventar
semelhante notcia. Nenhum interesse tenho nela. Evidentemente algum ma contou.
-  justamente o que eu desejo saber.
-No me lembro...
-Veja se se lembra, disse o major com doura.
Lus da Costa consultou sua memria; mas tantas coisas ouvia e tantas repetia,
que j no podia atinar com a pessoa que lhe contara a histria do rapto.
As outras pessoas presentes, vendo o caminho desagradvel que as coisas podiam
ter, trataram de meter o caso  bulha; mas o major, que no era homem de graas,
insistiu com o alvissareiro para que o esclarecesse a respeito do inventor da
balela.
-Ah! agora me lembro, disse de repente Lus da Costa, foi o Pires.
-Que Pires?
-Um Pires que eu conheo muito superficialmente.
-Bem, vamos ter com o Pires.
-Mas, Sr. major..
O major j estava de p, apoiado na grossa bengala, e com um ar de quem estava
pouco disposto a discusses. Esperou que Lus da Costa se levantasse tambm. o
alvissareiro no teve remdio seno imitar o gesto do major, no sem tentar
ainda um:
-Mas, Sr. major...
-No h mas, nem meio mas. Venha comigo; porque  necessrio deslindar o negcio
hoje mesmo. Sabe onde mora esse tal Pires?
-Mora na Praia Grande, mas tem escritrio na Rua dos Pescadores.
-Vamos ao escritrio.
Lus da Costa cortejou os outros e saiu ao lado do major Gouveia, a quem deu
respeitosamente a calada e ofereceu um charuto. o major recusou o charuto,
dobrou o passo e os dois seguiram na direo da Rua dos Pescadores
V
- O Sr. Pires?
-Foi  Secretaria da Justia.
-Demora-se?
-No sei.
Lus da Costa olhou para o major ao ouvir estas respostas do criado do Sr.
Pires. o major disse fleumaticamente:
-Vamos  Secretaria da Justia.
E ambos foram a trote largo na direo da Rua do Passeio. Iam-se aproximando as
trs horas, e Lus da Costa, que jantava cedo, comeou a ouvir do estmago uma
lastimosa petio. Era-lhe porm, impossvel fugir s garras do major. Se o
Pires tivesse embarcado para Santos,  provvel que o major o levasse at l
antes de jantar.
Tudo estava perdido.
Chegaram enfim  Secretaria, bufando como dois touros.
Os empregados vinham saindo, e um deles deu noticia certa do esquivo Pires;
disse-lhe que sara dali, dez minutos antes, num tilburi.
-Voltemos  Rua dos Pescadores, disse pacificamente o major.
-Mas, Senhor...
A nica resposta do major foi dar-lhe o brao e arrast-lo na direo da Rua dos
Pescadores.
Lus da Costa ia furioso. Comeava a compreender a plausibilidade e at a
legitimidade de um crime. o desejo de estrangular o major pareceu-lhe um
sentimento natural. Lembrou-se de ter condenado, como jurado, um criminoso de
morte, e teve horror de si mesmo.
O major, porm, continuava a andar com aquele passo rpido dos majores que andam
depressa. Lus da Costa ia rebocado. Era-lhe literalmente impossvel apostar
carreira com ele.
Eram trs e cinco minutos quando chegaram defronte do escritrio do Senhor
Pires. Tiveram o gosto de dar com o nariz na porta.
O major Gouveia mostrou-se aborrecido com o fato; como era homem resoluto,
depressa se consolou do incidente.
-No h dvida, disse ele, iremos  Praia Grande.
- Isso  impossvel! clamou Lus da Costa.
-No  tal, respondeu tranqilamente o major, temos barca e custa-nos um cruzado
a cada um: eu pago a sua passagem.
-Mas, senhor, a esta hora ...
- Que tem?
- So horas de jantar, suspirou o estmago de Lus da Costa.
- Pois jantaremos antes.
Foram dali a um hotel e jantaram. A companhia do major era extremamente
aborrecida para o desastrado alvissareiro. Era impossvel livrar-se dela; Lus
da Costa portou-se o melhor que pde. Demais, a sopa e o primeiro prato foram o
comeo da reconciliao. Quando veio o caf e um charuto, Lus da Costa estava
resolvido a satisfazer o seu anfitrio em tudo o que lhe aprouvesse.
O major pagou a conta e saram ambos do hotel. Foram direitos  estao das
barcas de Niteri; meteram-se na primeira que saiu e transportaram-se  imperial
cidade.
No trajeto, o major Gouveia conservou-se to taciturno como at ento. Lus da
Costa, que j estava mais alegre, cinco ou seis vezes tentou atar conversa com o
major; mas foram esforos inteis. Ardia entretanto por lev-lo  casa do Sr.
Pires, que explicaria as coisas como as soubesse.
VI
O Sr. Pires morava na Rua da Praia. Foram direitinho  casa dele. Mas se os
viajantes haviam jantado, tambm o Sr. Pires fizera o mesmo; e como tinha por
costume ir jogar o voltarete em casa do Dr. Oliveira, em So Domingos, para l
seguira vinte minutos antes.
o major ouviu esta notcia com a resignao filosfica de quem estava dando
provas desde as duas horas da tarde. Inclinou o chapu mais  banda e olhando de
esguelha para Lus da Costa, disse:
-Vamos a So Domingos.
-Vamos a So Domingos, suspirou Lus da Costa.
A viagem foi de carro, o que de algum modo consolou noveleiro.
Na casa do Dr. Oliveira passaram pelo dissabor de bater cinco vezes, antes que
viessem abrir.
Enfim vieram.
-Est c, o Sr. Pires?
Os dois respiraram.
O moleque abriu-lhes a porta da sala, onde no tardou que aparecesse o famoso
Pires, "l'introuvable"
Era um sujeitinho baixinho e alegrinho. Entrou na ponta dos ps, apertou a mo
de Lus da Costa e cumprimentou cerimoniosamente ao major Gouveia.
-Queiram sentar-se.
-Perdo, disse o major, no  preciso que nos sentemos; desejamos pouca coisa.
O Sr. Pires curvou a cabea e esperou.
O major voltou-se ento para Lus da Costa e disse:
- Fale.
Lus da Costa fez das tripas corao e exprimiu-se nestes termos:
-Estando eu hoje na loja de Paulo Brito contei a histria do rapto de uma
sobrinha do Sr. major Gouveia, que o senhor me referiu pouco antes do meio-dia.
O major Gouveia  esse cavalheiro que me acompanha, e declarou que o fato era
uma calnia, visto sua sobrinha estar em Juiz de Fora, h quinze dias. Intenta
contudo chegar  fonte da notcia e perguntou-me quem me havia contado a
histria; no hesitei em dizer que fora o senhor. Resolveu ento procur-lo, e
no temos feito outra coisa desde as duas horas e meia. Enfim, encontramo-lo.
Durante o discurso, o rosto do Senhor Pires apresentou todas as modificaes de
espanto e de medo. Um ator, um pintor, ou um estaturio teria ali um livro
inteiro para folhear e estudar. Acabado o discurso, era necessrio
responder-lhe, e o Sr. Pires o faria de boa vontade, se se lembrasse do uso da
lngua. Mas no; ou no se lembrava, ou no sabia que uso faria dela. Assim
correram uns trs a quatro minutos.
-Espero as suas ordens, disse o major, vendo que o homem no falava.
-Mas que quer o senhor?-balbuciou o Sr. Pires.
-Que me diga de quem ouviu a notcia transmitida a este senhor. Foi o senhor
quem lhe disse que minha sobrinha era bonita?
-V? disse o major voltando-se para Lus da Costa.
Lus da Costa comeou a contar as tbuas do teto.
O major dirigiu-se depois ao Sr. Pires:
-Mas vamos l, disse; de quem ouviu a notcia?
-Foi de um empregado do tesouro.
- Onde mora?
-Em Catumbi.
O major voltou-se para Lus da Costa, cujos olhos, tendo j contado as tbuas do
teto, que eram vinte e duas, comeavam a examinar detidamente os botes do punho
da camisa.
-Pode retirar-se, disse o major; apertou a mo do Sr. Pires, balbuciou um pedido
de desculpa, e saiu. J estava trinta passos, e ainda lhe parecia estar colado
ao terrvel major. Ia justamente a sair uma barca; Lus da Costa deia correr, e
ainda a alcanou, perdendo apenas o chapu, o herdeiro foi um cocheiro
necessitado.
Estava livre.
VII
Ficaram ss o major e o Sr. Pires.
-Agora, disse o primeiro, h de ter a bondade de me acompanhar  casa desse
empregado do tesouro... Como chama?
-O bacharel Plcido.
-Estou s suas ordens; tem passagem e carro pago.
o Sr. Pires fez um gesto de aborrecimento, e murmurou:
-Mas eu no sei... se...
-Se?
-No sei se me  possvel nesta ocasio..
-H de ser. Penso que  um homem honrado. No  TEM idade para ter filhas moas,
mas pode vir a t-las, e era se e agradvel que tais invenes andem na rua.
-Confesso que as circunstncias so melindrosas; mas poderamos . .
-O qu?
-Adiar?
- Impossvel.
- Ento? disse o major ao cabo de algum tempo de silncio.
-Refleti, disse o bacharel;  melhor irmos a p; eu jantei h pouco e preciso
digerir. Vamos a p...
-Bem, estou s suas ordens.
O bacharel arrastou a sua pessoa at a alcova, enquanto o major, com as mos nas
costas, passeava na sala meditando e fazendo, a espaos, um gesto de
impacincia.
Gastou o bacharel cerca de vinte e cinco minutos em preparar a sua pessoa, e
saiu enfim  sala, quando o major ia j tocar a campainha para chamar algum.
-Pronto?
- Pronto.
-Vamos.
Se uma pipa andasse seria o bacharel Plcido; j porque a gordura no lho
consentia, j porque desejaria pregar uma peca ao importuno, o bacharel no ia
sequer com passo de gente. No andava... arrastava-se. De quando em quando
parava, respirava e bufava; depois seguia vagarosamente o caminho.
Com este era impossvel o major empregar o sistema de reboque que to bom efeito
teve com Lus da Costa. Ainda que o quisesse obrigar a andar era impossvel,
porque ningum arrasta oito arrobas com a simples fora do brao.
Tudo isso punha o major em apuros. Se visse passar um carro, tudo estava
acabado, porque o bacharel no resistiria ao seu convite intimativo; mas os
carros tinham-se apostado para no passar ali, ao menos vazios, e s de longe em
longe um tilburi vago convidava, a passo lento, os fregueses.
O resultado de tudo isto foi que s s oito horas, chegaram os dois  casa do
capito Soares. o bacharel respirou  larga, enquanto o major batia palmas na
escada.
-Quem ? perguntou uma voz aucarada.
-O Sr. capito, disse o major Gouveia.
- Eu no sei se j saiu, respondeu a voz; vou ver.
Foi ver, enquanto o major limpava a testa e se preparava para tudo o que pudesse
sair de semelhante embrulhada. A voz no voltou seno dali a oito minutos, para
perguntar com toda a singeleza.
- O Sr. quem ?
-Diga que  o bacharel Plcido, acudiu o indivduo deste nome, que ansiava por
arrumar a catlica pessoa em cima de algum sof.
A voz foi dar a resposta e da a dois minutos voltou a dizer que o bacharel
Plcido podia subir.
Subiram os dois. O capito estava na sala e veio receber  porta o bacharel e o
major. A este conhecia tambm, mas eram apenas cumprimentos de chapu.
-Queiram sentar-se.
Sentaram-se.
IX
-Que mandam nesta sua casa? perguntou o capito
-Capito, eu tive a infelicidade de repetir aquilo que voc me contou a respeito
da sobrinha do Sr. major Gouveia.
-No me lembro; que foi? disse o capito com uMa cara to alegre como a de um
homem a que estivesse torcendo um p.
-Disse-me voc, continuou o bacharel Plcido, que o namoro da sobrinha do Sr.
major Gouveia era to sabido que at j se falava de um projeto de rapto...
-Perdo! interrompeu o capito. Agora me lembro que alguma coisa lhe disse, mas
no foi tanto como voc acaba de repetir.
- No foi?
-No.
-Ento que foi?
-O que eu disse foi que havia notcia vaga de um namoro da sobrinha de V. Sa.
com um alferes. Nada mais disse. Houve equvoco da parte do meu amigo Plcido.
-Sim, h alguma diferena, concordou o bacharel.
-H, disse o maior deitando-lhe os olhos por cima do ombro.
Seguiu-se um silncio.
-Enfim senhores, disse ele, ando desde as duas horas da tarde na indagao da
fonte da notcia que me deram a respeito de minha sobrinha. A notcia tem
diminudo muito, mas ainda h a um namoro de alferes que incomoda. Quer o Sr.
capito dizer-me a quem ouviu isso?
-Pois no, disse o capito; ouvi-o ao desembargador
-  meu amigo!
-Tanto melhor.
- Acho impossvel que ele dissesse isso, disse o major levantando-se.
- Senhor! Exclamou o capito.
- Perdoe-me, capito, disse o major caindo em si. H de concordar que ouvir a
gente o seu nome assim maltrado por culta de um amigo...
-Nem ele disse por mal, observou o capito Soares. Parecia at lamentar o fato,
visto que sua sobrinha est para casar com outra pessoa.
-  verdade, concordou o major. O desembargador no era capaz de injuriar-me;
naturalmente ouviu isso a algum.
-E provvel.
- Tenho interesse em saber a fonte de semelhante boato, acompanha-me  casa
dele.
-Agora?
-  indispensvel.
- Mas sabe que ele mora no Rio Comprido?
- Sei; iremos de carro.
O bacharel Plcido aprovou esta resoluo e despediu-se dos dois militares.
-No podamos adiar isso para depois? perguntou o capito logo que o bacharel
saiu.
-No, senhor.
O capito estava em sua casa; mas o major tinha tal imprio na voz ou no gesto
quando exprimia a sua vontade, que era impossvel resistir-lhe. O capito no
teve remdio seno ceder.
Preparou-se, meteram-se num carro e foram na direo do Rio Comprido, onde
morava o desembargador.
O desembargador era um homem alto e magro, dotado de excelente corao, mas
implacvel contra quem quer que lhe interrompesse uma partida de gamo.
Ora, justamente na ocasio em que os dois lhe bateram  porta, jogava ele o
gamo com o coadjutor da freguesia, em cujo dado era to feliz que em menos de
uma hora lhe dera j cinco gangas. o desembargador fumava... figuradamente
falando, e o coadjutor sorria, quando o moleque foi dar parte de que duas
pessoas estavam na sala e queriam falar com o desembargador.
O digno sacerdote da justia teve mpetos de atirar o copo  cara do moleque;
conteve-se, ou antes traduziu o seu furor num discurso furibundo contra os
importunos e maantes.
-H de ver que  algum procurador  procura de autos, ou  cata de informaes.
Que os leve o diabo a todos eles.
-Vamos, tenha pacincia, dizia-lhe o coadjutor. V, v ver o que , que eu o
espero. Talvez que esta interrupo corrijo a sorte dos dados.
-Tem razo,  possvel, concordou o desembargador, levantando-se e dirigindo-se
para a sala.
X
Na sala teve a surpresa de achar dois conhecidos.
O capito levantou-se sorrindo e pediu-lhe desculpas do incmodo que lhe vinha
dar. o major levantou-se tambm mas no sorria.
Feitos os cumprimentos, foi exposta a questo. o capito Soares apelou para a
memria do desembargador a quem dizia ter ouvido a notcia do namoro da sobrinha
do major Gouveia.
-Recordo-me ter-lhe dito, respondeu o desembargador, que a sobrinha do meu amigo
Gouveia piscara o olho a um alferes, o que lamentei do fundo d'alma, visto estar
para casar. No lhe disse, porm, que havia namoro...
O major no pde disfarar um sorriso, vendo que o boato ia a diminuir 
proporo que se aproximava da fonte. Estava disposto a no dormir sem dar com
ela.
-Muito bem, disse ele; a mim no basta esse dito; desejo saber a quem o ouviu, a
fim de chegar ao primeiro culpado de semelhante boato.
-A quem o ouvi?
-Sim.
-Foi ao senhor.
- A mim!
 -Sim, senhor; sbado passado.
-No  possvel.
-No se lembra que me disse na Rua do Ouvidor, quando falvamos das proezas
da...
-Ah! mas no foi isso! exclamou o major. o que eu lhe disse foi outra coisa.
Disse-lhe que era capaz de castigar minha sobrinha se ela, estando agora para
casar, deitasse os olhos a algum alferes que passasse.
-Nada mais? perguntou o capito.
-Nada mais.
- Realmente,  curioso.
O major despediu-se do desembargador, levou o capito at Mataporcos e foi
direto para casa, praguejando contra si e todo o mundo.
Ao entrar em casa j estava mais aplacado. O que o consolou foi a idia de que o
boato podia ser mais prejudicial do que fora. Na cama ainda pensou no
acontecimento, mas j se ria da maada que dera aos noveleiros. Suas ltimas
palavras antes de dormir foram:
- Quem conta um conto..



        O Jejuador
        Franz Kafka

        O interesse pelos jejuadores profissionais decresceu sensivelmente nos
        ltimos decnios. Antes, convinha aos empresrios organizar tais
        espetculos, mas atualmente isto se tornou quase impossvel. Vivemos num
        mundo diferente. Houve poca em que a cidade inteira sentia viva
        curiosidade pelo artista da fome, aumentando a excitao  medida que o
        jejum se prolongava, querendo todos v-lo ao menos uma vez por dia.
        Havia mesmo pessoas que compravam bilhetes para os ltimos espetculos,
        sentando-se desde manh at a noite diante das grades da jaula. As
        exibies noturnas eram realadas por archotes e, quando a temperatura
        era amena, levavam a jaula para o ar livre, sendo o jejuador mostrado s
        crianas como divertimento especial. Os adultos, muitas vezes
        consideravam aquilo pilhria, aceita por estar em moda, mas as crianas
        ficavam boquiabertas, de mos dadas para se sentirem mais seguras,
        maravilhando-se ante o homem plido, de costelas salientes, que vestia
        justas calas negras e no tinha sequer uma cadeira, sentando-se na
        palha espalhada no cho. s vezes ele inclinava a cabea cortesmente, ou
        respondia com um sorriso constrangido s perguntas que lhe eram feitas,
        estendendo de vez o brao atravs das grades, para que verificassem como
        estava magro. Recolhia-se depois ao seu mutismo, no prestando ateno a
        nada nem a ningum, nem mesmo ao relgio para ele to importante e que
        era a nica pea de moblia na jaula. Ficava a olhar o vazio, de
        plpebras semicerradas, de vez em quando alcanando um pequeno copo
        d&#8217;gua e tomando um golezinho para umedecer os lbios.
        Alm dos espectadores comuns, havia permanentemente vigias escolhidos
        pelo pblico, que se revezavam. Por estranho que parea, em geral eram
        aougueiros, em grupos de trs, que tinham por obrigao observar o
        jejuador dia e noite, para evitar que ingerisse disfaradamente algum
        alimento. Mera formalidade, instituda para tranqilizar o povo, pois os
        iniciados sabiam perfeitamente bem que, fossem quais fossem as
        circunstncias, nem mesmo a fora o artista se resolveria a quebrar o
        jejum, durante a prova. A honra da profisso o impedia. Nem todos os
        espectadores, naturalmente, eram capazes desta compreenso.
        Freqentemente havia grupos de vigilantes noturnos que relaxavam o
        cumprimento do dever, retirando-se para um canto, onde se deixavam
        empolgar por um jogo de cartas, com a evidente inteno de dar ao
        jejuador ensejo de tomar alimento, que eles supunham existir em algum
        esconderijo. Nada aborrecia mais o artista que semelhantes vigias.
        Faziam-no sentir-se infeliz e tornavam a abstinncia insuportvel. s
        vezes conseguia dominar suficientemente a fraqueza para cantar, o mais
        que lhe era possvel, tentando provar a injustia de tais suposies.
        Isto de nada adiantava, pois os homens apenas admiravam a habilidade que
        lhe permitia comer enquanto cantava. Apreciava mais os guardas que se
        sentavam perto das grades e que, no se contentando com a parca
        iluminao do local, lanavam sobre ele o claro direto das lanternas
        eltricas que o empresrio pusera  sua disposio. A luz dura no o
        incomodava.
        De qualquer maneira, no podia mesmo dormir, mas conseguia cochilar, sob
        qualquer luz, fosse qual fosse a hora, mesmo quando a sala se achava
        repleta de espectadores ruidosos. Ficava satisfeito por poder passar uma
        noite insone em companhia de tais vigias, estando sempre disposto a
        pilheriar com eles, contendo-lhe histrias de sua vida nmade, qualquer
        coisa que os conservasse acordados para demonstrar que no tinha comida
        na jaula e era capaz de uma abstinncia que nenhum deles suportaria. Mas
        o momento mais feliz era quando chegava a manh e vinham servir aos
        guardas, a suas expensas, um farto desjejum, ao qual eles se atiravam
        com feroz apetite de homens robustos, aps cansativa noite de viglia.
        Naturalmente havia quem alegasse ser tal refeio uma desleal tentativa
        de suborno, mas isso era ir longe demais. Quando essas pessoas eram
        convidadas a participar de uma noite de guarda, apenas por amor a arte,
        sem a expectativa do caf da manh esquivavam-se, embora continuassem
        teimosamente a manter suas dvidas.
        Tais suspeitas, no entanto, eram inevitveis na profisso. Impossvel,
        naturalmente, ficar uma pessoa e observ-lo continuamente, dia e noite,
        e ningum poderia garantir, por experincia prpria, que o jejum fora
        rigoroso e ininterrupto. Somente o artista sabia disso, sendo, portanto,
        o nico realmente convicto. Mas, por outros motivos, nunca estava
        verdadeiramente satisfeito. Talvez no fosse apenas o jejum que o
        tivesse reduzido quele estado de magreza que fazia com que muitas
        pessoas se afastassem, embora a contragosto, por no poderem suportar o
        espetculo. A insatisfao para consigo mesmo talvez fosse a verdadeira
        causa de seu depauperamento. S ele sabia o que no era dado a saber nem
        mesmo a outros iniciados: como era fcil jejuar. A coisa mais fcil do
        mundo. No fazia segredo disto, mas o povo no lhe dava crdito. Quando
        muito, consideravam-no modesto, mas a maioria achava que ele estava
        querendo fazer publicidade, ou, ento, que se tratava de um trapaceiro
        que descobrira meio de tornar fcil o jejum e cinicamente o confessava.
        Ele vira-se obrigado a aceitar tal reao e, com o tempo, a ela se
        habituara, mas a ntima satisfao persistia e nunca, justia seja
        feita, deixara a jaula por espontnea vontade, quando chegava o trmino
        da prova. O prazo mximo fora fixado em quarenta dias pelo empresrio,
        que no lhe permitia ir alm, nem mesmo nas grandes cidades. Havia boas
        razes para isso. A experincia demonstrara que, durante 40 dias, a
        curiosidade do pblico podia ser mantida pela presso de anncios, mas
        depois disso o povo comea a se desinteressar, diminuindo o numero de
        simpatizantes. Isto variava, naturalmente, de uma cidade a outra, entre
        este ou aquele pas, mas em geral 40 dias era o limite.
        Assim, no 40o dia abria-se a porta da jaula engrinaldada de flores.
        Entusisticos espectadores enchiam o local, entravam na jaula, para
        verificar o resultado da prova, que era anunciado por meio de
        alto-falante. Finalmente apareciam duas moas, felizes por terem sido
        escolhidas para tal honraria. Iam ajudar o artista a descer os poucos
        degraus que levavam  mesa onde se achava a refeio cuidadosamente
        preparada para um homem em suas condies fsicas. Neste momento, o
        jejuador sempre se mostrava obstinado. Verdade que entregava os braos
        descarnados s duas moas que sobre ele se inclinavam para auxili-lo,
        mas no queria saber de levantar. Por que interromper o jejum
        especialmente neste instante, aps 40 dias? Agentara por muito tempo.:
        por que desistir agora, quando se achava em plena forma, ou, para ser
        exato, ainda no estava em sua melhor forma? Por que negar-lhe a fama
        que teria, se continuasse, a glria de ser, no apenas o recordista da
        fama de todos os tempos (o que talvez j fosse) mas a de sobrepujar seu
        prprio feito, com uma demonstrao que ningum julgaria possvel? Ele
        sabia no haver limite para sua resistncia. J que o pblico parecia
        admir-lo tanto, por que no se mostrava mais paciente? Se ele podia
        suportar uma abstinncia prolongada, por que no agentavam eles o
        espetculo? Alm do mais, estava cansado, achava-se sentado
        confortavelmente sobre a palha, e agora lhe viam exigir que se
        levantasse para comer! S de pensar nisto sentia nusea e somente a
        presena das moas o impedia de manifest-la e, assim mesmo, com
        esforo. Fitou-as, aparentemente to amigas, mas na realidade cruis; e
        sacudiu a cabea que lhe pesava no pescoo enfraquecido. Aconteceu
        ento, o que sempre acontecia. O empresrio adiantou-se sem dizer
        palavra &#8211; a banda impossibilitava qualquer espcie de discurso &#8211; ergueu
        os braos acima do artista, como que a convidar o cu a olhar para
        aquela pobre criatura ali na palha, mrtir que em verdade era, embora
        noutro sentido. Com exageradas precaues, agarrou-lhe a cintura
        emaciada, para que pudessem apreciar devidamente a sua frgil condio,
        e entregou-o as moas, muito plidas, dando-lhes disfaradamente uma
        sacudidela que fez vacilarem suas pernas trpegas. O artista submeteu-se
        agora totalmente, a cabea tombada sobre o peito, como se ali tivesse
        ido parar por acaso. O corpo foi puxado para fora, os joelhos tentavam
        firmar-se um no outro, no instinto de conservao, as pernas se
        arrastavam como se ele no pisasse terreno firme e, apesar disso, o
        procurasse. Leve como pluma, tentou apoiar-se a uma das moas. Ofegante,
        ela olhou  volta em busca de socorro, parecendo achar que o posto de
        honra no correspondia  expectativa, e espichou o pescoo o mais que
        pde para livr-lo do contato desagradvel. Vendo que era impossvel e
        que sua mais feliz companheira no lhe vinha em auxlio, limitando-se a
        segurar na mo trmula o feixe de ossos que era a mo do artista, rompeu
        em pranto, com grande gozo dos espectadores. Teve que ser substituda
        por um funcionrio, que ali se achava de prontido. Chegou a hora da
        comida e o empresrio conseguiu enfiar alguma coisa por entre os lbios
        de seu protegido, que parecia a ponto de desmaiar. Falava ao mesmo
        tempo, alegremente, para que ningum notasse o estado do jejuador.
        Depois, foi feito ao pblico um brinde, aparentemente instigado por um
        murmrio do artista ao ouvido do empresrio. A banda confirmou-o com um
        vigoroso rufar de tambores e o povo foi-se dissolvendo, parecendo todos
        satisfeitos com o que tinham visto, com exceo do homem que se exibira,
        que nunca se sentia satisfeito.
        Assim viveu muitos anos, com pequenos intervalos de recuperao, em
        plena glria, admirado pelo mundo, mas apesar disto infeliz, tanto mais
        que ningum parecia levar a srio seu desgosto. Que palavras de conforto
        precisaria ele ouvir? Que mais poderia desejar? Quando uma pessoa de boa
        vontade, dele se apiedando, tentava consol-lo, dizendo que o jejum
        devia ser a causa de sua tristeza, acontecia ver-se ele tomado de
        clera, principalmente quando a prova j ia adiantada. Com alarme geral,
        punha-se a sacudir as grades da jaula, tal animal selvagem. Mas o
        empresrio tinha meios de pr cobro a essas exploses, com as quais o
        artista gostava de se exibir. Desculpava-se publicamente por tal
        procedimento. Devia ser relevado, dizia ele, por causa da irritabilidade
        provocada pela abstinncia, que pessoas bem alimentadas no estavam em
        condies de compreender. Depois, numa transio natural, mencionava a
        tambm incompreensvel jactncia do homem que se dizia capaz de jejuar
        por prazo maior ainda, elogiava-lhe a ambio, a boa vontade, o esprito
        de sacrifcio implcitos em semelhante declarao. Dava em seguida o
        contragolpe, trazendo os fotgrafos que iriam vender ao pblico retratos
        onde se veria o jejuador, no quadragsimo dia, cado na palha, quase
        morto de exausto. Essa distoro da verdade, embora conhecida do
        artista, tirava-lhe a coragem, deixando-o mais abatido ainda. Aquilo que
        era apenas conseqncia do precoce trmino do jejum era apresentado como
        causa! Impossvel lutar contra a geral incompreenso. Inmeras vezes,
        com o mximo da boa vontade, ficava perto das grades, ouvindo palavras
        do empresrio, mas, assim que chegavam os fotgrafos, caa de novo na
        palha, com um gemido, e o pblico, tranqilizado, podia de novo
        aproximar-se para contempl-lo.
        Anos mais tarde, quando testemunhas de tais cenas as relembravam, no
        podiam s vezes compreend-las.  que, neste meio-tempo, o interesse por
        essas exibies esmorecera, tendo acontecido quase que da noite para o
        dia. Talvez houvesse razes profundas para o fato, mas quem iria se
        preocupar em analis-las? De qualquer maneira, o mimado artista da fome
        viu-se um belo dia abandonado pelas pessoas vidas de divertimento, que
        iam agora em busca de espetculos mais atraentes. Num derradeiro
        esforo, o empresrio correu com ele metade da Europa, a ver se a antiga
        simpatia poderia ser reavivada. Em vo. Em toda a parte, como que por
        secreto acordo, havia positiva repulsa pelos jejuadores profissionais.
        Naturalmente isto no poderia ter surgido assim to de repente. Muitos
        dos sintomas ominosos, aos quais eles no tinham dado suficiente
        ateno, ou que haviam mesmo sido ignorados na embriaguez do triunfo,
        voltavam agora  memria, embora fosse tarde demais. O interesse pelos
        jejuadores certamente teria o seu recrudescimento, um dia, mas isto no
        era consolo para os que atualmente viviam. Que poderia ento fazer o
        artista da fome? Fora aplaudido por milhares de pessoas e no queria
        agora conformar-se com exibies em barracas de feira, nas aldeias.
        Quanto a adotar outra profisso, no somente estava muito velho, como
        era fantico pela sua. Assim, despediu-se do empresrio, companheiro de
        uma carreira inigualvel, e firmou contrato com um grande circo. Para
        no ferir a prpria susceptibilidade, evitou ler-lhe as clusulas.
        Um circo importante, que est continuamente contratando e substituindo
        homens, animais e aparelhamento, sempre pode utilizar um artista, at
        mesmo um jejuador, contanto que no exija muito. No caso presente, no
        estavam os diretores interessados somente no artista, como em sua fama,
        durante longos anos adquirida. Considerando-se a peculiaridade de seu
        ofcio, que no se prejudicara com a idade, no se podia dizer que ali
        estivesse um artista que, tendo ultrapassado a maturidade e no se
        achando mais em plena forma, viera buscar refgio num circo. Pelo
        contrrio, o jejuador afirmava ser capaz de suportar a abstinncia tanto
        quanto antes e disso no se poderia duvidar. Chegou mesmo a declarar que
        se lhe dessem carta branca, o que lhe foi imediatamente prometido,
        poderia assombrar o mundo, estabelecendo um recorde jamais alcanado.
        Tal declarao provocou risos nos outros profissionais, pois no estava
        sendo levada em conta a frieza do pblico, fato que o jejuador, em seu
        zelo, parecera ter convenientemente esquecido.
        No ntimo, ele no deixava de perceber a verdadeira situao.
        Conformou-se em ver sua gaiola colocada, no no meio da arena, como
        principal atrao, e sim fora, perto das jaulas dos animais -&#8211;local,
        afinal de contas &#8211; bastante acessvel. Cartazes grandes e vistosos
        emolduravam a jaula, anunciando o tipo de espetculo. Quando o pblico
        vinha, nos intervalos, ver as feras, tinha de passar pelo jejuador e
        algumas pessoas paravam, por momentos. Talvez se demorassem por mais
        tempo, no fossem os empurres dos que vinham atrs, pela estreita
        passagem, e que no compreendiam o motivo pelo qual eram detidos. Isto
        impedia que os primeiros o examinassem com calma. Foi esta a razo que
        fez com que o artista que aguardara tais visitas como o maior
        acontecimento de sua vida, comeasse a tem-las. A princpio, mal podia
        esperar pelos intervalos. Era excitante ver a multido escoar para o seu
        lado, at que (tarde demais!) apesar do obstinado e quase consciente
        desejo de iludir-se, teve que se render  evidncia. Convenceu-se de que
        aquelas pessoas, a julgar pela sua atitude, procuravam apenas visitar os
        animais. A sensao mais agradvel sempre fora v-los de longe. Quando
        se aproximavam, ficava aturdido com os gritos e insultos dos dois grupos
        dissidentes, sempre renovados, constitudos, um, pelos que desejavam
        parar para observ-lo (no por real interesse e sim por teimosia) e o
        segundo, por aqueles que ansiavam por ver as feras. Logo comeou a
        detestar mais os primeiros. Depois que passava o maior nmero, vinham os
        retardatrios. Embora pudessem contempl-lo  vontade, apressavam-se,
        sem nem mesmo olh-lo, tal o medo de chegarem atrasados s jaulas dos
        animais. Raramente acontecia ter ele um golpe de sorte, quando um pai de
        famlia parava com os filhos, apontando-o e explicando o fenmeno,
        contando histrias de anos passados, quando ele prprio assistira a
        espetculos mais emocionantes. As crianas, sem nada entender, pois nem
        na escola e nem em casa haviam sido preparadas para isto (que lhes
        importava o jejum?) indicavam, pelo brilho dos olhos, que dias mais
        auspiciosos estavam para vir. Talvez as coisas corressem melhor, pensava
        o artista, se no o tivessem colocado to perto dos animais. Isto
        tornava ao povo fcil a escolha, mesmo no se levando em considerao
        que ele sofria com o cheiro desagradvel, a inquietao das feras 
        noite, a passagem dos pedaos de carne crua, o rudo na hora de serem
        alimentados, coisas que o deprimiam profundamente. Mas no ousava
        queixar-se. Afinal de contas, devia aos animais a afluncia de tantas
        pessoas e sempre podia haver algum que o notasse e lembrasse de sugerir
        lugar mais isolado para a gaiola, caso ele chamasse ateno para sua
        existncia e para o fato de, na realidade, nada mais ser do que um
        obstculo  passagem do pblico.
        Pequeno obstculo, no havia dvida, e que cada vez menor se tornava. As
        pessoas familiarizavam-se com a estranha idias de que delas se
        esperava, nestes tempos, que se interessassem pelo artista da fome, e
        esta familiaridade era justamente o veredito contra ele. Poderia jejuar
         vontade e era o que fazia, mas nada agora o salvaria. O povo passava,
        indiferente. Fosse algum explicar a arte do jejum! Quem no a
        apreciasse espontaneamente, jamais chegaria a compreend-la. Os belos
        cartazes foram tornando-se sujos e ilegveis e acabaram sendo em parte
        arrancados. A pequena tabuleta indicando o nmero de dias, havia muito
        marcava a mesma data, pois nem mesmo este pequeno esforo parecia til
        aos funcionrios. Assim sendo, o artista continuava jejuando e jejuando,
        como antes fora seu sonho. Isto no o incomodava, como ele soubera, que
        no o incomodaria. Mas ningum mais contava os dias, ningum.; nem mesmo
        o artista sabia que recorde estaria ele batendo e seu corao se
        confrangia. Quando, de vez em quando, um passante se detinha e zombava
        do velho deitado ali no cho, falando em fraude, tratava-se da mais
        estpida mentira jamais inventada pela indiferena e malcia humanas.
        No era o artista que estava trapaceando. Ele trabalhava honestamente; o
        mundo, sim, o lograva, privando-o da merecida recompensa.
        Muitos dias se passaram e tambm aquilo chegou ao fim. Um fiscal
        apareceu ali e perguntou aos funcionrios por que se desperdiava uma
        jaula que continha apenas um monte de palha suja. Ningum soube
        responder at que um deles, notando o cartaz com o nmero de dias,
        lembrou do artista da fome. Enfiaram um pau na palha e o descobriram.
        - Ainda est jejuando? &#8211; perguntou o inspetor. &#8211; Quando, em nome dos
        cus, pretende parar
        - Perdoem-me todos &#8211; murmurou o artista. Somente o fiscal, que tinha o
        ouvido perto das grades, conseguiu entend-lo
        - Claro que o perdoamos &#8211; respondeu, batendo na testa, como a indicar
        aos empregados o estado mental do jejuador
        - Sempre desejei que admirassem minha resistncia
        - Claro que a admiramos &#8211; disse o fiscal, amavelmente
        - Mas no deviam admirar
        - Est certo, no admiramos, ento, mas por que diz isto?
        - Porque tenho que jejuar, no posso evit-lo.
        - Que tipo voc ! &#8211; exclamou o inspetor &#8211; Por que no pode evit-lo?
        - Porque no consegui encontrar comida a meu gosto &#8211; respondeu o
        artista, erguendo um pouco a cabea e falando junto ao ouvido do outro,
        para que no se perdesse uma slaba. &#8211; Se a tivesse encontrado, creia
        que no teria feito nada disto e me empanturraria como o senhor ou
        qualquer outro.
        Foram estas suas ultimas palavras, mas no olhos apagados restava a
        firme, embora no mais orgulhosa, certeza de que continuaria a jejuar.
        - Pois bem, limpem isto aqui! &#8211; ordenou o fiscal.
        Enterraram o artista da fome, com palha e tudo. Em seu lugar, puseram
        uma jovem pantera. At mesmo as pessoas mais insensveis acharam
        agradvel ver o animal selvagem pulando na jaula que durante muito tempo
        to lgubre parecera. A pantera ia muito bem. A comida que lhe convinha
        era trazida pontualmente pelos empregados e ela nem mesmo dava impresso
        de sentir a ausncia de liberdade. Aquele nobre corpo, provido ao mximo
        de todo o necessrio, parecia trazer em si a prpria liberdade. A
        alegria de viver flua de suas faces com tal ardor, que aos espectadores
        no era difcil suportar o choque. Mas enchiam-se de coragem,
        comprimindo-se  volta da jaula, e acabavam no querendo mais se
afastar.



****

A Dama do P de Cabra
Alexandre Herculano
Trova primeira
Os que no credes em bruxas, nem em almas penadas, nem em tropelias de
Satans assenta aqui ao lar, bem juntos ao p de mim, e contarei a histria de
D.  Diogo Lopes, senhor de Biscaia.
E no me digam no fim: - no pode ser.  Pois eu sei c inventar coisas destas?
Se a conto  porque a li num livro muito velho, quase to velho como o nosso
Portugal.  E o autor do livro velho leu-a algures ou ouviu-a contar, que  o
mesmo, a algum jogral em seus cantares.
 uma tradio veneranda; e quem descr das tradies, ir para onde o pague.
Juro-vos que, se me negais esta certssima histria, sois dez vezes mais
descridos do que S.  Tom antes de ser grande santo.  E no sei se eu estarei de
nimo de perdoar-vos, como Cristo lhe perdoou.
Silncio profundssimo porque vou principiar.
D.  Diogo Lopes era um infatigvel monteiro: neves da serra no inverno, sis de
estivas no vero, noites e madrugadas, disso se ria ele.
Pela manha cedo de um dia sereno, estava D.  Diogo em sua armada, em monte
selvoso e agreste, esperando um porco monts, que, batido pelos caadores, devia
sair naquela assomada.
Eis seno quando comea a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar.
Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ela estava
assentada uma formosa dana, era a dama quem cantava.
O porco fica desta vez livre e quite; porque D.  Diogo Lopes no corre, voa para
o penhasco.
-Quem sois vs, senhora to gentil; quem sois, que logo me cativastes?-
-Sou de to alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis, como tu,
senhor de Biscaia. -
-Se j sabes quem eu seja, ofereo a minha mo, e com ela as minhas terras e
vassalos. -
-Guarda as tuas terras, D.  Diogo Lopes, que poucas so para seguires tuas
montarias; para o desporto e folgana de bom cavaleiro que s.  Guarda os teus
vassalos, senhor de Biscaia, que poucos so eles para te baterem a caa. -
-Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu oferecer digno de vs e de mim que se
a vossa beleza  divina, eu sou em toda a Espanha o rico-homem mais abastado?-
-Rico-homem, rico-homem, o que eu te aceitara em arras coisa  de pouca valia;
mas apesar disso, no creio que mo concedas, porque  um legado de tua me. -
-E se eu te amasse mais que a minha me, porque no te cederia qualquer dos seus
muitos legados?-
-Ento se queres ver-me sempre ao p de ti, no jures que fars o que dizes, mas
d-me disso a tua palavra. -
-A l f de cavaleiro, no darei uma; darei milhentas palavras. -
-Pois sabe que para eu ser tua  preciso esquecer-te de uma coisa que a boa
rica-dona te ensinava em pequenino e que, estando para morrer, ainda te
recordava.
-De que, de que, donzela? -acudiu o cavaleiro com os olhos flamejantes.  -De
nunca dar trguas a mourisma, nem perdoar aos ces de Mafamede? Sou bom
cristo.-
-No  isso, D.  Cavaleiro -interrompeu a donzela a rir.  -O de que eu quero
que te esqueas  do sinal da cruz: o que quero que me prometas  que nunca mais
hs de persignar-te. -
-Isso agora  outra coisa- -respondeu D.  Diogo, que nos folgares e devassides
perdera o caminho do cu.  E se ps a cismar.  E cismando, dizia consigo: - -De
que servem benzeduras? Matarei mais duzentos mouros e darei uma herdade a
Santiago.  Ela por ela.  Um presente ao apstolo e duzentas cabeas de ces de
Mafamede valem bem um grosso pecado. -
E, erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura, exclamou: -Seja assim:
est dito.  V, com seiscentos diabos. -
E, levando a bela dama nos braos, cavalgou na mula em que viera montado.
S quando  noite, em seu castelo, pde considerar miudamente as formas nuas da
airosa dama, notou que tinha os ps forcados como os de cabra.
Dir agora algum: - -Era por certo o demnio que entrou em casa de D.  Diogo
Lopes.  O que l no iria. - Pois sabei que no ia nada.
Por anos a dama e o cavaleiro viveram em boa paz e unio.  Dois argumentos vivos
havia disso: Inigo Guerra e Dona Sol, enlevo ambos de seu pai.
Um dia de tarde, D.  Diogo voltou de grande montear; trazia um javali grande,
muito grande.  A mesa estava posta.  Mandou conduzi-lo ao aposento onde comia,
para se regalar de ver a excelente presa que havia feito.
Seu filho assentou-se ao p dele: ao p da me, Dona Sol; e comearam
alegremente seu jantar.
-Boa montaria, D.  Diogo -dizia sua mulher.  -Foi uma boa e limpa caada. -
-Pelas tripas de Judas! -respondeu o baro.
-Que h bem cinco anos no colho urso ou porco monts que este valha!-
Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata, virou-o de gole  sade de
todos os ricos-homens fagueiros e monteadores.
E a comer e a beber durou at a noite o jantar.
Ora deveis saber que o senhor de biscaia tinha um alo a quem muito queria,
raivoso no travar das feras, manso com seu dono e at com os servos da casa.
A nobre mulher de D.  Diogo tinha uma podenga preta como azeviche, esperta e
ligeira que mais no havia dizer, e dela no menos prezada.
O alo estava gravemente assentado no cho defronte de D.  Diogo Lopes, com as
largas orelhas pendentes e os olhos semi-cerrados, como quem dormitava.
A podenga negra, essa corria pelo aposento viva e inquieta, pulando como um
diabrete: o pelo liso e macio reluzia como um reflexo avermelhado.
O baro, depois da sade urbi et orbi feita aos monteiros, esgotava um kirie
comprido de sades particulares, e a cada nome, uma taa.
Estava como cumpria a um rico-homem ilustre, que nada mais tinha a fazer neste
mundo, seno dormir, beber, comer e caar.
E o alo cabeceava, como um abade velho em seu coro, e a podenga saltava.
O senhor de Biscaia pegou ento um pedao de osso com sua carne e medula e
atirando-a ao alo gritou-lhe: -Silvano, toma l tu, que s fragueiro: leve o
diabo a podenga, que no sabe seno correr e retouar. -
O co abriu os olhos, rosnou, ps a pata sobre o osso e, abrindo a boca, mostrou
os dentes anavalhados.  Era como um rir deslavado.  Mas logo soltou um uivo e
caiu, perneando meio-morto: a podenga, de um pulo, lhe saltara  garganta, e o
alo agonizava.
-Pelas barbas de D.  From, meu bisav! -exclamou D.  Diogo, pondo-se em p,
trmulo de clera e vinho.  -A cadela maldita matou-me o melhor alo da
matilha; mas juro que hei de escorraa-la. -
E virando com o p o co moribundo, mirava as largas feridas do nobre animal,
que expirava.
-A l f que nunca tal vi.  Virgem bendita! Aqui anda coisa de Belzebu!- E
dizendo e fazendo, benzia-se e persignava-se.
-Ui!- gritou sua mulher como se a houvera queimado.  O baro olhou para ela:
viu-a com os olhos brilhantes, as faces negras, a boca torcida e os cabelos
eriados.
E ia-se alevantando, alevantando ao ar, com a pobre Dona Sol debaixo do brao
esquerdo: o direito, estendia-o por cima da mesa para seu filho, D.  Inigo.
E aquele brao crescia, alongando-se para o menino que, de medo, no ousava
bulir nem falar.
E a mo da dama era preta e luzidia, como o plo da podenga, e as unhas
tinham-se-lhe estendido bem meio palmo e recurvado em garras.
-Jesus, santo nome de Deus!- bradou D.  Diogo, a quem o terror dissipara as
fumaas do vinho.  E, travando de seu filho com a esquerda, fez no ar com a
direita uma e outra vez, o sinal da cruz.
E sua mulher deu um grande gemido e largou o brao de Inigo, que j tinha
seguro, e continuando a subir ao alto, saiu por um grande fresta, levando a
filhinha que muito chorava.
Desde esse dia no houve saber mais nem da me nem da filha.  A podenga negra,
essa sumiu-se por tal arte, que ningum no castelo lhe tornou a pr a vista em
cima.
D.  Diogo Lopes viveu muito tempo triste, porque j no se atrevia a montear.
Lembrou-se, porm, um dia de espairecer sua tristura e, em vez de ir  caa dos
cerdos, ursos e zebras, sair  caa dos mouros.
Mandou, pois, alevantar o pendo, desenferrujar e polir a caldeira e provar seus
arnazes.  Entregou a Inigo Guerra, que j era mancebo e cavaleiro, o governo de
seus castelos, e partiu com a lustrosa mesnada de homens darmas para a hoste
del Rei Ramiro, que ia em fossado contra a mourisma de Espanha.
Por muito tempo, no houve dele em Biscaia, nem novas, nem mensageiros.
Trova Segunda
Um dia ao anoitecer.   D.  Inigo estava  mesa, mas no podia cear, que
grandes desmaios lhe vinham ao corao.  Um pagem muito mimoso e privado que, em
p diante dele, esperava seu mandar, disse ento para D.  Inigo:
- Senhor, porque no comeis?-
-Que hei de eu comer, Brearte, se meu senhor D.  Diogo est cativo de mouros,
segundo rezam as caras que ora dele so vindas?-
-Mas seu resgate no  a vossa mofina: dez mil pees e mil cavaleiros tendes na
mesnada de Biscaia: vamos correr terras de mouros: sero os cativos resgate de
vosso pai. -
-O perro del-Rei de Leo fez sua paz com os ces de Toledo e so eles que tem
preado meu pai.  Os condes do rei tredo e vil no deixariam passar a boa hoste
de Biscaia. -
-Quereis, meu senhor, um conselho e no vos custar nem mealha?-
-Dize l, Brearte. -
-Por que no ides  serra procurar vossa me? Segundo ouo contar, ela  grande
fada. -
-Que dizes tu, Bearte? Sabes quem  minha me e que casta  de fada?-
-Grandes histrias tenho ouvido do que se passou certa noite neste castelo:
reis vs pequenino e eu ainda no era nada.  Os porqus destas histrias, isso
Deus  que o sabe. -
" Pois direi eu agora.  Chega-te para c, Brearte. -
O pagem olhou de roda de si, quase sem o querer e chegou-se para seu amo: era a
obedincia e, ainda mais, certo arrepio de medo que o faziam chegar.
-Vs tu Brearte, aquela fresta entaipada? Foi por ali que minha me fugiu.  Como
e porque, aposto que j te ho contado?-
-Senhor, sim!! Levou vossa irm consigo.
-Responder s ao que pergunto! Sei isso.  Agora cala-te. "
O pagem ps os olhos no cho, de vergonha: que era humildoso e de boa raa.
E o cavaleiro comeou o seu narrar:
"Desde aquele dia maldito, meu pai ps-se a cismas: e cismava e amesquinhava-se,
perguntando a todos os monteiros velhos se, porventura, tinham lembrana de
haverem no seu tempo encontrado nas brenhas alguns medos ou feiticeiras.  Aqui
foi um nunca acabar do historias do bruxas e almas penadas.
Havia muitos anos que meu senhor pai se no confessava: alguns havia, tambm,
que estava vivo sem ter enviuvado.  Certo domingo pela manh nasceu alegre o
dia.  Como se fora de pscoa; e meu senhor D.  Diogo acordou carrancudo e
triste, como costumava.  Os sinos do mosteiro, l em baixo no vale.  tangiam to
lindamente que era um cu aberto Ele ps-se a ouvi-los e sentiu uma saudade que
o fez chorar. - Irei ter com o abade&#8212; disse ele l consigo - quero confessar-me.
 Quem sabe se esta tristura ainda  tentao de Satans? O abade era um velhinho
santo, santo.  que no o havia mais.  Foi a ele que se confessou meu pai.
Depois de dizer mea culpa, contou-lhe ponto por ponto a histria do seu noivado.
-Filho -  bradou o frade - fizeste maridana com uma alma penada!-
"Alma penada, no sei " tornou D.  Diogo -  mas era cousa do diabo.
-Era alma em pena: digo eu, filho -  replicou o abade.  -  Sei a histria dessa
mulher das serras.  Est escrita ha mais de cem anos na ltima folha de um
santoral godo do nosso mosteiro.  Desmaios que te vem ao corao pouco me
espantam.  Mais que nsias e desmaios costumam roer l por dentro os pobres
excomungados.
-Ento, estou excomungado?-
-Dos ps at a cabea; por dentro e por fora, que no h que dizer mais nada."
E meu pai, a primeira vez na sua vida, chorava pelas barbas abaixo.
O bondoso abade amimou-o, como a uma criana: consolou-o, como a um
mal-aventurado.  Depois ps-se a contar a histria da dama das penhas, que 
minha me.   Deus me salve!
E deu-lhe por penitncia ir guerrear os perros sarracenos por tantos anos
quantos vivera em pecado, matando tantos deles quantos dias nesses anos tinham
corrido.  Na conta no entravam as sextas-feiras, dia da paixo de Cristo, em
que seria irreverncia tosquiar a vil rel de agarenos, coisa neste mundo mui
indecente e escusada.
Ora a histria da formosa dama das serras, como estava na folha branca do
santoral,  rezava assim, segundo lembranas do abade.
No tempo dos reis godos -  bom tempo era esse -  havia em Biscaia um conde,
senhor de um castelo posto em montanha fragosa, cercado pelas encostas e
quebradas de largussimo soveral.  No soveral havia todo o gnero de caa, e
Argimiro o Negro (assim se chamava o rico-homem) gostava.  como todos os nobres
bares de Espanha, principalmente de trs coisas boas segundo a carnalidade: da
guerra, do vinho e das damas; mas ainda mais do que tudo isso gostava de
montear.
Dama, possua-a formosa, que era a linda condessa; vinho, no havia melhor adega
que a sua; caa, era coisa que na selva no faltava.
Seu pai, que fra caador e fragueiro, quando estava para morrer, chamou-o e
disse-lhe: -"Hs de me jurar uma coisa que no te custara nada."
Argimiro jurou que faria o que seu pai e senhor lhe ordenasse.
" que nunca mates fera em cama e com cria, seja urso, javali ou veado.  Se
assim o fizeres, Argimiro, nunca nas tuas selvas e faltar em que exercites o
mais nobre mister de um fidalgo.  Alm disso, se tu souberas o que um dia me
aconteceu...   Escuta-me, que  um horrendo caso. "
O velho no pde acabar; porque a morte lhe cravou neste momento as garras.
Murmurou algumas palavras emperradas, revirou os olhos e feneceu.  Deus seja com
a sua alma!
Passaram depois anos: certo dia chegou ao castelo do moo conde um mensageiro
d'el-rei Wamba.  Chamava-o el-rei a Toledo para o acompanhar com sua mesnada
contra o rebelde Paulo.  Os outros nobres-homens das cercanias eram,  como ele,
chamados.
Antes, porm, de partirem, ajuntaram-se todos no castelo de Argimiro para
fazerem uma grande montaria, com mais de cem alos, sabujos e lebreus, cinqenta
monteiros e moos de besta sem conto. Era uma vistosa caada.
Saram do quarto dalva: correram vales e montes, bateram bosques e matos. Era,
contudo, meio dia e ainda no haviam alevantado porco, urso, zebra ou veado.
Blasfemavam de sanha os cavaleiros, praguejavam e depenavam as barbas.
Argimiro que, por longa experincia, conhecia os stios mais profundos da
espessura, sentiu l por dentro uma tentao do diabo.
-Os meus hspedes, pensava ele, no partiro sem beberem alguns canjires de
vinho sobre uma ou duas peas de caa. Juro-o por alma de meu pai.
E, seguido de alguns monteiros, com suas trelas de ces, afastou-se da companhia
e deu a andar, a andar, at que se lanou por um vale abaixo.
O vale era escuro e triste: corria por meio uma ribeira fria e mal-assombrada.
As bordas da ribeira eram penhascosas e faziam muitas quebradas.
Argimiro chegou  primeira volta do rio: parou, ps-se a olhar de roda e achou o
que procurava. Abria-se uma caverna na encosta fragosa, que descia at a
estreita senda da margem por onde o cavaleiro caminhava. Argimiro entrou na boca
da cova e, a um aceno, entraram aps ele monteiros, moos de besta, alos,
sabujos e lebreus, fazendo grande matinada.
Era o covil de um onagro: a fera deu um gemido e, deixando suas crias,
estendeu-se no cho e abaixou a cabea, como quem suplicava.
-A ela!- -gritou Argimiro; mas gritou voltando a cara.
A matilha saltou no pobre animal, que soltou outro gemido e caiu todo
ensangentado.
Uma voz soou ento nos ouvidos do conde e dizia:
-rfos ficaram os cachorrinhos do onagro mas pelo onagro tu ficars desonrado.-
Quem ousa aqui falar agouros? - gritou o rico-homem, olhando iroso para os
monteiros Todos guardavam silncio;  mas todos estavam plidos.
Argimiro pensou um momento.  depois, saindo da cova, murmurou: -  V, com mil
Satanases .
E, com alegres toques de buzina e latidos da matilha, fez conduzir ao castelo a
pre que tinha preado.
E,  tomando o seu gerifalte prima em punho, ordenou aos monteiros fossem dizer
aos nobres caadores que dentro de duas horas voltassem, porque achariam em seu
pao comida bem aparelhada.
Depois, seguido dos falcoeiros, comeou a encaminhar-se para o solar, lanando
nebris e falces e ajuntando caa de volateria, que a havia por aqueles montes
mui basta.
Dobrava a campa da torre de menagem no castelo do conde Argimiro: dobrava pela
linda condessa, que seu nobre marido havia matado.
Andas cobertas de d a levam a enterrar ao mosteiro vizinho: os frades vo atrs
das andas cantando as oraes  dos finados; aps os frades vai o rico-homem
vestido de grossa estamenha cingido com uma corda, e rasgando pelas saras e
pedras os ps que levava descalos.
Por que matou ele sua mulher, e por que ia ele descalo? Eis o que, a esse
respeito, refere a lenda escrita na folha branca do santoral.
Dois anos duraram guerras d el-rei Wamba: foram guerras mui de contar. E por l
andou o rico-homem com seus bucelarios, que assim se diziam ento acostados e
homens darmas.  Fez estrondosas faanhas e cavalarias: mas voltou coberto de
cicatrizes, deixando por campos de batalha gasta e consumida a sua valente
mesnada.
E, atravessando de Toledo para Biscaia, seguia-o apenas um velho escudeiro.
Velho e cheio de cs e rugas tambm ele era, no de anos, mas de penas e de
trabalho.
Caminhava triste e feroz no aspecto; porque de seu castelo lhe eram vindas novas
d'entristecer e raivar. E, cavalgando noite e dia por montes e por charnecas por
bosques e por jardins, imaginava no modo como descobriria se eram falsas ou
verdadeiras essas novas de mau pecado.
No solar do conde Argimiro, um ano depois da a sua partida, ainda tudo dava
mostras da mgoa e saudade da condessa: as salas estavam forradas de negro: de
negro eram os trajos dela: nos ptios interiores dos paos crescera a erva de
modo que se podia ceifar: as reixas e as gelosias das janelas no se haviam
tornado a abrir: descantes dos servos e servas, sons de psalterios e harpas
tinham deixado de soar.
Mas ao cabo do segundo ano tudo aparecia mudado: as colgaduras eram de prata e
matiz: brancos e vermelhos os trajos da bela condessa: pelas janelas do pao
restrugia o rudo da msica e dos saraus; o solar de Argimiro estava por dentro
e por fora alindado.
Um antigo vilico do nobre conde fra quem destas mudanas o avisara.  Doam-lhe
tantos folgares e contentamentos.  Doa-lhe a honra de seu senhor pelo que ele
via e pelo que se murmurava.
Eis-aqui como se passara o caso:
Longe do condado do ilustre baro Argimiro o Negro, para as bandas da Galiza,
vivia um nobre gardingo - como quem dissesse infano -  gentil-homem e mancebo,
chamado Astrigildo Alvo.
Contava vinte o cinco anos; os sonhos das suas noites eram do formosas damas;
eram de amores e deleites:  mas, ao romper da manh.  todos eles se desfaziam,
que, ao sair ao campo, no via seno pastoras tostadas do sol e das neves e as
servas grosseiras do seu solar.
Destas estava ele farto.  Mais de cinco tinha enganado com palavras: mais de dez
comprado com ouro; mais de outras dez como nobre e senhor que era, brutalmente
violado.
Com vinte e cinco anos, j no livro da justia divina se lhe haviam escrito mais
de vinte e cinco maldades.
Uma noite sonhou Astrigildo que corria serras e vales com a rapidez do vento,
montado em onagro silvestre, e que, depois de correr muito chegava alta noite a
um solar, onde pedia gasalho. E que formosa dama o recebia, e que em poucos
instantes um do outro se enamorava. Acordou sobressaltado e,  durante o dia
inteiro, no pensou em outra coisa seno na formosa dama que vira naquele sonhar
da madrugada. Trs noites se repetia o sonho: Trs dias o mancebo cismava
encostado  varanda de um eirado.  Na tarde de terceiro dia, olhava triste para
as montanhas do norte, que via l no horizonte.  como nuvens pardacentas.  O sol
comeava a descer no poente, e ainda ele estava embebido em melanclico cismar.
Por acaso, volveu ento os olhos para o terreiro que lhe ficava por baixo: um
onagro da floresta estava ali deitado como se fosse manso jumento; era
inteiramente semelhante quele com que  havia sonhado.
Sonhos da trs noites a fio no mentem: Astrogildo desceu a pressa ao terreiro.
Sem bulir p nem mo o onagro deixou-se enfrear e selar; e, a Deus e   ventura,
 o mancebo cavalgou nele e deitou pela encosta abaixo. Cumpria-se tudo   risca:
o onagro no corria, voava.
Mas o cu comeou de toldar-se com o anoitecer: a escurido cresceu e desfechou
em vento, troves, chuva e raios.  O mancebo perdia a tramontana e o onagro
dobrava a carreira e bufava violentamente.  Parou, enfim a horas mortas.  Sem
saber como, Astrigildo achou-se junto das barreiras de um solar acastelado.
Tocou a sua buzina, que deu um som prolongado e trmulo porque ele tremia da
susto e com frio.  Apenas cessou de tocar, a ponte levadia desceu muitos
escudeiros saram a receb-lo entre tochas  e as salas dos paos iluminaram-se.
Era que tambm a condessa tinha por trs noites sonhado:
A clepsidra aponta a hora de sexta noturna e ainda dura o sarau no solar do
conde de Biscaia; porque a nobre condessa e o gentil Astrigildo assistem s
danas e aos jogos dos libertos e servos que, para eles espairecerem, trabalham
l na sala d'armas.  Mas, num aposento baixo do solar, um homem est em p com
um punhal na mo, olhar furibundo e o cabelo eriado, parecendo escutar
longnqua toada.
Outro homem est diante dele, dizendo-lhe:
-"Senhor, ainda no  tempo para punir o grande pecado.  Quando eles se
recolherem, aquela luz que vedes acol h de apagar-se.  Subi ento, e achareis
desimpedido o caminho secreto para a cmara, que  a mesma do vosso noivado."
E o que falava saiu, e dali a pouco a luz apagou-se  e o homem dos cabelos
hirtos e do olhar esgazeado subiu por uma ngreme e tenebrosa escada.
Quando pela manh cedo o conde Argimiro, do seu balco principal, ordenava que
levassem o corpo da condessa a um mosteiro de donas que ele fundara para ai ter
sou momento, ele e os de sua casa, e dizia aos homens de armas que arrastassem o
cadver de Astrigildo e o despenhassem de um grande barrocal abaixo, viu um
onagro silvestre deitado a um canto do ptio.
"Um onagro assim manso  coisa que nunca vi -  disse ele ao vilico que estava
ali ao p.  -  Como veio aqui este onagro?-
O vilico ia a responder, quando se ouviu uma voz: dir-se-ia que era o ar que
falava. Foi nele que veio Astrigildo.  Ser ele que o levar. Por ti ficaram
rfos os filhinhos do onagro, mas por via do onagro ficaste, oh conde,
desonrado.  Foste cru com as pobres feras: Deus acaba de ving-las.-
-Misericrdia!  bradou Argimiro, porque naquele  momento se lembrou da maldita
caada. Neste comenos os homens do conde saam com o cadver sangrento do
mancebo: o onagro, apenas o viu, saltou como um leo no meio da turba, que fez
fugir, e travando do morto com os dentes, arrastou-o para fora do castelo, e,
como se tivesse em si uma legio de demnios, foi precipitar-se com ele do
barrocal abaixo.
Era por isso que o conde ia cingido de corda e descalo aps os frades e a
turba.  Queria fazer penitncia no mosteiro por haver quebrado o  juramento que
tinha feito a seu pai.
As almas da condessa e do gardingo caram de chofre no inferno, por terem
deixado a vida em adultrio que  pecado mortal. Desde esse tempo as duas
miserveis almas tm aparecido a muita gente nos desvios da Biscaia: ela vestida
de branco e vermelho, assentada nas penhas, cantando lindas toadas: ele
retouando ai perto, na figura do um onagro.
Tal foi a historia que o velho abade contou a meu pai e que ele me relatou a
mim, antes de  ir cumprir sua penitncia nessa guerra de mouros que lhe foi to
fatal.  Assim concluiu Inigo Guerra.  Brearte, o pagem,  sentia os cabelos
arrepiarem-se-lhe.  Por largo tempo ficou imvel defronte de seu senhor: ambos
em silncio.  O moo rico-homem no podia engolir  bocado.
Tirou por fim da escarcela a carta de D.  Diogo para a tornar a ler.  As
misrias e lstimas que o rico-homem ali recontava eram tais que D. Inigo sentiu
o pranto gotejar-lhe abundante pelas faces abaixo.
Ento ergueu-se da mesa para se ir deitar. Nem o baro nem o pagem pregaram olho
toda a noite; este de medroso, aquele de desconsolado.
E nos ouvidos de Inimigo Guerra soavam contnuo as palavras de Brearte: -Por que
no ides  serra procurar vossa me?-S por encantamento seria, de feito,
possvel tirar das unhas dos mouros o nobre senhor de Biscaia.
Rompeu, finalmente, a alvorada.
Trova terceira
 Mensageiros aps mensageiros, cartas sobre cartas so vindos de Toledo a Inigo
Guerra. El rei de Leo resgatava todos os dias cavaleiros seus por cavaleiros
mouros; mas no tinha wali ou kayd cativo que pudesse dar em troca por to nobre
senhor como o de Biscaia.
E muitos dos redimidos eram das bandas das serras, e estes, trazendo mensagens,
contavam ainda mais lstimas do velho D. Diogo, do que, se  possvel, essas de
que rezavam as cartas.
- porta do aguio, em Toledo -diziam eles, tem a mourisma um grande campo,
todo muito bem apalancado. Aqui fazem grandes festas, guinolas e touros nos dias
dos seus perros santos, segundo l pregam e determinam.
-Gaiolas de bestas muitas h ali, coisa de ver e pasmar: os tigres e lees no
as rompem; romp-las mos de homens, fra pequice to somente imagin-lo.
-Numa dessas prises, quase nu, com adovas de ps e mos, est o ilustre rico
homem, que j foi capito de grandes e lustrosas mesnadas.
-Corteses costumam ser mouros com seus fidalgos cativos. Fazem esta perraria a
D. Diogo porque j so passados trs anos e no h ver seu resgate.-
E os peregrinos que vinham do cativeiro e relatavam tais coisas, bem ceiados e
agasalhados no castelo, iam-se no outro dia com Deus, levando provida a
escarcela e em boa e santa paz.
Quem no ficava em paz era D. Inigo: - -Por que no vais tu  serra?- -
dizia-lhe uma voz ao ouvido --Por que no ides procurar vossa me?- repetia-lhe
o pagem Brearte.
Que lhe havia de fazer? Uma noite inteira levou em claro a pensar nisso. Pela
manh, a Deus e  sorte, hei-lo que, enfim, se resolve a tentar a aventura, bem
que de seu mau grado.
Benzeu-se vinte vezes, para no ter l de persignar-se. Rezou o Pater, a Ave e o
Credo; porque no sabia se em breve essas oraes seriam coisa de recordar-se.
E, seguido de um mastim, seu predileto, a p e com uma ascuma na mo, foi-se
atravs das brenhas, por uma vereda que dizia para os pncaros tristes e ermos
onde era a tradio que a linda dama tinha aparecido a seu pai.
Trinam os rouxinis nos balseiros; murmuram ao longe as guas dos regatos;
ramalha a folhagem brandamente com a virao da manh: vai uma linda madrugada.
E Inigo Guerra galga, manso e manso, os carris empinados, trepa de barrocal em
barrocal e, apesar de seu muito esforo, sente bater-lhe o corao com nsia
desacostumada.
Muito havia que andava embrenhado: o sol ia alto e o dia calmoso: ao canto do
rouxinol seguira o rechinar da cigarra.
E encontrou uma fonte que rebentava de rochedo negro e, saltando de aresta em
aresta, vinha cair em almacega tosca, onde o sol parecia danar no bulir das
ondinhas que fazia o despenho da cascata.
D. Inigo assentou-se  sombra da rocha e, tirando a sua monteira, matou a sede
que trazia e ps-se a lavar o rosto e a cabea do suor e p, que no lhe
faltava.
O mastim, depois de beber, deitou-se ao p dele e, com a lngua pendente,
arquejava de cansado.
De repente, o co ps-se em p e arremeteu, com um grande ladro.
D. Inigo volveu os olhos: um jumento silvestre pascia na orla da clareira junto
de um frondoso carvalho.
-Tarik! -gritou o mancebo -Tarik! -Mas Tarik ia avante e no escutava.
-Ai, deixa-o correr, meu filho. No  para o teu mastim levar a melhor deste
onagro.-
Isto dizia uma voz que, l em cima no alto da penha, comeou a soar.
Olhou: uma linda mulher estava a assentada e, com gesto amoroso e riso danjo
para ele se inclinava.
-Minha me! Minha me! -bradou Inigo, levantando-se: e l consigo dizia: - Vade
retro! Santo Hermenegildo me valha.-
-Filho, na boca palavras doces: no corao palavras danadas. Mas que importa, se
s meu filho? Dize o que queres de mim e ser tudo feito a tua vontade.-
O moo nem acertava falar com medo. J a este tempo Tarik gemia uivando debaixo
dos ps do onagro.
-Cativo est de mouros h anos meu pai D. Diogo -disse por fim titubeando. -
Quisera me ensinasseis, senhora, o modo como hei de salv-lo.-
-Seu mal, to bem como tu, eu sei. Se pudesse, ter-lhe-ia acorrido, sem que
viesses requer-lo; mas o velho tirano do cu quer que ele pene tantos anos
quantos viveu com a... com a que sandeus chamam Dama P-de-Cabra.-
-No blasfemeis contra Deus, minha me, que  enorme culpa- -interrompeu o
mancebo, cada vez mais horrorizado.
-Culpa?! No h para mim inocncia nem culpa.-  - replicou a dama, rindo s
gargalhadas.
Era um rir de dorminte, triste e medonho. Se o diabo ri, como aquele dever ser o
riso.
-Inigo! Prosseguiu ela -falta um ano para cumprir-se o cativeiro do nobre
senhor de Biscaia. Um ano passa depressa: mais depressa eu farei passar. Vs tu
aquele valente onagro? Quando uma noite acordando, o achares ao p de ti, manso
como cordeiro, cavalga nele sem susto, que te levar a Toledo onde livrars teu
pai. -E bradando acrescentou: - Ests por isto, Pardalo?-
O onagro fitou as orelhas e, em sinal de aprovao, comeou a azurrar.
Depois a dama ps-se a cantar uma cantiga de bruxas, acompanhando-se de
psalteiro de que tirava muitas estranhas toadas:
Pelo cabo da vassoura,
Pela corda da pol,
Pela vbora que v,
Pela Sura e pela Toura;
Pela vara do condo,
Pelo pano da peneira,
Pela velha feiticeira,
Do finado pela mo
(...)
Que ele durma um ano inteiro,
Como em sono de uma hora,
Junto  fonte que ali chora,
Sobre a relva deste outeiro.
Enquanto a dama cantava, o mancebo sentia um quebrantamento dos membros que
crescia cada vez mais e que o obrigou a assentar-se.
E logo ouviu-se um rudo abafado como de troves e de ventanias engolfando-se em
covoadas: depois o cu comeou a toldar-se e cada vez era mais cris, at que,
enfim, apenas uma luz de crepsculo o alumiava.
E a mansa almacega refervia, e os penedos rachavam, e as rvores torciam-se, e
os ares sibilavam.
E das bolhas da gua da fonte, e das fendas dos rochedos, e dentre as ramas dos
robles, e davastido do ar via-se descer, subir, romper, saltar... o que? Coisa
muito espantvel. Eram mil e mil braos sem corpos, negros como carvo, tendo
nos cotos uma asa, e na mo uma espcie de facho.
Como a palha que o tufo alevanta na eira aquela multido de candeias
cruzava-se. revolvia-se  unia-se, separava-se, remoinhava. mas sempre com certa
cadncia, como que danando a compasso.
D. Inigo andava a cabea  roda; as luzes pareciam azuis, verdes e vermelhas:
mas corria-lhe pelos membros uma languidez to suave que no teve nimo para
fazer o sinal da cruz e afugentar aquele bando de satanases.
E sentia-se esvaecer e pouco a pouco, adormecia e dali a pouco, roncava.
Entretanto, no castelo tinham dado pela sua falta. Esperaram-no ate a noite:
esperaram-no uma semana, um ms, um ano, e no o viam voltar. O pobre Brearte
correu por muito tempo a sorra; mas o stio onde o cavaleiro jazia, isso  que
no havia l chegar.
Inigo acordou alta noite: tinha dormido algumas horas: ao menos  ele assim o
cria Olhou para o cu viu estrelas: apalpou ao redor, achou terra, escutou
ouviu ramalhar as rvores.
Pouco a pouco e que se foi recordando do  que passara com sua mal-aventurada
me; porque, a princpio no se lembrava de nada.
Pareceu-lhe ento ouvir respirar ali perto: .. firmou  a vista: era o onagro
Pardalo. J agora meio enfeitiado estou eu -  pensou ele: - corramos o resto da
aventura. a ver se posso salvar meu pai.
E pondo-se em p. encaminhou-se para o valente animal, que ia estava enfreado e
selado: cujos eram os arreios, isso sabia-o o diabo. Hesitou, todavia. um
momento: tinha seus escrpulos -  a boas horas vinham eles - de cavalgar naquele
corredor infernal.
Ento ouviu nos ares uma voz vibrada, que cantava muito entoado. Era a voz da
terrvel Dama-P-de-Cabra:
Cavalga, meu cavaleiro alentado corredor;
Vai salvar o bom senhor:
Vai quebrar seu cativeiro.
Pardalo, no c comers
Nem  cevada nem aveia
No ters jantar nem ceia,
Rijo e leve voltars.
Nem em aoute, nem espora
Requer ele. oh cavaleiro
Corre corre bem ligeiro,
Noite e dia a toda a hora.
Freio ou sela no lhe tires,
No lhe fales. no o ferres.
Na carreira no te aterres,
Para traz nunca te vires.
Upa! ' firma!  -  avante, avante,!
Breve, breve, a bom correr
Um minuto no perder
Bem que o galo ainda no cante.
V! - gritou Inigo Guerra, com uma espcie de frenesi que nele produzira aquele
cantar estranho e dum pulo cavalgou no quedo onagro. Mas apenas se firmou na
sela, pst! -  hei-lo que parte
Posto que em paz com os cristos. Os mouros de Toledo tm pelas torres, cubelos
e adarves seus atalaias e vigias,, e nos montes que dizem para a fronteira de
Leo seus fachos e almenaras.
Mas se o rei leons soubesse como descuidada jaz Toledo; como ao anoitecer, se
deixam dormir vigias, s deixam de acender fachos, quebraria seus juramentos e
faria contra aquelas partes um repentino fossado.
Salvo ter de ir depois ao seu confessor dizer Deo, e peccavi;  porque o quebrar
o juramento, ainda que seja a ces descridos dizem ser feio pecado.
Era a hora do lusco-fusco: ao sol posto os de Toledo, mirando para a banda do
norte, viram, l muito ao longe, vir correndo uma nuvem negra, ondeando e
fazendo voltas no cu como a estrada as fazia na terra por entre os montes:
dir-se-ia que vinha embriagada.
Era primeiro um pontinho: depois crescera e crescera: quando anoiteceu, estava
j perto e cobria um grande espao.
O almoaden, subindo,  torre da mesquita, chamava os crentes de Mafamede para a
orao da tarde.
Mas com a sua voz esganiada misturou-se o estrondear dos troves: era como um
tiple e um baixo.
E passou um tafo de vento, que, embrenhando-se e remoinhando  nas barbas longas
e brancas do almoaden, lhe fustigou com elas a cara.
Comeou ento a cair uma corda de chuva. que nem moos nem velhos se lembravam
de ter visto coisa semelhante em nenhuma parte.
Aqui vireis os esculcas a aninharem-se nas guaritas das torres; os roldas e
sobre-roldas a fugirem pelos adarves: os facheiros a sumirem-se debaixo das
almenaras, os hadjis a acolherem-se s mesquitas molhados at os ossos; as
velhas, que tinham sado ao vozear do almoaden, levadas pelas torrentes das ruas
tortuosas e estreitas, bradando por Mafoma e por Al. E a gua caindo cada vez
mais!
Dois nicos movimentos fazem ento os moradores de Toledo: uns fogem, outros
agacham-se. E a gua caindo cada vez mais!
O pavor quebra todos os nimos: os cacizes esconjuram a procela: os faquires
penitentes gritam que se acaba o mundo. e que lhes deixe os seus haveres aquele
que quiser salvar-se. E a gua caindo cada vez mais !
A salvao de Toledo foi no se terem fechado suas portas: se assim no
sucedesse, dentro do recinto dos muros morria toda a mourisma afogada.
Na priso estava D. Diogo encostado as grades de ferro. O pobre velho
entretinha-se a ouvir aquele medonho chover; porque a noite era comprida, e ele
no tinha  que fazer mais nada.
Mas, como terreiro ante a sua gaiola de feras era rodeado de muros, a chuva no
podia escoar-se toda. e vinha crescendo de modo que j ele sentia os ps
molhados..
E tambm comeou a ter medo de morrer, apesar de sua misria. Bem sabia D. Diogo
que a morte e a maior delas todas; que no era o senhor de Biscaia ateu,
filsofo nem parvo.
Mas l divisa um vulto alvacento que saltou por cirna do palanque, e sente ao
mesmo tempo no meio do terreiro -  plash!
E ouviu uma voz que dizia&#8212;.. "Nobre senhor. Diogo, onde a que vs vos achais!!!
"Que vejo e ouo ? ! - exclamou o velho - Um trajo que no alveja no  trajo de
ismaelita; uma voz que no o fala algaravia no e de infiel: um salto de tal
altura no e de cavaleiro do mundo. Por vossa f dizei-me, sois anjo ou sois
Santiago."
-Meu pai, meu pai! - acudiu o cavaleiro -  j no conheceis a fala de Inigo ?
Sou eu que venho salvar-vos.-
E D. Inigo descavalgou e, travando das grossas reixas, tentava alui-las: a gua
dava-lhe j pelos artelhos, e ele no fazia nada.
Cheio de aflio, o mancebo quis invocar o nome de Jesus: mas lembrou-se de como
ali viera, e o bento nome expirou-lhe nos lbios. Todavia,
Pardalo pareceu adivinhar o seu ntimo pensamento: porque soltou um gemido agudo
e pronto, como se lhe houvessem tocado com um ferro em brasa.
E, empurrando com a cabea D. Inigo, voltou a anca para a grade.
Pan! - foi o som que se ouviu. Com um s coice, a reixa estava no cho, e as
ombreiras de pedra tinham voado em mil rachas. Quer m'o creiam, quer no, di-lo
a histria: eu com isto no perco nem ganho.
D. Diogo, esse ficou-o crendo: porque uma lasca de pedra bateu-lhe nos dois
ltimos dentes que tinha e meteu-lhos pela goela abaixo. Por isso ele, com a
dor, no podia dizer palavra. Seu filho f-lo cavalgar ante si, e, cavalgando
aps ele, bradou -  " Meu pai, estais salvo!
E Pardalo de um pulo galgou de novo o palanque Pois tinha bons quinze palmos.
Pela manh no havia sinal de chuva; o ar estava limpo e sereno, o quando os
mouros foram ver o que sucedera a D. Diogo Lopes no lhe acharam sequer o rasto.

Inigo e seu pai, o velho senhor de Biscaia, passam as portas de Toledo com a
rapidez da frecha: num abrir e fechar d'olhos ficam-lhes para traz muros,
torres, barbacs e atalaias. A btega vai diminuindo: rasgam-se as nuvens, e
vem-se  j reluzir algumas estrelas, que parecem outros tantos olhos com que o
cu espreita atravs do negrume o que se passa c em baixo.
A estrada, pelas descidas e subidas dos recostos, converteu-se em leito de
torrente, nos plair os converteu-se em lago. Mas, quer pelos lagos quer pelas
torrentes, o valente onagro rompia avante, bufando como um  danado.
No subiram bem um monte, j descem pelo outro recosto abaixo; ainda bem no
chegaram a uma clareira, j sentem em profunda floresta gotejarem-lhes em cima
os ramos agitados das rvores.
Pouco mais  de meia-noite, e os topos nevados do Vindio recortam o cho
estrelado do cu j limpo, semelhantes aos dentes de uma serra gigante capaz de
dividir crceo o hemisfrio austral do hemisfrio boreal. E Pardalo investe,
sempre em galope desfeito. com as montanhas disformes. E desce aos vales
temerosos, e cada vez mais ligeiro, como o seu nome o indica, parece menos
quadrpede que pssaro.
Mas que rudo e esse que sobreleva ao do vento:. Que e isso que, l ao longe,
ora alveja ora reluz nas trevas, como uma alcatia de lobos envoltos em sudrios
brancos, com os olhos s descobertos, e despregando em fio pelo fundo do vale
abaixo ?
 um rio caudal e furioso, com o seu manto de escuma, e com as escamas angulosas
de seu dorso eriado, onde batem e chispam os raios das estrelas em mil reflexos
quebrados.
Negreja sobre o rio uma ponte, ao meio desta um vulto esguio -  " Ser um marco,
uma esttua ? -  pensaram os cavaleiros. Pinheiro no pode ser: no consta que
em pontes nasam."
Pardalo ria-se de rios: pontes, fazia tanto cabedal delas como de um retrao de
palha. Todavia, bem que pudesse de um pulo salvar vinte ribeiras como aquela,
foi-se direito  ponte: porque no era animal que fizesse fricas escusadas.
Semelhante a relmpago, se arrojou o onagro aquele passo estreito. Mas, t!...
Ei-lo que de repente pra. E tremia como varas verdes, e arquejava com
violncia: os dois cavaleiros olharam.
O vulto esguio era um cruzeiro de pedra alevantado a meia ponte: por isso
Pardalo emperrava. Ento, dentre uns altos choupos, que da margem d`alm se
meneavam, um pouco mais abaixo  daquele stio, ouviu-se uma voz fadigosa e
trmula que cantava:
Para traz, para trs, a  galgar.
J!
De redor, de redor vem passar
C!
Que no ha nada aqui que te impea.
Buz,
Nem palavra, vs dois!!
Fugi dessa Cruz !"
Santo Nome da Cristo! - exclamou D. Diogo, benzendo-se ao escutar aquela voz que
conhecia, mas que, depois de tantos anos, no esperava ali ouvir porque seu
filho no lhe dissera que meio achara para o salvar.
Apenas o grito do velho soou, assim ele como D. Inigo foram bater contra o poial
do cruzeiro onde ficaram de bruos envoltos em lodo. O onagro ao sacudi-los de
si, soltara um rugido de besta-fera. Sentiram ento um cheiro intolervel de
enxofre e de carvo de pedra ingls, que logo se percebia ser cousa de Satans.
E ouviram como um trovo subterrneo; e a ponte balanava, como se as entranhas
da terra se despedaassem.
Apesar do seu grande terror, e de chamar pela Virgem Santssima, D. Inigo abriu
um cantinho do olho para ver o que se passava.
Ns os homens costumamos dizer que as mulheres so curiosas. Ns e que o somos.
Mentimos como uns desalmados.
Que veria o cavaleiro? Um fojo aberto, bem prximo dele sobre a ponte, e que
depois rompia pela gua.
E depois pelo leito do rio: e depois pela terra dentro, dentro; e depois pelo
teto do inferno, que outra coisa no podia ser um fogo muito vermelho que
reverberava daquela profundidade. Tanto era assim, que ainda l viu passar de
relance um demnio com um desconforme espeto nas mos cm que levava um judeu
empalado.
E Pardalo descia remoinhando por esse boqueiro como uma pena caindo em dia
sereno do alto do uma torre abaixo.
Aquela vista fez perder os sentidos a D. Inigo que indo tambm a chamar por
Jesus achou que no podia proferir este nome sagrado. De terror, tanto o velho
como o moo ficaram ali em desmaio. Quando tornaram a si, com o romper do sol
claro, conheceram o stio em que se achavam. Era a ponte prxima  aldeia de
Nusturio, no alto da qual campeava o castelo construdo por D. From o saxnio,
avoengo de D. Diogo Lopes e primeiro senhor de Biscaia.
Nenhum vestgio restava do que ali se passara; os dois modos e cheios de lodo o
pisaduras, foram-se arrastando como puderam at encontrar alguns vilos a quem
se deram a conhecer, e que  os levaram a casa.
Festas que em Nusturio se fizeram por sua vinda, coisa  que no vos direi;
porque no tarda a hora de cear, rezar e deitar.
D. Diogo pouco tempo viveu: todos os dias ouvia missa; todas as semanas se
confessava. D. Inigo, porm, nunca mais entrou na igreja, nunca mais rezou e no
fazia seno ir a serra caar.
Quando tinha de partir para as guerras de Leo, viam-no subir a montanha armado
de todas as peas e voltar de l montado num agigantado onagro.
E o seu nome retumbou em toda a Espanha, porque no houve batalha em que
entrasse que se perdesse, e nunca em nenhum encontro foi ferido nem derrubado.
Diziam  boca pequena em Nusturio que o ilustre baro tinha pacto com Belzebu.
Olhem que era grande milagre!
Meio precito era ele por sua me; no tinha que vender seno a outra metade da
alma.
Por oitenta por cento do lucro no recibo de um egresso, a d a inteira ao demo
qualquer onzeiro, e cr ter feito uma limpa veniaga.
Fosse como fosse, Inigo Guerra morreu velho: o que a histria no conta  o que
ento se passou no castelo. Como no quero improvisar mentiras, por isso no
direi mais nada.
Mas a misericrdia de Deus  grande. A cautela rezem por ele um Pater e uma Ave.
Se no lhe aproveitar, seja por mim. Amm.



A morta apaixonada
Theophile Gautier
Padre, voc est curioso em saber se alguma vez provei o amor: pois bem, sim. A
minha  uma histria singular e terrvel e, embora eu tenha agora setenta anos,
sempre sou bastante contrrio  idia de remexer as cinzas de tal recordao.
Mas a voc no quero recusar nada; em todo caso, jamais faria um relato deste
gnero a uma alma menos experiente do que a sua. Trata-se de acontecimentos to
estranhos que quase no me atrevo a acreditar que tenham, realmente, acontecido
comigo. o certo  que me encontrei, durante pouco mais de trs anos,  merc de
uma iluso diablica. Eu, pobre s sacerdote de aldeia, vivi todas as noites em
sonho. Bastou-me lanar apenas um olhar, talvez um tanto complacente, sobre uma
criatura do sexo feminino, para quase arriscar a perda de minha alma; porm, por
sorte, finalmente, com a ajuda de Deus e de meu santo protetor, consegui
expulsar o esprito maligno que me possua. Minha existncia, em certo momento,
se complicara com uma vida noturna complementar e em grande contraste com a
outra. Durante o dia eu era um padre casto inteiramente ocupado em pregaes e
obras santas, mas de noite mal cerrava os olhos, me transformava em um jovem
ocioso, fino conhecedor de mulheres, cachorros e cavalos, jogador de dados,
bebedor e blasfemo; e quando acordava, ao amanhecer, a impresso que tinha era a
de estar ainda dormindo, sonhando que me fazia passar por sacerdote.
Dessa vida noctmbula ficou-me a lembrana, desgraadamente indelvel, de
palavras e objetos que nunca deveria ver; e embora jamais tenha sado das
paredes de meu presbitrio, dir-se-ia, ouvindo me falar, que eu fora, ao
contrrio, um homem vivido que, depois de ter-se aproveitado de todos os
prazeres deste mundo, aproximava-se da religio para acabar no seio de Deus sua
jornada demasiado turbulenta, e no o humilde seminarista que na realidade fui,
envelhecido depois em uma parquia ignorada da maioria, escondida, no fundo de
um bosque, onde nunca tive ocasio de ter nenhuma relaco com as coisas deste
sculo.
Sim, amei como talvez ningum no mundo tenha amado jamais, com um amor furioso,
de tal maneira violento que at eu me espantei que meu corao ainda no tenha
rebentado, com semelhante tenso. Ah! Que noites! Que noites!
Desde a mais tenra infncia senti a vocao sacerdotal, pelo que todos os meus
estudos foram orientados para esta finalidade, e minha vida, at os vinte e
quatro anos, foi somente um longo noviciado. Concludos meus estudos em Teologia
e colados todos os graus menores, meus superiores me consideraram digno, apesar
de minha extrema juventude, a transpor o ltimo e mais terrvel umbral.
Estabeleceu-se que eu seria ordenado sacerdote durante a semana da Pscoa.
At ento nunca estivera fora do recinto que compreendia colgio e seminrio;
sabia de um modo vago da existncia de algo que respondia ao nome de "mulher",
mas nunca pus meu pensamento nisso. era de uma perfeita inocncia.
No lamentava nada e assim sendo no sentia a menor hesitao diante do
compromisso irrevogvel que ia assumir. Sentia-me cheio de alegria e de
impacincia. Acredito que nunca noivo algum tenha contado as horas que o separam
do casamento com ardor mais febril que o meu: no possa sequer dormir, excitado
pela idia de que poderia rezar a missa. Ser sacerdote: no concebia nada mais
belo neste mundo; teria recusado converter-me em rei ou poeta.
Ao chegar o grande dia dirigi-me para a igreja com passo to leve que parecia
ter asas nas costas. Eu me sentia semelhante a um anjo e estranhava o rosto
sombrio e preocupado de meus companheiros, pois eram muitos os que seriam
ordenados. Passara a noite em oraes, e achava-me em um estado de exaltao
prximo ao xtase. o bispo, venervel ancio parecia-me Deus na atitude de
contemplar sua prpria eternidade Atravs das abobadas do templo eu entrevia o
cu.
Voc, irmo, conhece todos os pormenores da cerimnia. beno, comunho uno
das palmas das mos com o leo dos catecmenos, para culminar com o santo
sacrifcio, que se oferece em unssono com o bispo
Oh, quanta razo tinha J! Quo atrevido  no fazer um pacto antecipado com os
prprios olhos! Por azar, levantei de repente a cabea e, de repente, vi diante
de mim to prxima que teria podido toc-la (embora, na realidade, estivesse bem
mais distante) uma jovem de rara beleza, vestida como uma rainha. Foi como se
tivessem cado escamas de meus olhos; experimentei a sensao de um cego ao
recobrar de repente a viso. o bispo, to esplendoroso at aquele momento,
apagou-se de imediato, os crios empalideceram em seus candelabros de ouro como
as estrelas quando sobrevem a manh, e em toda a igreja imperaram as trevas
absolutas. A fascinante criatura sobressaa naquele cenrio sombrio como uma
revelao divina; parecia iluminar-se por si mesma, como se fosse ela uma fonte
de luz.
Baixei as plpebras, decidido a no levant-las nunca mais para subtrair-me a
qualquer sugesto que pudesse proceder do exterior; pois o certo  que me sentia
cada vez mais desatinado e sabia cada vez menos o que devia fazer.
Um minuto mais tarde reabri os olhos, porque, atravs das plpebras, via-a
brilhar numa penumbra avermelhada. como se eu estivesse olhando para o Sol.
Oh, como era bela! Os maiores pintores, mesmo quando procuram realizar o teatro
da Virgem, e para isso buscam representar um tipo ideal de beleza, no se
aproximam nem de longe daquela fabulosa realidade. Nenhum pincel de pintor,
nenhum verso de poeta poderia dar idia dela. Eu ainda no sei se a chama que a
iluminava vinha do cu ou do inferno, mas estou certo que chegava de um ou de
outro.
 medida que a observava sentia que se abriam em mim portas de cuja existncia,
at ento, nem sequer suspeitara, e a vida aparecia me sob uma luz muito
diferente. Era como se eu estivesse nascendo para uma nova existncia, para
outra ordem de idias. Uma espantosa angstia me oprimia o corao, e cada
minuto que passava me parecia, ao mesmo tempo, um segundo e um sculo.A
cerimnia, enquanto isso, prosseguia, e me transportava cada vez mais longe
daquele mundo, cuja entrada meus desejos recm-descobertos assediavam
furiosamente. No obstante no momento decisivo disse "sim" Teria desejado dizer
"no", tudo em mim se rebelava e protestava contra o atropelo que minha lngua
fazia  minha alma; contra a minha vontade, uma fora oculta arrancava-me as
palavras da garganta, Algo semelhante deve acontecer a muitas meninas que vo ao
altar com a firme determinao de recusar o marido que lhes foi imposto de
maneira dolorosa: chegado o momento nenhuma concretiza o seu propsito. Algo
igual deve acontecer a todas as pobres novias que acabam recebendo o vu mesmo
quando resolvidas a desfaz-lo em pedaos no momento dos votos. Ningum se
atreve a fazer eclodir tal escndalo na presena de todos, nem decepcionar as
esperanas de tantas pessoas excelentes. Adivinha-se, tecida e concentrada em
sua resposta, toda a vontade de cada um dos presentes; seus olhares fixos os
oprimem como uma couraa de chumbo. E alm disso, tudo se acha to perfeitamente
preparado por antecipao, e parece to evidentemente irrevogvel, que qualquer
reao pessoal se rende sob aquele peso enorme e no pode seno ceder
definitivamente.
O olhar da bela desconhecida mudava gradualmente de expresso  medida que a
cerimnia prosseguia. A princpio terna e acariciante tingia-se cada vez mais de
uma espcie de desdm e desaprovao como exprimindo descontentamento por no
ter sido ouvida. Fiz um esforo, que por si fora bastante para mover uma
montanha, procurando expressar em um grito minha vontade de renunciar ao
sacerdcio. Mas no o consegui. A lngua, tinha-a pregada na boca, e foi
impossvel para mim traduzir minha inteno no mais insignificante gesto de
negativa. Encontrava-me, ainda que acordado, numa espcie de pesadelo.
Ela parecia notar o martrio que eu estava sofrendo e, como se quisesse
encorajar-me, atirou-me um olhar prenhe de divinas promessas Seus olhos eram um
poema, cada olhar deles constitua um verso.
Era com se dissesse:
&#8220;Se quiseres ser meu, eu certamente te farei mais feliz do que Deus pode
fazer-te no Paraso; os anjos tero inveja de ti. Rasga esse sudrio fnebre com
que vo te cobrir. Eu sou a beleza, a juventude, a vida. Vem para mim; juntos,
seremos o amor. Nossa existncia ser como um sonho, e ser apenas um longo,
eterno beijo. Derrama o vinho do clice que te oferecem e sers livre. Eu te
guiarei a paragens desconhecidas; dormirs sobre o meu seio, em um leito de ouro
macio, sob um dossel de prata. porque te amo e quero arrebatar-te a Deus, para
o qual tantos nobres coraes vertem inutilmente torrentes de amor, que nem
mesmo chegam at ele."
Parecia-me ouvir estas palavras acompanhadas por uma msica de infinita
suavidade, pois seu olhar tinha qualquer coisa de sonoro, e as palavras que seus
belssimos olhos me transmitiam ressoavam no fundo do meu corao como se uma
boca invisvel mas insuflara na alma. Sentia-me tremendamente propenso a
renunciar a Deus, porm, apesar disso, continuava a cumprir maquinalmente todas
as formalidades da cerimnia. A bela atirou-me um olhar to suplicante e
desesperado que foi como se folhas afiadas transpassassem meu corao.
Mas, por fim, estava acabado: eu j era sacerdote. Creio que jamais um rosto
humano soube exprimir angstia mais dilacerante: a jovem que v cair ao seu lado
o seu noivo, fulminado de repente por uma sncope; a me que encontra vazio o
bero de seu filho; o avarento que encontra uma pedra onde tinha seu tesouro. o
poeta que deixou tombar no fogo a nica cpia do manuscrito de sua obra mais
importante no tm certamente uma expresso mais angustiada e inconsolvel.
Fez-se branca como o mrmore, os belssimos braos caindo-lhe ao longo do corpo.
Apoiou-se a uma coluna, como se as pernas no pudessem sustent-la. Quanto a
mim, estava lvido, a fronte banhada de um suor mais ardente que o do Calvrio.
Encaminhei-me vacilante para a porta da Igreja; sufocava. Parecia que as
abbadas esmagavam minhas costas; sentia-me como se devesse sustentar, sozinho,
todo o peso da abbada.
Estava a ponto de transpor o umbral quando uma mo segurou bruscamente a minha:
uma mo de mulher! Nunca a havia tocado: era fria como pele de serpente, e
contudo deixou-me uma sensao de ardor como a marca de um ferro em brasa. Era,
com toda certeza, ela.
"Infeliz! Que fizeste?", sussurrou-me. Depois, desapareceu entre o populacho.
Passou por mim o velho bispo. Examinou-me com ar severo. Efetivamente, minha
aparncia devia parecer-lhe muito estranha: empalidecia e me ruborizava com
freqncia e, sem razo aparente, a cabea rodava. Um dos meus companheiros teve
compaixo de mim e deu-se ao incmodo de acompanhar-me de novo; sozinho, com
toda certeza no teria encontrado o caminho do seminrio. Ao passar por uma
ruazinha, enquanto meu companheiro olhava para outro lado, um criadinho negro,
estranhamente vestido, aproximou-se de mim e, sem se deter me entregou uma
pequena carteira preciosamente adornada, fazendo-me sinais de que a escondesse.
Ocultei-a na manga e no a tirei seno quando me achei a ss em minha cela. Fiz
saltar o fecho: dentro havia somente duas folhinhas de papel com estas palavras
escritas: Clarimonda, palcio Concini Estava to pouco informado, naquela poca,
das coisas deste mundo, que nada sabia de Clarimonda embora por toda parte se
falasse muito dela, e alm disso ignorava inteiramente onde se localizava o
palcio Concini. Formulei mil conjecturas, uma mais extravagante do que a outra,
mas o que na verdade contava para mim era conseguir tornar a v-la, e no me
importava muito o que ela fosse: grande dama ou cortes.
Aquele amor recm-nascido tinha-se arraigado de maneira indestrutvel, e nem
mesmo pensei na possibilidade de extirp-lo. Aquela mulher me dominava, naquela
ocasio, completamente; com apenas um olhar fizera de mim outro homem, me
injetara sua prpria vontade. Eu me portava de modo estranho, beijava minha mo
no local em que ela a tinha roado, horas inteiras repetia seu nome. Bastava
fechar os olhos para v-la to nitidamente como se estivesse presente, e repetia
sempre as palavras que ela pronunciara na porta da igreja: "Infeliz, que
fizeste?" Compreendia o horror de minha situao e todos os aspectos mais
sombrios de meu estado me apareciam com nitidez: ser sacerdote queria dizer
permanecer casto, no fazer o amor, no se preocupar nunca com o sexo nem com a
idade, afastar os olhos de toda beleza, comportar-se como um cego, arrastar-se
sempre pela sombra glida de um claustro ou de uma igreja, no manter contatos
seno com moribundos, velar cadveres de desconhecidos, e trazer sempre o luto
dessa sotaina negra que, sem mudar nada, poderia servir tambm como sudrio para
ser nele enrolado no atade!
Como fazer para tornar a ver Clarimonda? No achava nenhum pretexto para sair do
seminrio, pois no tinha amigos na cidade. Alm disso, nem mesmo ia ficar na
redondeza, pois esperava que me destinassem para uma parquia. Tentava arrancar
as grades de minha janela, porm estava a uma altura impressionante, e, alm
disso, no dispunha de uma escada de cordas, razo pela qual era intil pensar
naquilo. Por outro lado, somente poderia descer  noite, e como poderia me guiar
no labirinto de ruas que eu mal conhecia? Todas estas dificuldades, que para
outro talvez fossem insignificantes, pareciam intransponveis para o infeliz
seminarista, recm-nascido para o amor, sem experincia, sem dinheiro e sem
roupas.
Ah! Se no tivesse me ordenado sacerdote teria podido v-la todos os dias; teria
sido seu amante, seu esposo, eu me dizia, cego como estava e, em vez de me
encontrar aqui envolto neste sinistro sudrio, vestiria roupas de seda e veludo,
corrente de ouro, espada e plumas, como todos os bons cavalheiros. Meus cabelos,
em lugar de receber a humilhao de uma ampla tosura, cairiam ondulados ao redor
do meu pescoo numa confuso de cachos. Teria formosos bigodes, untados: seria
um gal. Em troca, apenas uma hora passada diante de um altar, alguma meia
palavra articulada de m vontade, tinham bastado para tirar-me inteiramente do
mundo dos vivos. eu mesmo tinha cavado minha sepultura, eu mesmo fechara o
ferrolho de minha priso! Cheguei  janela. o cu parecia maravilhosamente azul,
as rvores vestiam suas roupas primaveris, a Natureza resplandecia com uma
alegria que me parecia uma farsa. A praa do lugar estava cheia de gente que ia
e vinha. Jovens pares se dirigiam, enlaados para a sombra dos jardins ou dos
parreirais. Passavam alguns grupos entre cantos e estribilhos de pessoas que
bebem. Tal movimento, o mpeto e a alegria reinantes faziam. ressaltar, mais
lastimosamente ainda, minha luta e minha solido No pude suportar o espetculo,
fechei a janela e me atirei sobre a cama, cheio de dio e cimes irrefreveis no
corao, mordendo meus dedos e o cobertor, como o faria uma tigresa com fome de
trs dias.
No sei quanto tempo estive assim; mas, enquanto me resolvia na cama com raivoso
espasmo, vi de repente o abade Serapio imvel no centro do quarto,
perscrutando-me atentamente. Tive vergonha de mim mesmo e, deixando cair a
cabea sobre o peito, cobri os olhos com as mos.
"Romualdo, meu amigo, algo anormal passa-se contigo&#8212; disse-me mansamente
Serapio, aps alguns minutos de silncio. &#8212; Tua conduta , na verdade,
inexplicvel. Um ser piedoso manso e doce como tu se agita em sua cela como uma
fera. Toma cuidado, irmo, para no ouvir as sugestes do diabo, porque o
esprito maligno, irritado por saber-te desde hoje consagrado ao Senhor, te
ronda e faz o ltimo esforo para atrair-te para ele. Em lugar de te deixares
abater, querido Romualdo, constri para ti uma forte couraa de preces e de
mortificaes, e combate com vigor o teu inimigo: somente assim vencers. A
prova  necessria  virtude As almas mais aguerridas sofreram momentos
semelhantes. Reza, medita, jejua: o esprito maligno bater em retirada"
O discurso do abade Serapio ajudou-me, fazendo com que me reencontrasse,
restituindo-me um pouco de calma.
"Vinha para te anunciar tua nomeao para a parquia de C. Morreu o sacerdote
que a atendia at agora, e o bispo designou-te para suced-lo. Estejas pronto
amanh."
Assenti com um movimento de cabea, e o abade me deixou outra vez sozinho. Abri
o missal e comecei a ler uma orao, mas as palavras se confundiam diante dos
meus olhos, e o livro deslizou de minha mo sem que eu fizesse nada para
segur-lo. Partir amanh sem ter tornado a v-la! Acrescentar uma ulterior
impossibilidade a todas as.que j se interpunham entre ns. Perder para sempre a
esperana de encontr-la, seno por um milagre. E se lhe escrevesse? Mas, a quem
confiar a carta? A quem poderia confiar-me vestido, como estava, dos sagrados
ornamentos? Senti uma angstia indizvel. Voltou  minha mente o que o abade
dissera dos ardis do diabo, a esquisitice de toda a aventura, a beleza
sobrenatural de Clarimonda, o resplendor fosforescente de suas pupilas, o tato
ardente de suas mos, a perturbao em que eu cara, a transfigurao que se
operara em mim, minha devoo que se evaporara em um instante, tudo provava com
clareza a interveno de Satans e talvez aquela sedosa mo no fosse seno a
luva que cobria sua garra. Estes pensamentos trouxeram-me um imenso terror;
recolhi o missal e voltei a rezar.
No dia seguinte, Serapio veio buscar-me. Duas mulas esperavam na porta, com
nossas poucas bagagens. Percorrendo as ruas da cidade, perscrutava ansiosamente
cada janela, para ver se em alguma aparecia Clarimonda, porm ainda era muito
cedo e a cidade ainda no abrira os olhos. Meu olhar procurava penetrar alm dos
cortinados que cobriam as janelas dos palcios ao longo de nosso trajeto.
Serapio certamente devia atribuir esse meu interesse  admirao pela elegante
arquitetura daqueles lugares, porque demorava o passo de sua cavalgadura para
dar-me tempo de ver todas as coisas. Finalmente chegamos s portas da cidade, e
comeamos a subir a colina. J no alto voltei-me pela ltima vez para ver de
novo os lugares onde vivia Clarimonda. A sombra de uma nuvem obscurecia toda a
cidade. Os tetos azuis e vermelhos estavam dispersos em uma meia-luz geral,
sobre a qual flutuavam, com brancas mechas de espuma, as brumas da manh. Por um
singular efeito ptico ressaltava, dourado pelo nico raio de luz, um edifcio
que ultrapassava em altura s construes prximas, imergidas na nvoa e embora
se encontrasse, na realidade, a mais de uma lgua de ns, parecia-me muito
prximo e podia distinguir todos os seus pormenores.
"Que palcio  esse, iluminado pelo sol?", perguntei a Serapio.
Protegeu-se da luz com a mo e me respondeu:
"E o antigo palcio que o prncipe Concini deu de presente  cortes Clarimonda.
Parece que  cenrio de monstruosas orgias".
Justamente naquele momento, fosse realidade ou iluso pareceu-me perceber no
terrao uma clara figura pequena que atilou por um instante, apagando-se em
seguida. Era Clarimonda! Saberia ela, por acaso, que nesse mesmo momento, do
alto daquele spero caminho que mais me afastava dela, eu cobria com meus olhos
a sua casa, que um brincalho jogo de luzes parecia colocar ao alcance de minha
mo, quase me convidando a entrar nela como senhor? Certamente, ela devia
sab-lo: sua alma era por demais semelhante  minha para no sentir minhas
prprias confuses e era, por certo, este sentimento que a tinha impelido, amada
envolta em seus vus noturnos, a sair ao terrao no comear da manh.
A sombra engoliu, por fim, o palcio, restando-me apenas um oceano imvel de
tetos, alm dos quais no se distinguia seno uma ondulao montanhosa. Serapio
esporeou a sua mula e a minha a seguiu. Uma curva do caminho tirou para sempre
de minha vista a cidade  qual j no devia retornar.
Depois de trs dias de viagem, atravs de campos desolados, vimos apontar o alto
do campanrio da igreja onde devia servir Transcorrido um caminho tortuoso,
rodeado de cabanas e currais, encontramo-nos diante do edifcio.  esquerda
surgia o cemitrio cheio de mato, com uma grande cruz de ferro no centro. A
direita, o presbitrio, desnudo e msero. o abade Serapio ajudou na minha.
instalao, e retornou depois ao seminrio. Fiquei, portanto, sozinho, sem outro
apoio seno eu mesmo. A lembrana de Clarimonda voltou a obcecar-me e, apesar de
todos os esforos que fiz para afugent-la, no o consegui.
Uma noite bateram com fora na porta. A velha servente foi abrir, e um homem de
pele morena, luxuosamente vestido, recortou-se no umbral. Alguma coisa em seu
aspecto amedrontou a principio a anci, porm o homem a tranqilizou e disse-lhe
que viera buscar-me para uma tarefa prpria do meu ministrio. Sua patroa, uma
grande dama, estava  morte e desejava um sacerdote. Apanhei o que era
necessrio para a extrema-uno e depressa em segui-lo. Diante da porta
resfolegavam nervosos dois cavalos, negros como a noite, e uma fumaa quente
saa de suas narinas. O homem ajudou-me a montar um dos corcis e de saltou
sobre o outro. Apertou os joelhos e deixou livres as rdeas, e seu cavalo partiu
como uma flecha. o meu seguia, devorando o caminho. Via a terra desaparecer
distante de ns, cinzenta e sulcada: os perfis sombrios das rvores fugiam nos
lados como um exrcito em retirada. Atravessamos um bosque to escuro e gelado
que me correu pela pele um calafrio de terror  supersticioso. As centelhas, que
as ferraduras de nossos corcis arrancavam das pedras, formavam atrs de ns uma
esteira de fogo, e se algum tivesse podido nos ver, a mim e ao guia, naquela
hora da noite, nos seria tomado por dois espectros a cavalo, cada qual um
ncubo.
A crina dos dois cavalos emaranhava-se cada vez mais. rios de suor corriam por
seus flancos, mas quando os via extenuados o escudeiro, para os reanimar, dava
um grito gutural, que nada tinha de humano, e a corrida retomava fria ainda
maior. Por fim aquele torvelinho cessou: uma massa negra, constada por alguns
pontos luminosos, apareceu de improviso diante de ns. o passo das cavalgaduras
ressoou com estrpito sobre um pavimento de ferro, e passamos sob uma escura e
sinistra arcada que se abria entre duas imensas torres. No castelo reinava
grande agitao: bandos de criados, portando archotes, atravessavam o ptio em
todas as direes, e luzes diversas saam e desciam lentamente. De modo confuso
pude entrever imensas arquiteturas, arcadas, colunas, rampas, um conjunto de
construes digno de um palcio real.
Um pajenzinho negro, o mesmo que me entregara o bilhete de Clarimonda e que
reconheci no mesmo instante, ajudou-me a descer da sela, e um mordomo, vestido
de veludo negro, veio em minha direo, apoiando se em um basto de marfim.
Grossas lgrimas corriam-lhe pelas faces sobre a barba branca.
"Muito tarde!&#8212;disse, movendo a cabea.&#8212;Muito tarde Mas se no chegou a tempo
para salvar a alma, venha ao menos velar seu corpo."
Segurou-me por um brao e conduziu-me  cmara morturia. Eu chorava tanto
quanto ele porque adivinhara que a morta no era outra seno a minha Clarimonda,
to desesperadamente amada.
Ajoelhei-me, sem ousar olhar o catafalco que estava no meio da habitao, e
pus-me a recitar os salmos com fervor, agradecendo a Deus por ter interposto um
tmulo entre aquela mulher e eu, o que me permitia citar na orao o seu nome,
agora santificado. Contudo, pouco a pouco meu santo fervor diminuiu e comecei a
fantasiar. Aquela cmara nada tinha de morturia. Em lugar do ar ftido e
cadavrico que se respirava em tais lugares, um lnguido perfume de leos
orientais, um no sei qu afrodisaco odor de mulher flutuava suavemente no ar
tpido. A fraca luz da sala parecia antes uma iluminao sabiamente disposta
para a voluptuosidade, no o lvido reflexo que em geral palpita perto de um
cadver. Pensava no estranho caso que me fazia encontrar de novo Clarimonda
exatamente no momento em que a perdia para sempre, e um suspiro de dor
escapou-me do peito.
Pareceu-me ouvir tambm um suspiro s minhas costas, e me voltei
instantaneamente. Era somente o eco, mas nesse movimento meus olhos pousaram
sobre o catafalco que antes procurava no fitar.
Os cortinados de damasco prpura deixavam ver a morta, estendida, com as mos
unidas sobre o peito. Estava coberta com um lenol de linho, de uma brancura
deslumbrante, que sobressaa mais ainda ao lado da cor sangnea dos cortinados
e to fino que no conseguia esconder nada do sedutor relevo daquele corpo. Pois
bem, dir-se-ia uma esttua de alabastro ou, melhor ainda, uma jovem adormecida
sobre a qual tivesse cado neve.
No podia conter-me mais: aquele ar de alcova me excitava, e eu caminhava a
largos passos por toda a sala, detendo-me a contemplar continuamente a formosa
defunta sob a transparncia do sudrio. Estranhos pensamentos cruzavam pela
minha mente. Imaginava que no estava, na realidade, morta e que tudo no
passava de um ardil seu para atrair-me ao castelo e falar-me do seu amor.
Ento disse a mim mesmo: "Ser mesmo Clarimonda? Que prova tenho disso? o
pajenzinho negro poderia ter trocado de senhor. Sou um louco ao me desesperar
assim". Aproximei-me do leito morturio e olhei com intensidade ainda maior a
causa do meu tormento. Devo confess-lo? A perfeio de suas formas me
perturbava mais do que o conveniente e seu repouso era to semelhante a um
simples sono que qualquer um poderia enganar-se.
Esqueci que estava ali para um servio fnebre e julguei-me um esposo pela
primeira vez na cmara da jovem que pudica cobre o rosto. Transtornado pela dor,
arrebatado de alegria tremendo de medo e de prazer, inclinei-me para ela e
lentamente ergui a ponta do sudrio, retendo a respirao com receio de
acorda-la. Era efetivamente Clarimonda, como a vira na igreja no dia em que fora
ordenado sacerdote; estava sedutora como naquele dia. e a morte acrescentava-lhe
apenas uma atrao complementar. Permaneci longamente absorto naquela muda
contemplao, e quanto mais a olhava menos podia convencer-me de que a vida,
realmente, tivesse abandonado esse estupendo corpo. Toquei-lhe levemente o
brao; estava frio, porm no mais do que a sua mo quando roara a minha sob o
portal da igreja. Ah! Que amargo sentimento de desespero e de impotncia! Que
agonia aquela viglia. A noite avanava e, sentindo aproximar-se o momento da
separao eterna, no pude evitar a triste e suprema doura de pousar um leve
beijo sobre os lbios daquela que tivera todo o meu amor. Oh, prodgio! Uma leve
respirao uniu se  minha e os lbios de Clarimonda corresponderam  presso
dos meus seus olhos abriram-se, recobraram a luz, e ela, suspirando, separou os
braos e os lanou em volta do meu pescoo,  com uma expresso de inefvel
xtase.
"Romualdo - me disse com voz languida e doce, como as ltimas vibraes de uma
harpa &#8212; que ests fazendo? Esperei-te por tanto tempo que morri. Mas estamos
noivos. Poderei ver-te e chegar at onde estiveres. Adeus, Romualdo, adeus. Te
amo e te oferecerei esta vida que tu reclamaste em mim por um momento com um
beijo. At logo."
Inclinou para trs a cabea, enquanto seus braos ainda me prendiam. Um remoinho
de vento abriu vivamente a janela e penetrou na sala. A lmpada apagou-se e eu
cai desmaiado sobre o peito da formosa defunta.
Quando recuperei os sentidos, achei-me estendido em meu leito, no pequeno
dormitrio do meu presbitrio. A velha servente azafamava-se na casa com senil
agitao, abrindo e fechando gavetas, ou misturando terras nos vasos. Ao ver-me
abrir os olhos, a anci lanou um pequeno grito de alegria, porm eu estava to
fraco que no pude dizer nem uma palavra nem fazer qualquer gesto. Depois vim a
saber que permanecera naquele estado durante trs dias inteiros, no dando outro
sinal de vida seno uma respirao quase imperceptvel. A servente contou-me que
o mesmo homem de pele escura que viera buscar-me naquela noite, tinha-me trazido
na manh seguinte em uma liteira, partindo em seguida. Assim que pude concatenar
as idias, repassei mentalmente todas as circunstncias daquela fatdica noite.
A princpio, pensei que talvez tivesse sido vtima de uma iluso, mas a
evidncia de circunstancias reais e palpveis destruiu logo esta hiptese. No
podia acreditar que sonhara desde o momento cm que a servente vira o homem dos
cavalos negros, do qual eu lembrava o quanto me parecera estranho. Entretanto,
ningum sabia da existncia nos arredores de um castelo semelhante quele no
qual tornara a ver Clarimonda.
Certa manh vi entrar o abade Serapio. Enquanto pedia notcias de minha sade
com um tom hipocritamente meloso, fixava em mim suas amarelas pupilas leoninas,
e cravava seus olhares como uma sonda no fundo da alma. Depois fez-me algumas
perguntas sobre a forma como eu governava minha parquia, se me sentia bem nela,
em que empregava meu tempo livre, quais eram minhas leituras favoritas, e outras
questes insignificantes no mesmo estilo. A conversao evidentemente no tinha
nenhuma relao com o que, na realidade, viera dizer-me. De repente, sem
qualquer preambulo, como se de sbito houvesse lembrado de algo que temesse
esquecer, disse-me com voz clara e vibrante, que ressoou em meus ouvidos como se
fossem as trombetas do Juzo Final:
"A cortes Clarimonda morreu h alguns dias depois de uma orgia de oito dias e
oito noites. Foi uma coisa fantstica e infernal. Repetiram-se os fatos
horripilantes do festim de Baltazar e de Clepatra. Os convidados eram servidos
por escravos de pele negra que falavam uma lngua desconhecida e que, no meu
entender, no so seno demnios. A respeito de Clarimonda correram muitas
lendas estranhas e todos os seus amantes acabaram de modo miservel ou violento.
Disseram tambm que era uma vampira. Para mim,  Belzebu em pessoa".
Calou-se, observando-me mais atentamente ainda, como para ver o efeito que em
mim produziam suas palavras. Eu no pudera evitar um gesto ao ouvir o nome de
Clarimonda, e a perturbao e o terror se manifestaram em meu rosto, embora eu
fizesse de tudo para controlar-me. Serapio lanou-me um olhar preocupado e
severo. Depois me disse:
"Filho meu, devo pr-te em guarda. Tens um p sobre um abismo: procure no cair
nele. Satans usa de pacientes argcias, e os tmulos nem sempre so
definitivos. Seria necessrio fechar a laje sepulcral de Clarimonda com trplice
selo, pois parece que esta no  nem mesmo a primeira vez que morreu. Deus vele
sobre ti, Romualdo."
E Serapio, voltando-me as costas, afastou-se lentamente.
Depois de estar completamente restabelecido retomei minhas funes rotineiras. A
lembrana de Clarimonda e as palavras do velho abade estavam sempre presentes em
meu esprito, apesar de que nenhum acontecimento extraordinrio tivesse vindo
confirmar as funestas prevenes de Serapio. Comeava a pensar que seus temores
e meus terrores eram excessivos, quando uma noite tive um sonho. Mal adormecera,
quando senti erguerem-se os cortinados de meu leito.
Sentei-me no leito bruscamente e vi que uma sombra feminina estava diante de
mim. Reconheci logo Clarimonda. Tinha na mo uma lamparina dessas que se colocam
nos tmulos, cujo resplendor tornava ainda mais transparentes seus dedos
afilados. Por toda roupa, levava o sudrio, cujas pregas segurava sobre o ventre
como se envergonhada por estar to escassamente vestida, mas sua pequena mo no
conseguia inteiramente seu intento. Era to branca que a alvura do lenol se
confundia com a palidez de sua carne sob o dbil raio da pequena lmpada.
Envolta naquele fino tecido que revelava todos os contornos de seu jovem corpo,
dir-se-ia antes o marmreo retrato de uma antiga banhista do que uma mulher
viva. Porm, morta ou viva, esttua ou mulher, sombra ou corpo, sua beleza era
sempre a mesma; apenas a luz esverdeada de suas pupilas estava levemente apagada
e plida sua boca. Pousou a lamparina sobre a mesa e se jogou aos ps do leito,
dizendo-me depois, inclinando-se sobre mim, com aquela sua voz argentina e
aveludada que jamais ouvi em outra pessoa:
"Fez-me esperar muito, querido Romualdo; pensaste, talvez, que eu te esquecera.
Mas tive que vir de muito distante, e de um lugar de onde ningum retorna; no
existe sol nem lua no pas do qual venho, nem espao, nem sombra, nem caminho
para o p, nem ar para as asas, e, contudo, aqui estou: meu amor  mais forte do
que a morte e terminar por venc-la Quantos rostos esmaecidos e terrveis vi em
minha viagem. Com que pesar minha alma, retornada  vida pela fora da vontade,
teve de adaptar-se novamente ao meu corpo. Que cansao levantar a terra com que
me cobriram. Olha: a palma de minhas mos est machucada. Beija-a: somente assim
a curars, amor querido.&#8221;
Aplicou-me sobre os lbios, uma depois da outra, suas frias palmas. Beijei-as
muitas vezes, enquanto ela me olhava com um sorriso de inefvel complacncia.
Confesso, para minha vergonha, que esquecera completamente os conselhos do abade
Serapio, e meu prprio hbito talar. Cara sem opor qualquer resistncia ao
primeiro embate. Nem mesmo procurara rechaar a tentao. A frescura que emanava
da pele de Clarimonda penetrava na minha e sentia correr pelo meu corpo
voluptuosos calafrios. Pobre menina! Apesar de tudo o que depois vi, ainda me
causa pena acreditar que fosse um demnio, pelo menos no tinha, em absoluto,
aparncia disso, e Satans jamais encobriu melhor suas astcias. Estava deitada
sobre o encosto de minha cama, em uma atitude cheia de espontnea seduo; de
quando em quando passava suas mos pelos meus cabelos e formava cachos como se
quisesse experimentar o efeito, em torno do meu rosto, de diferentes adereos.
Eu a deixava fazer com a mais culposa complacncia, enquanto ela acompanhava
seus gestos com uma sedutora conversa.
"Te amava muito ainda antes de ver-te, querido Romualdo. E buscava-te por todas
as partes. Vi-te na igreja naquele fatdico momento e disse a mim mesma em
seguida: " ele'. Quo ciumenta estou de Deus, a quem amas mais do que a mim.
Quo desgraada sou. J no terei teu corao somente para mim, eu por ti forcei
meu tmulo e venho dedicar-te a minha vida, que retomei somente para fazer-te
feliz."
Cada frase era interrompida por carcias delirantes , que me aturdiram at o
ponto de, para consol-la, ousar eu proferir uma blasfmia terrvel e dizer que
a amava pelo menos tanto quanto a Deus. Imediatamente suas pupilas brilharam.
" verdade, me amas tanto quanto a Deus&#8212;exclamou, abraando-me.&#8212;J que  assim,
virs comigo e me seguirs aonde eu v. Abandonars esses horrendos trajes
negros Sers o mais formoso e o mais invejado dos cavalheiros. Sers o meu
amante.
No  ruim ser amante confesso de Clarimonda, daquela que recusou um papa! Que
vida doce e dourada teremos. Meu senhor, quando partimos?"
"Amanh! Amanh!", gritei, em meu delrio.
"Est bem, amanh &#8212; concordou Clarimonda. &#8212;Assim terei tempo de me trocar: o
vestido que visto  por demais mesquinho, no  conveniente para uma longa
viagem. Alm disso preciso avisar os meus servidores que ainda julgam que estou
morta. Dinheiro, roupas, carruagem, tudo estar pronto amanh. Virei buscar-te a
esta mesma hora."
Apenas roou minha fronte com seus lbios, a lamparina apagou-se, as cortinas
fecharam-se de novo e eu j no via nada. Um sono de chumbo, um sono sem
pesadelos me envolveu deixando-me na inconscincia at a manh seguinte.
Despertei mais tarde do que costumava, e a lembrana daquela singular apario
me perturbou durante todo o dia. Acabei por convencer-me de que tudo fora fruto
de minha exaltada imaginao. Entretanto, as sensaes tinham sido to vivas que
me era difcil acreditar que no tinham sido reais e no foi sem apreenso que
me meti na cama,  noite, depois de ter pedido a Deus que me livrasse de todo
perverso pensamento e protegesse a castidade de meu sono.
Logo dormi profundamente e o sonho do dia anterior se repetiu. Os cortinados
ergueram-se, aparecendo Clarimonda, no mais difana em seu branco sudrio,
porm alegre e esplendorosa em um magnfico vestido de veludo verde com bordados
de ouro. Suas tranas ruivas escapavam-se de um amplo chapu negro, carregado de
penas brancas; segurava na mo uma pequena vara flexvel com um apito de ouro na
ponta. Tocou-me suavemente e me disse:
"Ora essa, belo dorminhoco.  assim que te preparas? Pensava encontrar-te de p.
Apressa-te, no h tempo a perder. Veste-te e partamos".
Saltei fora do leito. Ela mesma me entregou as roupas, tirando-as de um pacote
que trouxera, rindo-se de minha falta de jeito, e indicando-me seu uso exato
quando, devido  pressa, me enganava. Ela mesma me penteou, aproximando de mim
depois um espelho. "Gostas? Queres empregar-me como tua camareira pessoal?"
No era eu mesmo. No me parecia com o que antes era tanto quanto uma esttua
no lembra o bloco de pedra da qual foi esculpida. Era belo, e minha vaidade se
via sensivelmente exigida por essa metamorfose. Aquelas elegantes vestes, aquele
rico gibo bordado, faziam de mim uma pessoa completamente diferente. o esprito
de minha roupa penetrava em minha pele. Dei alguns passos pelo aposento para
conseguir uma certa liberdade de movimentos. Clarimonda me observava, satisfeita
com a sua obra.
"Bem, j basta de criancices, queridssimo Romualdo. Temos de ir muito longe e 
tempo de nos pormos a caminho, se quisermos chegar."
Tomou-me pela mo, arrastando-me com ela. Todas as portas, misteriosamente, se
abriam assim que ela aparecia.
Fora, encontramos Margaritone, o escudeiro que me servira de guia na primeira
vez. Segurava pela rdea trs cavalos negros, um para cada um de ns.
Aqueles cavalos, com toda certeza deviam ter nascido de guas fecundadas pelo
zfiro, porque galopavam mais velozes do que o vento, e a Lua, que se levantara
no momento de nossa partida para iluminar-nos, rodava no cu como a roda
desprendida de um carro: ns a vamos brincar de rvore em rvore e esforar-se
por manter-nos atrs dela.
A partir daquela noite minha natureza se duplicou em certo sentido: existiam em
mim dois homens, um no conhecendo o outro. As vezes julgava-me um sacerdote que
todas as noites pensava ser um jovem senhor, e outras vezes um jovem senhor que
sonhava ser um sacerdote. J no conseguia distinguir o sonho da viglia, e no
sabia onde comeava a realidade e onde terminava a iluso. o jovem senhor, ftuo
e libertino, ria-se do sacerdote, e este detestava as aes dissolutas do jovem
senhor Duas espirais encaixadas uma na outra, sem nunca se tocarem contudo,
representariam bem a imagem daquela vida dupla que foi a minha. Apesar da
estranheza da situao no acredito, porm, ter beirado a loucura, nem mesmo por
um momento. Sempre conservei bem exata a percepo de minhas duas existncias.
Havia somente um fato ilgico que eu no conseguia explicar, quer dizer, o
sentimento de um mesmo "eu" que podia subsistir em dois homens to diferentes.
Restava o fato de que eu estava, ou acreditava estar, em Veneza. Ainda hoje no
posso discernir bem quanto houve de realidade e quanto de iluso nesta estranha
aventura. Vivamos em um grande palcio de mrmore sobre o Canal Grande, rico em
esttuas e afrescos, com dois Ticianos de sua melhor fase no dormitrio de
Clarimonda. Tnhamos  nossa disposio uma gndola e um barqueiro cada um, uma
sala de msica e nosso poeta particular.
Levava uma existncia principesca e levantava murmrios como se pertencesse 
famlia de um dos doze apstolos ou dos quatro evangelistas. Freqentava a
melhor sociedade, filhos de papai, tambm arruinados, atrizes, vigaristas,
parasitas e espadachins. No obstante, apesar dos costumes dissolutos, permaneci
fiel a Clarimonda. T-la era como desfrutar de vinte amantes diferentes, como
possuir todas as mulheres, to movedia, volvel, multiforme era ela: um
verdadeiro camaleo. Fazia cometer com ela mesma a infidelidade que se teria
cometido com outras assumindo por completo o carter, o porte e o tipo de beleza
da mulher que naquele momento nos impressionara.
Eu teria sido inteiramente feliz no fosse aquele maldito pesadelo que me
acossava toda noite, fazendo-me crer que era um pequeno cura de aldeia que se
macerava e fazia penitncia por seus desvarios diurnos. tranqilizado pelo
hbito de estar com Clarimonda, nem mesmo pensava j no modo estranho como nos
conhecramos. Contudo, as palavras do abade Serapio voltavam s vezes  minha
mente, angustiando-me.
H algum tempo j que a sade de Clarimonda era menos perfeita. Tornava-se cada
dia mais plida. Os mdicos no compreendiam nada de sua doena e no sabiam o
que fazer. Prescreveram um remdio sem importncia e no voltaram mais.
Mas ela continuava empalidecendo a olhos vistos e sua pele estava cada vez mais
fria. Aparecia branca e sem foras quase como naquela noite fatal, no castelo
desconhecido Ficava desesperado por v-la definhar assim. Comovida com a minha
dor, ela me sorria docemente com a expresso melanclica de quem sabe que logo
vai morrer.
Uma manh estava tomando a primeira refeio junto ao seu leito, para no a
deixar sozinha nem um s instante. Quando cortava uma fruta, por acaso fiz um
corte bastante profundo em um dedo o sangue brotou em seguida em vermelho
arroiozinho, e algumas gotas salpicaram Clarimonda. De imediato seus olhos
lanaram chispas, sua fisionomia adquiriu uma expresso de selvagem alegria que
eu antes jamais lhe vira. Pulou fora da cama com agilidade animal, como um gato
ou um macaco e precipitou-se sobre minha ferida, pondo-se a chup-la com
indizvel deleite. Sorvia o sangue a curtos tragos, lenta e gostosamente, como
um perito que saboreia um vinho de Xerez. Entrefechava os olhos: sua pupila
tornara-se oblonga. De quando em quando interrompia-se para beijar-me a mo, e
depois continuava pressionando seus lbios sobre a ferida, procurando fazer sair
algumas gotas mais do purpreo liquido. Quando viu que j no saa sangue,
levantou-se, com os olhos midos e brilhantes, mais rsea do que aurora de maio,
o rosto recomposto, a mo morna e mida, em suma, mais bela do que nunca e em
perfeito estado.
"No morrerei mais. No morrerei mais! &#8212; gritou louca de alegria, pendurando-se
ao meu pescoo. - Minha vida est na tua, e tudo o que  meu vem de ti. Umas
gotas de teu rico e nobre sangue, mais precioso do que qualquer elixir, me
devolveram a vida."
Esta cena me deixou profundamente meditabundo suscitando-me os mais estranhos
pensamentos a respeito de Clarimonda. Nessa mesma noite, mal o sono me levou de
volta ao meu presbitrio, tornei a ver o abade Serapio mais grave e mais
preocupado do que nunca. Observou-me atentamente e me disse.
"No satisfeito em perder a alma, agora queres tambm perder o corpo. Infeliz,
caste numa armadilha."
o tom em que foram, pronunciadas estas poucas palavras me atingiu vivamente, mas
aquela impresso no durou muito.
Contudo, uma noite, por um espelho, cuja posio acusadora ela no tinha
previsto, vi que Clarimonda estava derramando um pozinho na taa de vinho
aromatizado que costumava preparar-me sempre ao trmino da ceia. Apanhei a taa,
fingi lev-la aos lbios e depois coloquei-a sobre um mvel, como se tivesse a
inteno de termin-la mais tarde, porm, to logo a bela me virou as
os olhos e, vendo intil a luta, deixava cair os braos, desalentado e cansado,
e de novo a corrente me arrastava para aquelas prfidas margens. Serapio
dirigia-me as admoestaes mais enrgicas e censurava minha fraqueza e falta de
fervor. Um dia em que eu estava mais inquieto que de costume, me disse:
"Para livrar-te desta obsesso s existe um remdio, e mesmo que seja
extremamente doloroso, conviria adot-lo. Sei onde foi sepultada Clarimonda. 
necessrio desenterr-la para que tu vejas em que estado lastimvel se encontra
o objeto de teu louco amor J no te sentirs tentado a perder a alma por um ser
imundo devorado pelos vermes, perto de desfazer-se em p. Voltars a ter maior
firmeza, depois da experincia".
Estava to debilitado por aquela vida dupla, que concordei. Queria saber de uma
vez por todas quem, entre o sacerdote e o jovem senhor, era vtima de uma
iluso. Estava decidido a matar em proveito de um ou de outro, a um dos dois
homens que viviam em mim, ou ento aniquilar a ambos, porque no podia
prolongar-se semelhante vida.
o abade Serapio proveu-se de uma enxada, uma escora e uma lanterna e, 
meia-noite, fomos ao cemitrio, cuja disposio conhecia com perfeio. Depois
de iluminar diversas lpides com a lanterna, chegamos finalmente a uma laje
semi-oculta pelas ervas e devorada pelo musgo e por plantas parasitas, sobre a
qual deciframos um comeo de inscrio:
Aqui jaz Clarimonda
A mais bela das mulheres
que, quando viveu. . .
" exatamente aqui", disse Serapio e, colocando na terra a lanterna, introduziu
a escora na fissura terminal da pedra e comeou a empurr-la. A pedra cedeu e
ento comeou a trabalhar com a enxada. Olhava-o agir, mais sombrio e silencioso
do que a noite. Quanto a ele, dobrado sobre si mesmo, estava banhado em suor
arquejava e sua respirao arquejante parecia antes o estertor de um agonizante.
Era um estranho espetculo, e quem nos visse teria-nos tomado por profanadores
ou ladres de sudrios, e no por dois sacerdotes. o zelo de Serapio tinha
muito de duro e selvagem, que o tornava mais semelhante a um demnio do que a um
apstolo, e seu rosto de grandes traos austeros, profundamente marcados pela
luz da lanterna, nada tinha de tranqilizador.
Eu sentia um suor gelado correr pelos meus membros. os cabelos eriavam-se em
minha cabea; no intimo do meu ser via o ato do austero Serapio como tim
abominvel sacrilgio, e teria querido que das nuvens escuras que rodavam pelo
cu sasse um raio que o reduzisse a p. Os mochos encarapitados nos ciprestes,
perturbados pelo brilho da lanterna vinham bater pesadamente contra o vidro suas
poeirentas asas, emitindo penosos uivos. Os lobos uivavam ao longe, e mil rudos
sinistros rasgavam o silncio. Por fim, a enxada de Serapio golpeou o atade, e
ouviram-se ressoar suas tbuas com um rumor seco e sonoro, esse espantoso rumor
surdo que sai do nada quando nele se rosa. Serapio abriu a tampa e vi
Clarimonda, branca como o mrmore, as mos juntas. o alvo sudrio envolvia-a
como vestimenta nica. Uma pequena gota vermelha parecia uma rosa na comissura
de sua plida boca. Serapio, ao v-la, enfureceu-se::
"Eis-te aqui, demnio, cortes desavergonhada, sugadora de sangue e de ouro".
Gotejou com gua benta o corpo e o atade, e com o hissope traou um sinal da
cruz. A pobre Clarimonda, assim que foi salpicada pela santa regadura, desfez-se
em p. No restou mais do que uma mistura informe de cinzas e ossos meio
calcinados.
"Eis aqui tua amante senhor Romualdo. Ainda te seduz a idia de dar um passeio
peio Lido com esta beleza?"
Baixei a cabea. Algo se desmoronava no meu ntimo. Retornei ao meu presbitrio,
e o senhor Romualdo, amante de Clarimonda, afastou-se do pobre sacerdote, que
por tanto tempo tivera companhia to esquisita. Na noite seguinte ainda vi, pela
ltima ma vez, Clarimonda. Me disse:
"Infeliz o que fizeste? Por que deste ouvido a esse abade imbecil? Por acaso,
no eras feliz comigo?? Que mal te fiz para dar-te o direito de violar meu
tmulo imundo e pr a nu as misrias do meu nada? De agora em diante est para
sempre rompida toda comunicao entre nossas almas e nossos corpos. Havers de
chorar por mim".
Desfez-se no ar como nevoeiro, e no tornei a v-la nunca mais. Desgraadamente
dissera a verdade. Chorei por ela mais d euma vez e ainda choro-a. Ganhei a paz
da alma a um alto preo. O amor de Deus no foi, depois, suficiente para
substituir o seu.
- Veja, padre, esta  a histria da minha juventude. No olhe nunca para nenhuma
mulher e caminhe com os olhos baixos porque, por mais casto e tranquilo que se
sinta, basta um minuto de distrao para perder a eternidade.





****

A partida de gamo
Prosper Mrime

As velas pendiam, imveis, coladas aos mastros; o mar estava liso como gelo; o
calor era sufocante, desesperadora a calmaria.
Numa viagem por mar, os recursos em matria de divertimento, que os anfitries
do navio possam oferecer, bem depressa se esgotam. Conhecemo-nos bem demais, ai
de ns! depois de passarmos juntos quatro meses numa casa de madeira com o
comprimento de cento e vinte ps. Quando o primeiro-tenente se aproxima j
sabemos que, em primeiro lugar, ele falar do Rio de Janeiro, de onde procede;
depois da famosa ponte de Essling, construda pelos marinheiros da guarda, de
que fazia parte. Ao cabo de quinze dias conhecemos at suas expresses
prediletas, at a maneira como pontua as frases e as diferentes entonaes de
voz. Nunca, desde que pela primeira vez contou suas narrativas esta palavra o
imperador...  ele deixou de interromper-se com tristeza e invariavelmente
acrescentar: -Se o senhor o tivesse visto naquela ocasio!!! (trs pontos de
exclamao). E o episdio do cavalo do clarim e da bala de artilharia que
ricocheteara, levando-lhe uma cartucheira onde tinha sete mil e quinhentos
francos em ouro e jias, etc., etc.! O segundo tenente gosta muito de poltica;
comenta todos os dias o ltimo numero do Constitutionnel, que trouxe de Brest;
ou, se deixa as alturas da poltica para descer a literatura,  para regalar-nos
com a anlise da ltima comdia musicada que assistiu.
Os oficiais a bordo do navio em que eu embarcara eram as melhores pessoas do
mundo, timos sujeitos, que se estimavam uns aos outros como irmos, mas
podia-se apostar qual seria o mais enfadonho. O capito era o mais pacato dos
homens, nada intrigante (o que constitui uma raridade). Era sempre a contragosto
que impunha a sua autoridade ditatorial. Com tudo isso, como a viagem me pareceu
longa! Sobretudo aquela calmaria que nos surpreendeu apenas alguns dias antes de
avistarmos a terra!...
Um dia depois do jantar, que a inao nos fizera prolongar o mximo possvel,
estvamos reunidos no convs, aguardando o espetculo montono, mas sempre
majestoso, do pr-do-sol nas guas. Alguns fumavam, outros reliam pela vigsima
vez um dos trinta volumes de nossa minguada biblioteca: todos bocejavam a ponto
de chorar. Um oficial sentado a meu lado divertia-se com a gravidade digna de
uma ocupao mais sria, como deixar cair nas tbuas da coberta, a ponta voltada
para baixo, o punhal que os oficiais de marinha costumam usar com o uniforme.
Era um divertimento como outro qualquer, e exige habilidade para conseguir que a
ponta se enterre perpendicularmente na madeira. Como desejasse imitar o oficial
e no dispusesse de punhal, experimentei pedir emprestado o do capito, que me
recusou. Explicou-me que se apegara singularmente  sua arma, e no gostaria de
v-la utilizada em to ftil entretenimento. Aquele punhal pertencera a um bravo
oficial infortunadamente morto na ultima guerra. Adivinhei a aproximao de uma
histria e no me enganava. O capito iniciou-a, sem se fazer de rogado; quanto
aos oficiais que nos rodeavam, j conheciam de cor e salteado os infortnios do
tenente Roger, e imediatamente operaram uma retirada discreta. A narrativa do
capito  a seguinte, mais ou menos:
-Quando conheci Roger, mais velho do que eu trs anos, ele era tenente; eu,
guarda-marinha. Asseguro-lhe que era um dos melhores oficias do nosso corpo;
alis, um excelente corao, inteligncia, cultura, dotes artsticos, tudo
possua ele: em sua, um homem encantador. Um pouco orgulhoso e suscetvel,
infelizmente, o que derivava, suponho, do fato de ser filho natural; temia que
seu nascimento lhe fizesse perder a considerao social. Porm, para dizer a
verdade, o maior de seus defeitos era o desejo intenso e persistente de ser o
primeiro em tudo. Seu pai, a quem nunca vira, dava-lhe uma penso que teria sido
mais do que suficiente para as suas necessidades se Roger no encarnasse a
prpria generosidade. Tudo que possua pertencia aos amigos. Mal acabava de
receber o seu trimestre, era bastante que algum o procurasse com o rosto srio
e preocupado, para indagar:
- Que  isso, colega, que tens? Pelo teu aspecto, teus bolsos no faro barulho
se os sacudirmos; vamos, aqui est a minha carteira, tira o que precisares e vem
jantar comigo.
-Chegou a Brest uma jovem atriz muito bonita, chamada Gabriela, e no tardou a
conquistar marinheiros e oficiais da guarnio. No se poderia dizer que fosse
uma beleza clssica, mas tinha estatura, belos olhos, ps pequenos, expresso
passavelmente descarada; tudo isso nos agrada muito quando estamos na altura dos
25 anos. Ainda por cima, diziam-na  a mais caprichosa das criaturas do seu sexo,
e a sua maneira de representar no desmentia tal reputao. Ora desempenhava
maravilhosamente bem o seu papel, dir-se-ia uma atriz de primeira ordem; no dia
seguinte, na mesma pea, mostrava-se fria, insensvel; recitava a sua parte como
uma criana recita o catecismo. Um caso, que lhe atribuam, sobretudo,
interessou os jovens oficias. Ao que parece fora, em Paris, mantida com muito
luxo por um senador que fazia, como dizem, loucuras por causa dela. Um dia,
estando ele em casa de Gabriela, ps o chapu na cabea; ela lhe pediu que o
tirasse, e chegou a queixar-se de que aquilo era falta de respeito. O senador
ps-se a rir, ergueu os ombros e disse, afundando-se numa poltrona: -Ento no
posso ficar  vontade na casa de uma rapariga paga por mim!&#8221; Uma bofetada de
carregador, aplicada pela mo branca de Gabriela, foi o que sua resposta mereceu
na hora, fazendo com que o chapu do cavalheiro fosse parar no outro canto do
quarto.
-Depois de v-la e de inteirar-se dessa histria, Roger achou que ela lhe
convinha, e com a franqueza um pouco rude que censuram em ns, marinheiros,
procedeu da seguinte forma para demonstrar a Gabriela que seus encantos o tinham
impressionado. Comprou as mais belas e raras flores que conseguiu encontrar em
Brest, fez um ramo que amarrou com uma bonita fita cor-de-rosa, e no lao
prendeu de maneira artstica um rolo de 25 napolees; era tudo que possua no
momento. Lembro-me de que o acompanhei aos bastidores durante um intervalo.
Dirigiu a Gabriela um cumprimento muito curto sobre a graa como usava suas
roupas, ofereceu-lhe o ramo de flores e pediu licena para visit-la. Tudo isso
expresso em trs palavras.
Enquanto Gabriela s viu as flores e o belo rapaz que as oferecia, sorriu-lhe,
acompanhando o sorriso com uma reverncia das mais graciosas; porm, quando o
buqu passou as suas mos ela sentiu o peso do ouro e sua fisionomia mudou mais
rapidamente do que a superfcie do mar tumultuado por um furaco dos trpicos;
e, de certo modo, no se mostrou menos violenta, pois lanou com todas as suas
foras o ramo de flores e os napolees  cabea do  meu amigo, cujo rosto ficou
marcado por oito dias. A campainha do regente soou, Gabriela voltou a cena e
representou pessimamente.
Tendo apanhado o buqu e o rolo de dinheiro com um jeito muito vexado, Roger foi
para o caf e ofereceu o ramalhete (sem o dinheiro)  moa do balco, e
experimentou, bebendo ponche, esquecer a cruel dama. No conseguiu; apesar do
despeito nascido do fato de no poder mostrar-se com o olho contundido,
apaixonou-se loucamente pela irascvel Gabriela. Escrevia-lhe vinte cartas por
dia, e que cartas! submissas, ternas, respeitosas, tais como se fossem
endereadas a uma princesa. As primeiras foram devolvidas sem terem sido
abertas; as outras no obtiveram resposta. E Roger alimentava alguma esperana,
quando descobrimos que a vendedoras de laranjas do teatro enrolava suas laranjas
nas cartas de amor de Roger que, por um requinte de crueldade, Gabriela lhe
entregava. Foi um golpe terrvel para a altivez do nosso amigo. Contudo, nem por
isso a sua paixo definhou. Falava em pedir a atriz em casamento e, como lhe
diziam que o Ministro da Marinha nunca daria o necessrio consentimento,
protestava, afirmando que nesse caso estouraria os miolos.
Entrementes, aconteceu que o s oficiais de um regimento de linha, aquartelado em
Brest, quiseram obrigar Gabriela a repetir uma copla de vaudeville e, por
capricho, ela se recusou. Ambos teimaram, os oficiais e a atriz, a ponto de os
primeiros fazerem baixar o pano com seus assobios e a segunda desmaiar. O senhor
sabe o que  a platia de uma cidade de aquartelamento. Ficou combinado entre os
oficiais que no dia seguinte e nos subsequentes, a culpada seria vaiada sem
remisso, no lhe sendo permitido representar um nico papel, sem que antes de
desculpasse. Roger no assistira ao espetculo; porm na mesma noite
inteirara-se do escndalo que pusera o teatro em rebordosa, e tambm dos
projetos de vingana tramados para o dia seguinte. No perdeu tempo em tomar uma
deciso.
No dia imediato, quando Gabriela apareceu no palco, vaias e assobios de romper
os tmpanos partiram do bando de oficiais. Roger, que se colocara
propositadamente entre os desordeiros, levantou-se e interpelou os mais
turbulentos em termos to ofensivos que a fria desses imediatamente se voltou
para a sua pessoa. Ento, com grande sangue-frio, puxou um caderninho do bolso e
nele escreveu os nomes que lhe eram atirados de todos os lados; teria marcado
duelo com o regimento inteiro se, por esprito de solidariedade, no surgisse
uma boa quantidade de oficiais da marinha, que provocaram a maioria dos
adversrios de Roger. Foi realmente um pandemnio.
A guarnio inteira foi detida por vrios dias; porm, ao serem os oficiais
postos em liberdade, houve um tremendo ajuste de contas. Cerca de sessenta deles
se encontraram no campo de honra. Roger, sozinho, bateu-se contra trs; matou um
e feriu gravemente outros dois, sem receber nenhum arranho. Fui menos feliz: um
maldito tenente, que fora mestre de esgrima, deu-me uma profunda estocada no
peito, e esta quase me matou. Asseguro-lhe  que foi um belo espetculo aquele
duelo, ou melhor, aquela batalha. A marinha obteve todas as vantagens e o
regimento foi obrigado a deixar Brest.
Bem imagina que nossos oficiais superiores no esqueceram o responsvel pelo
tumulto. Durante 15 dias esteve de sentinela  porta.
Quando sa do hospital a sua penalidade j tinha sido suspensa, e resolvi
visit-lo. Qual no foi minha surpresa, ao entrar, defrontando com ambos, ele e
Gabriela, que almoavam juntos! Davam a impresso de estar h muito tempo em
timas relaes. J se tuteavam e bebiam no mesmo copo. Roger apresentou-me 
amante como sendo seu melhor amigo e contou-lhe que eu fora ferido na escaramua
de que ela constitura a nica causa. Isso me valeu um beijo da bela criatura.
Tinha inclinaes bastante marciais.
Viveram juntos trs meses inteiramente felizes, no se largando um s momento.
Gabriela parecia am-lo com paixo e Roger confessava que antes de conhec-la
no sabia o que era o amor.
Uma fragata holandesa fundeou no porto. Os oficiais ofereceram-nos um jantar.
Bebemos copiosamente toda espcie de vinhos; e, retirada a toalha, no sabendo
mais o que fazer, pois aqueles senhores falavam muito mal o francs, comeamos a
jogar. Os holandeses pareciam muito endinheirados; sobretudo o primeiro-tenente
fazia questo de jogar to caro que nenhum de nos o aceitava para parceiro.
Roger, que no costumava jogar, achou que naquelas circunstancias seria
necessrio defender a honra da sua ptria. Jogou, pois, e acompanhou as paradas
do tenente holands. Primeiro ganhou, em seguida perdeu. Depois de algumas
alternativas entre lucros e perdas, separaram-se sem prejuzo. Retribumos o
jantar dos holandeses. Tornamos a jogar. Roger e o tenente reiniciaram a luta.
Em suma, durante dias, ambos se encontraram, fosse no caf, fosse a bordo, e
experimentaram jogos de todo o tipo, voltando ao gamo, e sempre aumentando as
apostas, a ponto de jogarem partidas de 25 napolees. Representava uma enorme
quantia para oficiais como ns; mais de dois meses de soldo. Ao cabo de 1 semana
Roger perdera todo o dinheiro que possua, e mais trs ou quatro mil francos que
pedira emprestado aqui e ali.
J tero desconfiado, sem dvida, que Roger e Gabriela haviam acabado por fazer
vida comum e bolsa comum: isto , Roger, que no havia muito recebera uma
quantia avultada, contribua para as despesas do casal numa proporo 10 ou 20
vezes maior que a atriz. Porm, considerava o acervo como pertencendo
principalmente  amante e s reservara cinqenta napolees para as suas despesas
particulares. mas fora obrigado a recorrer quela reserva para continuar a
jogar. Gabriela no fizera a menor observao.
O dinheiro das despesas do casal tomou o caminho j seguido pelo dinheiro dos
gastos particulares. Chegou o momento em que Roger se viu obrigado a arriscar
seus ltimos 25 napolees. Aplicou-se tremendamente no jogo; e, assim sendo, a
partida foi longa e disputada.  Em dado momento, s restou a Roger, que
empunhava o copo de dados, uma ltima oportunidade para ganhar: creio que lhe
seriam precisos 6 e 4. A noite avanara. O holands parecia fadigado e
entorpecido; alm disso, bebera muito ponche. Roger era o nico que se
conservava alerta e presa do mais violento desespero. Tremia ao lanar os dados.
Atirou-os com tanta fora que com a sacudidela uma vela caiu no cho. O holands
primeiro voltou a cabea na direo da vela, que acabara de salpicar de cera a
sua cala nova, e depois olhou para os dados: marcavam 6 e 4. Roger, plido como
a morte, recebeu os 25 napolees. Continuaram a jogar. A sorte voltou-se para
meu amigo que, contudo, cometia descuidos sobre descuidos, como se quisesse
perder. O tenente holands obstinou-se, dobrou, decuplou as paradas; continuava
a perder. Creio v-lo ainda: era louro, alto, fleumtico, e seu rosto parecia de
cera. Finalmente se levantou, depois de ter perdido 40 mil francos; pagou-os sem
que sua fisionomia deixasse transparecer a mnima emoo.
Roger disse-lhe
- O nosso jogo desta noite fica sem efeito; o sr estava dormindo, no quero seu
dinheiro.
Respondeu-lhe o fleumtico holands:
- O senhor est gracejando: joguei muito bem, mas as cartas estavam contra mim.
Tenho a certeza de que ainda ganharei, obrigando-o a restituir tudo quanto
obteve hoje. Boa noite!
E retirou-se.
No dia seguinte soubemos que, desesperado com o prejuzo sofrido, depois de ter
bebido uma tigela de ponche, ele estourara os miolos, no quarto.
Os 40 mil francos ganhos por Roger estavam espalhados sobre a mesa e Gabriela
contemplava-os com um sorriso satisfeito:
- Estamos muito ricos. Que faremos com todo este dinheiro?
Roger nada respondeu; ficara como que estonteado depois da morte do holands.
- Precisamos fazer uma poro de loucuras; - continuou Gabriela -dinheiro ganho
to facilmente, tambm deve ser gasto facilmente. Compremos uma calea e faamos
pouco do Prefeito Martimo e sua mulher. Quero diamantes, casimira. Pede licena
e vamos a Paris; aqui nunca conseguiremos gastar tanto dinheiro!
Deteve-se para observar Roger que, olhos cravados no soalho, cabea apoiada 
mo, no a ouvira, e parecia revolver na mente sinistros pensamentos.
- Que tens Roger? -indagou ela, apoiando a mo no ombro do rapaz. -Acho que
ests amuado comigo; no consigo arrancar-te uma nica palavra.
- Sinto-me muito infeliz -disse ele afinal, soltando um suspiro abafado.
- Infeliz! Deus me perdoe, estarias com remorsos por teres depenado aquele
mynheer?
Ele ergueu a cabea e fitou-a com olhos esgazeados.
- Que importa!... -prosseguiu ela -que importa que ele tenha levado a coisa ao
trgico e estourasse os miolos? No lamento os jogadores que perdem: e com toda
certeza o dinheiro est bem melhor entre nossas mos do que nas suas; ele o
teria gasto bebendo e fumando enquanto que ns vamos fazer um milho de
extravagncias, cada uma mais alinhada que a outra.
Roger passeava pelo quarto, a cabea inclinada sobre o peito, os olhos rasos de
lgrimas. Se o sr o visse, ter-se-ia apiedado dele.
Gabriela observou:
- Sabes que se no fosse conhecida tua sensibilidade, muita gente poderia
acreditar que trapaceaste?
- E se fosse verdade? -indagou ele com voz surda.
- Ora! -respondeu ela, sorrindo -no s bastante inteligente para trapaceares
no jogo.
- Sim, trapaceei; trapaceei como um canalha que sou.
Ela compreendeu que Roger falava a verdade, por causa da emoo com que se
expressava. Sentou-se num canap e permaneceu algum tempo em silncio.
- Preferiria -disse finalmente -que a trapacear no jogo tivesses matado dez
homens.
Houve um silncio mortal, que durou meia hora. Estavam ambos sentados no sof e
no se olharam uma nica vez. Roger foi o primeiro a levantar-se e deu boa noite
 amante com voz bastante calma.
- Boa noite! -respondeu ela em tom seco e frio.
Roger disse-me mais tarde que se teria matado no mesmo dia, caso no receasse
que seus companheiros adivinhassem a causa daquele suicdio. No queria desonrar
a prpria memria.
No dia seguinte, Gabriela  mostrou-se alegre como de costume; dir-se-ia que
tivesse esquecido a confidncia da vspera. Quanto a Roger, tornara-se sombrio,
rspido, mal saa do quarto, evitava os amigos e muitas vezes passava dias
inteiros sem dirigir a palavra  amante. Eu atribua sua tristeza a uma
sensibilidade louvvel, mas excessiva, e tentei por vrias vezes consol-lo; mas
ele me desconcertava, afetando uma grande indiferena pelo seu infeliz parceiro.
Certo dia, chegou mesmo a atacar violentamente a nao holandesa e sustentou que
no havia na Holanda um nico homem honesto. Entretanto, secretamente, se
informava sobre a famlia do tenente holands; mas ningum conseguia dar-lhe
qualquer notcia a respeito.
Seis semanas depois da infortunada partida de gamo, Roger encontrou em casa de
Gabriela um bilhete escrito por um guarda-marinha no qual este parecia
agradecer-lhe gentilezas recebidas. Gabriela era a prpria desordem, e o bilhete
em questo fora deixado sobre a lareira. No sei se fora infiel, mas Roger
acreditou-o, e teve um terrvel acesso de clera. Cobriu de injrias a orgulhosa
atriz; e, violento como era, no sei como no lhe bateu. Disse-lhe:
- Sem dvida esse peralvilho te deu muito dinheiro?  a nica coisa que amas e
concederias teus favores ao mais sujo dos nossos marinheiros caso ele tivesse
com que os pagar.
- Por que no? -respondeu a atriz. -Sim, eu permitiria que um marinho me
pagasse, mas... no o roubaria.
Roger soltou um grito de raiva. Puxou o punhal, trmulo e por um momento fitou
Gabriela com olhos desvairados; depois, reunindo as suas foras, atirou a arma
aos ps da moa e fugiu do apartamento para no ceder  tentao que o
assaltara.
Era bem tarde, quando nessa mesma noite, passei pelo seu alojamento e, vendo a
luz acesa, entrei para pedir-lhe um livro emprestado. Encontrei-o muito
entretido em escrever. No se moveu e mal pareceu perceber minha presena.
Sentei-me junto  secretria e fitei-o: seus traos estavam de tal forma
alterados que qualquer outra pessoa, a no ser eu, dificilmente o reconheceria.
De repente, avistei sobre a escrivaninha uma carta j lacrada, e que me era
dirigida. Apressei-me em abri-la. Roger comunicava-me que ia pr fim aos seus
dias, e delegava-me diversos encargos. Enquanto  eu lia, ele continuava a
escrever sem se preocupar comigo: era a Gabriela que dava adeus... Bem imagina
qual foi a minha surpresa e tudo quanto devo ter-lhe dito, perturbado como me
deixara a sua deciso.
- Ser possvel? Queres matar-te, tu que s to feliz?
- Meu amigo -disse-me ele, lacrando a carta -de nada sabes. No me conheces,
sou um velhaco; sou to desprezvel que uma mulher da vida me insulta; e to bem
sinto minha baixeza que no me atrevo a bater-lhe.
Ento me contou a histria da partida de gamo, e o resto o sr j sabe.
Ouvindo-o, senti-me pelo menos to emocionado quanto ele; no sabia o que lhe
dizer; tinha lgrimas nos olhos, mas no conseguia falar. Enfim, ocorreu-me a
idia de fazer-lhe ver que no devia censurar-se por haver voluntariamente
causado a runa do holands, a quem, afinal, com a sua... trapaa... s fizera
perder 25 napolees.
- Ora! -exclamou ele com amarga ironia -sou um pequeno ladro, e no um
grande. Eu que era to ambicioso! No passar de um pequeno velhaco!
E soltou uma gargalhada.
Desmanchei-me em lgrimas.
De repente, abriu-se a porta. Uma mulher entrou e precipitou-se nos seus braos:
era Gabriela.
- Perdoa-me -disse-lhe, cingindo-o estreitamente -perdoa-me. Amo unicamente a
ti, bem o sinto. Amo-te mais agora. Se quiseres, roubarei, j roubei... Sim, j
roubei, roubei um relgio de ouro... Que poderia fazer de pior?
Roger meneou a cabea com incredulidade; mas seu rosto como que se aclarou.
- No, minha pobre menina -respondeu - absolutamente necessrio que me mate.
Sofro demais, no posso suportar a dor que me punge.
- Bem, se queres morrer, morrerei contigo! Sem ti, que me importa a vida! Sou
corajosa, j atirei com espingardas; matar-me-ei to bem quanto outra qualquer.
Alm disso, j representei tragdias, estou acostumada.
Tinha lagrimas dos olhos ao falar, mas aquela ltima idia f-la sorrir, e o
prprio Roger deixou escapar um sorriso.
- Ests rindo, meu oficial! -exclamou ela, batendo as mos e beijando-o -no
te matars!
Continuava a beij-lo, ora chorando, ora rindo-se, ora praguejando. Entretanto,
apossara-se das pistolas e do punhal de Roger. Disse-lhe:
- Meu querido, tens uma amante que um amigo que te querem. Acredita-me, podes
ainda desfrutar alguma felicidade neste mundo.
Sa, depois de abra-lo, e deixei-o com Gabriela.
Creio que s teramos conseguido protelar seu funesto projeto, caso no tivesse
recebido do Ministro ordens para partir, como primeiro-tenente, a bordo de uma
fragata destinada a cruzar o oceano ndico, depois de ter passado atravs da
esquadra inglesa que bloqueava o porto. Era uma expedio arriscada. Fiz
compreender ao meu amigo que seria prefervel morrer gloriosamente, vitimado por
uma bala inglesa, a pr fim aos seus dias com suas prprias mos, sem nobreza e
sem proveito para a ptria. Ele prometeu viver. Distribuiu a metade dos 40 mil
francos pelos marinheiros estropiados ou pelas vivas e filhos de marinheiros.
Entregou o restante a Gabriela, que jurou que s os gastaria em boas obras.
Pretendia cumprir a palavra,pobre moa! Mas seus impulsos eram de curta durao.
Soube mais tarde que deu aos pobres alguns milhares de francos. Comprou trapos
com o resto.
Vagamos lentamente rumo aos mares da ndia, embaraados por ventos contrrios e
por manobras infelizes do nosso capito, cuja impercia multiplicava os perigos
da empresa. Ora tocados por foras superiores, ora perseguindo navios mercantes,
no passvamos um nico dia sem uma nova aventura. Mas nem a vida arriscada que
levvamos, nem as fadigas do servio conseguiram distrair Roger dos tristes
pensamentos que o perseguiam. Ele, que j fora considerado o oficial mais ativo
e mais brilhante do nosso porto, agora de limitava apenas a cumprir sua
obrigao. Logo aps terminar o servio, fechava-se no quarto, sem livros, sem
papel; o infeliz passava horas inteiras deitado no catre, sem nem mesmo
conseguir dormir.
Certo dia, observando-lhe o abatimento, achei acertado adverti-lo.
- Com os diabos! Meu caro, afliges-te por pouco. Escamoteaste 25 napolees a um
holands obeso, bem! -sentes remorsos por um milho. Ora, quando eras amante da
esposa do prefeito de... no sentias remorsos? Entretanto, ela valia mais do que
25 napolees.
Voltou-se ao colcho, sem me responder. Prossegui:
- Afinal, teu crime, j que insistes em dizer que  um crime, tinha um motivo
honroso, e vinha de uma alma elevada.
Ele virou a cabea e fitou-me com irritao.
-  verdade -continuei -pois se tivesses perdido, que aconteceria a Gabriela?
Pobre moa, teria vendido a ltima camisa para ajudar-te. Se perdesses, ficarias
na misria... Foi por ela,  foi por amor a ela que trapaceaste. H pessoas que
matam por amor... ou se matam... Tu, meu querido Roger, fizeste mais. Para um
homem da nossa fibra, h mais coragem em... roubar, para falar claro, do que
matar-se.
- Talvez -disse o capito, interrompendo a narrativa -agora eu lhe parea
ridculo. Asseguro-lhe, porm, que a minha amizade por Roger conferia-me naquele
momento uma eloqncia de que no disponho; e que, o diabo me leve, ao assim lhe
falar, fazia-o de boa-f e acreditava em tudo o que dizia. Ah! naquele tempo eu
era jovem!
Roger permaneceu algum tempo calado; depois me estendeu a mo, e parecendo fazer
um grande esforo para dominar a emoo, disse-me:
- Meu amigo, julgas-me melhor do que sou. Sou um ladro, covarde. Quando
trapaceei com aquele holands, s pensava em ganhar 25 napolees, mais nada. No
pensava em Ga e a est por que me desprezo... Eu, avaliar minha honra em menos
de 25 napolees!... Que baixeza! Sim, seria feliz se pudesse dizer a mim mesmo:
-Roubei para tirar Gabriela da misria... No!... No pensava nela... naquele
momento no me sentia apaixonado... Era um jogador... era um ladro... Roubei
dinheiro para ficar com ele... e de tal maneira essa ao me embruteceu, me
aviltou, que agora no sinto mais coragem nem amor... vivo e no penso mais em
Gabriela... sou um homem acabado.
Parecia-me to infeliz que se me tivesse pedido minhas pistolas para matar-se,
creio que as teria entregue.
Uma determinada sexta-feira, dia de mau augrio, divisamos uma grande fragata
inglesa, Alceste, que comeou a perseguir-nos. Possua 58 canhes e ns s 38.
Demos todo o pano para fugir; mas tinha maior velocidade e aproximava-se de
momento a momento. Era evidente que antes da noite seramos obrigados a entrar
numa luta desigual. Nosso capito chamou Roger ao seu camarote, onde ficaram
deliberando um bom quarto de hora. Roger tornou a subir   coberta, tomou-me
pelo brao e levou-me  parte. Ento me disse:
- Daqui a 2 horas, o caso estar resolvido. Esse pobre homem que se agita no
castelo de popa, perdeu a cabea. S tinha dois partidos a tomar: o primeiro,
mais honroso, seria deixar o inimigo aproximar-se, depois abord-lo
energicamente, lanando a bordo uma centena de rapazes resolutos; o outro
partido, que no seria mau, apenas um tanto covarde, seria aliviar-nos, atirando
ao mar uma parte dos nossos canhes. Ento poderamos contornar de muito perto
as costas da frica, que divisamos ao longe, a bombordo. O ingls, receoso de
encalhar, seria obrigado a permitir que fugssemos. Nosso... capito, porm, no
 nem covarde, nem heri; vai deixar que sejamos destrudos de longe, a tiros de
canho e, depois de algumas horas de combate, sem dvida baixar honrosamente o
pavilho. Tanto pior para ti; esperam-te os pontes de Portsmouth. Quanto a mim,
no pretendo v-los.
- Talvez nossos primeiros tiros de canho, acertando no alvo, causem ao inimigo
avarias srias para obrig-lo a interromper a caa.
- Escuta, no quero ser feito prisioneiro, prefiro que me matem, estou em tempo
de acabar comigo. Se por desgraa apenas ficar ferido, d-me tua palavra de
honra que me atirars ao mar.  o leito onde deve morrer um bom marinheiro como
sou.
- Que loucura! -exclamei. -E que incumbncia me ds!
- Cumprirs um dever de bom amigo. Bem sabes que  preciso que eu morra. S na
esperana de ser morto  que consenti em no me matar. Promete-me, vamos; se
recusares, vou pedir ao contramestre que me preste esse servio, e garanto que
no se negar a faz-lo.
Disse-lhe, depois de ter refletido:
- Dou minha palavra que farei o que desejas, conquanto sejas mortalmente ferido,
sem esperanas de cura. Nesse caso, consinto em poupar-te sofrimentos.
- Serei mortalmente ferido, ou ento morto.
Estendeu-me a mo que apertei calorosamente. Da por diante mostrou-se mais
calmo, e uma certa alegria marcial chegou mesmo a iluminar-lhe o rosto.
Eram cerca de 3 horas da tarde quando os canhes de caa do inimigo comearam a
atingir nossos massames. Ento ferramos uma parte de nossas velas;
apresentvamos o costado ao Alceste, e sustentamos um prolongado tiroteio contra
os ingleses, que responderam vigorosamente. Depois de uma hora de luta, nosso
capito que no tomava uma deciso acertada, quis tentar a abordagem. J
tnhamos muitos mortos e feridos, e o restante da tripulao perdera o
entusiasmo.  No momento em que abramos as velas para aproximar-nos do ingls, o
mastro principal que mal se agentava, caiu com um tremendo estrpito. O Alceste
aproveitou a confuso do acidente. Passou junto a nossa popa, ponto um lado
inteiro da nossa fragata ao alcance dos canos da sua artilharia, que a varou de
proa a popa; s podamos opor-lhe dois pequenos canhes. Encontrava-me junto a
Roger, ocupado em mandar cortar as cordas que retinham o mastro derrubado. De
sbito, sinto que me aperta o brao com fora; volto-me e vejo-o cado no
convs, todo coberto de sangue. Acabava de receber um tiro de metralha no
ventre.
O capito correu para ele:
- Que devo fazer, tenente? -indagou.
- Deve fixar o pavilho neste toco de mastro e deixar-nos afundar.
Imediatamente o capito se afastou, pouco satisfeito com o conselho.
Ento Roger falou:
- No te esqueas da tua promessa.
- No  nada, podes sarar.
- Atira-me por cima da amurada! -exclamou, praguejando horrivelmente, e puxando
a aba do meu casaco -bem vs que no escaparei; atira-me ao mar, no quero
v-los levar a nossa bandeira.
Dois marinheiros aproximaram-se a fim de carreg-lo para o fundo do poro.
- Voltem para os canhes, patifes! -ordenou -Disparem a metralhadora, apontem
para a coberta, e tu, se faltares  tua palavra, eu te amaldioarei e te
considerarei o mais covarde e vil dos homens!
O ferimento que recebera era evidentemente mortal. Vi o capito chamar um
aspirante e dar-lhe ordens para trazer a nossa bandeira.
- D-me um aperto de mo -disse Roger.
No prprio momento em que trouxeram a nossa bandeira...
- Capito, uma baleia a bombordo! -interrompeu um guarda-marinha, correndo ao
nosso encontro.
- Uma baleia! -exclamou  o capito, cheio de alegria e cortando a narrativa. -
Depressa, chalupas ao mar! O iole ao mar! Todas as chalupas ao mar!
Arpes,cordas! Etc., etc.
No consegui saber como morreu o pobre tenente Roger.


****




Belas de dia
Colette
A abelha comia a gelia de groselha da torta. Com uma pressa metdica e glutona,
a cabea abaixada, as patas viscosas, quase desaparecendo numa pequena depresso
rsea, transparente. Espantava-me de no v-la inchar, engordar, ficar redonda
como uma aranha...
E a minha amiga no chegava, essa minha amiga to gulosa, aquela que
freqentemente vem petiscar algo em minha casa porque me sabe seduzir com suas
pequenas manias, porque sei escutar as suas futilidades, porque raramente sei
estar de acordo com ela... comigo sente-se repousada; muitas vezes mo afirma,
com um certo ar de gratido, que eu no sou suficientemente coquete, que nunca
examino com um olhar agressivo e feminino, seu chapu ou seu vestido... No se
manifesta quando falam mal de mim na roda de suas outras amigas; por vezes chega
mesmo a exclamar: -Ora, filhas, Colette  meio excntrica, concordo, mas no
tanto assim como vocs a pintam-. Enfim, ela gosta de mim.
Experimento, ao contempl-la, esse sentimento apiedado e irnico que  uma das
formas da amizade. Jamais se viu uma mulher mais loura, mais branca, com mais
roupa e chapus do que ela! O matiz dos seus cabelos, de seus cabelos
verdadeiros, parece hesitar suavemente entre a cor da prata e do ouro; seria
necessrio mandar vir da Sucia a cabeleira anelada de uma garotinha de seis
anos, se acaso minha amiga desejasse usar os cachos artificiais e regulamentares
de nossos chapus. Sob esta coroa de um metal to raro, minha amiga, para evitar
o amarelado da tez, espalha sobre o rosto um p cor-de-rosa; e os clios,
enegrecidos com um pincelzinho protegem um olhar vivo, um olhar cor de cinza,
mbar, talvez marrom, um olhar que sabe pousar-se terno e vido, sobre pupilas
masculinas, tambm essas vidas e ternas.
Assim  minha amiga; e teria contado j tudo o que sei acerca dela, se no me
faltasse acrescentar que se chama inteligentemente Valentine, dada a atual moda
de diminutivos breves, e em que os pequeninos nomes de mulher -Tote, Moute,
Loche -, tem sonoridades de soluo mal retido...
-Ela esqueceu-, pensava pacientemente. A abelha adormecida ou morta de
congesto, afundava-se, de cabea para baixo, na deliciosa depresso... Ia
reabrir meu livro quando a campainha soou e minha amiga surgiu. Num rodopio,
enrolou a saia muito larga em torno das pernas e deixou-se cair a meu lado, a
sombrinha atravessada nos joelhos, num gesto sbio de atriz, de manequim, quase
equilibrista; um gesto cuja perfeio ela consegue sempre alcanar todas as
vezes que o tenta...
- Bonita hora para se comer! O que  que voc andou fazendo?
- Nada querida! Voc  espantosa, voc que vive apenas para o seu cachorro, a
sua gata e os seus livros! Ou voc acredita que Lelong consegue me fazer uns
amores de vestidos sem que eu os prove primeiro?
- Vamos, coma e cale-se. Isso? No, no  nenhuma porcaria. Apenas uma abelha.
Imagine que ela abriu sozinha esse pequeno poo. Fiquei olhando para ela; comeu
tudo isso em vinte e cinco minutos.
- Como voc pde ficar olhando? Voc   to sem graa! No, obrigada, no tenho
fome. No, tambm no quero ch.
- Ento posso mandar trazer um licor?
- Se  por minha causa, no vale a pena... No tenho fome, j lhe disse.
- Ento,  porque voc j comeu noutro lugar, sua chatinha...
- Palavra que no! Estou meio chateada, no sei o que tenho...
Espantada, ergui os olhos para o rosto da minha amiga o qual eu ainda no
conseguira isolar de seu insensato chapu, grande como um guarda-chuva, e donde
se levantava uma vasta espiga de plumas, um chapu fogo de artifcio, fonte
luminosa de Versalhes, um chapu to gigantesco que teria premido a cabecinha de
minha amiga at os ombros, no fossem os famosos cachos artificiais louros como
a Sucia. As faces cobertas de um p rseo, os lbios vivamente pintados, e os
clios esticados compunham sua fresca e pequena mscara habitual; mas algo, l
por baixo, me parecia modificado, extinto, ausente. Numa das faces onde o p era
mais escasso, um sulco traioeiro guardava o ncar, o verniz de lgrimas
recentes.
Esta mgoa maquilada, esta mgoa de boneca corajosa comoveu-me de repente, e no
pude conter-me em abraar minha amiga pelos ombros, num movimento de solicitude
muito raro entre ns.
Ela inclinou-se para trs, enrubescendo sob o rosado p, mas no teve tempo de
refazer-se e foi em vo que tentou reter os soluos.
Um minuto mais tarde estava chorando, enxugando o interior das plpebras com a
ponta de um guardanapo. Chorava com simplicidade, tendo o cuidado de no manchar
de lgrimas seu vestido de crepe da China, de no sujar a pintura do rosto;
chorava cuidadosamente, higienicamente, pequena mrtir da maquiagem...
- Posso ajud-la em alguma coisa? -perguntei-lhe  docemente.
Ela fez -no-com a cabea, suspirou, trmula, e estendeu-me sua xcara que enchi
de ch mais que frio...
- Obrigada -murmurou -voc  muito gentil... peo-lhe perdo, estou nervosa.
- Pobrezinha! Voc no quer me contar?
- Oh, meu Deus, sim. No  nada especial. Ele no gosta mais de mim.
Ele... seu amante! Nunca pensara nisso. Um amante, ela? E quando? E onde? E
quem? Poderia este manequim ideal despir-se todas as tardes, para um amante? Uma
tal sucesso de imagens extravagantes passou por meus olhos que s pude
afast-las, exclamando:
- Ele no gosta mais de voc? No  possvel!
- Oh, sim... Uma cena terrvel... (Abriu seu estojo d&#8217;ouro, espalhou o p,
enxugou os clios com um dedo mido). Uma cena terrvel, ontem...
- Cimes?
- Ele, cimes? Antes fosse! Estaria bem mais contente. Como ele  mau... Me
censura tanto... E eu nada posso fazer, nada!
E baixou a cabea amuada, o queixo colado ao colo alto:
- Enfim, voc ser o juiz! Um rapaz delicioso, nunca nos zangamos nestes seis
meses, nem uma discusso, nada! Algumas vezes ficava nervoso, mas como 
artista...
- Ah! Ele  artista?
- Pintor, minha querida. E pintor de muito talento. Se eu pudesse dizer o seu
nome, voc ficaria muito surpreendida. Fez vinte esboos de mim, de chapu, sem
chapu, com todos os meus vestidos!  de uma graciosidade, de um vaporoso... O
movimento das saias  maravilhoso.
Recobrava o nimo, lentamente, seu pequeno nariz brilhando de lgrimas mal
enxutas e de um resfriado mal curado... os clios tinham perdido a goma negra e
seus lbios, o carmim. Sob o grande chapu elegante e ridculo, sob os cachos
postios, descobri pela primeira vez uma mulher, no muito bonita, mas de
maneira alguma feia, inspida, se quiserem, mas tocante, sincera e triste.
Seus olhos ficaram subitamente vermelhos.
- Mas... o que  que aconteceu? -arrisquei.
- O que aconteceu? Nada. Querida, posso dizer-lhe que nada! Ontem recebeu-me com
uma expresso meio vaga... um ar de mdico... De repente, ficou amvel e
disse-me: -Querida, tira o chapu. Vou reter-te aqui at jantarmos, queres?
Prender-te para toda a vida se quiseres!- Era justamente este chapu, e voc
sabe que  uma coisa terrvel tir-lo e p-lo...
Eu no sabia, mas diz que sim com a cabea, compenetrada.
- Fiz beicinho. Ele insistiu. Consenti, e comecei a tirar os alfinetes e um dos
cachos postios ficou preso no chapu; foi isso, apenas. Pouco me importava;
todo mundo sabe que eu tenho cabelo, e ele melhor do que ningum! Mas corou, e
desviou o rosto. Voltei a colocar o cacho como uma flor, abracei o meu querido
pelo pescoo e segredei-lhe que o meu marido estava viajando na regio de
Dieppe, e que... voc compreende! Ele no dizia nada. Depois jogou fora o
cigarro e foi a que tudo comeou. O que ele no me disse! O que ele no me
disse!...
E a cada exclamao ela batia nos joelhos, num gesto vulgar e desencorajado,
como minha arrumadeira quando  me conta que seu marido lhe deu mais uma surra.
- Disse-me coisas incrveis, querida! s vezes parava, e depois comeava a
andar, e sempre falando... -No estou pedindo outra coisa, minha querida, do que
passar a noite contigo... (o cnico!) mas eu quero... quero aquilo que me devias
dar e que nunca me poders dar!
- Mas o qu, Santo Deus?
- Espere, voc j vai ver... -Eu quero a mulher que tu s neste momento, a
graciosa, a delgada, a pequena fada coroada por um ouro to suave e to
abundante que sua cabeleira lhe atinge quase os superclios. Eu quero essa tez
de fruto maduro, e esses clios paradoxais, e toda essa beleza anglicana.
Quero-te, tal como s, e no aquela que a noite cnica me entregar. Porque tu
transforma-te -bem o sei! -transforma-te num ser conjugal e inspido, sem a
coroa desses cabelos ondulados, esses cabelos marcados pelos ferros, e agora
lisos, enrolados em tranas. Sem saltos, transforma-te numa mulher pequena; com
os clios murchos, com o rosto lavado, sem p, transforma-te numa mulher serena,
segura de si mesma, e eu sinto-me estupefato diante dessa outra mulher!...
-E no entanto tu sabias disso -gritava ele -tu sabias! A mulher que desejo,
tu, aquela que s neste momento, nada tem em comum com essa pobre e simples
coitada que todas as noites surge de teu quarto de toalete! Com que direito me
subtrais a mulher que amo? Se s ciosa de meu amor, como ousas afrontar o que
amo?-
- O que ele no disse, o que no disse! Eu no me mexia, fiquei olhando para
ele, sentia arrepios de frio... No chorei! Voc sabe, no podia chorar diante
dele.
- Fizeste bem, querida; como foste corajosa!
- Muito corajosa -repetiu ela, baixando a cabea. -Assim que pude, dei o
fora... Ainda escutei outras enormidades sobre a s mulheres, sobre todas as
mulheres; sobre a -inconscincia prodigiosa das mulheres, o seu negligente
orgulho, o seu orgulho de estpidas que intimamente pensam que tudo aquilo que
do  sempre demais para o homem...- O que voc teria respondido? Diga-me.
- Nada.
Nada;  verdade. Que dizer? Estou quase concordando com ele, o homem grosseiro e
exaltado... A razo est quase com ele. -Tudo aquilo que do,  sempre demais
para o homem!- Elas no tm desculpa. Elas deram ao homem todos os motivos para
fugir, enganar, odiar, trocar... desde que o mundo existe, elas impuseram ao
homem, sob todos os disfarces, uma criatura inferior quela que ele desejava.
Elas enganam-no com despudor, neste tempo em que as cabeleiras artificiais, os
corpetes cheios de truques, fazem de uma coisinha picante e feia uma -baixinha
tentadora-.
Ouo falar minhas outras amigas, contemplando-as, e por sua causa fico confusa.
Lilly, a encantadora, esse pajenzinho de cabelos curtos e frisados, impe a seus
amantes, desde a primeira noite, a nudez de seu crnio congestionado de caracis
marrons, caracis oleosos e imundos dos bigoudis. Clarice, enquanto dorme,
preserva a pele do rosto com uma camada de creme de pepino; e Annie arrepia os
cabelos  chinesa, segurando-os com uma fita. Suzanne unta seu colo delicado com
lanolina, e enfaixa-o com velhos panos usados... Minna jamais se deita sem os
seus cremes destinados a retardar o advento de rugas nas faces e no queixo, e
sobre cada tmpora coloca uma estrela de parafina...
Ao notar minha indignao, Suzanne encolhe os ombros engordurados e diz-me:
-Por acaso pensas que eu vou estragar a pele por causa de um homem? No tenho
outra pele de reserva. Se ele no suporta a lanolina, que d o fora. No foro
ningum. E Lilly declara, impetuosa: -Para comear, no fico feia de bigoudis.
At pareo uma menina de cachos numa distribuio de prmios-. Minna responde a
seu amante, quando ele protesta contra o uso de cremes: -Queridinho, no sejas
bobo. No Jockey ficas at muito contente, quando algum comenta atrs de ti:
-Essa Minna conserva eternamente o rosto oval de virgem!- E Jeannine que dorme
com uma cinta para emagrecer? E Marguerite que... no, isso eu no posso
escrever!
Minha pequena amiga, deslavada e triste, percebeu obscuramente meus pensamentos
e adivinhou que eu no estava muito penalizada com a sua sorte. Protestou:
- E isso  tudo o que voc me diz?
- Queridinha, que quer voc que eu lhe diga? Creio que nada est perdido, e que
o seu apaixonado pintor amanh, ou talvez esta noite, voltar a bater  sua
porta...
- Quem sabe ele j telefonou? Ele no  mau, no fundo... um pouco louco, uma
crise, no  verdade?
Levantou-se, iluminada pela esperana.
E eu respondi -sim- a cada uma de suas perguntas, cheia de boa vontade e com o
desejo de satisfaz-la... Olhei afastar-se pelo passeio,com seu passinho curto
exigido pelos saltos altos... Na verdade, talvez ele a ame... E se ama, chegar
a hora em que, apesar de todos os cosmticos e fraudes, ela tornar-se- para
ele, a presena sedutora, a helnica pag de cabelos soltos, a ninfa de ps
intatos, a bela escrava de quadris redondos, nua como o prprio amor...

****

        O reflexo perdido
        Hoffmann

        1
        Uma tarde de inverno,  espera do ltimo dia do ano, senti de repente o
        sangue queimar-me nas veias e o corao gelar-se-me no peito. L fora,
        rafadas de tempestade agitavam a noite. Esta crise do cu transmitia-me
        descargas eltricas ao corpo; meu crebro fervia como metal em fuso.
        Quando todos os meus nervos ficaram saturados desse fluido desconhecido,
        a que se d o nome de febre ou delrio, no pude mais ficar em casa e
        corri para fora, sem manto, os cabelos ao vento. Os cata-ventos das
        casas guinchavam como gatos enfurecidos e parecia-me distinguir, entre
        as vozes confusas da tempestade, o tiquetaquear do relgio que assinala
        a queda das horas no abismo da eternidade.
        Coisa bizarra! A vspera de Ano Novo que , para toda gente, uma data
        alegre, encontrava-me presa de fundas dores morais. Seria porque, a cada
        festa de Natal, contando os dias que haviam decorrido e sentindo-me
        envelhecer, eu entrevisse mais de perto a aproximao do fim?
        Pressentia-o apenas e no podia evitar que um terror misterioso de mim
        se apoderasse; tanto mais quanto o diabo sempre teve o cuidado de
        reservar-me, para o So Silvestre, qualquer nova desventura.
        Ontem, por exemplo, ao entrar num salo, deparei, sentada em companhia
        de um grupo de damas, com uma figura de feies angelicais... Sim, era
        Ela! Ela, a quem eu no via h cinco anos!... "Deus seja bendito",
        exclamei no fundo da alma; "Ela voltou para mim". Fiquei interdito, como
        se a varinha de um mgico me houvesse tocado. Nesse instante, o dono da
        casa tocou-me levemente o ombro:
        Ento, carssimo Hoffmann &#8211; disse-me ele &#8211; em que pensas?
        Voltei a mim, muito envergonhado de minha inpcia, e aproximei-me da
        mesa de ch para sair do embarao.
        Nesse momento, Ela me viu, levantou-se e veio dizer-me, num tom de voz
        cheio de indiferena:
        Tu aqui? Encantada de ver-te. Como tens passado?
        Depois, sem esperar resposta, sentou-se novamente, dirigindo  sua
        vizinha estas palavras, que me trespassaram o corao
        Teremos, ento, na semana que vem, um belo concerto no palcio?
        Um raio, caindo a meus ps, no me teria perturbado tanto. Figurai-vos
        que experimentaria um homem que, ao aproximar-se de uma rosa cultivada
        com amor, para respirar-lhe o perfume, sentisse uma vespa sair do clice
        da flor e picar-lhe o nariz. Recuei de modo to brusco, os olhos
        turvados pelo sangue que me subira  cabea, que derrubei ao cho uma
        travessa de sorvetes. Rolou tudo sobre o tapete; nesse instante,
        desejaria estar enterrado a cem toesas de profundidade. Por sorte, um
        artista clebre acaba de entrar. Fui esquecido e pude contemplar Ela,
        Jlia, em todo o esplendor de sua beleza.
        Pareceu-me mais alta, mais cheia de formas, mais sedutora do que nunca.
        Suas vestes, de imaculada brancura, ondeavam, em pregas, sobre seu
        corpo. Suas espduas e seu pescoo se destacavam, como um bloco de neve,
        contra o decote enfeitado de rendas; seus cabelos de um negro de bano,
        desatavam-se em cachos cambiantes, que lhe davam  face um carter
        serfico. Ao passar perto de mim, voltou-se e acreditei ter lido, no seu
        olhar de um azul to doce, no sei que expresso zombeteira.
        Minha razo sumiria se o maestro, que acabara de iniciar uma cantata,
        no me houvesse refrescado a alma com uma cascata de harmonias. Apenas
        terminou a execuo, o auditrio cumulou-o de felicitaes. Mas, nesse
        turbilho de diletantes, vi-me separado de Jlia por alguns instantes.
        Reencontramo-nos pouco depois, diante de uma poncheira. Ento,  ventura
        inaudita! ela ofereceu-me um copo, sorrindo celestialmente e dizendo-me,
        com uma voz cuja lembrana nada poder jamais apagar de minha memria:
        Quer aceit-lo de minhas mos, como antigamente?
        Ao receb-lo, rocei-lhe os dedos; mil fascas abrasaram-me o sangue.
        Bebi o licor dourado at a ltima gota e pareceu-me que chamas azuladas
        voavam sobre meus lbios. Meus sentidos nadavam numa embriaguez
        deliciosa e quando voltei a mim, estvamos, eu e Ela, lado a lado, sobre
        os coxins de um div rosa, ao fundo de um gabinete iluminado pela luz
        sonhadora de uma lmpada de alabastro, suspensa por cadeias de prata.
        Jlia a meu lado, Julia sorridente, afetuosa como outrora; no seria
        tudo um sonho? Ai! Sonho ou realidade, a ele me entregava inteiramente.
        Parecia-me ouvi-la dizer as palavras mgicas:
        Meu Teodoro, amo-te, no vivo seno por ti. s a minha poesia e a minha
        felicidade!
        E eu lhe respondia:
        Deus nos reuniu e nem todas as potncias do inferno podero nos separar!
        Subitamente um pequeno manequim, com olhos de r, sustentado por patas
        de aranha, apareceu tropeando no meio do gabinete.
        Onde, com todos os diabos, te meteste, Jlia? &#8211; disse, esticando um
        nariz pintalgado de tabaco de Espanha.
        Jlia levantou-se e despertou-me atrozmente com estas palavras:
        Ento, no achas que devemos voltar  festa? Como vs, meu marido est 
        minha procura. s bem divertido, tanto quanto outrora, meu caro Teodoro;
        entretanto, no deves beber tanto ponche.
        Soltei um grito de desespero.
        Perdida para toda a eternidade!!!
         como diz, meu bravo senhor &#8211; respondeu o odioso animal, a quem ela
        chamava seu marido.
        Era demais para as minhas foras. Sentia-me enlouquecer. Num timo,
        vi-me fora do salo, correndo pela escada abaixo. Na rua, a chuva que
        tombava em cascatas molhava-me o rosto. Eu corria desabaladamente, sem
        direo nem conscincia. E teria continuado a correr se a taverna de
        mestre Thiermann no me detivesse a fuga com suas portas abertas. Por
        elas adentro me precipitei, a respirao ofegante, a goela seca e os
        olhos dilatados. Julgaram-me bbado; no h fregus melhor que um
        bbado. Dessarte, malgrado a falta de chapu e casaco, o hospedeiro, ao
        me ver elegantemente trajado, perguntou-me polidamente que desejava eu.
        Um caneco de cerveja e um cachimbo!
        Fui servido imediatamente.
        Os freqentadores da taverna me olhavam pelo canto dos olhos e o
        hospedeiro ia talvez me interrogar sobre a aventura, que a minha visita,
        em semelhante desalinho, fazia suspeitar, quando trs batidas nas
        vidraas da taverna seguidas de um grito: "Abra depressa, sou eu!",
        desviou-lhe a ateno. Ele acorreu  porta, com um castial, e logo
        depois um homem alto, descarnado como um esqueleto, entrou na sala e
        encaminhou-se, andando de lado, com as costas voltadas para a parede,
        para uma pequena mesa, onde se sentou.
        Esta personagem tinha aparncia distinta, mas pensativa. Pediu, como eu,
        cerveja e tabaco; encheu o cachimbo com impacincia e envolveu-se em
        seguida em espessa nuvem de fumaa. Em meio a fumaceira, tirou o chapu
        de feltro e o casaco; pude ento notar, com surpresa, que sobre as botas
        trazia chinelas. Continuando a fumar, passou em revista uma pilha de
        ervas, que retirou de uma caixa de metal semelhante s usadas pelos
        botnicos.
        Atrevi-me, para iniciar conversa, a fazer-lhe algumas perguntas sobre as
        ervas que pareciam interess-lo tanto.
        O senhor no  muito forte em botnica &#8211; respondeu-me ele  meia voz. &#8211;
        Seno, teria visto logo que so plantas exticas; estas foram colhidas
        na Amrica, nas cercanias do famoso vulco Chimborazo.
        A entonao de sua voz produziu em mim uma espcie de comoo magntica.
        Senti que as palavras morriam-me  flor dos lbios e pareceu-me que, por
        desconhecidos que fossem, os traos deste homem haviam aparecido nos
        sonhos de minhas noites agitadas.
        Minha preocupao foi interrompida pelo rudo de novo golpear ansioso
        nas vidraas da taverna. O hospedeiro abriu a porta, mas o recm-chegado
        gritou de fora, antes de entrar:
        No se esquea de cobrir bem o espelho!
        Bem, bem &#8211; disse o hospedeiro, prendendo uma toalha ao caixilho do
        espelho &#8211; eis que chega o general Suwarow.
        O general nada tinha de belicoso. Entrou saltitante, com passos pesados,
        descrevendo uma srie de ziguezagues. Era baixinho, todo envolto num
        capote pardo de mangas largas, dentro do qual parecia, contudo, tremer
        de frio. Veio sentar-se  nossa mesa, colocando-se entre o botnico de
        Chimborazo e eu. Mas as nossas cachimbadas o incomodavam e, voltando-se
        alternadamente para cada um de ns, queixou-se da fumaa e lamentou ter
        esquecido seu rap.
        Eu trazia comigo uma tabaqueira de ao polido, muito nova e brilhante.
        Apressei-me a oferec-la a ele, delicadamente. Apenas a viu, cobriu o
        rosto com ambas as mos e gritou:
        Com todos os diabos! Esconda este maldito espelho!
        Sua voz era convulsa e todo o seu corpo tremia. Julguei-o louco.
        Serviram-lhe vinho do norte. Eu o espiava furtivamente quando, de
        sbito, vi seu rosto mudar de expresso e cor, como as imagens de uma
        lanterna mgica. Desta vez, um suor gelado inundou-me a fronte; senti um
        medo terrvel, no me pejo de confess-lo.
        "Este general Suwarow &#8211; disse comigo mesmo &#8211; no ser Sat disfarado,
        que vem me tentar?"
        Enquanto eu dava curso s suposies mais fantstica, o ilustre
        personagem das ervas passava o seu tempo a espevitar a candeia com
        extremo cuidado e o pequeno se levantara para arrumar melhor o pano que
        velava o espalho. Essa bizarria no era de molde a tranqilizar-me,
        quanto s suas faculdades mentais. Ambos se puseram em seguida a
        conversar sobre um jovem pintor que expusera recentemente um magnfico
        retrato de mulher.
        Sem dvida alguma &#8211; dizia o magricela &#8211;  uma obra maravilhosa; pode-se
        dizer que o retrato  o reflexo do modelo.
        Reflexo? Reflexo? Que animal estpido poderia se apoderar de um reflexo,
        a no ser o diabo em pessoa? &#8211; gritou o general, dando um pulo na
        cadeira. &#8211; Mostre-me um reflexo roubado a um espelho &#8211; desafio-o a
        faz-lo &#8211; e darei um pulo de quinhentas toesas de altura!
        Nesse instante o magricela, pouco lisonjeado com a tirada de seu
        interlocutor, levantou-se e, passando a mo sob o queixo, disse com um
        sorriso amargo:
        Calma, meu pequeno, no te faas violento. Os movimentos muito bruscos
        me impacientam facilmente e eu poderia atirar-te pela janela...
        O general, pestanejante, apanhou o chapu, ergueu-se e recuou at a
        porta.
        Peste de homem! &#8211; disse, fazendo reverncias e saltitando de maneira
        cmica &#8211; diabo raivoso, passa bem. Se no posso ver-me ao espelho,
        conservarei, ao menos, minha sombra, enquanto tu, meu caro... Bem, aqui
        ficam meus cumprimentos!...
        Dito isso, desapareceu, deixando o botnico num estado de consternao
        difcil de descrever.
        A idia de um homem sem sombra me causava espcie. Vi-o partir tambm em
        seguida. Ao atravessar a sala, seu corpo no projetava sombra alguma.
        Lembrando-me ento do famoso Peter Schlemihl, esse Judeu Errante da
        Alemanha, corri atras dele. Mas apenas atravessara a porta quando o
        hospedeiro me deu um empurro, gritando:
        Que o diabo leve todos os fregueses de vossa espcie e Deus permita que
        nunca mais vos veja!
        Quanto ao magricela, no consegui alcana-lo. Com trs passadas,
        desaparecera rua abaixo.
        Eu havia esquecido minha chave no bolso do casado. Era-me, pois,
        impossvel entrar em casa. Decidi a pedir asilo a um de meus amigos, o
        proprietrio do guia de Ouro. O porteiro no me fez esperar e fui
        conduzido a um belssimo aposento, enfeitado com um grande espelho
        recoberto por uma cortina de sarja verde. No sei porque me veio o
        capricho de levantar a cortina. Vi-me refletido no espelho, to plido e
        to desfeito que mal consegui me reconhecer; depois, parecendo-me que,
        do fundo do espao refletido pelo espelho, vinha avanando para mim uma
        forma indecisa e vaporosa.
        Ao fixar os olhos nessa apario, acreditei ver... sim, era Ela mesma, a
        figura adorada de Jlia.!
        , minha querida, voltas para aquele que no pode viver sem ti?
        Um profundo suspiro me respondeu. Tal suspiro saiu das dobras do
        cortinado que escondia a alcova. Corri para o leito e deixo  vossa
        imaginao a tarefa de figurar o que devo ter sentido ao encontrar nele
        deitado, o homenzinho a quem o hospedeiro da taverna chamara general
        Suwarow.
        Esse bizarro personagem sonhava em voz alta e seus lbios, contrados
        por uma emoo penosa, pronunciavam um nome que me fez bater o corao
        mais depressa:
        Giulietta!... Giulietta!
        Sacudi vivamente o homenzinho at acord-lo.
        Com quantos diabos resolveu ocupar &#8211; disse-lhe &#8211; o quarto que me havia
        sido destinado?
        Ah! senhor &#8211; retorquiu, abrindo os olhos e estirando os braos &#8211; como
        lhe sou grato por haver interrompido o pesadelo que me oprimia!
        Uma rpida explicao foi quanto bastou para eu descobrir que o porteiro
        havia-se enganado ao levar-me para aquele aposento. Pedi desculpas ao
        general e comeamos a conversar.
        Devo ter-lhe parecido &#8211; disse o desconhecido &#8211; bem inconveniente ou
        louco esta noite, na taverna. Mas o senhor ser indulgente para comigo
        se alguma vez lhe aconteceu experimentar sensaes inexplicveis.
        Ah! meu caro senho &#8211; repliquei &#8211; poder-se-ia dizer de mim outro tanto;
        pois olhe, no faz muito tempo que revendo Jlia...
        Jlia! Que nome acaba o senhor de pronunciar! &#8211; gritou o homenzinho,
        jogando-se sobre o travesseiro. &#8211; Oh! cale-se, pelo amor de Deus,
        deixe-me dormir e no esquea de cobrir o espelho.
        Mas como &#8211; continuei &#8211; o nome de uma mulher que o senhor certamente no
        conhece pode impression-lo tanto? Quer-me parecer que a expresso do
        seu rosto altera-se a cada instante. Vamos, acalme-se e consinta que eu
        repouse, at o amanhecer, ao seu lado. Tratarei de no incomod-lo.
        No, pode ficar com o quarto todo. Vejo que para mim no existe calma
        nem repouso possveis. O senhor pronunciou o nome de Jlia... Jlia!
        Giulietta!...  muito estranho. Estaremos unidos pela fatalidade, sem
        sab-lo, no mesmo infortnio?... Embora eu tenha talvez de afligi-lo
        mortalmente, no posso evit-lo. Devo confessar a causa do meu
        infortnio. Acho que isso me aliviar.
        O homenzinho deslizou para fora do leito e dirigiu-se para o espelho, do
        qual retirou a cobertura. Todos os objetos e luzes do quarto, assim como
        minha figura, nele se refletiram nitidamente. Mas o reflexo do general
        Suwarow nele no aparecia.
        Veja &#8211; continuou ele com voz plangente &#8211; se sou ou no muito infeliz?
        Pedro Schlemihl vendeu sua sombra ao Diabo; pois bem, eu, eu dei meu
        reflexo a Giulietta, que nunca mais mo devolver! Meu Deus! Meu Deus!
        que fatalidade!
        Fiquei estupefato com a narrativa. Em meu corao, o horror se misturava
         piedade.
        O homenzinho, entregue completamente  sua dor, jogara-se no leito
        convulsivamente; mas, dali a pouco, estava roncando. O rudo que fazia
        acabou por me fazer mergulhar numa sonolncia irresistvel. Apaguei as
        luzes e estendi-me ao seu lado, sem despir-me, decidido a esperar o
        amanhecer.
        A excitao do meu sistema nervoso atingira o mximo; meu esprito
        turbilhonava num labirinto povoado de fantasma indescritveis.
        Pareceu-me, de repente, que o mundo diminua, como aquelas casas de
        bonecas. Vi todos meus amigos mudados em homnculos de acar. Depois
        todas essas figuras cresceram desmesuradamente e, no meio delas,
        apareceu Julia, que me estendia um copo cheio de ponche, dizendo:
        Bebe, meu anjo, bebe este licor divino!
        Vi pequenas chamas azuladas tremularem  borda do copo. Estava prestes a
        agarr-lo quando uma voz gritou atras de mim:
        No beba! No beba!  o veneno de Sat!
        Voltei-me e reconheci o general Suwarow, que se ria debaixo do meu
        nariz. Julia continuava com suas provocaes; seu olhar me queimava, o
        timbre de sua voz me dava vertigens.
        Por que tens medo? &#8211; dizia ela &#8211; No nascemos um para o outro por toda a
        eternidade? No me deste teu reflexo em troca de um beijo?
        Eu me sentia morrer e estendi o brao para receber a taa mgica no
        fundo da qual desejava afogar minha alma.Mas o pequeno Suwarow gritava,
        em voz mais forte ainda:
        No beba! No beba! Essa bela moa que lhe sorri  o diabo em pessoa; se
        tocar os lbios a taa, o sortilgio desaparecer, restando somente a
        realidade da perda.
        Julia continuava a insistir e a embriagar-me com sua seduo; no sei o
        que iria me acontecer quando, de sbito, todas as figuras de acar
        cndi se puderam a danar em torno de mim, com uma tal rapidez que no
        discerni mais nada. Esse pesadelo no terminou seno s onze horas da
        manh, quando um criado do guia de Ouro veio despertar-me para avisar
        que o desjejum estava servido. O general Suwarow se levantara muito
        cedo, pagara sua despesa e deixara, endereado a mim, um pacote lacrado
        dentro do qual havia um manuscrito, de letra mida e de difcil
        decifrao, no qual se narrava a singular histria que se segue. Era,
        talvez, a sua histria.


        2
        Numa bela manh, mestre Erasmo Spickherr viu-se, pela primeira vez, em
        condies de satisfazer a mais ardente paixo de sua vida. Acabara de
        juntar uma pequena herana, da qual retirou uma soma suficiente para
        cobrir os gastos de uma viagem  Itlia. Na hora da partida, sua jovem
        esposa acompanhou-o, com o filho nos braos, at a carruagem:
        Adeus! &#8211; gritou ela, os olhos midos de lgrimas &#8211; querido Erasmo! Pensa
        sempre em mim, que ficarei em casa, e tem cuidado para no perder a
        boina de viagem, dormindo com a cabea para fora da janela da carruagem.
        Em Florena, Erasmo travou conhecimento com um alegre grupo de
        compatriotas seus, que jogavam dinheiro fora e levavam a vida mais
        desvairada que qualquer artista ou filho-famlia jamais viveu sob o
        tpido sol da Itlia. Eram festas e banquetes, noite e dia, em manses
        esplendorosas, com mulheres trajando costumes fantsticos, cuja
        elegncia e riqueza de cores emprestava-lhes o aspecto de flores
        animadas. Somente Erasmo, fiel  lembrana de sua esposa legtima, no
        se arriscava, malgrado seus 27 anos, a nenhuma excurso alm do crculo
        da f conjugal.
        Certa noite, quando esses pndegos estavam reunidos numa orgia regada a
        vinho, um deles, Frederico, o mais fogoso do grupo, rodeando com o brao
        o talhe esguio da amante, e erguendo seu copo onde brilhava um lquido
        dourado, ergueu um brinde incandescente  beleza das rainhas da noite,
        acrescentando:
        - Quanto a ti, meu pobre Erasmo &#8211; disse a Spickherr &#8211; entristece-nos
        profundamente com essa fisionomia fnebre. Bebe e cantas como um coveiro
        e portas-te de modo lamentvel para com nossas damas.
        Juro-te, meu caro &#8211; respondeu Erasmo &#8211; que  meu dever permanecer
        indiferente ao encanto dessas damas. Deixei na ptria minha digna esposa
        e, quando se , como eu, pai de famlia...
        A estas palavras, ditas pelo pobre Erasmo com solene gravidade, os
        presentes caram num frouxo de riso. A amante de Frederico, depois de
        lhe terem dito em italiano o que dissera Erasmo, voltou-se para o frio
        alemo e disse-lhe:
        Toma cuidado. Se visses Giulietta a neve do teu corao se fundiria como
        gelo ao sol.
        No mesmo instante um ligeiro roagar de sedes por entre a folhagem
        anunciou a apario de uma jovem de esplendorosa beleza. Um vestido
        branco, que lhe punha a descoberto as espduas nveas e a garganta
        magnfica, caa em dobras sedutoras sobre seu talhe de fada. Sua
        cabeleira, perfumada, desnastrada em ondas de bano, enquadrava, com um
        encanto inefvel, o oval admirvel de um rosto de madona. Pedrarias
        cintilantes adornavam-lhe os braos e o colo.
         Giulietta &#8211; exclamaram as raparigas.
        Sim, sou eu &#8211; disse, com um sorriso anglico, a bela desconhecida. &#8211;
        Permitis que vos faa companhia por um instante? Bem, vou sentar-me ao
        lado deste alemo carrancudo que no diz uma palavra.
        Em meio aos sussurros de suas rivais em beleza, a recm-chegada tomou
        lugar ao lado de Erasmo, que pensava sonhar. A vista de tantos encantos,
        sentia o corao pular-lhe; seu olhar se fixava em Giulietta como que
        aterrorizado. A bela florentina apanhou da mesa uma taa cheia e
        entregou-a a ele dizendo:
        Aprazer-te-ia, severo estrangeiro, que eu fosse a senhora dos teus
        pensamentos?
        Erasmo enrubesceu; todo o seu ser vibrava; erguendo-se, como que
        impelido por uma mola, caiu diante dela, numa postura de adorao:
        Sim! &#8211; exclamou &#8211;  a ti que eu amo, anjo dos cus! Tua imagem morava em
        meus sonhos; tu me trazes a felicidade dos eleitos.
        Esta exploso fez crer aos presentes que Erasmo enlouquecera. Giulietta
        ergueu-o, pedindo que se acalmasse, e a alegre conversa recomeou, mais
        animada. Solicitada a cantar, ela concordou, com graa esquisita. Sua
        voz magntica provocava sensaes inditas. As horas passaram como se
        fossem minutos.
        Ao amanhecer, Giulietta decidiu retirar-se. Erasmo queria acompanh-la
        mas ela recusou e, indicando os lugares onde ele poderia reencontr-la,
        desapareceu como uma slfide. O pobre apaixonado no ousou segui-la e
        dirigia-se tristemente para casa quando, a uma esquina, encontrou um
        personagem alto e magro, trajando um costume escarlate pontilhado de
        botes de ao.
        Oh! Oh! &#8211; fez o desconhecido &#8211; que cara desconsolada tem o senhor
        Spickherr esta manh! Os moleques da cidade vo correr atrs do senhor!
        Trate de esconder-se.
        Ei! Quem s tu, imbecil, para me falares dessa maneira? Segue teu
        caminho! Respondeu-lhe Erasmo.
        Devagar, meu valente &#8211; continuou o homem de escarlate. &#8211; Mesmo que
        tivesses asas de guia, no alcanarias Giulietta esta manh!
        Giulietta! Que quer dizer? &#8211; retorquiu Erasmo, fazendo meia volta para
        agarrar seu interlocutor.
        Este, porm, desembaraando-se com uma pirueta, eclipsou-se como um fogo
        ftuo.
        Erasmo viu novamente Giulietta. A bela rapariga o recebeu de bom grado,
        mas sem lhe permitir quaisquer liberdades. Entretanto, quando ele lhe
        falava, fogoso e apaixonado, ela lhe lanava, s furtadelas, olhares
        cheios de fascnio. Ele abandonou a companhia ruidosa dos amigos para
        segui-la por toda a parte, como se no pudesse viver seno do mesmo ar
        que ela respirava. Certo dia, reencontrou Frederico; no pde
        escapar-lhe, e este lhe disse:
        - Meu caro Spickherr, eis-te enfeitiado pelos filtros de uma nova
        Circe! Ainda no compreendeste que Giulietta  a mais dissoluta das
        criaturas? Ignoras ento a fieira de histrias que se contam sobre ela?
         preciso que sejas muito tresloucado para esqueceres to depressa
        aquela boa esposa de que falavas com tanta ternura.
        Erasmo escondeu o rosto entre as mos e no pde conter as lagrimas.
        Vamos &#8211; continuou Frederico &#8211; deixa essa paixo que te perde e vem
        comigo. Deixemos Florena sem perda de tempo!
        Sim, sim, imediatamente &#8211; exclamou Erasmo. Partamos hoje mesmo.
        Os dois amigos caminhavam apressadamente quando o homem de escarlate
        cruzou-lhes, de sbito, o caminho:
        Vamos, senhor &#8211; disse a Spickherr &#8211; apresse-se pois a bela Giulietta
        espera-o com ansiedade.
        V para o diabo, animal! &#8211; exclamou Frederico &#8211; Este  o signor
        Dapertuto, muito conhecido como doutor em milagres; um charlato maldito
        que vende a Giulietta drogas infernais...
        Qu! &#8211; interrompeu Spickherr &#8211; ento este imbecil freqenta a casa de
        Giulietta?
        Antes que seu amigo pudesse replicar, ouviu, ao passarem sob um balco,
        a voz argentina de Giulietta que o convidava a subir. A magia desse
        apelo perturbou a resoluo de Erasmo. Mais embriagado do que nunca
        apela paixo, deixou-se de novo prender pela amorosa algema e acompanhou
        a bela cortes a uma vila de recreio para onde ela se dirigia em busca
        de prazeres. Um jovem italiano, notavelmente feio de rosto e grosseiro
        de maneiras, se achava l e perseguia Giulietta com seus galanteios.
        Erasmo sentiu todas as serpentes do cimes morderem-lhe o corao e
        afastou-se com ar sombrio. Giulietta correu atrs dele:
        Vamos, querido &#8211; disse-lhe languidamente &#8211; no s todo meu?...
        Ao mesmo tempo em que falava, aproximou-se dele e roou-lhe a face com
        um beijo.
        Para sempre! &#8211; exclamou Erasmo, abraando-a inflamado de amor.
        A florentina escapou-lhe habilmente e lanou-lhe um olhar cuja expresso
        quase o fez perder o pouco da razo que lhe restava. Voltaram ambos para
        a festa. O jovem italiano havia os acompanhado com os olhos e,
        fazendo-se de rival ofendido, vingou-se com amargos sarcasmos contra os
        alemes. Erasmo, que se irritava facilmente, ameaou o italiano de rude
        correo. Este fez brilhar um punhal. No podendo mais se conter, Erasmo
        saltou-lhe  garganta, derrubando-o por terra e assentou-lhe na cabea
        um pontap to violento que o desgraado perdeu os sentidos. Mas o
        estupor que esse acontecimento lhe causou deu-lhe tambm vertigens.
        Quando voltou a si estava no boudoir de Giulietta.
        Meu pobre e querido alemo &#8211; dizia ela &#8211; quero salvar-te. Mas  preciso
        que abandones Florena o mais depressa possvel.  preciso que me deixes
        para sempre, a mim que te amo tanto! No nos veremos mais.
        Ah! &#8211; exclamou Spickherr &#8211; antes morrer de mil mortes. Mesmo que eu
        devesse perder a alma, sou teu para sempre!
        Oh! &#8211; continuou Giulietta &#8211; voltars para tua esposa, a quem tambm amas
        e, ao lado dela, me esquecers logo.
        Ambos se achavam sentados diante de um magnfico espelho veneziano. A
        florentina prendeu Erasmo dentro de seus braos ebrneos.
        Ah! se ao menos &#8211; disse ela com olhos midos &#8211; se ao menos me deixasses
        teu reflexo, enquanto esperssemos que o amor nos reunisse novamente...
        Meu reflexo!... que queres dizer?... Meu reflexo!... &#8211; balbuciou Erasmo,
        desconcertado. &#8211; Mas como poderias guard-lo, se ele  inseparvel de
        mim?
        Recusas, ento? &#8211; disse ela, com um suspiro fundo. &#8211; Nada me restar da
        lembrana, nem mesmo esta fugitiva imagem que me sorri do fundo do
        espelho!
        E as lgrimas tombavam como gotas de fogo, sobre o rosto do jovem
alemo.
        Choras, Giulietta, minha adorada! &#8211; exclamou &#8211; Ah! j  preciso fugir
        para subtrair-me  desgraa que nos separaria para toda a vida, que, ao
        menos, eu te possa deixar, para a eternidade, esse reflexo cuja presena
        adoar tuas recordaes!...
        Apenas acabara de falar, quando, lanando um olhar ao espelho, no mais
        viu a sua imagem. A mesma Giulietta, que ele apertava ao corao,
        esvaneceu-se como nuvem. Vozes fantsticas ressoavam no silncio do
        apartamento deserto. Erasmo, transido de espanto, sentiu um vu gelado
        descer-lhe sobre os olhos; procurou a porta aos tateios, como um
        embriagado, abriu-a com dificuldade e desceu a escada num silncio cheio
        de horror. Apenas alcanara a rua quando braos o agarraram no meio das
        trevas e o meteram numa carruagem, que partiu velozmente.
        No tenha medo &#8211; disse-lhe uma voz. &#8211; Giulietta confiou-o aos nossos
        cuidados. Sabe que aquele estpido italiano recebeu uma de que jamais se
        esquecer? Esse acidente me entristece, pois Giulietta amava o senhor.
        No momento, no lhe resta alternativa seno escapar s garras da justia
        e, se realmente insistir em no deixar Florena, sei de um meio de
        escond-lo de todos os olhares...
        Oh! caro senhor &#8211; respondeu Erasmo, soluante &#8211; como poderia faz-lo?
        Nada mais fcil &#8211; continuou o desconhecido. &#8211; Tenho um segredo para
        tornar as pessoas irreconhecveis, alterando-lhes os traos
        fisionmicos. Quando amanhecer, faremos uma tentativa e, olhando-se no
        espelho, o senhor mesmo ser o juiz.
        Deus! &#8211; exclamou Erasmo &#8211; que horror!
        No vejo nada de horrvel &#8211; replicou o homem oculto. &#8211; Arranjar-lhe-ei
        um reflexo muito delicado.
        Ah! Devo confessar que ... que...
        Que houve?... Ter por acaso esquecido seu reflexo em casa de Giulietta?
        Se assim for, no h o que fazer seno voltar  sua ptria. Creio que
        sua querida esposa se importar pouco com o que perdeu, desde que o
        tenha de volta em carne e osso.
        A certa altura, a carruagem cruzou com um bando de alegres convivas, que
        voltavam para casa a luz de tochas. Erasmo olhou para seu companheiro de
        viagem e reconheceu nele o homem de escarlate, a quem seu amigo
        Frederico chamava Dapertuto. Num timo, saltou do veculo e correu 
        toda velocidade atrs dos condutores de tochas, entre os quais estava
        Frederico.
        Salva-me! &#8211; disse-lhe ao ouvido, com voz opressa &#8211; fiz uma loucura!
        Mas no acrescentou que perdeu seu reflexo. Frederico levou-o para casa
        e, sem perda de tempo, arranjou-lhe meios de deixar Florena a cavalo,
        ao amanhecer.
        O infeliz Spickherr escreveu a histria dessa triste viagem. Suas
        aventuras so comoventes. Certo dia em que, morto de fadiga, desejava
        repousar numa hospedaria, cometeu a imprudncia de se colocar diante de
        um espelho. O garom, que servia a mesa, olhando por acaso para o vidro
        e no vendo refletido nele a imagem do fregus, comunicou esse fato
        surpreendente a um vizinho; este contou-o a outro e logo vrios dos
        presentes comearam a gritar:
        Quem  este homem sem reflexo?  um maldito, um enfeitiado, ou o Diabo
        em pessoa!
        Erasmo salvou-se fechando-se no quarto onde contava poder passar a
        noite. Todavia, logo depois vieram agentes da polcia dizer-lhe que, em
        nome dos magistrados, deveria ou mostrar seu reflexo ou deixar a cidade
        sem perda de tempo.
        Forado a fugir atravs dos campos, para evitar as caravanas que
        cruzavam o caminho, ele no entrava nos albergues seno ao cair da
        noite; pedia ao proprietrio para cobrir os espelhos; foi por isso que
        recebeu a alcunha de general Suwarow, porque, ao que se dizia, este
        general tinha a mesma mania.
        Chegou, por fim,  sua cidade natal. A esposa o recebeu de braos
        abertos e ele acreditou, por um momento, que sua desgraa chegara ao
        fim. Tomando toda sorte de precaues, conseguiu dissimular a perda do
        seu reflexo. Conseguiu mesmo esquecer Giulietta. Mas, certa noite em que
        brincava com o filho, este tendo sujado as mos na chamin do fogo,
        comprimiu-as contra o rosto do pai, gritando alegremente:
        Veja, papai, como senhor ficou lambuzado!
        Depois, escapando-se dos braos do pai, apanhou um espelho, colocando-o
        diante dele e espiando por cima do seu ombro. Antes que Spickherrr
        pudesse se erguer, o pequeno, no vendo no vidro o reflexo do pai,
        deixou cair o espelho e fugiu, chorando. Ao rudo, apareceu a me.
        Que  que me diz a criana? &#8211; perguntou ela.
        Ei! Por Deus &#8211; respondeu Spickherr, com um riso forado &#8211; ele te diz que
        no tenho reflexo. Pois bem! Que importa? Um reflexo no  mais que uma
        iluso, minha querida; quem se olha ao espelho, peca por vaidade; Deus
        me livre desse pecado!
        A pobre mulher agarrou o marido pela mo, arrastou-o, como se arrasta um
        culpado, at diante do espelho e, dando-se conta da horrvel verdade,
        transformou-se numa megera furiosa.
        Vai embora &#8211; gritou &#8211; vai para bem longe daqui, maldito; deves ter feito
        algum pacto com o Demnio! Ou talvez nem sejas meu Erasmo: s um
        esprito do inferno!
        Persignou-se inmeras vezes. Erasmo, desesperado, abandonou a casa a
        correr e foi se refugiar numa campina deserta. Enquanto errava ao azar,
        rodo de mil angstias, a imagem de Giulietta lhe apareceu de repente,
        mais bela do que nunca.
        Ai &#8211; disse ele &#8211; que te fiz para que me persigas? Minha mulher me
        abandonou, no tenho mais nenhum afeto sobre a terra; tem piedade,
        Giulietta, tem piedade de mim. Onde te reencontrarei agora?
        Bem perto daqui, meu caro, pois ela est ansiosa por rev-lo &#8211; respondeu
        uma voz atrs dele. Voltou-se, muito surpreso, e deu de cara com o
        odioso Dapertuto, que o mirava com olhar sardnico.
        Sou seu humilde servidor &#8211; continuou o homem &#8211; e afirmo-lhe que to logo
        Giulietta esteja certa de poder possu-lo em pessoa, ter imenso prazer
        em devolver-lhe o reflexo que, evidentemente, no pode saciar seu amor.
        Erasmo estava fora de si.
        Leve-me a ela &#8211; exclamou &#8211; e lhe pertencerei sem qualquer reserva...
        Perdo &#8211; disse Dapertuto &#8211; isso exige o cumprimento de uma formalidade.
        O senhor est comprometido por ligaes que devem ser rompidas, visto
        que Giulietta quer possu-lo sem partilha. Ora, sua mulher e seu
filho...
        Ah! minha mulher... meu filho...
         preciso desembaraar-se deles; oh! mas de uma maneira muito simples,
        que no o comprometer. Tenho aqui, dentro de um pequeno frasco, um
        elixir, do qual duas gotas apenas livram a pessoa de toda sorte de
        importunos. Estes no faro, garanto-lhe, sequer uma careta. Tome, meu
        caro, isto exala um ligeiro perfume de amndoas que provoca um sono...
        um sono definitivo.
        Miservel! &#8211; urrou Erasmo &#8211; Ousas ento propor-me tal crime?
        h! Quem fala de crime? &#8211; replicou Dapertuto. &#8211; O senhor deseja rever
        Giulietta e lhe ofereo o meio, eis tudo. Tome logo o frasco e no
        banque a mulherzinha.
        Erasmo, preso de vertigens, achou-se de sbito com o frasco na mo e
        diante do leio no qual sua mulher se agitava nas aflies de um
        pesadelo. O pobre marido sentiu o corao partir-se-lhe no peio ante
        este espetculo. Abriu a janela, jogou o frasco bem longe e foi-se
        fechar no quarto vizinho, para chorar seu destino. A lembrana de
        Giulietta veio atorment-lo.
        Anjo ou demnio &#8211; gritou ele &#8211; causa da minha desgraa. Pois bem! Aceito
        meu destino: aparece mais uma vez diante de meus olhos; quero morrer
        revendo-a!
        Nesse instante, soou meia-noite.  ltima pancada do relgio, Giulietta
        apareceu.
        Meu bem amado &#8211; disse-lhe &#8211; guardei fielmente teu reflexo: ei-lo!
        O vu que cobria o espelho tombou e Erasmo viu sua imagem enlaada a da
        bela florentina.
        Oh! se me amas, devolve-me o reflexo; devolve-me, por piedade! &#8211; disse
        ele, caindo de joelhos. &#8211; Mas no posso compr-lo ao preo do crime que
        me exige Dapertuto!
        Escuta &#8211; continuou Giulietta &#8211; no podemos nos unir seno quando teus
        laos estejam rompidos. Um padre os atou; somente tu podes renunciar a
        eles. Mas no  preciso que o faas pessoalmente; toma apenas este papel
        e escreve em cima que renuncias  tua famlia terrestre para me
        pertencer eternamente...
        Erasmo tremia. Giulietta o beijava ardentemente. Subitamente, viu
        erguer-se de trs dela a figura de Dapertuto, que lhe apresentava uma
        pena de ferro. Nesse mesmo instante, uma veia de sua mo esquerda
        rebentou e o sangue comeou a jorrar.
        Escreve! Escreve! &#8211; dizia Dapertuto, com voz metlica.
        Escreve meu bem-amado! &#8211; dizia Giulietta, cujos vus haviam cado para
        oferecer aos olhares fascinados de Erasmo todos os tesouros da mais
        voluptuosa das belezas.
        Ele tomou da pena, molhou-a no sangue e ia assinar, quando um fantasma
        plido entrou no quarto e pronunciou estas palavras, com voz sepulcral:
        Erasmo! Erasmo! Queres dar tua alma ao Diabo? Em nome de Jesus, pra...
        Erasmo reconheceu a voz de sua esposa.
        Ao ser pronunciado o nome sagrado, Giulietta mudou de aspecto e
        transformou-se num espectro de fogo.
        Para trs, Sat! &#8211; gritou Spickherr &#8211; volta ao inferno de onde saste!
        Logo em seguida um tremor de fazer medo estremeceu a casa; o cho se
        abriu e Giulietta e Dapertuto desapareceram numa nuvem de vapor
        sulfuroso. Depois, tudo voltou ao silncio.
        Quando Erasmo, aturdido, conseguiu coordenar as idias, a luz do dia
        penetrava no quarto. Voltou para junto da esposa. Esta j estava
        desperta e brincava com o filho na cama.
        Meu amigo &#8211; disse-lhe ela com doura &#8211; agora sei da aventura que tiveste
        na Itlia. Estou contristada; v como so astutas as partidas pregadas
        pelo Demnio, que te roubou o reflexo que eu tanto gostava de ver
        sorrindo para mim, no espelho! De hoje em diante no podes mais
        continuar a ser um respeitvel chefe de famlia; todos de apontaro com
        o dedo. Sugiro que te ponhas a caminho e comeces a viajar em busca do
        teu reflexo. To logo o encontres, conforme espero, apressa-te em
        voltar. Esperar-te-ei com impacincia e rever-te-ei com alegria.
        Beija-me e parte com Deus. Lembra-te de enviar, de vez em quando, algum
        confeito ou brinquedo ao teu filho, para que ele no te esquea.
        Spickherr, o corao opresso, beijou a esposa e o filho, apanhou o
        bordo e ps-se a caminho. Encontrou certo dia o famoso Pedro Schlemihl,
        que havia perdido a sombra. Os dois desafortunados propuseram-se viajar
        juntos; Spickherr entrava com a sua sombra e Schlemihl com seu reflexo.
        Mas no conseguiram chegar a nenhum acordo e, at hoje, ningum sabe o
        que lhes aconteceu.


****
A corneta que parecia encantada e engendrava o microfono
Baro de Munnhausen
No h bem que sempre dure, nem mal que se no acabe. A guerra com os turcos
chegou ao seu fim, e na ocasio da troca de prisioneiros, recuperei a liberdade
e voltei para a Rssia, sem q me tivesse sido possvel descobrir onde parava o
meu precioso cavalo Demnio.
A perda deste bom animal obrigou-me a viajar pela posta, locomoo pela qual
sentia uma profunda averso pelos motivos j expostos no primeiro captulo
deestas verdicas memrias.
O inverno ia muito frio, e ns, passageiros, no interior da sege bem calafetada,
apesar da abundncia de peles de ursos e das boas provises de wutki, mal
sabamos se nossos corpos eram de carne e ossos ou de pedaos de gelo.
Nestas condies, chegamos a um ponto em que a estrada se estreitava tanto entre
duas sebes de espinhos que s dava lugar a um nico veculo. Aconselhei ao
postilho que na sua corneta tocasse um bom sinal de preveno para evitar um
encontro intempestivo. O homem ps o instrumento na boca e soprou, soprou a
ponto de encher as bochechas tanto que se parecia com a cara do deus Elo, como
se o v estampado nos compndios de mitologia; mas em vo! Nenhum som saa da
malfadada corneta. Este fenmeno singular e inexplicvel, teve por conseqncia
que, no meio de tal caminho apertado, topssemos com outra sege, que vinha de
encontro a nossa.
No se podia nem passar, nem recuar, e creio que teramos permanecido ali at
que o frio nos tivesse pretrificado, se no fosse a boa inspirao que tive.
Despreendi os nossos cavalos, pus nos ombros a sege, com passageiros e bagagem,
e saltei assim por cima da sebe de espinhos para o campo vizinho. Afiano aos
meus amigos leitores que a empresa no foi fcil,  vista do peso da carga e da
altura da sebe, que media bem os seus nove ps.
Voltei e agarrei os cavalos, que transportei do mesmo modo para o outro lado do
obstculo; mas cumpre-me declarar que quase sucedeu um acidente, porque um dos
cavalos, muito novo e pouco amestrado, durante o salto comeou a espernear
horrivelmente; por felicidade lembrei-me de agarrar-lhe as pernas e de met-las
na algibeira do meu casaco e assim consegui vencer a dificuldade.
A outra sege continuou o seu caminho, e eu tive o trabalho de tornar a colocar a
nossa na estrada, o que alis foi muito fcil, porque o primeiro exerccio j me
tinha amestrado.
Por fim de contas chegamos ao hotel em que devamos passar a noite.
Apressadamente nos agrupamos ao redor do fogo, e o postilho pendurou a corneta
rebelde perto da chamin. Pouco a pouco sentimos o bem-estar provocado pelo
calor bemfazejo, e nos pusemos a contar histrias interessantes enquanto no
vinha a ceia.
Mas, outro efeito do calor, e bem maravilhoso, tivemos de presenciar.
De repente a corneta ps-se a tocar tudo quanto o postilho,  fora de pulmes,
havia lhe metido no bojo, e que na ocasio no pde sair, porque o frio
excessivo enregelara os sons, que agora ao calor do fogo se derreteram e
vibraram alegremente!
Esta aventura mais tarde foi aproveitada por um certo Edison que, baseado
naquele processo, inventou o microfono, o que prova que tudo quanto me refiro
nessas memrias, por inadmissvel que seja, descansa em leis naturais e nunca se
afasta da verdade.

****




Aventuras do meu ginete Demnio
Baro de Munnhausen
No tardamos muito em entrar em ao, e os meus esforos foram coroados do
melhor xito contra os infiis.
Como  natural, a honra nas vitrias cabe sempre ao general em chefe, a ns
outros subalternos apenas cumpre seguir  risca as ordens dadas e zelas pelo
fiel desempenho dos deveres militares. Nada diria, pois, desta campanha
gloriosa, se no tivesse recado me mim o mando de um esquadro de hussardos,
destacado nas linhas avanadas, de modo que adquiri uma espcie de autonomia,
repassada de imensa responsabilidade. Mas - quem muito pode, muito deve, foi
sempre a minha divisa, e, apesar de minha proverbial modstia, posso asseverar
que soube a todo tempo mostrar-me na altura do encargo.
Um dia, havendo derrotado os turcos, obrigando-os a retirar sobre a cidade de
Orzakoo, a impetuosidade do meu cavalo quase me ps em lenois de onze varas.
Parte da retaguarda do inimigo, em um arranco de heroicidade, voltou  ofensiva,
oferecendo-nos uma resistncia tenaz; como o inimigo viesse envolto em densa
nuvem de p, para combater com armas iguais, mandei a minha gente repartir-se
dos dois lados, e levantei igualmente uma grande poeirada; fiquei eu s a atacar
no centro, sem importar-me com quem me vinha ao encontro. O estratagema  surtiu
efeito: batemos os infiis, que se puseram em completa debandada, em busca de
sua fortaleza protetora. Graas  velocidade do meu Demnio, eu ia  frente de
todos na perseguio dos fugitivos, e tive o prazer de ver que o inimigo, tomado
de um susto aterrador, nem sequer parou na praa, e fugiu logo pela parte oposta
quela pela qual entrara. Julguei ento prudente aguardar a minha gente, e como
o meu cavalo devia estar atormentado pela sede, toquei-o para uma fonte que
marulhava no meio da praa, para dar-lhe de beber. O pobre do animal sorveu o
lquido a longos tragos incessantes, sem dar mostras de satisfao. Pudera no!
De repente ouvi atrs de mim a bulha de uma cascata, e voltando a cabea,
compreendi a insaciabilidade de Demnio.
Faltava-lhe todo o traseiro, ancas e pernas, tudo cortado como por hbil golpe
de navalha: a gua que o pobre bruto bebia, imediatamente saa por de trs em
borbotes impetuosos.
Neste comenos chegou o meu picador, e, depois de ter-me felicitado pela vitria
esplndida, explicou-me que Demnio ficara privado da parte que lhe faltava. Na
ocasio em que perseguia o inimigo, de repente baixaram a grade da porta da
cidade, que, ao cair, apanhou a anca do meu cavalo, e dividira o quadrpede em
duas seces bpedes. A parte traseira, com verdadeiro furor, lanava coices
formidveis aos soldados inimigos que, cegos de medo, vinham correndo em busca
da entrada da cidade, e, depois de haver-lhes causado grandes prejuzos,
retirou-se satisfeita para um prado prximo, onde se ps a pastar
tranquilamente.
Compreender o amigo leitor que ansiosamente corri com a seco do cavalo que me
restava aoo tal prazo, onde, com grande alegria, encontrei a outra seco, viva
e bem disposta.
Mandei chamar imediatamente o ferreiro do meu esquadro, que, sem hesitar, coseu
as duas metades com brotos de louro, nica coisa que achou  mo. A ferida sarou
felizmente, mas, sobreveio uma particularidade que s podia dar-se em um cavalo
to extraordinrio como o meu Demnio. Os brotos de louro criaram razes,
cresceram e formaram na anca do cavalo um caramancho, na qual muitas vezes
gozei de excelente sombra nas minhas excurses posteriores.
Resta-me referir um pequeno incmodo que colhi naquela refrega. Com tal fora, e
to incessantemente tinha descarregado no inimigo os meus panasios certeiros,
que o brao direito adquiriu um movimento automtico, e continuava a dar, a dar,
quando o inimigo j ia longe. Para no me ferir a mim mesmo nem  minha gente,
vi-me obrigado a mandar atar-me o brao ao peito, e a conserv-lo assim durante
quinze dias, tempo necessrio para acalmar o mpeto nervoso.

****





Carta s senhoras baianas
Castro Alves
Pedem-se donativos para uma sociedade abolicionista.
Quem pede?
Quem pede so os homens, que vos dizem simplesmente: - Para nossos irmos!
So escravos que vos repetem, com a monotonia da verdade:
- Para nossos filhos!
E a quem se pede?
No  a voz, banqueiros ou milionrios, ricos ou poderosos. No! H um instinto
e um pudor neste pedido.
O pudor diz -a esmola de uma moa no humilha.
O instinto diz -o corao de uma virgem no faz economias.
Pede-se a vs, senhoras, a vs, donzelas! A vs, crianas!
A caridade pede a vs, que sois a caridade.
 que o nosso corao acostumou-se a encarnar a virtude primeira do Cristianismo
na forma purssima da mulher-Charitas.
Smbolo divino... essa figura, cujos braos semelham duas ramas pesadas de
frutos, em cujo regao as crianas abandonadas se entrelaam como as aves de um
s ninho... sob cujo manto cobrem-se os nus, e dormem os cansados... essa figura
benfica - a sntese de uma religio...  a deificao de uma classe!
Acol est todo o esprito do Cristianismo, todo o futuro da mulher nas
sociedades modernas.
De sculo em sculo, homens ganharam um palmo no terreno da liberdade e do
pensamento. As vitrias da mulher foram no terreno do amor.
Cristo disse aos apstolos: - Ensinai a todas as gentes -Mas disse s mulheres:
- Amai a todas as gentes!
O amor era uma coroa: desde ento a caridade foi um resplendor. Houve dilatao
do crculo dos afetos.
A esttua da esposa grega tinha os ps sobre uma tartaruga para lembrar-se a
imobilidade do corao.
Teu universo  o lar.
Vede-lhe a anttese! Um vulto ideal de moa traz nas sandlias o p de todos os
hospitais para lembrar-lhe a universalidade do seu corao.
A irm de caridade tem por lar o mundo inteiro.
 que os antigos mal tinham soletrado neste livro mstico, que se chama a
virgem.
Para que fizeram os deuses a rosa lbrica dos lbios?
Para o beijo -diziam eles. Ns dizemos, - tambm para a prece!
A mo alabastrina da musa sfica vai bem na lira ebrnea, mas  divina levando
um crucifixo  boca de um moribundo.
Achais formosos os cabelos da Vnus marinha, ainda rorejantes das prolas do
oceano?!
Eu chamo de sublime a cabeleira loura de Madalena, quando enxuga os ps do
Cristo!
Depois... quereis que vos diga a verdade? Vs tendes, minhas senhoras, o dever e
o direito de protestar e condenar nesta questo.
Porque sois as belas filhas desta idade, que se ilustrou por George Sand e
Emlia Girardin, por Mme. de Stael e Harriet Stowe.
Ainda mais: porque sois filhas desta magnfica terra da Amrica -ptria das
utopias, regio criada para a realizao de todos os sonhos de liberdade, - de
toda extino de preconceitos, de toda conquista moral.
A terra, que realizou a emancipao dos homens, h de realizar a emancipao da
mulher. A terra, que fez o sufrgio universal, no tem direito de recusar voto
de metade da Amrica.
E este voto  o vosso.
 o voto dessas mes de famlias que aprenderam no amor de seus filhos a ternura
pelas crianas... ainda que negras.  o voto dessas virgens purssimas que
choram de ver as cenas repugnantes da escravido, turbando a poesia da famlia.
 mes!  virgens!
Protestai em nome de Maria -Mater Creatoris!
Protestai em nome de -Maria a Virgem -Virgo castissma!
Houve um tempo em que a matrona de Esparta levava o filho ao banquete do
oprbrio e da misria moral.
O Ilota brio tinha a significao de dstico espartano:
Enoja-te!
Hoje a matrona leva o filho ao ergstulo da escravido.
O escravo aviltado tem porm a significao de um verso bblico.
Compadece-te!
* * *
Nas horas srias da humanidade, no bero ou no tmulo das grandes coisas; quando
uma raa expira, quando um povo se ergue, quando um reino desaba, quando uma
revoluo se forja, um vulto eleva-se banhado nessa beleza mstica da
fragilidade feminina, e por cima do turbilho de almas indecisas passa a
inspirao febrenta de Cassandra -a profetisa! - de Hipatia -a metafsica! -o
punhal de Judite -a regicida! -de Joana d&#8217;Arc -a donzela! -ou a pena
fulgurante de Breecher -a abolicionista!
E no ter chegado um desses momentos?
Oh! que sim!
As ondas hiantes do sculo j apagaram ao longo das duas Amricas todas as
instituies escravocratas.
O dilvio da abolio veio lavar os continentes para as novas geraes. S em
torno desta terra brasileira  que roem as vagas a base do ltimo rochedo, que
abriga as coisas que ho de morrer.
H uma pgina assim no Cu e Terra -de Byron. Ao claro sinistro e lvido que
tomou conta dos ares, os vultos dos arcanjos amorosos elevam-se do abismo,
carregando nas asas refulgentes as noivas, que adoraram sobre a terra!...
 virgem! O cataclismo rebrama. Vamos! Estendei estas mos alvssimas! Carregai
para o cu dos livres estas criancinhas agoniadas que vos chamam balbuciando.


E depois, vs bem sabeis, senhoras! A bondade  tambm uma beleza.
E quereis que vos diga? Eu penso que uma ao bonita deixa sempre um
irradiamento no olhar, um relmpago na fronte.
H dias em que a formosura deslumbra...  quando o anjo da guarda beijou
contente a face da donzela.
Demais, o que  que vos pedem?
Pouco e muito.
Pouco, pelo que vos h de custar... porque, enfim, as flores de um bordado
nascem melhor sob vossas mos ligeiras do que os lilases aos afagos da
primavera... ao vosso hlito suavssimo o veludo amoroso rebenta em lrios e em
borboletas de seda... e o bastidor estrela-se de miangas, como se tece de
constelaes uma noite luxuosa do Equador.
Muito pelo resultado que isto importa.
* * *
- Imagino que estais s.
Acabaste de ler a ltima pagina de um livro querido, do vosso escritor
predileto. A Pata da Gazela, talvez... e ficais cismando... em que? No heri, no
desfecho (que sei eu?) nessas vises serficas que povoam os coraes das
virgens... depois, como se a tristeza no vos ficasse de matar nesta cabea
espirituosa, sacudis a onda magntica dos cabelos e deixais cair entre perfumes
a cisma que vos pesava como um diadema... que fazer?
Um desenho? Uma aquarela? Mas a palheta est aguardada! O lbum vos foi pedido
por algum. Enfim  impossvel.
Se ao menos fosseis tocais aquela msica to bela de Gottschalk -Ojos Criollos,
que o maestro comps adivinhando os vossos olhos?!... Mas nestes dias de inverno
o piano est mido e preguioso: demais, sois nervosa e as teclas geladas
produzem um arrepio irresistvel.
Vamos, senhora, no h outro remdio. Tirai de vossa cestinha de costura esses
fios de sede ou de ouro. Sentai-vos ali junto dessa janela por onde o cu vos
mira sorrindo nessa limpidez do azul. Trabalhai, criana... assim!
Meu Deus! Como sois bela! Sabeis? Sois a pardia celeste da Parca.
Tendes nos dedinhos cor-de-rosa o fio de uma vida... mas um fio de seda... uma
vida de liberdade, tecida por vossas mos angelicais,  Gnio da Caridade!
E agora eu vou concluir, mas antes deixai que vos lembre uma histria.
Dizem que houve uma rainha, em cujo regao as moedas que levava aos pobres
transformavam-se em flores.
Donzela! Vs tambm fazeis milagres. Em vossas mos, as flores vo se
transformar em ouro para a remisso dos cativos.
Salvador, abril de 1871.


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Catela no banho
Boccaccio
Em Npoles, cidade antiqussima e aprazvel, como outra no h na Itlia,
existiu um jovem, claro por sua nobreza de sangue e esplndido por suas
riquezas, chamado Ricardo Mintolo, o qual, embora fosse casado com uma jovem
belssima, enamorou-se de outra que, de acordo com a opinio de todos,
ultrapassava de muito em beleza, a todas as mulheres napolitanas. Chamava-se
Catela e era mullher de um jovem igualmente nobre, Filipe Sighinolfo, e que ela,
por ser honestssima, amava sobre todas as coisas.
Ricardo Mintolo, amando-a e fazendo todas as coisas com que se podem obter as
graas e o amor de uma mulher, e no chegando em nada a realizar os seus
desejos, quase se desesperava. No podendo ou no sabendo libertar-se do amor,
tampouco morria, nem lhe aprazia o viver. E em tal estado aconteceu que,
aconselhado por alguns parentes seus quis desistir de tal amor, posto que em vo
se fadigava, j que Catela encontrava a sua felicidade apenas em Felipe de quem
com tal cime vivia, que temia que at as aves que passavam pelo ar, quisessem
tomar-lho.
Sabedor dos cimes de Catela, Ricardo, subitamente, tomou uma resoluo,
comeando a aparentar que do amor de Catela desesperava e por isso colocava a
sua ambio em outra mulher novre e por amor desta fazia em justas e torneios
todas aquelas faanhas que soa fazer por Catela.
No passou muito tempo que todos os napolitanos, Catela inclusive, se
convenceram de que ele amava grandemente essa segunda dama, e tanto nisso
perseverou que todos se convenceram de que a verdade era essa, e a prpria
Catela renunciou  esquivana com que o tratava, quando o sabia enamorado,
passando a usar da intimidade que como vizinho lhe devia, saudando-o.  Como
fazia com os outros.
Ora, aconteceu que, sendo o dia de calor, muitas comitivas de homens e mulheres,
de acordo com os costumes napolitanos, se transladaram para as praias e Ricardo,
sabendo que Catela tambm havia ido com os seus, tomou parte em uma comitiva,
tendo sido recebido no grupo de Catela no sem antes muito fazer-se de rogado.
Ento Catela e as mulheres puseram-se a motejar de seu novo amor, do qual ele,
mostrando-se muito aceso, dava ainda mais motivos para comentrios.
Enquanto isso, umas iam para uma direo, outras para outra, como acontece por
aquelas paragens, restando Catela com poucas outras onde estava Ricardo; esse
fez logo aluso a certo amor de Filipe, seu marido, o que a fez acender-se de
sbito cime e comeou a arder, toda desejo de saber o que Ricardo queria dizer.
Depois de se ter dominado por algum tempo, e no podendo mais faz-lo, pediu a
Ricardo que, pelo amor da mulher que mais amava, a esclarecesse sobre o que
dissera de Filipe. E Ricardo falou:
- Vs me conjurastes por pessoa tal que eu no poderia atrever-me a negar o que
pedis, e por isso estou pronto a dizer-vos, desde que me prometais que no
direis palavra do que eu disser depois de verificardes a verdade do que afirmo.
E quando quiserdes, eu vos ensinarei como podereis verific-la.
A mulher ficou satisfeira com o que ele pedia e acreditou ainda mais que ele
dizia a verdade, jurando-lhe que a ningum o revelaria. Retirados para um lado
em que ningum os ouviria, Ricardo disse:
- Senhora, se eu vos amasse como j vos amei, no me atreveria a dizer coisa que
acreditasse poder aborrecer-vos. Mas como aquele amor  passado, preocupa-me
menos o descobrir-vos toda a verdade. No sei de Filipe alguma vez se ultrajou
com o amor que eu vos dediquei ou se abrigou a crena de que eu fosse por vs
amado. Mas seja l como for, nem uma nem outra coisa ele jamais deixou
transparecer. Agora, esperando talvez uma ocasio, pois acredita que eu esteja
menos desconfiado, d mostras de querer fazer a mim o que eu duvido que ele no
tema que eu lhe faa: ele quer, em suma, conquistar minha mulher. E pelo que eu
tenho entendido, ele de pouco tempo para c, secretissimamente a tem solicitado,
em repetidas embaixadas, de todas as quais por ela mesma fui inteirado, e a quem
ela deu a resposta que eu impus. Esta manh, porm, antes de eu vir aqui,
encontrei em minha casa uma mulher desassisada que vi logo muito bem quem era.
Chamei a minha esposa e perguntei-lhe o que pedia aquela mulher, ao que ela
redargiu:
-  a instigao de Filipe que a faz vir aqui em busca de respostas e esperanas
e diz que a todo custo quer saber o que eu pretendo fazer e que ela, quando eu
quiser, far que eu v secretamente a um banho com ele e para que eu consinta
assaz me pede e importuna. E se no fosses tu que me meteste nesses enredos, no
sei por que, eu me teria livrado dele de tal maneira que nunca mais se atreveria
a pr os olhos onde eu estivesse.
- Ento, pareceu-me que Filipe avanava muito e que no era possvel tolerar
mais e resolvi dizer-vos, para que reconheais a recompensa que a vossa completa
fidelidade recebe, e pela qual eu j estive na iminncia de ser levado ao
sepulcro. E para que no penseis que o que digo so apenas palavras e fbulas,
se no verdades de que, quando quiserdes, podereis certificar-vos, disse a minha
esposa que  mulher que a esperava respondesse que estava disposta a aparecer
amanh s trs da tarde, ao banho. Com isso, a criatura partiu contentssima.
No presumo agora que acrediteis que eu a enviasse. Mas se eu estivesse em vosso
lugar, faria que ele se encontrasse comigo em lugar de encontrar-se com quem ele
quer e, depois de curta permanncia com ele, eu lhe faria ver com quem havia
estado, tratando-o ento como merece. E assim agindo, de tal sorte ele se
envergonharia que ficar a um tempo vingada a ofensa que quis infligir a mim e a
vs.
Catela, sem atender a quem lhe falava nem aos seus enganos, como soem fazer os
ciumentos, subitamente deu f as palavras e passou a ligar com este fato algumas
coisas que haviam acontecido antes. E de sbita ira acesa, respondeu que ela
assim certamente agiria e que, se ele aparecesse, ela o envergonharia de tal
sorte que sempre que ele visse alguma mulher, o episdio lhe voltaria 
imaginao.
Ricardo, contente com o que via e parecendo-lhe que a idia havia sido boa e
procedente, confirmou a sua perfdia com muitas outras palavras, fazendo-a
acreditar mais, rogando-lhe todavia, que no dissesse a ningum o que ele lhe
havia falado, o que ela prometeu sob palavra.
Na manh seguinte, Ricardo foi ao encontro da boa mulher que era a dona da casa
de banhos, disse-lhe o que pretendia fazer e pediu-lhe que o favorecesse. A boa
criatura, que o apreciava muito, disse que o faria de bom grado, combinando com
ele o que teria de fazer ou dizer.
Na casa de banhos havia um quarto muito escuro, dada a falta de qualquer janela.
A conselho de Ricardo, a mulher, ps ali uma cama em que ele se meteu  espera
de Catela.
Dando s palavras de Ricardo mais f do que mereciam,  tarde, Catela voltou
aborrecida para casa, onde Filipe tambm voltava cheio de outros pensamentos,
tendo tratado a esposa com menos familiaridade do que de costume, o que
contribuiu para aumentar a sua desconfiana. Dizia consigo mesma: na verdade ele
est pensando na mulher com quem pretende encontrar-se amanh, o que com toda a
certeza no ir acontecer. E passou a noite dominada por este pensamento e
imaginando o que lhe deveria dizer na hora azada.
Chegada a hora, Catela, acompanhada de uma criada, dirigiu-se para a casa de
banhos. E ali, encontrando a boa mulher, perguntou-lhe se Filipe havia
aparecido, ao que a proprietria, industriada por Ricardo, respondeu:
- Sois a mulher que dever encontrar-se com ele?
- Sim, respondeu Catela.
- Podeis entrar, redargiu, pois ele est l dentro.
Catela, que andava procurando o que no queria encontrar, dirigiu-se ao quarto.
Entrou com a cabea coberta, e fechou a porta. Ricardo,  sua chegada,
levantou-se feliz e acolhendo-a nos braos, disse, calmamente: - &#8220;Vem, alma
minha.&#8221;
Catela, querendo mostrar ser outra que no ela mesma, abraou-o e beijou-o,
acariciando &#8211; e sem dizer palavra, temendo, se falasse ser por ele reconhecida.
O quarto era escurssiimo, o que foi de agrado de ambos. Nem mesmo a grande
permanncia ali dentro deu aos seus olhos o poder de verem claro.
Ricardo conduziu-a para o leito e a, sem falar, de modo que a voz no o pudesse
trair, por grandssimo espao de tempo ficaram, e com grande alegria de ambos.
Mas quando a Catela pareceu que era chegada a ocasio de desabafar-se, acesa de
fervente ira, disse:
- Ah, quanto  msera a sorte das mulheres e como  mal empregado o amor de
muitas para com os maridos! Desgraada de mim, h oito anos que eu te amo mais
do que a minha vida e tu ardes e te consomes no amor de mulher estranha.
Criminoso e perverso, com quem acreditas que estejas? Ests com aquele que, com
falsas lisonjas, enganaste e por muitas vezes, fingindo-lhe amor quando estavas
enamorado de outra. Eu sou Catela, no sou a mulher de Ricardo, traidor desleal.
Escuta, para ver se reconhece a minha voz. Parece que mil anos que vivssemos eu
no te envergonharia como mereces, cachorro sujo e vitupervel. Desgraada de
mim! A quem eu, por tantos anos, dediquei tanto amor? A este co desleal que,
acreditando ter nos braos mulher estranha, me fez mais carcias nas poucas
horas que aqui me teve do que em todas as outras em que me possuiu. Estivesse
hoje, co renegado, bastante animoso enquanto em casa sis mostrar-te dbil,
rendido e impotente. Mas Deus louvado, lavraste o teu campo e no campo alheio
como acreditavas. No  de estranhar que esta noite passada no me houvesses
procurado. Esperavas em outro lugar aliviar a tua carga e querias chegar,
cavaleiro fresco  batalha. Mas louvado seja Deus assim como a minha precauo
seja louvada, a gua desceu para o mar como devia. E no me respondes,
criminoso? Nada me dizes? Emudeceste s de ouvir-me? Palavra que no sei o que
me impede de meter as mos nos teus olhos, arrancando-os! Acreditaste fazer
ocultamente esta traio? Por Deus, vs bem que tanto sabe um como o outro. No
o conseguiste. Sa-me melhor do que supunhas.
Ricardo gozava consigo mesmo aquelas palavras e sem responder nada, abraava-a e
beijava-a, e mais do que nunca fazia-lhe grandes carcias. E ela continuava
dizendo:
- Pensas agora  que as tuas carcias infinitas possam agradar-me e consolar-me,
co fastioso. Mas erras. No me darei por consolada, enquanto eu no te
vituperar em presena de quantos parentes e amigos e vizinhos tenhamos. Ora, no
sou eu, perverso, to bela como a mulher de Ricardo Mintolo? No sou to gentil
dama como ela? Por que no me respondes, co imundo? Que tem ela mais do que eu?
Aparta-te, no me toques que j fizeste o suficiente por hoje. Sei bem que de
agora em diante, j bem sabes quem sou, forcejars por fazer at esse momento
espontaneamente no fizeste. Mas se Deus me der a sua graa, eu te farei padecer
de cime; no sei o que  que me prende que no mando chamar por Ricardo, que me
amou mais do que a si mesmo e jamais pde orgulhar-se de eu t-lo olhado, uma
vez que fosse, e no sei que mal teria havido se eu o houvesse feito.
Acreditaste ter a mulher dele e  como se a tivesses possudo, pois no esteve
em ti a culpa de no se tratar dela. Portanto, se ele me possusse, no terias
por que me censurar.
As palavras foram bastantes e grande a amargura da mulher. Por fim, Ricardo,
pensando que se sasse, deixando-a nessa crena, muitos males poderiam sobrevir,
deliberou revelar-se, tirando-a do engano em que estava. E, segurando-a bem
entre os braos, de modo que no pudesse escapar, disse: &#8220;Doce amor meu, no vos
perturbeis, aquilo que, simplesmente amando, no pude ter. amor, com enganos,
ensinou-me a possuir. Eu sou o vosso Ricardo.&#8221;
Catela subitamente quis atirar-se do leio mas no pde. Quis gritar, mas Ricardo
tapou-lhe a boca, dizendo:
- Senhora,  impossvel que aquilo que aconteceu, deixe de ter acontecido,
embora ficsseis a vida toda gritando. E se gritardes ou fizerdes que, de
qualquer maneira, o que fizemos venha a ser do conhecimento de qualquer pessoa,
duas coisas podem acontecer: uma (que no vos deve importar pouco)  que a vossa
honra e boa reputao sero destrudas, pois se disserdes que eu aqui vos trouxe
por engano, terei que responder que no  verdade, antes que vos fiz vir por
dinheiro e presentes prometidos e que, por no terem sido o que esperveis, vs
vos perturbastes, passando a fazer to grande alarido. E vs sabeis que o povo
est mais inclinado a acreditar no mal que no bem e por isso mesmo   que
acreditar em mim, antes de acreditar em vs. Depois disso nascer entre vosso
marido e mim uma inimizade mortal e pode acontecer muito bem que um de ns acabe
matando o outro, tal seja a marcha dos acontecimentos, coisa que de nenhum modo
vos deve deixar contente. E, por isso, corao meu, no queirais a um tempo,
desonrar-vos e pr em perigo e briga a vosso marido e a mim. No sois a primeira
nem sereis a ltima a ser enganada, nem vos enganei para tirar-vos a honra, mas
por um imenso amor que vos dedico e dedicarei sempre, dispondo-me a ser vosso
humlimo servidor. E como h muito que eu e minhas coisas e tudo que eu possa e
valha fiz vossos e pus a vosso servio, acredito que de hoje em diante ainda
mais o estaro. Ora, vs sois esclarecida em outras coisas e estou certo de que
o sereis tambm nessa.
Catela chorava profusamente. E muito perturbada e amarga, deu razo s palavras
de Ricardo.  que ela acreditava possvel vir a acontecer o que Ricardo
prognosticava. E disse:
- Ricardo, eu no sei como Deus possa conceder-me que eu tolere a injria e o
engano que me fizestes. No quero gritar aqui aonde fui conduzida pela minha
ingenuidade e cime, mas vivei seguro de uma coisa,  que eu no ficarei
contente, enquanto no me vingar do que me fizeste. J  tempo de me deixardes.
Deixai-me, imploro. J possustes o que desejastes e j muito me maltratastes.
Ricardo dispunha-se todavia a no a deixar, a no ser depois de reaver a sua
paz. Por isso, comeou com dulcssimas palavras a apazigu-la, tanto disse,
rogou e conjurou que ela, vencida, fez as pazes com ele e, postos enfim de
acordo, permaneceram por muito tempo em amistosa companhia. E a mulher,
conhecendo ento que os beijos do amante so mais saborosos que os do marido,
transformou em doce amor a sua dureza e, daquele dia em diante, ternissimamente
o amou e, agindo, avisadissimamente, muitas vezes gozaram do seu amor. E que
Deus nos faa gozar do nosso.


****


Davi Swan
Nathaniel Hawthorne


Nem os acontecimentos que em verdade influenciam a nossa passagem pela vida e
nosso destino, nem esses conhecemos, exceto uma parte. H, contudo, muitos
outros fatos, se assim se pode cham-los, que se desenrolam perto de ns e
passam sem resultados efetivos, sem mostrar a sua proximidade nem mesmo algum
reflexo de luz ou sombra em nossa mente. Se pudssemos conhecer todos os
percalos do nosso destino, e a vida seria to demasiado cheia de esperana e
medo, de louvor e decepo, que no nos deixaria uma nica hora de paz
verdadeira. Essa idia pode ser ilustrada com uma pgina relativa ao segredo de
Davi Swan.
Nada temos que ver com Davi at o instante em que, aos 20 anos, o encontramos na
estrada entre sua cidade natal e Boston, onde seu tio, um pequeno comerciante de
secos e molhados, pretendia empreg-lo como balconista. Basta dizer que era
natural de New Hampshire, filho de pais respeitveis e que recebeu uma educao
razovel, com o clssico remate de um ano na Academia de Gilmanton. Tendo
viajado a p desde o nascer do sol at quase meio-dia, nesse dia de vero, o
cansao e o calor crescente determinaram-no a sentar no primeiro lugar com
sombra e ali aguardar a chegada do correio. Como que plantada expressamente para
ele, dentro em pouco apareceu uma pequena moita, com um delicioso abrigo no meio
e uma nascente to fresca como nunca parecia ter jorrado igual para qualquer
outro andarilho. Fosse ela virgem ou no, Davi sorveu-a com lbios sedentos, e
depois deitou-se  margem, repousando a cabea sobre algumas camisas e uma
cala, envoltas num leno de algodo listrado. Os raios solares no o atingiam;
a poeira ainda no se erguera, aps a pesada chuva da vspera; e aquele refgio
coberto de erva convinha melhor do que um leito de penas. A nascente murmurava
lnguida como num sonho, diante do cu azul, e um sono profundo, que talvez
contivesse sonhos, baixou sobre Davi Swan. Mas vamos relatar fatos com os quais
ele no sonhou.
Enquanto ficava  sombra, em sono profundo, outras pessoas continuavam
acordadas, passavam de um lado para outro, a p, a cavalo e em toda espcie de
veculos, ao longo da estrada, soalheira de seu quarto de dormir. Alguns no
olhavam nem  direita nem  esquerda, e ignoravam-lhe a presena; outros se
voltavam para aquele lado, mas ocupados como estavam com seus pensamentos, no o
viam; outros riam ao v-lo dormir a sono solto; e mais de um, de corao
transbordante de perversidade, destilava sobre Davi o excesso de seu veneno. Uma
viva de meia-idade, depois de notar que no havia ningum por perto, meteu a
cabea entre a moita e jurou que o jovem dormia com um ar encantador. Um
pregador de abstinncia tambm o viu, e incluiu o rapaz no texto de sua orao
daquela tarde, como horrvel exemplo de embriaguez total, exibido  beira da
estrada. Mas a censura, o elogio, o rio, o escrnio, a indiferena valiam o
mesmo, isto , nada, para Davi Swan.
Mal dormira alguns minutos quando uma carruagem castanha, puxada por uma bela
parelha de cavalos, rolou perto dele. Quase em frente ao abrigo de Davi, teve de
parar por se haver afrouxado uma cavilha de ferro, dando lugar a escapulir-se
uma das rodas. Ligeiro transtorno, que produziu breve susto em um negociante de
certa idade e em sua esposa, que voltavam a Boston na carruagem. Enquanto o
cocheiro e um criado repunham a roda, a dama e o cavalheiro abrigaram-se na
morta, onde descobriram a nascente e Davi dormindo  margem dela. Impressionados
pelo medo que inspira um homem adormecido, por mais humilde que seja, o
negociante recuou to depressa quanto lhe permitia o reumatismo e sua esposa
tratou de evitar o ruge-ruge do vestido para que Davi no acordasse em
sobressalto.
- Que sono pesado! -murmurou o velho cavalheiro., - como  profunda essa
respirao leve! Um sono assim, conseguido sem qualquer narctico, teria maior
valor para mim que metade da minha renda,pois significaria sade e esprito
despreocupado.
- E mocidade tambm -acrescentou a mulher -A idade sisuda e tranqila no
dorme assim. Dormindo ou acordados, pouco nos assemelhamos a este jovem.
Quanto mais o casal contemplava o moo desconhecido, para quem a beira da
estrada e a moita constituam um quarto secreto com a rica sombra de cortinas de
damasco a proteg-lo, tanto maior interesse por ele sentia. Notando que um raio
de sol lhe banhava o rosto, a dama lembrou-se de torcer um ramo para
intercept-lo. Mal executou esse pequeno ato de bondade, comeou a experimentar
em relao ao jovem sentimentos maternais.
- parece que foi a Providncia que o fez deitar-se ai -cochichou ao marido -e
nos fez encontr-lo aps a decepo que tivemos com o filho do nosso primo.
Tenho a impresso de que parece com nosso pobre Henrique. Devemos acord-lo?
- Para qu? -perguntou o negociante, incerto. -Nada sabemos sobre o carter
desse moo.
- Essa fisionomia aberta! -replicou a mulher, - Esse sono inocente!
Enquanto sussurravam, o corao do rapaz no palpitou com mais fora, nem a
respirao se lhe tornou mais agitada, nem as feies deram o menor sinal de
interesse. Entretanto, a Ventura estava debruada sobre ele, prestes a deixar
cair uma carga de ouro. O velho comerciante havia perdido o filho nico, e no
tinha herdeiro para sua fortuna, salvo um parente distante, cujo modo de agir
no lhe agradava. Em tais circunstncias, a gente s vezes realiza coisas mais
estranhas do que fazer de mgico, despertando para a riqueza um moo que
adormeceu pobre.
- Devemos acord-lo? -repetiu a dama em tom persuasivo.
- A carruagem est pronta, senhor -disse o criado, atrs deles.
O velho casal sobressaltou-se, corou, e foi-se s pressas, marido e mulher
igualmente espantados de que pudessem cogitar coisa to ridcula. O comerciante
derreou-se na carruagem e entrou a refletir no projeto de um asilo magnfico
para homens de negcio infelizes. Entretanto, Davi gozava sua soneca.
A carruagem no se teria afastado mais de uma ou duas milhas quando apareceu uma
bela moa, avanando a passos ligeiros, que mostravam exatamente como o pequeno
corao lhe danava no peito. Talvez fosse este movimento alegre o que fez -
haver algum mal em diz-lo? -que sua liga se desatasse. Percebendo que a
presilha de seda -se era mesmo de seda -ia afrouxar, entrou na moita e deu com
o jovem adormecido ao p da nascente. Corando como uma rosa por se haver
introduzido no quarto de dormir de um cavalheiro, e ainda mais com um intuito
daqueles, ia escapulir-se na ponta dos ps. Mas pairava uma ameaa sobre o
desconhecido. Uma abelha enorme esvoaava por cima dele -zum, zum, zum - , ora
entre as folhas, ora atravs dos feixes de luz solar, ora perdida na sombra
escura, at que resolveu baixar sobre uma das plpebras de Davi. A picada de uma
abelha pode ser mortal. To generosa quanto inocente, a moa atacou a intrusa
com o leno, afugentou-a com energia, e enxotou-a do recesso da moita. Lindo
quadro! Realizada essa boa ao, e com a respirao mais rpida e um rubor mais
vivo nas faces olhou a furto para o jovem forasteiro, por quem acabara de
bater-se com um drago do ar. -- bonito&#8221;- pensou, corando mais ainda.
Como pode ser que um sonho de felicidade no se tenha levantado dentro dele, to
irresistvel que, desfeito pela sua prpria fora, lhe houvesse mostrado a
rapariga entre as suas vises? Por que pelo menos um sorriso de boas vindas no
lhe acendeu no rosto? Ela chegara, a jovem cuja alma, segundo a bela e antiga
idia, fora separada da sua, e a quem, em todos os seus desejos vagos  e
apaixonados, ele anelava encontrar. Somente a ela podia o rapaz amar com
perfeito amor; somente a ele podia a moa receber no ntimo do seu corao; e
agora a imagem dela corava de leve na fonte a seu lado. Se ela desaparecesse,
nunca mais o seu brilho feliz lhe alumiaria a vida.
- Que sono profundo! -murmurou a moa.
E foi-se embora; mas j no ia com o passo lpido de antes.
Ora, o pai dessa menina era um prspero negociante dos arredores, e estava
justamente procurando um jovem igualzinho a Davi. Se Davi houvesse conhecido a
filha durante esse passeio, ter-se-ia tornado caixeiro do pai dela, e o resto
teria vindo na ordem normal. Assim, mais uma vez, a ventura -a melhor das
venturas - -passou to perto dele que suas vestes o roaram e ele nada soube
sobre isso.
Mal a jovem se perdeu de vista, dois homens encontraram a sombra da moita.
Tinham ambos o rosto escuro, realados por gorros de pano puxados de travs
sobre os olhos. Traziam vestes andrajosas, porm no desprovidas de certa
elegncia. Era um par de marotos que viviam do que o Diabo lhes mandava, e
agora,  espera de outro negcio, iam jogar a renda conjunta de sua ltima
trapaa numa partida de cartas. Havendo encontrado Davi adormecido ao p da
nascente, um dos patifes cochichou ao outro:
- Psiu! Ests vendo a trouxa debaixo da cabea dele?
O outro fez sinal com a cabea e piscou os olhos, malicioso.
- Aposto um copo de aguardente -disse o primeiro -que o camarada tem uma
carteira ou um tesourinho oculto dentro daquelas camisas, ou pelo menos no bolso
da cala.
- Mas se acordar? -perguntou o segundo.
O primeiro puxou de lado o colete e mostrou o cabo de um punhal.
- Est certo! -sussurrou o outro velhaco.
Aproximaram-se de Davi e, quando um lhe apontava o punhal ao corao, o outro
comeou a remexer na trouxa. Seus rostos horrveis, suas frontes enrugadas,
terrveis de maldade e medo, inclinavam-se sobre a vtima, e tinham uma
aparncia to hedionda que Davi, se de repente acordasse, os tomaria por dois
demnios. Se os malandros voltassem a vista para a nascente, eles mesmos,
refletidos pela gua, no se reconheceriam. Mas Davi, esse nunca tivera
aparncia mais tranqila, nem sequer quando dormia no colo da me.
- Tenho de puxar a trouxa -cochichou um dos dois.
- Se ele se mexer, eu furo -o outro murmurou.
Nesse momento, porm, um co, farejando o rastro, vinha entrando na moita e
olhou alternadamente para os dois criminosos e para a quieta vtima. Depois, foi
sorver uns goles da nascente.
- Bolas! -exclamou um dos patifes -no podemos fazer nada agora. O dono do
cachorro deve andar por ai.
- Vamos beber um gole e sair daqui -disse o outro.
O do punhal escondeu a arma e sacou uma pistola, mas no daquelas que matam numa
s descarga. Era um fraco de licor, com um copo de estanho servindo-lhe de
tampa. Cada um tomou um bom trago, depois do que deixaram o lugar gracejando e
rindo tanto do malogro da tentativa que quase pareciam alegres por terem
partido. Em poucas horas esqueceram o caso, sem imaginar que  o anjo da
lembrana inscrevera contra suas almas o crime de assassinato, em letras
douradas como a eternidade. Quanto a Davi Swan, continuava a dormir sereno,
ignorando a sombra da morte quando esta o ameaava, tanto quanto o brilho da
vida renovava, depois de haver-se dissipado aquela sombra.
Dormia, porm, menos tranqilo que antes. O repouso de uma hora bastou para
livrar-lhe a compleio robusta do cansao em que o tinham mergulhado vrias
horas de fadiga. Mexeu-se, moveu os lbios, falou baixinho com os espectros
ntimos de seu sonho. Mas um rudo de rodas, na estrada, aproximava-se, at que
dissipou a neblina da sesta de Davi: o correio havia chegado. Levantou-se num
sobressalto, com todos os pensamentos a fervilharem em torno.
- Ol, cocheiro! H mais um lugar? -gritou.
- H um em cima! -respondeu o cocheiro.
Davi subiu e continuou alegre a sua viagem a caminho de Boston, sem ter ao menos
lanado um olhar de despedida quela fonte de sonial vicissitude. No soube que
o fantasma da Riqueza lhe lanara um matiz dourado sobre as guas, nem que
outro, o do Amor, lhe acompanhara o murmrio com um suspiro leve, nem que o um
terceiro, o da Morte, ameaara tingi-las com o carmesim do prprio sangue, tudo
isso durante a breve hora que passara a dormir. Dormindo ou andando, no ouvimos
os passos areos das coisas estranhas que por um fio no nos acontecem. No ser
um argumento em favor de uma Providncia vigilante o fato de, enquanto
acontecimentos invisveis e inesperados se atiram sem cessar em nosso caminho,
haver contudo bastante regularidade na vida dos mortais para que a previso
tenha uma utilidade pelo menos parcial?

****

        O Tiro
        Alexandre Puchkin

        Paramos na cidade de ***. Sabe-se o que  a vida de um oficial: de
        manh, exerccios, instrues e manejo de armas; almoo na casa do
        comandante ou na taverna do judeu;  tarde, ponche e cartas. Em *** no
        havia nenhuma casa hospitaleira, nem jovem casadoura; assim, nos
        reunamos uns nas casas dos outros, alm dos nossos prprios uniformes,
        no vamos nada.
        Um nico civil freqentava nosso grupo. Teria uns 35 anos e por isso era
        tido como velho. Dava-lhe a experincia, ao nossos olhos, grande
        prestgio. Alm disso, sua habitual carranca, modos rspidos e lngua
        maldizente exerciam forte impresso em nossos espritos juvenis.
        Algum mistrio envolvia o seu destino. Parecia russo, mas usava nome
        estrangeiro. Servira na cavalaria, com brilho at; mas, por motivo
        desconhecido, de repente pediu baixa e veio se estabelecer naquele
        lugarejo miservel, onde vivia, a um tempo, pobremente e com
        prodigalidade. Andava sempre a p, trajando um velho casaco preto, mas,
        ao mesmo passo, mantinha mesa franca para todos os oficiais de nosso
        regimento.  verdade que o seu jantar consistia de dois ou trs pratos
        preparados por um veterano; o champanha, porm, corria a jorros. Ningum
        lhe conhecia a fortuna, nem as rendas, mas ningum se atrevia a
        interrog-lo a respeito. Tinha regular nmero de livros, na maioria
        obras militares, mas tambm alguns romances, que emprestava de boa
        vontade sem nunca os pedir de volta; tampouco devolvia os livros que lhe
        emprestavam. Seu principal exerccio era o tiro de pistola. As paredes
        de seu quarto estavam crivadas de balas, todas fendilhadas, como favos
        de mel. Preciosa coleo de pistolas era todo o luxo da pobre casa em
        que vivia. Chegou a adquirir to incrvel habilidade que, caso se
        propusesse abater com uma bala o penacho de um capacete, nenhum de ns
        vacilaria em pr a cabea debaixo deste. Freqentemente se falava em
        duelos. Slvio (cham-lo-ei assim) nunca tomava parte na palestra.
        Quando interrogado sobre se j lhe acontecera bater-se em duelo,
        respondia com secura, sem entrar em mincias: via-se que tais perguntas
        no lhe agradavam. Supnhamos que talvez lhe pesasse na conscincia
        alguma infeliz vtima de sua terrvel habilidade; porm, no nos passava
        pela cabea que nele pudesse haver algo parecido com timidez. H pessoas
        cujo aspecto basta para afastar suspeitas dessa ordem. Um acontecimento
        inesperado surpreendeu-nos.
        Certo dia, almovamos uns dez oficiais em casa de Slvio. Bebemos como
        de costume, isto , muitssimo. Aps o almoo comeamos a persuadir o
        dono da casa a que bancasse. Silvio, que no jogava quase nunca,
        resistiu algum tempo; afinal, mandou trazer o baralho, atirou  mesa
        cinqenta ducados e sentou-se para distribuir as cartas. Rodeamo-lo e
        principiou o jogo. Tinha ele por hbito manter-se em completo silncio
        durante a partida, sem nada perguntar nem dar qualquer explicao. Se a
        um dos parceiros acontecia errar nos clculos, ele de pronto lhe
        restitua o que recebera em excesso, ou anotava o excesso recebido pelo
        outro. J sabamos disso, e no o impedamos de jogar conforme seu
        sistema, como bem entendesse. Havia entre ns, porm, um oficial
        transferido pouco antes para o nosso regimento. Este, jogando distrado,
        anunciou um tresdobro errado. Silvio pegou o giz e acertou a conta,
        segundo o seu hbito. Pensando que o banqueiro se enganara, o oficial
        entrou a explicar-se. Slvio, sem responder, continuava a distribuir as
        cartas. Perdendo a pacincia, o oficial tomou a esponja e apagou o que
        lhe parecia escrito a mais. Silvio retomou o giz e reproduziu a mesma
        anotao. Esquentado pelo vinho, pelo jogo e pelo riso dos colegas, o
        oficial julgou-se gravemente ofendido, agarrou com raiva um castial de
        cobre posto sobre a mesa, e arremessou-o contra Slvio, que mal teve
        tempo de evitar o golpe, desviando-se com rapidez. Houve uma algazarra
        geral. Plido de furor, Slvio levantou-se e disse com os olhos
        cintilantes:
        Tenha a bondade de sair, senhor, e agradea a Deus que isso haja
        acontecido na minha casa.
        No tnhamos a menor dvida acerca das conseqncias e julgvamos nosso
        camarada um homem morto. O oficial saiu dizendo que estava pronto a
        responder pela ofensa como o senhor banqueiro julgasse conveniente. O
        jogo continuou ainda por alguns minutos; mas, sentindo que o dono da
        casa no tinha disposio para jogar, deixamo-lo, um aps outro, e
        dispersamo-nos em direo aos nossos alojamentos, a conversar sobre a
        prxima vaga.
        No dia seguinte, no manejo, j perguntvamos uns aos outros se o pobre
        tenente ainda vivia, quando ele prprio surgiu em nosso meio. Entramos
        sem demora a interrog-lo. Respondeu que no tivera notcia de Silvio, o
        que muito nos espantou. Fomos  casa deste, e o encontramos no quintal
        atirando uma bala sobre outra numa carta de s colada no porto.
        Recebeu-nos como de costume e evitou comentar sobre o acontecido da
        vspera. Trs dias se passaram, e o tenente ainda vivia. Todos se
        perguntavam, admirados: - "Ser que Silvio no querer se bater?" Pois
        no se bateu. Deu-se por satisfeito com uma explicao ftil e
        reconciliou-se.
        Esta atitude o prejudicou sobremodo na opinio da mocidade. O que os
        moos menos perdoam  a falta de coragem, pois geralmente vem na
        ousadia a principal das virtudes viris e a desculpa de todos os
        defeitos. Tudo, entretanto, aos poucos foi sendo esquecido e Silvio
        tornou a adquirir sua influncia.
        S eu no pude reaproximar-me dele. Dotado de imaginao romntica,
        sentira-me atrado mais que os outros por aquele homem cuja vida
        constitua um mistrio e que se me afigurava o heri de alguma histria
        misteriosa. Ele gostava de mim; pelo menos eu era a nica pessoa com
        quem ele punha de lado seu habitual tom spero e sarcstico e palestrava
        sobre assuntos diversos, cordialmente e com graa. Porm, aps aquela
        noite infeliz,, a idia de que sua honra estava manchada e por sua
        prpria vontade no fora lavada, essa idia me largava e impedia-me de
        trat-lo como dantes. Silvio, que muito inteligente e experimentado, no
        podia deixar de notar o meu procedimento e adivinhar-lhe os motivos,
        parecia magoado com ele. Ao menos duas vezes observei que desejava
        dar-me uma explicao, mas evitei as ocasies e ele desistiu de
        procur-las. Da por diante, vamo-nos apenas em presena dos meus
        camaradas, e as nossas cordiais palestras de outrora nunca mais se
        repetiram.
        Os habitantes da capital, viciados em distraes, no fazem idia de
        muitas impresses bem conhecidas dos habitantes das aldeias e pequenas
        cidades, como, por exemplo, a espera do dia do correio. s segundas e
        sextas-feiras o escritrio de nosso regimento se enchia de oficiais: um
        aguardava dinheiro, outro cartas, outro jornais. De ordinrio, as
        encomendas eram abertas ali mesmo, as notcias comunicadas aos colegas,
        e o escritrio ficava muito animado. Silvio tambm mandava dirigir a sua
        correspondncia para o nosso regimento e regularmente vinha busc-la.
        Certa vez foi-lhe entregue uma encomenda, cujo lacre ele quebrou com
        visvel impacincia. Percorrida a carta, seus olhos fuzilaram. Os
        oficiais, cada qual preocupado com a prpria correspondncia, nada
        perceberam.
        Senhores &#8211; disse Silvio -, h negcios que exigem a minha partida
        imediata. Partirei esta noite. Espero que no recusem meu convite para
        jantar comigo pela ltima vez. Aguardo-o tambm &#8211; acrescentou,
        dirigindo-se a mim. &#8211; Aguardo-o sem falta.
        Com essas palavras saiu apressado, enquanto ns, ajustado que nos
        reuniramos outra vez na casa dele, fomos cada qual para seu lado.
        Cheguei  casa de Silvio na hora combinada, e ali encontrei quase todo o
        regimento. Tudo que Silvio tinha j estava empacotado; restavam apenas
        as paredes nuas, ostentando os buracos feitos pelos tiros. Sentamos. O
        dono da casa estava de muito bom humor, que em pouco tempo se comunicou
        a todos. Espocavam rolhas a cada minuto, copos espumavam, o vinho
        crepitava sem parar, e todos ns com a maior cordialidade desejamos ao
        amigo boa viagem e todas as venturas. Levantamos da mesa j noite alta.
        Quando da procura dos quepes, Silvio, despedindo-se de todos, segurou-me
        pelo brao e reteve-me no momento exato que eu ia sair.
        Preciso lhe falar &#8211; disse-me.
        Fiquei.
        Os outros se foram e ns dois permanecemos ss, sentados um diante do
        outro a cachimbar em silncio. Silvio parecia embaraado. Da alegria
        convulsiva de pouco antes no havia o menor vestgio. Sua sinistra
        palidez, seus olhos fuzilantes e a espessa fumaa que lhe saa da boca
        davam-lhe um ar diablico. Passaram-se alguns minutos, at que ele
        quebrou o silncio.
        Talvez nunca mais nos vejamos &#8211; disse-me -, mas, antes de nos
        separarmos, queria-lhe dar uma explicao. H de ter notado que ligo
        pouco ao que os outros pensam de mim. Mas gosto de voc e sinto que me
        seria penoso deixar subsistir em seu esprito uma impresso injusta.
        Interrompeu-se a fim de reencher o cachimbo. Eu mantinha-me calado, de
        olhos baixos.
        Achou estranho &#8211; continuou &#8211; que eu no houvesse pedido satisfao
        quele bbado estouvado. Mas voc h de convir que, tendo eu o direito
        de escolher a arma, a vida dele estava em minhas mos e a minha quase
        fora de perigo. Poderia dar-se como causa dessa moderao a minha
        generosidade, porm no quero mentir. Se pudesse castig-lo sem arriscar
        de modo nenhuma minha vida, no lhe teria perdoado.
        Olhei Silvo com surpresa. Semelhante confisso acabou por me perturbar.
        Ele voltou a falar:
         isso mesmo. No tenho o direito de me expor  morte. H seis anos
        recebi uma bofetada, e o meu inimigo ainda est vivo.
        Espicaou-me a curiosidade:
        Ento no se bateram? Algum obstculo ter impedido o encontro?
        Batemo-nos &#8211; retrucou Silvio -, e eis a lembrana do nosso duelo.
        Levantou-se e tirou de uma caixa um gorro vermelho com a borla e os
        gales de ouro e o ps na cabea. O gorro estava atravessado por uma
        bala uma polegada acima da fronte.
        Voc sabe que servi no regimento de hussardos de *** - continuou ele. &#8211;
        O meu carter lhe  conhecido. Tenho o costume de ser o primeiro, e
        quando moo isto chegava a ser uma mania. Naquele tempo a briga estava
        na moda, e eu era o mais brigo do Exrcito. Ns nos vanglorivamos de
        grandes bebedeiras; cheguei a vencer em duelo o famigerado B***, cantado
        por D***. Os duelos ocorriam em nosso exrcito um por minuto: eu era
        testemunha ou participante ativo de todos eles. Meus colegas me
        admiravam; quanto aos comandantes, substitudos a cada momento, me
        consideravam um mal inevitvel. Assim vivia gozando tranqilamente (ou
        antes, inquietamente) a minha glria, quando um jovem oficial, de
        abastada e conhecida famlia, foi transferido para o nosso regimento.
        Nunca em minha vida vi tamanho felizardo. Imagine mocidade, esprito,
        beleza, a alegria mais louca, a mais despreocupada coragem, um nome
        conhecido, tanto dinheiro que ele nem chegava a cont-lo e que nunca lhe
        faltaria, e poder calcular a impresso que ele produziu em ns. A minha
        hegemonia foi abalada. Seduzido pela minha fama, o jovem quis se fazer
        meu amigo, mas recebi-o friamente e ele se afastou de mim sem o menor
        pesar. Comecei a odi-lo. Seu xito no regimento e na sociedade feminina
        levou-me a completo desespero. Entrei a provoc-lo, mas o moo respondia
        a meus epigramas com epigramas que sempre me pareciam mais picantes e
        agudos que os meus, e era, pelo menos, mais alegres, pois ele brincava e
        eu estourava de raiva. Enfim, certo dia, vendo-o no baile oferecido por
        um proprietrio polaco, ser objeto da ateno de todas as damas,
        principalmente da dona da casa &#8211; a qual j tivera ligao comigo -,
        cheguei-me a ele e disse-lhe ao ouvido alguma vulgar insolncia.
        Enfureceu-se e deu-me uma bofetada. Pegamos da espada; vrias damas
        desmaiaram. Fomos, porm, separados. Na mesma noite devamos
        encontrar-nos em duelo.
        Amanhecia. Eu, no lugar combinado, em companhia de trs testemunhas,
        aguardava meu adversrio com indizvel impacincia. O sol da primavera
        j surgira e principiara a nos aquecer quando ele apareceu. Vi-o de
        longe. Vinha a p, o capote sobre a espada, acompanhado de uma
        testemunha. Fomos ao seu encontro. Ele se aproximava segurando na mo o
        quepe cheio de cerejas. As testemunhas mediram os doze passos. Eu devia
        atirar primeiro, mas a emoo da raiva me era to forte que no confiava
        na exatido do meu tiro e, para ter tempo de me acalmar, cedi-lhe o
        direito de atirar primeiro. Meu adversrio no concordou. Ficou
        resolvido recorrermos  sorte. O primeiro tiro coube a ele, sempre
        favorito do destino. Apontou, e furou-me o gorro. Depois, foi a minha
        vez. Enfim, eu tinha sua vida em minhas mos. Fitava-o com avidez,
        procurando descobrir pelo menos a sombra de uma inquietao. Ele estava
        diante de minha pistola, tirava do quepe as cerejas maduras e cuspia os
        caroos, que voavam at mim. Essa indiferena me exasperava. &#8211; "Que me
        importa? &#8211; pensei &#8211; tirar-lhe a vida agora que ele a aprecia to pouco?"
        Um pensamento perverso atravessou-me o crebro. Baixei minha arma. &#8211;
        "Parece-me &#8211; disse-lhe eu &#8211; que est pouco disposto a morrer agora, pois
        resolveu tomar a merenda; no quero incomod-lo". &#8211; "Voc no me
        incomoda, absolutamente &#8211; respondeu ele &#8211; Tenha a bondade de atirar.
        Alis, faa como entender. Fique com seu tiro; por mim, estarei sempre 
        sua disposio." Dirigi-me s testemunhas e declarei que por enquanto
        no fazia questo de atirar. Assim, terminou o duelo. Renunciei  minha
        patente e exilei-me neste lugarejo. Desde ento, porm, no decorreu um
        dia sem que eu pensasse na vingana. Afinal, chegou minha hora.
        Tirou do bolso a carta recebida e passou-a s minhas mos. Algum
        informava-o de Moscou que "a pessoa em apreo" ia casar com uma rapariga
        jovem e bonita.
        Voc j suspeita &#8211; continuou &#8211; quem  a "pessoa em apreo". Vou partir
        para Moscou. Veremos se ele receber a morte agora, na vspera de suas
        npcias, como quando ia acolh-la com cerejas na mo.
        Com estas palavras, levantou-se, atirou o gorro ao cho e ps-se a andar
        pelo quarto como um tigre em sua jaula. Eu, que o tinha ouvido sem me
        mexer, sentia-me agitado por estranhos sentimentos contraditrios.
        Entrou um criado e anunciou que os cavalos estavam prontos. Silvio me
        apertou a mo com fora. Abraamo-nos. Sentou-se no carro, onde j se
        viam duas malas, uma com suas pistolas e outra com a sua bagagem.
        Despedimo-nos mais uma vez, e os cavalos partiram a galope.

        II
        Correram alguns anos. Negcios de famlia me obrigaram a estabelecer-me
        numa aldeia no distrito de N***. Ocupado com meus bens, no parava de
        suspirar em silncio pela minha antiga existncia, ruidosa e
        despreocupada. O mais penoso para mim foi me acostumar a passar as
        noites de primavera e de inverno na solido mais completa. At o jantar,
        conseguia matar o tempo desta ou daquela maneira, conversando com o
        estarote, fiscalizando os trabalhadores, visitando as obras; mas, apenas
        comeava a baixar a noite, no sabia o que fazer. Os poucos livros que
        achei debaixo dos armrios e na despensa, j os sabia de cor; as fbulas
        que Kirilovna, a despenseira, conhecia, fizera-a cont-las vrias vezes;
        as canes das camponesas s me despertavam saudades. Reconheo que
        havia ali um licor excelente, porm ele me dava dor de cabea; alis,
        confesso que receava tornar-me um beberro, um desses brios inveterados
        de que tantos tipos havia em meu distrito. Vizinhos prximos, no os
        tinha, a no ser dois ou trs daqueles brios, cuja conversao se
        constitua principalmente de soluos e suspiros. Prefervel a solido.
        A quatro verstas de mim havia uma rica propriedade, pertencente 
        Condessa B***, porm s o administrador vivia ali. A Condessa no
        visitara a sua propriedade seno uma vez s, no primeiro ano de seu
        casamento, e mesmo ento no passara l mais de um ms. Mas durante a
        segunda primavera do meu isolamento correu a notcia que ela viria com o
        marido veranear na sua aldeia. Chegaram os dois, no comeo de junho.
        A chegada de um vizinho rico  um acontecimento na vida dos aldeos. Os
        fazendeiros e sua criadagem comentam-na dois meses antes e trs anos
        depois. De mim, confesso que a notcia da chegada de uma vizinha jovem e
        bonita me provocou forte impresso. Ardia de impacincia por v-la, e
        logo no primeiro domingo seguinte  sua vinda, aps o almoo, pus-me a
        caminho da aldeia para me apresentar a ela como seu vizinho mais prximo
        e seu mais humilde criado.
        Um lacaio me introduziu no gabinete do Conde e saiu para me anunciar. O
        gabinete era ornado com o maior luxo possvel. Ao longo das paredes
        viam-se estantes com livros, um busto de bronze sobre cada uma delas;
        sobre a lareira havia um grande espelho; o cho estava coberto de estofo
        verde e tapetes. Havendo perdido, no meu cantinho pobre, o hbito do
        luxo, e no tendo contemplado, desde muito, a riqueza alheia, fiquei
        acanhado e aguardei o Conde com a timidez dum solicitante provinciano 
        espera do ministro. Abriram-se as portas. Entrou um rapaz dos seus
        trinta e dois anos, de bela aparncia. Aproximou-se de mim com
        fisionomia aberta e amiga. Peguei a retomar coragem, e ia dar os
        cumprimentos de praxe, porm ele me precedeu. Sentamo-nos. A sua
        palestra, fluente e corts, logo me dissipou a reserva de solitrio, e
        j voltava a adotar minhas maneiras normais, quando de repente entrou a
        Condessa, tornando-me ainda mais enleado. Era realmente de uma grande
        beleza. O Conde fez a apresentao. Eu queria mostrar-me  vontade, mas
        quanto mais procurava assumir um ar desembaraado, tanto mais crescia em
        mim o sentimento de minha bronquice. Meus hospedeiros, para me darem
        tempo de reassumir uma atitude e de me acostumar aos novos conhecidos,
        puseram-se a falar entre si, tratando-me sem constrangimento como a um
        bom vizinho. Nesse nterim, pus-me a passar pela sala, observando os
        livros e os quadros. No sou conhecedor de pintura, mas um destes me
        atraiu a ateno. Representava alguma paisagem da Sua, porm o que me
        surpreendeu no foi a arte do pintor, e sim o fato de estar o quadro
        furado por duas balas, alojadas quase no mesmo ponto.
        Um belo tiro &#8211; disse eu, dirigindo-me ao Conde.
        Sim &#8211; respondeu -, um tiro notvel. O senhor atira bem?
        Regularmente &#8211; repliquei, contente de ver enfim a conversa tomar um rumo
        que me era familiar. &#8211; A trinta passos de distncia no erro a dama de
        uma carta; bem entendido, quando atiro com pistola que j conheo.
         verdade? &#8211; perguntou a Condessa com visvel ateno.
        E tu, meu amigo, acertars tambm uma carta a trinta passos?
        Temos de experiment-lo uma vez &#8211; respondeu o Conde.
        Tempos atrs eu no era mau atirador, mas agora j faz quatro anos que
        no pego uma pistola.
        Assim sendo - observei -, aposto que V. Excia. J no acerta na carta
        nem sequer a vinte passos. A pistola exige exerccio cotidiano. Eu o sei
        por experincia prpria. No regimento, passava por um dos melhores
        atiradores. Aconteceu-me certa vez no pegar na pistola durante um ms
        inteiro; as minhas estavam em conserto. Acreditaro que quando voltei a
        atirar pela primeira vez, errei quatro vezes sucessivas uma garrafa a
        vinte e cinco passos de distncia. Havia entre ns um capito, homem
        espirituoso, gracejador, que estava presente nessa ocasio e que me
        disse: - "At parece, amigo, que a tua mo  incapaz de fazer mal a uma
        garrafa." No, Excelncia, no devemos descuidar do exerccio; sem ele,
        a gente perde totalmente o hbito. O melhor atirador que tive
        oportunidade de encontrar atirava todos os dias pelo menos trs vezes
        antes do almoo. Para ele, isto se tornara um hbito como o copo de
        vodca.
        O Conde e a Condessa pareciam contentes de me ouvir.
        Como  que ele atirava? &#8211; perguntou o Conde.
        Fazia assim. Via, por exemplo, uma mosca pousada na parede... est
        rindo, Sra. Condessa? Palavra de honra, estou dizendo a verdade. Bem,
        via uma mosca pousada na parede. Gritava: - "Kuzka, uma pistola!" Kuska
        trazia a pistola carregada. Pum! E l estava a mosca achatada contra a
        parede!
         incrvel! &#8211; disse o Conde. &#8211; Como se chamava ele?
        Slvio, Excelncia.
        Slvio! &#8211; exclamou o Conde, levantando-se d um pulo. &#8211; O senhor conheceu
        Silvio?
        Como no o teria conhecido, Excelncia? ramos amigos. Ele era recebido
        em nosso regimento como um camarada. H cinco anos, porm, que no tenho
        nenhuma notcia a respeito dele. Ento V. Excia. tambm o conhecia?
        Conheci-o bastante. Ele no lhe ter falado de certo incidente estranho?
        V. Excia. Alude  bofetada que ele levou num baile, de certo doidivanas?
        Ele disse-lhe o nome desse doidivanas?
        No, Excelncia, no me disse... Ah, Excelncia &#8211; continuei, comeando a
        suspeitar a verdade -, perdoe... eu no sabia... ser que foi V. Excia?
        Fui eu mesmo &#8211; respondeu o Conde com ar muito perturbado. &#8211; O quadro
        atravessado de balas  a lembrana do nosso ltimo encontro.
        Meu querido &#8211; interrompeu-o a Condessa -, no o conte, pelo amor de
        Deus; tenho medo de ouvi-lo.
        No &#8211; objetou o Conde -, vou contar tudo. Ele sabe como eu ofendi o seu
        amigo, deve saber tambm como Silvio se vingou de mim.
        Nisto, puxou uma poltrona e fez-me o seguinte relato, que escutei com a
        mais viva curiosidade.
        Casei-me h cinco anos. Viemos passar nesta aldeia o primeiro ms, a
        lua-de-mel. Devo a esta casa os minutos mais belos da minha vida, mas
        tambm uma das minhas recordaes mais penosas. Uma tarde fomos dar um
        passeio a cavalo. No sei por qu, a montaria de minha mulher empacou;
        ela assustou-se, entregou-me o cabresto e voltou para casa a p. Fui na
        frente dela. No quintal vi uma calea de viagem, e o criado anunciou-me
        que havia no meu gabinete um rapaz que no queria dizer o nome, mas
        insistia em falar comigo. Entrei aqui, nesta sala, e vi na escurido um
        homem coberto de poeira, com a barba crescida. Estava aqui, perto da
        lareira. Aproximei-me dele, procurando lembrar-me dos seus traos. &#8211;
        "No me reconheces, Conde?" &#8211; disse-me com voz trmula. &#8211; "Slvio!" &#8211;
        exclamei, e confesso que senti os cabelos arrepiarem-se. &#8211; "Exatamente &#8211;
        replicou -, vim para descarregar a minha pistola. Ests pronto?" A arma
        lhe emergia de um dos bolsos. Medi a distncia de doze passos e parei l
        no canto, pedindo-lhe que atirasse logo, antes de minha esposa voltar.
        Mas ele se demorou, pediu luz. Mandei trazer velas, fechei as portas,
        ordenei que no entrasse ningum e pedi outra vez a Slvio que atirasse.
        Ele ergueu a pistola, aprontou... Eu contava os segundos... pensava
        nela... Passou-se um minuto horrvel. Silvio baixou o brao. &#8211; "Sinto
        muito &#8211; disse &#8211; que a minha pistola no esteja carregada de caroos de
        cereja... a bala  pesada. Parece-me que o que estamos praticando no 
        um duelo, mas um assassinato. No estou acostumado a atirar contra
        pessoas desarmadas. Principiemos outra vez, vamos decidir pela sorte
        quem dever atirar primeiro." A cabea rodava-me... parece que no quis
        consentir. Por fim, carregamos outra pistola, ele enrolou dois bilhetes
        e colocou-os no gorro atravessado outrora pelo meu tiro; outra vez o
        primeiro lugar coube a mim. &#8211; "Tens uma sorte dos diabos, Conde", -
        disse-me com um sorriso de escrnio que jamais esquecerei. No
        compreendo o que me aconteceu, como ele pde obrigar-me a isso... o fato
         que atirei e a minha bala furou aquele quadro. (O Conde apontou-me com
        um dedo o quadro furado. Tinha o rosto em brasa. A Condessa estava mais
        plida que o seu leno; por mim, no pude conter uma exclamao.) Atirei
        &#8211; prosseguiu o Conde -, e, graas a Deus, errei o alvo; entoa Silvio,
        que naquele momento foi deveras terrvel, ps-se a mirar-me outra vez.
        De sbito abriu-se a porta, Macha entrou correndo e com um grito
        lanou-se-me ao pescoo. A presena dela restituiu-me a coragem. &#8211;
        "Querida &#8211; disse -, no vs que estamos brincando? Como te espantaste!
        Vai, bebe um pouco d&#8217;gua e volta aqui; vou apresentar-te um velho amigo
        e camarada." Macha porm continuava intranqila: - "Diga-me, senhor: meu
        marido est falando a verdade? &#8211; perguntou, voltando-se para o terrvel
        Slvio. &#8211;  verdade que os dois esto brincando?" &#8211; Ele brinca sempre,
        Condessa, - respondeu Silvio. &#8211; Certa vez, por brincadeira, deu-me uma
        bofetada; outra vez, por brincadeira, furou-me este gorro com uma bala.
        Agora mesmo, brincando, por um triz no acertou em mim. Mas agora sou eu
        que tenho vontade de brincar..." A esta palavra, fez meno de
        alvejar-me na presena dela! Macha atirou-se-lhe aos ps. &#8211; "Levanta-te,
        Macha! &#8211; gritei, furioso. &#8211; Tem vergonha! E o senhor no vai deixar de
        atormentar essa pobre mulher? Quer atirar ou no?" &#8211; "No quero &#8211;
        respondeu Slvio &#8211; Estou satisfeito. Vi a tua confuso, o teu medo.
        Forcei-te a atirar em mim, estou satisfeito. Lembrar-te-s de mim.
        Entregou-te  tua conscincia." Nisto ia sair, mas se deteve  porta,
        olhou para o quadro furado pelo meu tiro, atirou contra ele quase sem
        apontar, e desapareceu. Minha mulher tinha desmaiado; os criados no se
        atreviam a det-lo e miravam-no estupefatos. Ele saiu pela escadaria,
        chamou o cocheiro e desapareceu antes mesmo que tivesse tempo de tornar
        a mim.
        O Conde calou-se. Destarte vim a saber o fim de uma histria cujo comeo
        me enchera outrora de espanto. Quanto ao heri dela, nunca mais o
        encontrei. Contam que Slvio, no momento da expedio de Alexandre
        Ypsilanti, comandava destacamento de heteristas e morreu na batalha de
        Skuliani.



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Ensaios -Livro I
Captulo XVIII

Do Medo
Montaigne
Tomado de estupor, fiquei de cabelos arrepiados e sem voz-(Virglio). No sou
muito versado no estudo da natureza humana, como dizem, e ignoro de que maneira
o medo atua em ns. certo  que se trata de estranho sentimento. Nenhum, afirmam
os mdicos, nos projeta to precipitadamente fora do bom-senso. E em verdade vi
muita gente tornada insensata pelo medo. Mesmo entre os mais assentados, provoca
ele terrveis alucinaes.
Ponho de lado o homem vulgar, ao qual faz o medo que ora veja seus antepassados
sarem do tmulo, envolvidos em seus sudrios, ora lobisomens, gnomos, quimeras.
Mesmo, porm, entre os soldados, sobre os quais o medo deveria ter menor
influncia, quantas vezes no  transformou ele um rebanho em um esquadro
encouraado? E canios e bastes em policiais e lanceiros? E nossos amigos em
inimigos, e a cruz vermelha em cruz branca?
Quando o Sr. de Bourbon tomou Roma, o porta-estandarte encarregado da guarda do
subrbio de So Pedro foi tomado de tal pavor  primeira alerta que, passando
atravs de um buraco no muro em runas, saiu da cidade carregando seu estandarte
e marchou ao encontro do inimigo, convencido de que se dirigia para o interior
da praa forte. Vendo a gente do Sr de Bourbon se aprestar para a batalha,
voltou a si e, na crena que os defensores tentavam uma sortida, virando as
costas entrou de novo pelo mesmo buraco na cidade de que se afastara 300 passos.
O porta-estandarte do capito Jlio no se saiu to bem quando o Conde de Bures
e o Sr Du Reu tomaram So Paulo. Desesperado de medo, lanou-se fora da cidade
pela canhoneira, de estandarte na mo, e foi dar em cheio nos assaltantes, que o
fizeram em pedaos. Nesse mesmo stio verificou-se um caso extraordinrio: o
medo surpreendeu, agarrou e a tal ponto paralisou um fidalgo que este caiu morto
repentinamente, e sem o menor ferimento, do baluarte em que se  achava. Em um
encontro dos germnicos com os alemes, duas fraes importantes de suas tropas,
postadas em pontos diferentes, fugiram apavoradas, em direo uma da outra e
acabaram por se chocar.
Ora, o medo pe asas nos nossos ps, como no caso dos porta-estandartes, ora nos
prega no solo e nos imobiliza, como aconteceu com o Imperador Tefilo. Batido em
uma batalha contra os agarenos, ficou to estupefato e transido que no podia
decidir-se a fugir -tanto se apavora o medo daquilo que lhe pode ajudar-(Quinto
Crcio). E assim permaneceu at que Manuel, um de seus principais chefes, o
sacudiu como para acord-lo de um sono e lhe disse: -Se no me seguires eu vos
matarei; pois  melhor que percais a vida a serdes prisioneiro e correrdes o
risco de perder o imprio.-
 principalmente quando sob a sua influncia recobramos a coragem que ele nos
tirara contra o que o dever e a honra determinavam, que o medo revela sua ao
mais intensa. Na primeira batalha sria que tiveram -e perderam -os romanos
contra Anbal, sob o consulado de Semprnio, um exrcito de cerca de 10.000
infantes, tomado de pavor, debandou e, na sua covardia, no descobrindo por onde
passar, jogou-se contra o grosso do inimigo. Tanto e to bem fez que, depois de
matar grande nmero de cartagineses, rompeu-lhes as fileiras, pagando uma fuga
vergonhosa com os mesmos esforos que teriam de fazer para alcanar uma vida
gloriosa.
O medo  a coisa de que mais medo tenho no mundo. Ele ultrapassa, pelos
incidentes agudos que provoca, qualquer outra espcie de acidente. Que aflio
ser mais penosa e justificvel do que a dos amigos de Pompeu, testemunhas em
seu prprio navio de horrvel massacre? No entanto, o medo que lhes causou a
aproximao das velas egpcias abafou neles esse sentimento, a tal ponto que se
observou terem pensado apenas em instar os marinheiros para que,  fora de
remos, lhes facilitassem a fuga at chegarem a Tyre e, j sem receios, tiveram o
lazer de meditar sobre a perda sofrida e dar livre curso aos lamentos que as
lgrimas que o medo, mais forte do que a dor, paralisara. Os que tm motivo para
temer a perda de seus bens, o exlio ou a servido, vivem em constante angstia.
No comem nem bebem, nem dormem, enquanto em idnticas circunstncias, os
pobres, os banidos, os servos, continuam a viver, no raro to alegremente como
de costume. Quantas pessoas, atormentadas pelas fustigaes do medo, no se
enforcaram, se afogaram ou se atiraram em precipcios., demonstrando ser o medo
mais importuno e insuportvel do que a prpria morte!
Os gregos admitem um outro tipo de medo, que no provm de um erro de nosso
raciocnio, mas ocorre sem causa aparente e por vontade dos deuses. E povos
inteiros e exrcitos inteiros o experimentam. Dessa ordem foi o que provocou em
Cartago to prodigiosa desolao. S se ouviam gritos de pavor; os habitantes
precipitavam-se fora de suas casas, como a um sinal de alarma, e se atacavam
mutuamente, e se feriam, e se matavam, como se inimigos houvessem entrado na
cidade. A desordem e o tumulto imperavam. E a isso, que s findou quando,
mediante preces e sacrifcios, conseguiram acalmar a clera dos deuses, chamam
os gregos -terror pnico-.


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Ensaios -Livro I
Captulo XLIX
Dos costumes antigos
Montaigne
Desculparia de bom grado em nosso povo a tendncia para no admitir como modelo e
regra de perfeio seno os prprios usos e costumes, pois  defeito
generalizado, no somente no homem comum como m quase todos os homens, ver e
seguir apenas o que se praticou desde o bero. No me aborrece que o povo se
surpreenda com Llio ou Fabrcio e os considere brbaros porque no se vestem
como ns e no tm boas maneiras. Mas lamento encontrar em meus compatriotas
essa inconseqncia  que faz que se deixem to cegamente influenciar e iludir
pela moda do momento que so capazes de mudar de opinio tantas vezes quantas
ela prpria muda, isto , de ms em ms, e forjando cada vez novas razes para
justificar a seus prprios olhos seus juzos mais dspares. Quando se usavam
barbatanas no gibo at o meio do peito,  altura dos seios, todos descobriram
excelentes argumentos para achar que assim devia ser. Anos depois, a moda f-las
descerem ao nvel das ancas e cada qual moteja agora a moda anterior e a declara
absurda tanto quanto  insuportvel. A maneira de hoje se vestir acarreta crtica
imediata  de se vestir ontem, crtica que se exerce to precisamente e de comum
acordo  que se diria estarmos, quanto a isso, dominados por uma mania
perturbadora de nossa inteligncia. E sendo essa mudana to repentina e rpida,
no pode a imaginao de todos os alfaiates do mundo criar novidades em nmero
suficiente, ocorrendo ento o que se verifica amide, reaparecerem, ao fim de
algum tempo, as modas abandonadas, enquanto outras, ainda recentes, deixam de
agradar. E assim chegamos a  emitir sobre uma mesma coisa, em espao de tempo de
15 e 20 anos, duas ou trs opinies no apenas diferentes mas, por vezes,
absolutamente contrrias, revelando uma inconstncia e uma leviandade
incrveis. Os mais espertos dentre ns no evitam essas contradies e
insensivelmente no mais as percebem.
Proponho-me colecionar aqui certos costumes antigos que me vm  memria. Entre
eles, alguns ns conservamos; outros divergem dos nossos. Ante o espetculo
dessas mudanas contnuas das coisas humanas, nossa inteligncia talvez se
aclare e nosso julgamento se torne mais estvel.
Dizemos combater com capa e espada. Isso j se praticava no tempo dos romanos, e
Csar diz: -envolvem a mo esquerda no saio e puxam a espada-.
Os antigos tomavam banhos cotidianos, antes das refeies e os tomavam to
seguidamente quanto ns lavamos as mos. A principio apenas lavavam os braos e
as pernas. Mais tarde, porm (e isso durou sculos e se propagou por toda a
parte) mergulhavam completamente nus em banhos acrescidos de substncias
perfumadas. Empregar gua natural era prova de grande simplicidade. As pessoas
particularmente delicadas e requintadas perfumavam todo o corpo ao menos 3 ou 4
vezes por dia. Arrancavam todos os plos como nossas mulheres se acostumaram a
fazer com os da fronte, de algum tempo para c: -tens o peito, as pernas e os
braos depilados- (Marcial) e os arrancavam, embora possussem ungentos  para o
mesmo fim: -Unta a pele de ungento depilatrio ou a embebe em giz derretido em
vinagre-(Marcial). Gostavam de deitar-se em leitos muito moles e consideravam
prova de austeridade faz-lo em colches. Comiam reclinados sobre camas, mais ou
menos como os turcos atualmente: -Ento, de cima do leito, assim falou Enias-
(Virglio). Dizem que desde a batalha de Farslia, em sinal de luto pelo pssimo
estado dos negcios pblicos, Cato, o Jovem, comeu sempre sentado, adotando uma
vida austera.
Beijavam as mos dos grandes para os homenagear e adular. E beijavam-se entre
amigos, como os venezianos: -e eu te saudarei com palavras e beijos- (Virglio).
E tocavam os joelhos dos grandes a quem saudavam ou de quem solicitavam alguma
coisa. Psicles, filsofo, irmo de Crates, em vez de levar a mo ao joelho de
algum a quem se dirigia, levou-as s partes genitais. Repelindo-o brutalmente o
outro, disse-lhe Psacles: -Pois no achas que esta parte do corpo vale tanto
quanto qualquer outra?- Comiam frutas no fim da refeio, como o fazemos tambm.
Limpavam o cu (deixemos s mulheres a v superstio das palavras) com uma
esponja; eis por que o vocbulo spongia  obsceno em latim. Essa esponja era
fixada na extremidade de um basto, como o prova a histria do indivduo que,
levado s arenas a fim de ser entregue s feras, pediu para satisfazer suas
necessidades e no tendo outro meio de suicdio, enfiou a esponja e o basto na
garganta, asfixiando-se.
Enxugavam o membro com tecido de l perfumado depois de us-lo: -no te farei
nada seno te lavar com esta toalha de l-, diz Marcial. Havia nos cruzamentos
das ruas em Roma recipientes e meias-tinas para que os passantes urinassem
dentro: -No raro os meninos, em sonho, pensam erguer suas vestimentas diante da
tina em que se urina- (Lucrcio). (...)
Mesmo quando estavam nas salas em que tomavam seus banhos de vapor, as mulheres
recebiam visitas dos homens. E a se entregavam aos cuidados de seus criados,
que lhes faziam massagem e as untavam: -um escravo, com um avental de couro
preto, aguarda tuas ordens, quando, nua, tomas teu banho quente- (Marcial).
Tinham certos ps para absorver o calor.
Os antigos gauleses, diz Sidnio Apolinrio, usavam os cabelos compridos na
frente e curtos atrs, moda que vem sendo seguida neste sculo de costumes
efeminados e relaxados.
(...)
Para as senhoras de Argos e Roma, o branco era a cor do luto, como entre ns at
bem pouco tempo, costume que no se devia ter abandonado, a meu ver.
Mas h livros inteiros sobre esses assuntos.

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Fbulas - Esopo




Esopo
O homem e a serpente
Um lavrador, por acidente, pisou o rabo de uma serpente que, por sua vez, picou
o lavrador, levando-o  morte. O pai do lavrador, pegou ento seu machado e
cortou parte da cauda da serpente. A serpente, para se vingar, passou a picar e
matar o gado do fazendeiro, causando-lhe muitas perdas. Bem, o fazendeiro achou
melhor oferecer  serpente comida e mel, como forma de apazigu-la e parar com
as perdas. Disse-lhe, ento: Vamos esquecer tudo isso; talvez voc estivesse
certa em punir meu filho, assim como eu ao tentar vingar a sua morte. Agora que
ambos estamos satisfeitos, que tal voltarmos a ser amigos?
"No , no ," disse a serpente; "leve daqui seus presentes; voc nunca esqueceu
a morte de seu filho nem eu a perda de minha cauda."
Injrias podem ser perdoadas, mas no esquecidas.


Androcles
Um escravo de nome Androcles escapou de seu mestre e fugiu para a floresta. L,
encontrou um leo, gemendo e queixando-se.  Seu primeiro pensando foi dar meia
volta e fugir, mas ao perceber que o leao no o perseguia, voltou-se e se
aproximou. Ao chegar perto, Androcles viu que sua pata estava sangrando e
inchada, por causa de um espinho que tinha se encravado. Androcles removeu ento
o espinho. O leao, agradecido, lambeu-lhe a mo, como um cachorro de estimao.
Mas, poucos dias depois, ambos foram capturados, e o escravo foi sentenciado a
morrer devorado pelo leao, aps este ser deixado vrios dias sem comer. O
Imperador e toda sua corte reuniu-se  para assistir o espetculo e Androcles foi
deixado no centro da arena. Logo o leo foi solto na arena,  indo com dentes e
garras  mostra em direo  sua vtima.  Mas, ao chegar perto, reconheceu
Androcles, indo mansamente lamber-lhe a mo. O imperador, surpreso, mandou
Androcles se aproximar, o  que ele fez imediatamente, contando ento sua
histria. Logo, O escravo foi perdoado e o leo deixado em sua floresta.
Gratido  o sinal das almas nobres.


O homem e a floresta
Um homem ia pela floresta, certo dia, com um machado na mo pediu a todas as
rvores que lhe dessem um pequeno galho para um propsito particular. As
rvores, de boa vontade, deram-lhe seus galhos. O homem, ento, fixou o machado
num dos galhos e comeou a cortar rvore por rvore. Ento as rvores viram como
foram tolas ao dar ao seu inimigo os meios para sua prpria destruio.

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Leonor
E. A. Poe
ou oriundo duma raa caracterizada pelo vigor da fantasia e pelo ardor da
paixo.
Os homens chamaram-me louco; mas ainda no est resolvido o problema &#8211; se a
loucura  ou no a suprema inteligncia &#8211; se muito do que  glorioso &#8211; se tudo o
que  profundo &#8211; no tem a sua origem numa doena do pensamento &#8211; em modalidades
do esprito exaltadas a custa das faculdades gerais. Aqueles que sonham de dia
sabem muitas coisas que escapam queles que somente de noite sonham. Nas suas
vagas vises obtm relances de eternidade e, quando  despertam, estremecem ao
verem que estiveram mesmo  beira do grande segredo. Penetram sem leme nem
bssola, no vasto oceano da &#8220;luz inefvel&#8221;; e de novo, como os aventureiros do
gegrafo nbio, agressi sunt mare tenebrarum, quid in eo esset exploraturi.
Diremos, ento, que estou doido. Concordo, pelo menos, em que h dois estados
distintos da minha existncia mental &#8211; o de uma razo lcida que no pode ser
contestada, e pertence  memria de acontecimentos que constituem a primeira
poca da minha vida &#8211; e um estado de sombra e dvida, que abrange o presente e a
recordao do que constitui a segunda grande era do meu ser. Por conseqncia,
acreditai tudo o que eu disser do primeiro perodo de minha existncia; e dai ao
que eu vier a contar dos derradeiros tempos o crdito que se vos afigurar justo;
ou ponde-o completamente em dvida; ou, se no puderes duvidar, fazei como dipo
e procurai decifrar o seu enigma.
Aquela que na minha mocidade amei, e de quem agora, serena e lucidamente, estou
traando estas recordaes, era a filha nica da nica irm de minha me havia
muito falecida.
Minha prima chamava-se Leonor. Havamos sempre vivido juntos, sob um sol
tropical, no vale de Many-Coloured Crass. Jamais viandante algum aventurou seus
passos por aquele vale; pois se estendia por entre uma cadeia de montes
gigantescos, que sobre ele debruavam as suas escarpas, vedando o acesso dos
raios solares aos seus mais aprazveis recnditos. Nas suas proximidades atalho
algum jamais fora trilhado, e, para chegarmos ao nosso lar, no precisvamos
afastar, com fora, a folhagem de milhares de rvores, nem esmagar milhes de
fragrantes flores. Assim vivamos ns sozinhos, nada sabendo do mundo para alm
do vale &#8211; eu, minha prima e sua me.
Das obscuras regies de alm dos montes, no extremo superior de nossos domnios,
descia um estreito e profundo rio, que excedia em brilho e limpidez tudo menos
os claros olhos de Leonor; e, serpenteando furtivamente em intrincados meandros,
embrenhava-se por fim atravs de uma sombria garganta, por entre montes ainda
mais negros do que aqueles de que brotara. Denominvamo-lo o &#8220;Rio do Silncio&#8221;,
pois as suas guas pareciam ter a faculdade de tudo emudecer. Do seu leito
nenhum murmrio se erguia, e to de mansinho ia desfiando  seu curso que os
difanos seixinhos que esmaltavam o fundo e que ns tanto gostvamos de
contemplar, permaneciam absolutamente imveis, refulgindo eternamente no lugar
onde um dia se quedaram.
A margem do rio e de muitos cintilantes riachos que, por tortuosos rodeios, a
ele afluam, bem como os espaos que as margens desciam at o leito de seixos do
fundo das guas &#8211; todos estes lugares, no menos de que toda a superfcie do
vale, desde o rio at as montanhas que o circundavam, eram tapetados por uma
relva verde, macia, espessa, curta, perfeitamente lisa e perfumada, mas to
profusamente matizada com botes de ouro, margaridas, violetas e asfdelos que a
sua extraordinria beleza dilatava nossos coraes com eloquncia e paixo, do
amor e da glria de Deus.
E, aqui e alm, em macios que se diriam antes matas de sonhos, brotavam
fantsticas rvores, cujos altos e esguios troncos se no erguiam a prumo, mas,
torcendo-se, inclinavam-se para a luz que ao meio-dia irrompia pelo centro do
vale. A sua casca apresentava ao mesmo tempo o esplendor do marfim e da prata, e
seria mais suave do que tudo no fosse a suave face de Leonor; de sorte que, se
no fora o verde brilhante das enormes folhas que das suas copas se alastravam
em linhas compridas e trmulas, embaladas pelos zfiros, poderia algum
imagin-las gigantescas serpentes da Sria, prestando homenagem ao seu soberano,
o Sol.
De mos dadas, durante 15 anos, vaguei com Leonor por este vale, antes de o Amor
penetrar em nossos coraes. Era uma tarde, ao cerrar-se o terceiro lustro da
sua vida e o quarto da minha: estvamos sentados, abraados, debaixo das
rvores-serpentes e contemplvamos as nossas imagens refletidas no espelho das
guas do rio. Nem mais uma palavra pronunciamos durante o resto daquele doce
dia, e na manh seguinte ainda as nossas palavras eram trmulas e raras. Do
fundo das guas havamos tirado o deus Eros, e agora sentamos que havamos
ateado dentro de ns as almas ardorosas dos nossos maiores. As paixes que
durante sculos haviam caracterizado a nossa raa acudiam agora de tropel com as
fantasias que os haviam igualmente distinguido e bafejavam venturas e bnos
sobre o vale de Many-Coloured Crass. Tudo como por encanto mudou. Sobre as
rvores onde jamais se conhecera uma flor desabrocharam agora estranhas flores
em forma de estrela. Tornaram-se mais carregados os tons das alfombras de
verdura; e quando uma a uma murcharam as brancas margaridas, surgiram em seus
lugares, dez a dez, os asfidelos da cor dos rubis. E a vida brotava em nossos
atalhos; pois o alto flamingo, at aqui nunca visto, com todas as lacres e
variegadas aves, ostentava ante ns a sua plumagem escarlate. Peixes de ouro e
de prata acorriam agora ao rio, de cujo seio se erguia, de mansinho, um murmrio
que, por fim, foi engrossando at se transformar numa suave melodia mais divina
de que  a da harpa de olo, mais doce do que tudo, no fosse a voz de Leonor. E
agora, tambm uma enorme nuvem, que por muito tempo dominara as regies do
Hesper, avanara num deslumbramento carmesim e ouro e viera pairar serenamente
sobre ns, descendo dia a dia at pousar sobre os cumes dos montes,
transfigurando-os com o seu glorioso esplendor e encerrando-nos, como que para
sempre, dentro duma mgica priso de magnificncia e glria.
O encanto de Leonor era o de um Serafim, mas ela era uma adolescente ingnua e
simples como a curta vida que vivera entre as flores. Nenhum artifcio mascarava
o amor que lhe estuava no corao, e ela examinava comigo os seus mais ntimos
recessos, quando passevamos no vale de Many-Coloured e conversvamos sobre as
notveis transformaes que nele ultimamente se haviam operado.
Um dia, finalmente, tendo falado, banhada em pranto da triste e derradeira
transformao que a Humanidade deve sofrer, nunca mais deixou de discutir este
doloroso assunto, intercalando-o em todas as nossas conversas, como nos cantos
do bardo de Schiraz esto constantemente ocorrendo as mesmas imagens, a cada
passo repetidas em cada impressionante variao de frase.
Ela tinha visto que o dedo da morte se lhe cravara no seio &#8211; que, como o
efmero, ela fora feita perfeita em encanto e beleza somente para morrer; mas
para ela os terrores do tmulo apenas consistiam numa apreenso, que uma tarde,
ao crepsculo, ela me revelou, passeando comigo pelas margens do Rio do
Silncio. O que a penalizava era pensar que, aps hav-la sepultado no vale de
Many-Coloured, eu abandonaria para sempre aquelas ditosas paragens, transferindo
o amor, que s dela to apaixonadamente agora era, para alguma jovem do mundo
exterior e banal. E, ento, ao ouvir-lhe expressar este pesar, atirei-me aos ps
de Leonor e jurei que nunca me ligaria pelo casamento a filha alguma da Terra &#8211;
que jamais eu, fosse de que maneira fosse, trairia a sua querida recordao.
Invoquei o Onipotente Senhor como testemunha da pia solenidade do meu juramento.
E a maldio de que Deus e dela impetrei, no caso de eu atraioar meu juramento,
envolvia uma pena cujo extraordinrio horror me no permite referi-la aqui.
Os olhos de Leonor se tornaram mais claros, quando eu assim exprimi o carinho
que a prendia  minha vida; como se do peito arrancassem um peso mortal; tremeu
e chorou amargamente; mas (que era ela seno uma criana?) aceitou o juramento,
que lhe tornava mais suave o leito de morte. E disse-me, no muitos dias depois,
finando-se tranqilamente, que, em vista do que eu fizera para alvio e consolo
do seu esprito, velaria sempre por mim depois de morta, e se tal lhe fosse
permitido, voltaria visivelmente a visitar-me nas viglias da noite; se, porm,
isto ultrapassasse o que s almas  no Paraso  permitido, dar-me-ia, pelo
menos, freqentes indicaes de sua presena, suspirando sobre mim nos ventos da
tarde ou enchendo o ar que eu respirasse com o perfume dos turbulos dos anjos.
E, com estas palavras, exalou a sua inocente vida, ponto termo  primeira poca
da minha.
At aqui  fiel o relato que fiz. Mas, quando  transponho a barreira formada
pela morte de minha amada e penetro na segunda era da minha existncia, sinto
uma sombra empolgar-me o crebro e no confio na perfeita sanidade das minhas
palavras. Mas, prossigamos.
Os anos foram-se arrastando pesadamente e eu continuei habitando no vale &#8211; mas
uma segunda transformao se operara em todas as coisas. As flores em forma de
estrela secaram nas rvores e no mais reapareceram. Apagaram-se os matizes do
verde tapete de relva; e, um a um, murcharam os rubros asfdelos e, em seu
lugar, surgiram, dez a dez, escuras violetas sempre carregadas de orvalho.
A vida desapareceu dos nossos atalhos; o alto flamingo j no exibia ante ns a
sua plumagem escarlate, mas tristemente fugiu do vale para os montes com todas
as lacres aves multicores que em sua companhia tinham vindo. Os peixes de ouro
e prata nunca mais esmaltaram o nosso doce rio. A suave melodia que encantara
mais do que a harpa e olo e fora mais divina do que tudo menos a voz de Leonor,
foi-se pouco a pouco extinguindo, sumindo-se em murmrios cada vez mais dbeis,
at que, por fim, o rio voltou  solenidade do seu primitivo silncio. E ento
ergueu-se de novo a enorme nuvem e, abandonando os pncaros dos montes  sua
antiga tristeza, recuou para as regies de Hesper, e consigo levou o ureo
esplendor e todas as magnificncias que por alguns anos transfiguraram o vale de
Many-Coloured Crass.
Todavia, as promessas de Leonor no ficaram no olvido; pois eu ouvia os sons do
balouar dos turbulos dos anjos; correntes dum sagrado perfume flutuavam
permanentemente sobre o vale; nas horas ermas, quando meu corao palpitava
pesadamente, os ventos que me refrescavam a fronte vinham carregados de brandos
suspiros; indistintos murmrios &#8211; oh, mas s uma vez! fui desperto de um sono,
que se me afigurava o sono da morte, pela presso de uns lbios espirituais
sobre os meus.
Mas o vcuo dentro do meu corao recusava-se, ainda assim, a ser preenchido.
Tinha saudades do amor que o enchera a transbordar. Por fim o vale fazia-me
sofrer pelas recordaes, e abandonei-o ento para sempre, trocando-o pelas
vaidades e pelos turbulentos triunfos do mundo.
Encontrei-me dentro duma estranha cidade, onde todas as coisas podiam ter
servido para me apagaram da lembrana os doces sonhos que por tanto tempo
sonhara no vale. O luxo e a pompa de uma corte majestosa, o doido clangor das
armas e a radiosa beleza das mulheres desvairaram-me e embriagaram-me o crebro.
At aqui, porm, ainda a minha alma permanecera fiel aos seus juramentos, e nas
horas silentes da noite ainda at mim chegavam as revelaes da presena de
Leonor.
De sbito, cessaram estas manifestaes;  mundo escureceu de todo ante os meus
olhos, e quedei-me espavorido ante o escaldante pensamento que me possua &#8211; ante
as terrveis tentaes que me empolgavam; pois de muito longe, de uma terra
distante e ignota, viera para a alegre corte do rei que eu servia, uma donzela a
cuja beleza todo o meu perjuro corao imediatamente se rendeu &#8211; a cujos ps me
curvei sem uma luta, no mais ardente, no mais abjeto culto de amor.
Que era, na verdade, a minha paixo pela adolescente do vale comparada com o
fervor e o delrio, o alucinado xtase de adorao com que eu depunha toda a
minha alma em pranto aos ps da etrea Hermengarda? &#8211; Oh, que deslumbrante era a
anglica Hermengarda! E na minha alma para ningum mais havia lugar. &#8211; Oh, que
divina era a celestial Hermengarda! E quando eu sondava as profundezas dos olhos
inolvidveis, s neles pensava &#8211; s neles e nela!
Casei; no me arreceei da maldio que invocara; nem senti o amargor de haver
infringido um juramento solene.
Mas uma vez, no silncio da noite, chegaram at mim, atravs das minhas
persianas, os brandos suspiros que havia muito eu j no ouvia e, numa voz
familiar e doce, percebi estas palavras que jamais esquecerei:
- Dorme em paz! &#8211; pois o Esprito do Amor reina e governa e, acolhendo no teu
apaixonado corao aquela que se chama Hermengarda, tu s absolvido, por motivos
que s no cu sero explicados, dos juramentos que fizeste a Leonor!



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O Modelo Milionrio
Oscar Wilde
De que vale ser um jovem encantador se no tiver bastante dinheiro? O romance 
privilgio dos ricos e no profisso de desempregados. O pobre deve ser prtico
e prosaico. Vale mais uma renda permanente do que o dom de fascinar. Eram essas
as verdades da vida moderna que o jovem Hughie Erskine no conseguia
compreender. Pobre Hughie! Apesar de no ser de grande valor intelectual, nunca,
em toda sua vida, havia feito ou dito alguma coisa de realmente relevante ou
verdadeiramente reprovvel. Era, contudo, extremamente simptico com seus
cabelos castanhos ondulados, seu perfil de ntidos contornos e seus olhos
acinzentados. Era to bem sucedido com os homens como o era com as mulheres, e
possua todas as habilidades, menos a de ganhar dinheiro. Seu pai deixara-lhe
por herana, seu sabre de cavalaria e quinze volumes sobre a Histria da Guerra
Peninsular. Hughie pendurou o sabre acima do seu espelho de quarto; encaixotou
os livros numa estande entre o Ruff-;s Guide e o Bailey Magazine e passou a viver
com a renda de 200 libras, abonadas por uma velha tia. Tentou todos os meios de
ganhar a vida. Durante 6 meses arriscou a sorte na bolsa; mas que podia fazer um
louva-a-deus entre ursos e touros? Passou algum tempo vendendo ch aos
atacadistas mas cansou-se logo do "pekoe" e do "souchong". Em seguida tentou
negociar "dry sherry", mas desistiu logo pois o "sherry" era seco demais.
Finalmente entregou-se  deliciosa arte de no fazer absolutamente nada e
tornou-se um jovem encantador e intil, com um perfil impecvel e sem profisso
alguma.
Para complicar as coisas, Hughie amava. Sua eleita era Laura Merton, filha de um
coronel reformado que deixara na ndia seu bom-humor e seu bom estmago e nunca
mais encontrara nem um nem outro. Laura amava loucamente o jovem Hughie e ele,
por sua vez, teria sido capaz de beijar com paixo at os cordes dos seus
sapatinhos. Laura e Hughie formavam um dos pares mais combinados de Londres e
entre ambos no havia sequer um real. O coronel estimava muito o jovem Hughie
mas opunha-se a qualquer compromisso de casamento.
- Meu caro jovem -dizia o velho -Volte quando tiver acumulado com seus
prprios esforos umas dez mil libras. Ento, poderemos conversar. -Quando
ouvia essas palavras, o jovem Hughie, acabrunhado, buscava conforto nos braos
da sua amada.
Certa manh, quando se dirigia para Holland Park onde moravam os Mertons, Hughie
resolveu visitar um grande amigo seu, chamado Alan Trevor, que era pintor. A
arte de pintar tornou-se epidmica em nossos dias. Mas alm de pintor, Trevor
era tambm um grande artista, e os grandes artistas so muito raros. Trevor era
uma estranha criatura um tanto rude; tinha o rosto salpicado de sardas e usava
uma barbicha ruiva, sempre emaranhada. Contudo, quando empunhava o pincel,
tornava-se um autntico mestre e todos os seus trabalhos eram muito requestados.
Desde o princpio fora fortemente atrado pela sedutora personalidade de Hughie.
"Os pintores s deviam conhecer criaturas obtusas e encantadoras. Criaturas que
ao contemplar, nos proporcionem um real prazer artstico e ao conversar, um
verdadeiro repouso intelectual. Os janotas e as coquetes governam o mundo, ou
pelo menos deviam "governar", dizia Trevor freqentemente. Entretanto, depois de
conhecer melhor Hughie, apreciou-o tanto pela sua jovialidade e bom carter
quanto pela sua natureza generosa e espontnea, permitindo-lhe livre acesso ao
seu estdio.
Hughie, ao entrar, encontrou Trevor dando os retoques finais num magnfico
quadro que representava um mendigo em seu tamanho natural. O mendigo em pessoa
posava sobre um estrado num dos ngulos do estdio. Era um ancio encarquilhado
com o rosto enrugado como um pergaminho e cuja fisionomia expressava infinita
tristeza. Um velho manto rstico, rasgado e esfarrapado, recobria seus ombros e
seus sapatos remendados estavam rotos em diversos lugares. Tinha uma das mos
apoiada num grosseiro basto e a outra segurava um chapu velho, estendido 
caridade pblica.
- Que extraordinrio modelo! -exclamou Hughie, apertando a mo do amigo.
- Extraordinrio -bradou Trevor -que dvida! Um modelo como este no 
encontrado todos os dias. Um achado, meu amigo, um verdadeiro achado. Um
Velasquez em pessoa! Cus! Que gua-forte teria Rembrant com um modelo como
esse!
- Pobre velho -disse Hughie -parece to miservel. Suponho que para vocs,
pintores, uma fisionomia dessas vale uma fortuna.
- Meu caro Hughie, respondeu o pintor, como quer que um mendigo irradie
felicidade?
Acomodando-se no sof, Hughie perguntou:
- Quanto ganha um modelo para posar, Trevor?
- Um shilling por hora.
- E quanto ganha voc com o quadro?
- Esse ai me dar uns dois mil.
- Libras?
- No, guinus. Pintores, poetas e doutores s recebem guinus.
- Pois olhe, Alan, na minha opinio os modelos deveriam receber uma porcentagem.
O trabalho deles  quase to rduo quanto do artista.
- Tolices, Hughie! Veja s o trabalho que d aplicar a tinta na tela e ficar o
dia todo em p, na frente do cavalete. Falar  fcil, mas pode estar certo que
h momentos em que a arte atinge a dignidade de um trabalho braal. Mas deixe de
tagarelar. Estou trabalhando e preciso de sossego. Sente e fume.
Depois de algum tempo o criado entrou para avisar o pintor que o fabricante de
molduras queria falar-lhe.
- Fique a, Hughie. Voltarei em minutos -disse Trevor.
O velho mendigo aproveitou a ausncia do pintor para descansar numa banqueta ao
lado do estrado. Sua fisionomia era uma imagem de dor e tristeza e Hughie,
comovido, procurou nos bolsos para ver se encontrava alguma moeda. Encontrou
apenas uma libra e alguns pences. "Pobre velho", pensou ele, "precisa mais desse
dinheiro do que eu e no me custa nada ficar sem conduo quinze dias", e
atravessando o estdio depositou timidamente as moedas na mo do velhinho.
O velhinho assustou-se e, depois, um leve sorriso esboou-se nos seus lbios
murchos.
- Muito obrigado, senhor. Muito obrigado.
Trevor chegou e Hughie, enrubescendo um pouco pelo seu gesto, despediu-se e
saiu. Passou o resto do dia em companhia de Laura, foi gentilmente censurado
pela sua prodigalidade e voltou a p para casa.
Naquela noite, eram mais ou menos onze horas, Hughie foi para o Pallete Clube e
encontrou Trevor sozinho no salo, bebendo vinho branco com gua de seltzer.
- Ento, Alan, conseguiu terminar o quadro?
- Terminar e emoldurar, meu caro! -respondeu Trevor. -E a propsito sabe que
voc fez mais uma conquista? O velhinho que serviu de modelo falou muito de
voc. Fui obrigado a descrev-lo na ntegra. Ele quis saber quem  voc, onde
mora, de que vive, quais so seus planos para o futuro...
- Meu caro Alan -exclamou Hughie -Com certeza quando chegou em casa vou
encontr-lo me esperando. Mas, escute, Trevor. Voc parece que est brincando.
Saiba que tive muita pena do pobre infeliz. queria poder fazer alguma coisa por
ele. Deve ser horrvel ser to desgraado. Tenho muitas roupas velhas l em
casa. Acha que ele as aceitaria? Estava to esfarrapado!
- Seus farrapos so a sua magnificncia -disse Trevor. -Por dinheiro algum
pint-lo-ia envergando um fraque. O que voc chama de farrapos eu chamo de
romance. O que para voc representa misria, para mim representa pitoresco.
Todavia, falar-lhe-ei de sua oferta.
- Vocs pintores no tm corao -disse Hughie num tom de censura.
- O corao do artista  a sua cabea -respondeu Trevor -Alis, o objetivo do
artista  compreender o mundo como ele o v e no reform-lo como o
compreendemos. A chacun son mtier. Bem, e agora, diga-me como est Laura. O
velho modelo est vivamente interessado nela.
- Quer dizer que ela tambm foi assunto de conversa entre vocs? -exclamou
Hughie.
- Sim. Contei-lhe toda a histria do implacvel coronel, da formosa Laura e das
10 mil libras.
- Voc contou todas essas particularidades ao velho mendigo? -bradou Hughie,
enrubescendo vivamente e bastante exaltado.
- Meu caro Hughie -disse Trevor sorrindo -Esse pobre homem que voc classifica
de mendigo  um dos mais ricos da Europa. Se quiser, pode comprar amanh toda a
Inglaterra sem desfalcar seu crdito bancrio. Possui propriedades em todas as
capitais, faz suas refeies em baixelas de ouro e pode, quando lhe aprouver,
impedir a Rssia de entrar em guerra.
- Que baboseiras est contando, Alan?
- Baboseiras? O ancio que voc encontrou hoje no meu estdio  o baro
Hausberg. Um dos meus grandes amigos e admiradores e um dos meus melhores
clientes. Compra quase todos os meus quadros e outras coisas mais. H mais ou
menos um ms pediu-me para retrat-lo na caracterizao de um mendigo. Que
voulez-vous? La fantasie millionnaire! No posso negar que fez bela figura nos
seus farrapos -ou melhor, nos meus farrapos. Comprei-os na Espanha.
- O baro de Hausberg! -murmurou Hughie, perplexo. -Santo Deus! E eu lhe dei
uma libra -tartamudeou ele, afundando numa cadeira com ar profundamente
consternado!
- Voc lhe deu uma libra? -perguntou Trevor rindo. -Nunca mais a ver, meu
caro amigo. Son affaire c-;est l-;argent des autres.
- Devia ter-me avisado, Alan -disse Hughie visivelmente aborrecido. -Teria
evitado o ridculo papel que fiz.
- Bem, para comear, Hughie -disse Trevor -nunca me passou pela cabea que
voc pudesse distribuir esmolas de maneira to insensata e tola. Compreendo que
se beije um modelo bonito, mas quanto a dar uma libra a um modelo feio -poxa,
isso no. Alm disso, hoje tinha inteno de no receber ningum e quando voc
entrou no estdio no sabia se o baro Hausberg queria que mencionasse o seu
nome. Voc compreende, com aqueles trajes...
- Deve julgar-me um idiota.
- Ao contrrio. Quando voc saiu ficou muito jovial e murmurava baixinho
esfregando as mos enrugadas. Fiquei um pouco atnito quando o vi to
interessado em voc. Agora compreendo. Com certeza vai aplicar a libra que voc
lhe deu, Hughie, pagando-lhe os juros de seis em seis meses e ter uma histria
interessante para contar depois do jantar.
- Sou mesmo um desastrado -murmurou Hughie. -Acho que a melhor coisa a fazer 
ir para a cama e, por favor, Alan, no conte o que aconteceu a ningum.
- Tolices Hughie. Esse seu gesto prova o seu elevado esprito filantrpico.
Fique a, no v, fume um cigarrinho e vamos conversar um pouco sobre Laura.
Hughie, aborrecido, no quis ficar e foi para casa. Sentia-se acabrunhado e
deixou Alan rindo a mais no poder.
Na manh seguinte, quando estava se preparando para o primeiro almoo, o criado
fez-lhe entrega de um carto com os seguintes dizeres: "Mousieur Gustave Naudim,
de la part de M. le Baron Hausberg". Com certeza vai pedir uma satisfao,
pensou Hughie, mandando o criado introduzir o visitante.
O homem j idoso, de cabelos grisalhos e culos de armao dourada, entrou na
sala e disse com ligeiro sotaque francs: "Tenho prazer de falar com Mr.
Erskine?"
Hughie fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Venho da parte do baro Hausberg -disse ele.
- Peo apresentar minhas sinceras desculpas ao senhor baro -disse Hughie.
Sorrindo, o visitante prosseguiu:
- O senhor baro incumbiu-me de lhe entregar esta carta.
Hughie pegou o envelope e leu:
- A Hughie Erskine e Laura Merton, como presente de casamento de um velho
mendigo". Dentro do envelope havia um cheque de 10 mil libras.
Na ocasio do casamento o baro Hausberg pronunciou um bonito discurso em
homenagem aos nubentes e Alan Trevor foi um dos padrinhos.
- Modelos milionrios so muito raros -observou Alan -mas milionrios modelos
so mais raros ainda.
****

O rouxinol e a rosa - Oscar Wilde





O Rouxinol e a Rosa
Oscar Wilde

- Ela disse que danaria comigo se eu lhe levasse rosas vermelhas -exclamou o
Estudante -mas no vejo nenhuma rosa vermelha no jardim.
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho, o Rouxinol o ouviu e, vendo-o
ficou admirado...
- No h nenhuma rosa vermelha no jardim! -repetiu o Estudante, com os lindos
olhos cheios de lgrimas. -Ah! Como depende a felicidade de pequeninas coisas!
J li tudo quanto os sbios escreveram. A filosofia no tem segredos para mim e,
contudo, a falta de uma rosa vermelha  a desgraa  da minha vida.
E eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! -disse o Rouxinol. Gorjeei-o noite
aps noite, sem conhec-lo no entanto; noite aps noite falei dele s estrelas,
e agora o vejo... O cabelo  negro como a flor do jacinto e os lbios vermelhos
como a rosa que deseja; mas o amor ps-lhe na face a palidez do marfim e o
sofrimento marcou-lhe a fronte.
- Amanh  noite o Prncipe d um baile, murmurou o Estudante, e a minha amada
se encontrar entre os convidados. Se levar uma rosa vermelha, danar comigo
at a madrugada. Se levar-lhe uma rosa vermelha, hei de t-la nos braos,
sentir-lhe a cabea no meu ombro e a sua mo presa a minha. No h rosa vermelha
em meu jardim... e ficarei s; ela apenas passar por mim... Passar por mim...
e meu corao se despedaar.
- Eis, na verdade, um apaixonado... -pensou o Rouxinol. -Do que eu canto, ele
sofre. Aflige-o o que me alegra. Grande maravilha, na verdade, o Amar! Mais
precioso que esmeraldas e mais caro que opalas finas. Prolas e granada no
podem compr-lo, nem se oferece nos mercados. Mercadores no o vendem, nem o
conferem em balanas a peso de ouro.
- Os msicos da galeria -prosseguiu o Estudante -tocaro nos seus instrumentos
de corda e, ao som de harpas e violinos, minha amada danar. Danar to leve,
to gil, que seus ps mal tocaro o assoalho e os cortesos, com suas roupas de
cores vivas, reunir-se-o em torno dela. Mas comigo no bailar, porque no
tenho uma rosa vermelha para dar-lhe... -e atirando-se  relva, ocultou nas
mos o rosto e chorou.
- Por que est chorando? -perguntou um pequeno lagarto ao passar por ele,
correndo, de rabinho levantado.
-  mesmo! Por que ser? -Indagou uma borboleta que perseguia um raio de sol.
- Por que? -sussurrou uma linda margarida  sua vizinha.
- Chora por causa de uma rosa vermelha, - informou o Rouxinol.
- Por causa de uma rosa vermelha? -exclamaram -Que coisa ridcula! E  o
lagarto, que era um tanto irnico, riu  vontade.
Mas o Rouxinol compreendeu a angstia do Estudante e, silencioso, no carvalho,
ps-se a meditar sobre o mistrio do Amor.
Subitamente, abriu as asas pardas e voou.
Cortou, como uma sombra, a alameda, e como uma sombra, atravessou o jardim.
Ao centro do relvado, erguia-se uma roseira. Ele a viu. Voou para ela e posou
num galho.
- D-me uma rosa vermelha -pediu -e eu cantarei para ti a minha mais bela
cano!
- Minhas rosas so brancas; to brancas quanto a espuma do mar, mais brancas que
a neve das montanhas. Procura minha irm, a que enlaa o velho relgio-de-sol.
Talvez te ceda o que desejas.
Ento o Rouxinol voou para a roseira, que enlaava o velho relgio-de-sol.
- D-me  uma rosa vermelha -pediu -e eu te cantarei minha cano mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.
- Minhas rosas so amarelas como a cabeleira dourada das sereias que repousam em
tronos de mbar, e mais amarelas que o asfdelo que cobre os campos antes da
chegada de quem o vai ceifar. Procura a minha irm, a que vive sob a janela do
Estudante. Talvez te possa ajudar.
O Rouxinol ento, dirigiu o voo para  a roseira que crescia sob a janela do
Estudante.
- D-me uma rosa vermelha -pediu - e eu te cantarei minha cano mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.
- Minhas rosas so vermelhas, to vermelhas quanto os ps das pombas, mais
vermelhas que os grandes leques de coral que oscilam nos abismos profundos do
oceano. Contudo, o inverno regelou-me at as veias, a geada queimou-me os botes
e a tempestade quebrou-me os galhos. No darei rosas este ano.
- Eu s quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma s rosa vermelha. No
haver meio de obt-la?
- H, respondeu  a Roseira, mas  meio to terrvel que no ouso revelar-te.
- Dize. No tenho medo.
- Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira, hs de faz-la de msica, ao
luar, tingi-la com o sangue de teu corao. Tens de cantar para mim com o peito
junto a um espinho. Cantars toda a noite para mim e o espinho deve ferir teu
corao e teu sangue de vida deve infiltrar-se em minhas veias e tornar-se meu.
- A morte  um preo exagerado para uma rosa vermelha -exclamou o Rouxinol -e
a Vida  preciosa...  to bom voar, atravs da mata verde e contemplar o sol
em seu esplendor dourado e a lua em seu carro de prola...O aroma do espinheiro
 suave, e suaves so as campnulas ocultas no vale, e as urzes tremulantes na
colina. Mas o Amor  melhor que a Vida. E que vale o corao de  um pssaro
comparado ao corao de um homem?
Abriu as asas pardas para o voo e ergueu-se no ar. Passou pelo jardim como uma
sombra e, como uma sombra, atravessou a alameda.
O Estudante estava deitado na relva, no mesmo ponto em que o deixara, com os
lindos olhos inundados de lgrimas.
- Rejubila-te -gritou-lhe o Rouxinol -Rejubila-te; ters a tua rosa vermelha.
Vou faz-la de msica, ao luar. O sangue de meu corao a tingir. Em
conseqncia s te peo que sejas sempre verdadeiro amante, porque o Amor  mais
sbio do que a Filosofia, embora sbia; mais poderoso que o poder, embora
poderosa. Tens as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo. H doura
de mel em teus braos e seu hlito lembra o incenso.
O Estudante ergueu a cabea e escutou. Nada pode entender, porm, do que dizia o
Rouxinol, pois sabia apenas o que est escrito nos livros.
Mas o Carvalho entendeu e ficou melanclico, porque amava muito o pssaro que
construra ninho em seus ramos.
- Canta-me um derradeiro canto -segredou-lhe -sentir-me-ei to s depois da
tua partida.
Ento o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz fazia lembrar a gua a
borbulhar de uma jarra de prata.
Quando o canto finalizou, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um
caderninho de notas e um lpis.
- Tem classe, no se pode negar -disse consigo -atravessando a alameda. Mas
ter sentimento? No creio.  igual a maioria dos artistas. S estilo,
sinceridade nenhuma. Incapaz de sacrificar-se por outrem. S mensa e cantar e
bem sabemos quanto a Arte  egosta. No entanto,  foroso confessar, possui
maravilhosas notas na voz. Que  pena no terem significao alguma, nem
realizarem nada realmente bom!
Foi para o quarto, deitou-se e, pensando na amada, adormeceu.
Quando a lua refulgia no cu, o Rouxinol voou para a Roseira e apoiou o peito
contra o espinho. Cantou a noite inteira e o espinho mais e mais enterrou-se-lhe
no peito, e o sangue de sua vida lentamente se escoou...
Primeiro descreveu o nascimento do amor no corao de um menino e uma menina; e,
no mais alto galho da Roseira, uma flor desabrochou, extraordinria, ptala por
ptala, acompanhando um canto e outro canto. Era plida, a princpio, qual a
nvoa que esconde o rio, plida qual os  ps da manh e as asas da alvorada.
Como sombra de rosa num espelho de prata, como sombra de rosa em gua de lagoa
era a rosa que apareceu no mais alto galho da Roseira.
Mas a Roseira pediu ao Rouxinol que se unisse mais ao espinho. -Mais ainda,
Rouxinol, - exigiu a Roseira, - seno o dia raia antes que eu acabe a rosa.
O Rouxinol ento jungiu-se mais ao espinho, e cada vez mais profundo lhe saa o
canto porque ele cantava o nascer da paixo na alma do homem e da mulher.
E tnue nuance rosa nacarou as ptalas, igual ao rubor que invade a face do
noivo quando beija a noiva nos lbios.
Mas o espinho no lhe alcanava ainda o corao e o corao da flor continuava
branco -pois somente o corao de um Rouxinol pode avermelhar o corao de
rosa.
- Mais ainda, Rouxinol, - clamou a Roseira -raiar o dia antes que eu finalize a
rosa.
E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho, e o espinho lhe
feriu o corao, e uma punhalada de dor o traspassou.
Amarga, amarga lhe foi a angstia e cada vez mais fremente foi o canto, porque
ele cantava o amor que a morte aperfeioa, o amor que no morre nem no tmulo.
E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina como a rosa do cu oriental. Suas
ptalas ficaram rubras e, vermelho como um rubi, seu corao.
Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo, as pequeninas asas comearam a
estremecer e uma nvoa cobriu-lhe o olhar, o canto tornou-se dbil e ele sentiu
qualquer coisa apertar-lhe a garganta.
Ento, arrancou do peito o derradeiro grito musical.
Ouviu-o a lua branca, esqueceu-se da Aurora e permaneceu no cu.
A rosa vermelha o ouviu, e trmula de emoo, abriu-se  aragem fria da manh.
Transportou-o o Eco,  sua caverna purpurina, nos montes, despertando os
pastores de seus sonhos. E ele levou-os atravs dos canios dos rios e eles
transmitiram sua mensagem ao mar.
- Olha! Olha! Exclamou a Roseira. -A rosa est pronta, agora.
Ao meio dia o Estudante abriu a janela e olhou.
- Que sorte! -disse -Uma rosa vermelha! Nunca vi rosa igual em toda a minha
vida.  to linda que tem certamente um nome complicado em latim. E curvou-se
para colh-la.
Depois, pondo o chapu, correu  casa do professor.
- Disseste que danarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha, -
lembrou-se o Estudante. -Aqui tens a rosa mais vermelha de todo o mundo. Hs de
us-la, hoje a noite, sobre ao corao, e quando danarmos juntos ela te dir
quanto te amo.
Mas a moa franziu a testa.
- Talvez no combine bem com o meu vestido, disse. Ademais, o sobrinho do
Camareiro mandou-me jias verdadeiras, e jias, todos sabem, custam muito mais
do que flores...
- s muito ingrata! -exclamou o Estudante, zangado. E atirou a rosa a sarjeta,
onde a roda de um carro a esmagou.
- Sou ingrata? E o senhor no passa de um grosseiro. E, afinal de contas, quem
s? Um simples estudante... no acredito que tenhas fivelas de prata, nos
sapatos, como as tem o sobrinho do camareiro... -e a moa levantou-se e entrou
em casa.
- Que coisa imbecil, o Amor! -Resmungou o estudante, afastando-se. -Nem vale a
utilidade da Lgica, porque no prova nada, est sempre prometendo o que no
cumpre e fazendo acreditar em mentiras. Nada tem de prtico e como neste sculo
o que vale  a prtica, volto  Filosofia e vou estudar metafsica.
Retornou ao quarto, tirou da estante um livro empoeirado e ps-se a ler...



****

Silncio
Edgard Allan Poe

Escuta - disse o demnio, pousando a mo sobre a minha cabea. - O pas de que
te falo  um pas lgubre, na Lbia, s margens do rio Zaire. E ali no h
repouso nem silncio.
As guas do rio, amarelas e insalubres, no correm para o mar, mas palpitam
sempre sob o olhar ardente do Sol, com um movimento convulsivo. De cada lado do
rio, sobre as margens lodosas, estende-se ao longe um deserto sombrio de
gigantescos nenfares, que suspiram na solido, erguendo para o cu os longos
pescoos espectrais e meneando tristemente as cabeas sempiternas. E do meio
deles sai um sussurro confuso, semelhante ao murmrio de uma torrente
subterrnea. E os nenfares, voltados uns para os outros, suspiram na solido.
E o seu imprio tem por limite uma floresta alta, cerrada, medonha! L, - como
as vagas em torno das Hbridas, pequenos arbustos agitam-se sem repouso, contudo
no h vento no cu! - e as grandes rvores primitivas oscilam continuamente,
com um estrpito enorme. E dos seus cumes elevados filtra, gota a gota, um
orvalho eterno. A seus ps contorcem-se num sono agitado, flores desconhecidas -
venenosas. E por cima das suas cabeas, com um ruge-ruge retumbante,
precipitam-se as nuvens negras a caminho do ocidente, at rolarem as cataratas
para trs da muralha abrasada do horizonte. E nas margens do rio Zaire h
repouso nem silncio.
Era noite e a chuva caa enquanto caa, era gua mas quando chegava ao cho era
sangue! E eu estava na plancie lodosa, por entre os nenfares, vendo a chuva
que caa sobre mim. E os nenfares voltados uns para os outros suspira na
solenidade da sua desolao.
De repente apareceu a lua atravs do nevoeiro fnebre vinha toda carmesim! e o
meu olhar caiu sobre um rochedo enorme, sombrio, que se erguia a borda do Zaire,
refletindo a claridade da lua; era um rochedo sombrio sinistro de uma altura
descomunal!
Sobre o seu cume estavam gravadas algumas letras Caminhei atravs dos pntanos
de nenfares, at a margem para ler as letras gravadas na pedra; mas no pude
decifr-las. Ia voltar quando a lua brilhou mais viva e mais vermelha; olhando
outra vez para o rochedo distingui s caracteres.  E esses caracteres diziam:
desolao
Levantei os olhos; na crista do rochedo estava um homem de figura majestosa
Pendia-lhe dos ombros a antiga toga romana, cobrindo-se at aos ps. Os
contornos da sua pessoa no se distinguiam, mas as feies eram as da divindade
porque brilhavam atravs da escurido da noite a do nevoeiro. Tinha a fronte
alta e pensativa, os olhos profundos e melanclicos Nas rugas do semblante,
liam-se as legendas da desgraa e da fadiga o aborrecimento da humanidade e 0
amor da solido Escondi-me no meio dos nenfares para ver o que aquele homem
fazia ali.
E o homem assentou-se no rochedo, deixou pender a cabea sobre a mo e espraiou
a vista pela soledade, contemplou os arbustos buliosos e as grandes rvores
primitivas; depois, ergueu os olhos para a cu a para a lua carmesim.
Eu observava as aes do homem escondido no meio dos nenfares c o homem tremia
na solido. Todavia a noite avanava e ele continuava assentado sobre o rochedo.
Ento o homem desviou os olhos do cu para o rio lgubre para as guas amarelas
do Zaire, e para as legies sinistras dos nenfares; escutou-lhes os suspiros
melanclicos e as oscilaes murmurantes E eu o espreitava sempre, do meu
esconderijo e o homem tremia na solido. Todavia a noite avanava e ele
continuava assentado sobre o rochedo.
Embrenhei-me na profundezas longnquas do pntano, caminhei sobre e as flores s
dos nenfares e chamei os hipoptamos que habitavam a espessura do bosque E os
hipoptamos ouviram o meu chamado e vieram  os Behemothes at o p do rochedo e
soltaram um rugido medonho E eu, escondido por entre os nenfares, espreitava os
movimentos do homem e o homem tremia na solido. Todavia a noite avanava e ele
continuava assentado sobre o rochedo
Ento invoquei os elementos e uma tempestade horrorosa rosa sobreveio. E o cu
tornou-se lvido pela violncia da tempestade c a chuva caa em torrente sobre a
cabea do homem e as ondas do rio transbordavam e o rio espumava enfurecido e os
nenfares suspiravam com mais fora, e a floresta debatia-se com o vento, e o
trovo ribombava e os raios flamejavam, e o rochedo estremecia
Irritei-me e amaldioei a tempestade, o rio e os nenfares, o vento e as
floresta, o cu e o trovo E na minha maldio os elementos emudeceram e a lua
parou na sua carreira, e o trovo expirou e o raio deixou de faiscar, e as
nuvens ficaram imveis e as guas tornaram n repousar no seu imenso leito, e as
rvores cessaram de se agitar, e os nenfares no suspiraram mais e na floresta
no se tornou a ouvir o mnimo murmrio, nem a sombra de um som no vasto deserto
sem limites. Olhei para os caracteres escritos no rochedo e os caracteres diziam
agora: Silncio.
Volvi outra vez os olhos para o homem, e o seu rosto estava plido de terror. De
repente, levantou a cabea, ergueu-se sobre o rochedo e ps o ouvido  escuta.
Mas no se ouviu nem uma voz no deserto ilimitado E os caracteres gravados no
rochedo diziam sempre: Silncio. E o homem estremeceu e fugiu e para to longe
fugiu que jamais o tornei a ver.
Ora, os livros dos magos, os melanclicos livros dos magos encerram belos
contos, esplndidas histrias do cu, da terra e do mar poderosos; dos gnios
que tm reinado sobre a terra, sobre o mar e sobre o cu sublime. H muita
cincia na palavra das Sibilas. E das florestas sombrias de Dodona saam outrora
orculos profundos.
Mas jamais se ouviu uma histria to espantosa como esta! Foi o demnio que ma
contou, assentado ao um lado, na solido do tmulo. Quando acabou de falar,
desatou a rir e como no pudesse rir com ele, amaldioou-me. Ento o lince, que
vive eternamente no tmulo, saiu do seu esconderijo e veio deitar-se aos ps do
demnio, olhando-o fixamente nas pupilas.


****

Casa de hspedes
James Joyce
Mr. Mooney era filha de um aougueiro, mulher decidida e capaz de tomar a seu
cargo qualquer empresa.
Casara com o ajudante de seu pai e abrira um aougue perto de Spring Gardens.
Mas logo que o sogro morreu, Mr. Mooney, o marido, comeou a pintar o diabo.
Bebia, roubava dinheiro da caixa e contraa dvidas. Era intil correr em seu
auxlio, porque dias mais tarde tornava a fazer os mesmos disparates. Altercava
com a mulher em frente dos fregueses, comprava carne de m qualidade e, assim,
ia arruinando o negcio. Uma noite correu atrs da mulher com um machado,
obrigando-a a fugir e a pernoitar em casa de uns vizinhos.
Depois disso, comearam a viver cada um para o seu lado. Ela foi ter com o padre
e conseguiu separar-se do marido, ficando com as crianas.
Ele, sem casa, sem comida e sem dinheiro, foi obrigado a transformar-se num dos
homens do xerife. Tornou-se bbado, sempre mal arrumado, de cara plida, bigode
branco e sobrancelhas igualmente brancas, por cima de uns olhos sempre midos e
raiados de vermelho. Passava todo o dia sentado no quarto do bailio, esperando
que o mandassem trabalhar. Mr. Mooney, que havia tirado o que ainda restava do
seu dinheiro do aougue, instalara uma casa de hspedes na rua Hardwicke, cheia
de uma populao flutuante constituda por turistas de Liverpool e da ilha de
Man e, ocasionalmente, de artistas do music-hall. Os hspedes permanentes eram
escrives da cidade. Mrs. Mooney governava a casa com firmeza e sabia quando
conceder crditos. Todos os hspedes jovens a conheciam como Madame.
Os hspedes permanentes pagavam quinze shillings por semana, de penso e
aposentos (excluindo cerveja ou vinho, s refeies), possuam os mesmos gostos
e ocupaes e, por essa razo, entendiam-se todos muito bem. Jack Mooney filho
de Madame, que era escriturrio de um agente de comisses em Fleet Street, tinha
a reputao de ser um "caso srio". Gostava de dizer obscenidades usadas pelos
soldados, e recolhia-se usualmente de madrugada. Quando encontrava os amigos
sempre tinha uma boa para contar. Tambm cantava canes cmicas. Nas noites de
domingo havia freqentemente reunies na sala de visitas de Mrs. Mooney. Os
artistas do music hall prestavam o seu concurso. Sheridan tocava polcas e valsas
e fazia acompanhamentos. Polly Mooney, filha de Madame, cantava:

Sou uma travessa mocinha
No  preciso envergonharem-se
Pois bem sabem que o sou.
Polly era uma moa esbelta de dezenove anos, de cabelo claro e macio e de olhos
cinzento-esverdeados. A sua boca era pequena mas carnuda e tinha o hbito de
olhar para cima quando falava com algum. Mrs. Mooney mandara a filha aprender
datilografia, mas como um "sheriff" pervertido costumava ir todos os dias
procur-la ao escritrio, achou melhor tir-la de l e traz-la para casa. Polly
era muito alegre e tornava-se um chamariz para os rapazes; convinha t-la em
casa. Polly certamente flertava com os hspedes, sob a severa vigilncia da me,
que sabia perfeitamente que eles s faziam aquilo para passar o tempo. Assim iam
correndo as coisas at de Mrs. Mooney comeou a acarinhar a idia de mandar
novamente a filha para o escritrio, porque desconfiava que existia qualquer
coisa entre ela e um dos hspedes. Comeou, ento, a observ-los.
Polly sabia-se vigiada, mas o persistente silncio da me no podia ser mal
interpretado. No tinha havido nenhum entendimento, nem tampouco cumplicidade
entre me e filha; apesar de as pessoas da casa comearem a falar, Mrs. Mooney
no intervinha; Polly comeou a tornar-se um pouco estranha e o rapaz andava
evidentemente perturbado. Por fim, quando achou que era oportuno, Mrs. Mooney
interveio. Tratava de problemas de moral com a mesma facilidade com que um
aougueiro trataria de um assunto de sua especialidade; para aquele caso j
tomara uma soluo.
Estava-se no vero. Uma alegre manh de domingo prometendo calor, mas com leve
aragem. Todas as janelas da casa de hspedes estavam abertas e as cortinas de
renda balouavam ao sabor da brisa. O campanrio da igreja de S. George enviava
constantes chamados e os fiis solitrios ou em grupos, reconheciam-se quando
atravessavam o largo, quer pela sua compostura, quer pelos pequenos volumes que
levavam nas mos enluvadas. O almoo terminara e a mesa estava coberta de
pratos, onde se vislumbravam ainda restos de ovos e presunto. Mrs. Mooney,
sentada numa cadeira de braos,observava a criada, enquanto esta levantava a
mesa. Mandou-a guardar todos os restos de po, que seriam utilizados quando se
fizesse o pudim de tera feira. Depois da mesa estar limpa, do po guardado e da
manteiga e do acar fechados  chave, comeou a reconstruir a entrevista que
tivera na vspera  noite, com Polly. As coisas eram tal e qual ela suspeitara;
fora franca nas suas perguntas e Polly tinha sido franca nas respostas. As duas
sentiam-se acanhadas,  claro. Ela, por no desejar receber as novas de uma
forma altiva ou por poder parecer conivente Polly no s porque quaisquer
aluses dessa espcie a faziam ficar sempre assim, mas tambm para no dar a
impresso de que compreendia a tolerncia da me e lhe adivinhara as intenes.
Mrs. Mooney olhou instintivamente para o pequeno relgio que estava na chamin,
ao deixar de ouvir os sinos da igreja de S. Jorge. Passavam dezessete minutos
das onze; tinha tempo mais que suficiente para falar com Mr. Doran e estar ao
meio-dia na rua Marborough. Estava certa de que ganharia. Para comear, tinha
todo o peso da opinio pblica pelo seu lado; era uma me ultrajada. Deixara-o
viver debaixo do seu teto, tomando-o por um homem honrado e ele simplesmente
abusara da sua hospitalidade. Tinha j trinta e quatro ou trinta e cinco anos,
de forma que no era possvel desculpar-se com a juventude; a ignorncia tambm
no podia ser a sua desculpa, visto que era um homem j conhecedor do mundo. Ele
havia simplesmente abusado da ignorncia e da falta de experincia de Polly:
isso era evidente. Tudo estava na reparao que estivesse disposto a prestar.
Tinha que haver uma reparao em tal caso. Tudo ficava bem para um homem, que
poderia seguir a sua vida depois de haver desfrutado uns momentos de prazer,
como se nada houvesse acontecido; mas a moa era obrigada a agentar o golpe.
Muitas mes ficariam satisfeitas de terminar negcios como aquele com uma boa
soma de dinheiro, conhecia vrios casos assim. Mas com ela o assunto era
diferente. A nica reparao para a sua filha seria o casamento.
Passou em revista todos os seus trunfos, antes de mandar a Mary dizer a Mr.
Doran que desejava falar-lhe. Tinha certeza de que iria vencer. Ele parecia ser
um rapaz srio. Se o caso tivesse acontecido com Mr. Sheridan, Mr. Meade ou Mr.
Bautam, tudo seria muito mais difcil.
Mr. Doran no suportaria a publicidade.
Todos os hspedes da casa sabiam alguma coisa do assunto; e alguns haviam
chegado a inventar detalhes. Para mais, ele estava empregado h treze anos num
escritrio de vinhos, pertencente a um negociante extremamente catlico, e a
publicidade do caso podia significar a perda do emprego. Pelo contrrio, se Mr.
Doran concordasse, tudo poderia acabar bem. Ele sabia que Mr. Doran era um pouco
avarento e suspeitava que tivesse as suas economias.
Quase meia hora! Levantou-se e olhou para o espelho. A expresso decidida do seu
rosto satisf-la e lembrou-se de algumas mes que conhecia, e que no conseguiam
livrar-se das filhas.
Mr. Doran sentia-se inquieto naquela manh de domingo. J por duas vezes tentara
barbear-se, mas as mos tremiam tanto que tinha sido obrigado a desistir. Uma
barba espessa de trs dias cobria-lhe as maxilas, e de trs em trs minutos uma
nvoa embaciava-lhe os culos, de modo que tinha que tir-los para os limpar com
o leno. A lembrana de sua confisso da noite passada era uma coisa dolorosa
para ele; o padre arrancara-lhe todos os detalhes ridculos do caso, e no fim,
falara-lhe de tal maneira do seu pecado, q quase ficara agradecido por consentir
numa reparao. O mal estava feito. O que poderia agora fazer seno casar ou
fugir? O caso seria certamente falado e chegaria aos ouvidos do seu patro.
Dublin  uma cidade pequena onde todos sabem o que se passa com os outros.
Sentia um grande calor na garganta quando, na sua excitada imaginao, ouvia Mr.
Leonard dizer com a sua voz forte: "Mandem-me c Mr. Doran, por favor!".
Aqueles longos anos de trabalho para nada. Toda sua habilidade e diligncia
deitadas fora. Quando rapaz novo, fizera as suas tolices,  claro; tinha-se
mostrado livre pensador e negara a existncia de Deus. Mas tudo isso era
passado. Ainda hoje comprava um exemplar do "Reinolds Newspaper" todas as
semanas, cumpria os seus deveres religiosos e durante quase todo o ano levava
uma vida regular. Tinha dinheiro suficiente para poder casar. Mas no era isso:
sabia que a famlia no havia de gostar. Primeiro que tudo, havia o desonrado
pai de Polly e, alm disso, a penso da me estava ficando ultimamente com uma
certa fama. J imaginava os seus amigos falando do caso, rindo e fazendo troa
da forma vulgar como ela falava. Mas que tinha a gramtica a ver com isso, se
realmente gostasse da moa? No era capaz de decidir se gostava, ou se, pelo
contrrio, a desprezava pelo que havia feito. Certamente ele no fizera mal. O
seu instinto dizia-lhe para ficar livre e no casar. Uma vez casado, tudo se
acabaria.
Enquanto estava sentando na borda da cama, em atitude de abandono, Polly bateu
levemente na porta e entrou. Contou-lhe tudo, que tinha dito  me e que a me
iria falar com ele naquela mesma manh. Chorou, deitou-se com as mos em volta
do pescoo e disse:
  Ai Bobo! Bob! Que hei eu de fazer? Poderia acabar comigo...
Ele confortou-a sem interesse, dizendo-lhe que no chorasse, que tudo acabaria
bem, que no tivesse receito. Sentia de encontro  sua camisa a agitao dos
seios da moa.
No fora s por culpa dele que aquilo acontecera. Lembrava-lhe perfeitamente das
primeira carcias casuais, que os vestidos dela, a respirao e os seus dedos,
lhe tinham dado. Depois, uma noite, j tarde, quando se despia para se meter na
cama, ela batera-lhe levemente na porta. Queria acender a sua vela, porque a
dela apagara-se com o vento. Fora a sua noite de banho, vestia um longo roupo
de flanela florida. O peito do p muito branco aparecia nas suas chinelas
abertas, e o sangue corria-lhe, quente, sob a pele perfumada. Tambm das suas
mos e pulsos, enquanto acendia a vela, subia um perfume suave.
Nas noites em que vinha para casa tarde, era ela que lhe esquentava o jantar.
Ele quase nem percebia o que estava comendo, sentindo-a s a seu lado, de noite,
naquela casa adormecida. E que cuidados Polly tinha! Se a noite estava fria,
mida ou ventosa, era certo encontrar um copo de "punch" preparado, a sua
espera. Talvez pudessem ser felizes juntos...
Costumavam os dois subir as escadas nos bicos dos ps, cada um com a sua vela e,
no terceiro andar, trocavam uns relutantes boas-noites. Costumavam beijar-se.
Bob lembrava-se bem dos olhos dela, das suas carcias e do seu delrio...
Mas os delrios passavam. Repetiu como um eco a frase de que ela se servira,
mas, agora, referindo-se-lhe: "Que hei de eu fazer?". O instinto do celibato
prevenia-o de que recuasse. Mas o pecado ali estava e a sua honra dizia-lhe que
a reparao era necessria.
Enquanto permanecia sentado com Polly a seu lado, na borda da cama, Mary bateu 
porta e disse que a senhora lhe desejava falar. Bob levantou-se para enfiar o
palet. Sentia-se mais desamparado do que nunca. Quando acabou de se vestir,
voltou-se para Polly a fim de confort-la. Tudo havia de correr bem, que no
tivesse medo. Deixou-a chorando em cima da cama, resmungando:
  Ai, meu Deus!
Enquanto descia as escadas, os culos ficaram de tal maneira embaciados que teve
de tir-los par alimpar. O que ele mais desejava era fugir, fugir pelo telhado,
e voar para outra terra onde nunca mais ouvisse falar daquelas coisas e, no
entanto, uma fora o puxava para baixo, degrau em degrau. As caras implacveis
do seu patro e de Madame estavam  frente da sua derrota. Nos ltimos lances
passou por Jack Mooney que vinha da copa com duas garrafas de cerveja nos
braos. Cumprimentaram-se friamente; e os olhos do apaixonado pousaram, por um
instante, na cara de buldogue e nos braos fortssimos do outro. Quando chegou
ao fundo da escada, voltou-se e viu que Jack o olhava l de cima.
De repente, lembrou-se de uma noite em que uma das artistas do music-hall, uma
loirinha de Londres, fizera uma aluso desagradvel a respeito de Polly. A
reunio quase tinha acabado por causa da fria de Jack. Todos tiveram de o
sossegar. A moa do music hall, um pouco mais plida do que de costume,
continuara sorrindo e dissera que no havia maldade naquilo. Mas Jack continuara
gritando que se qualquer rapaz se metesse com a irm, ele ferrar-lhe-ia os
dentes na garganta...
Polly deixou-se ficar, durante um pouquinho, em cima da cama chorando. Depois
enxugou as lgrimas e foi ver-se ao espelho. Molhou uma ponta da toalha no jarro
da gua e refrescou os olhos. Viu-se tambm de perfil e arranjou um gancho do
cabelo que estava caindo, ao lado da orelha.
Em seguida, voltou de novo para a cama e sentou-se. Olhou por um momento as
almofadas e isso acordou nela lembranas secretas e agradveis. Deixou cair o
pescoo contra o ferro frio da cama e comeou a sonhar. J no se notava
perturbao alguma em seu rosto.
Ficou esperando pacientemente, quase satisfeita, sem nenhum alarme os seus
pensamentos traziam-lhe gradualmente esperanas e vises para o futuro. As
esperanas e vises eram de tal modo intrincadas que j no via claro nem se
lembrava de que estava esperando alguma coisa.
Por fim, ouviu sua me chamar. Ps-se de p rapidamente e correu para as
escadas.
  Polly! Polly!
  Que  mam?
  Vem c abaixo, querida. Mr. Doran quer falar contigo.
E s ento se lembrou do que estava a sua espera.

****
Catilinrias
Ccero
(Trecho)
Exrdio
At quando, Catilina, abusars de nossa pacincia? Quanto zombars de ns ainda
esse teu atrevimento? Onde vai dar tua desenfreada insolncia?  possvel que
nenhum abalo te faam nem as sentinelas noturnas de Paladino, nem as vigias da
cidade, nem o temor do povo, nem a uniformidade de todos os bens, nem este
segurssimo lugar no Senado, nem a presena e semblante dos que aqui esto? No
pressentes manifestos teus conselhos? No vs a todos inteirados da tua j
reprimida conjurao? Julgas que algum de ns ignora o que obraste na noite
prxima e na antecedente, onde estiveste, a quem convocaste, que resoluo
tomaste?
Oh tempos! Oh costumes! Percebe estas coisas o Senado, o cnsul as v e ainda
assim vive semelhante homem! Que digo, vive? Antes vem ao Senado,  participante
do conselho pblico, assinala e designa com os olhos, para a morte, a cada um de
ns. E ns, homens de valor, nos parece ter satisfeito a Repblica, evitando as
suas armas e a sua insolncia. Muito tempo h, Catilina, que tu devias ser morto
por ordem do cnsul, e cair sobre ti a runa que h tanto maquinas contra ns.
Porventura o insigne P. Cipio, Pontfice Mximo,  no matou a Tibrio Graco,
por deteriorar um pouco o estado da Repblica? E ns devemos sofrer a Catilina,
que com mortes e incndios quer assolar o mundo? Passo em silncio aqueles
antiqussimos exemplos, de quando C. Servlio Ahala matou com sua prpria mo a
Sprio Melo, que procurava introduzir novidade. Houve antigamente na Repblica
esta fortaleza de reprimirem homens de valor com os mais severos castigos seja
ao cidado pernicioso que ao crudelssimo inimigo. Temos contra ti, Catilina,
decreto do Senado veemente e severo; no falta conselho a Repblica; nos,
abertamente o digo, ns somos os que faltamos.
(...)

Planos de conspirao
Portanto, Catilina, que podes mais esperar, se nem a noite com as suas trevas
pode encobrir teus inquos congressos, nem a casa mais retirada conter com suas
paredes a voz da tua conjurao? Se tudo se faz manifesto, se tudo sai a
pblico? Cr-me o que te digo: muda de projeto, esquece-te de mortandades e
incndios; por qualquer parte te haveremos s moas. Todos teus desgnios so
para ns mais claros que a luz, o que bem  reconheas comigo. No te lembras do
que eu disse no Senado em 21 de outubro, que Mnlio, ministro e scio das tuas
maldades, havia de estar armado em certo dia, o qual dia havia de ser o 26 de
outubro? Escapou-me, pois, Catilina, uma coisa s to horrvel, mas nem ainda o
dia? Eu mesmo disse que tu deputaras o dia 28 de outubro para mortandade dos
nobres; e ento foi quando muitas das pessoas principais da cidade fugiram de
Roma, no tanto por se salvarem, como por atalharem teus intentos. Poders
porventura negar-me que naquele prprio dia, por estares rodeado de minhas
guardas e das minhas diligncias, te no pudeste mover contra a Repblica,
quando, retirando-se os mais disseste que te contentavas com a minha morte? E
quando esperavas tomar Preneste por assalto de noite ao primeiro de novembro,
no achaste aquela colnia municionada por minha ordem, e com meus presdios,
guardas e sentinelas? Nada obras, nada maquinas, nada cogitas que eu no s no
oua, mas veja e penetre claramente.



****

LAURA
Saki
- Voc no est realmente agonizante, est? - perguntou Amanda.
- O mdico deu-me permisso para viver at tera-feira, - retorquiu Laura.
- Mas hoje  sbado. Isso  srio! - exclamou Amanda.
- No sei se  srio. Mas, sem dvida alguma,  sbado.
- A morte  sempre sria - disse Amanda.
- Eu no disse que pensava em morrer. Provavelmente deixarei de ser Laura, mas
viverei como outra coisa. Algum animal, suponho. Voc sabe que quando algum no
foi muito bom durante a vida que acabou de viver, reencarna-se em algum
organismo inferior. E, pensando bem, no tenho sido muito boa. Fui mesquinha,
ruim e vingativa sempre que as circunstncias pareceram justific-lo.
- As circunstncias nunca justificam tais coisas - disse Amanda, apressadamente.
- Se no a aborrece que seja eu quem o diga - observou Laura - Egbert  uma
circunstncia que justifica isso e muito mais. Voc se casou com ele; o seu caso
 diferente. Jurou am-lo, respeit-lo e suport-lo. Mas eu no.
- No vejo o que tenha Egbert de mau - protestou Amanda.
- Oh! Decerto a maldade era minha - admitiu Laura, desapaixonadamente. - ele foi
simplesmente a circunstncia extenuante. Dias atrs, por  exemplo, provocou um
mesquinho e absurdo escndalo s porque levei a passear os seus ces pastores.
- Sim, mas os ces espantaram os pintinhos e afugentaram de seus ninhos duas
galinhas chocas, alem de pisarem os canteiros do jardim. Voc sabe o carinho que
ele tem por suas galinhas e pelo seu jardim.
- Mesmo assim, no havia necessidade de martelar nisso toda a tarde. E muito
menos tinha ele que dizer: -No falemos mais no assunto-, justamente quando eu
comeava a tomar gosto pela discusso. Foi ento que levei a cabo uma das minhas
mesquinhas vinganas - acrescentou Laura, com um sorriso que nada tinha de
arrependido. - No dia seguinte ao do episdio dos ces, coloquei toda a ninhada
no coberto onde ele guarda as sementes.
- Como pde fazer isso? - exclamou Amanda.
- Foi muito fcil - disse Laura. - Duas das galinhas fingiram estar chocando,
mas eu me mostrei enrgica.
- E ns, que pensamos tivesse sido tudo um acidente!
- J v - continuou Laura - que tenho razoes para crer que minha prxima
reencarnao ter lugar em algum organismo inferior. Serei um animal. Por outro
lado, como no fui de todo m, segundo penso, tenho esperanas de me converter
em algum animal bonito, elegante, vivaz, com certa inclinao para as
brincadeiras. Uma lontra, talvez.
- No posso imagin-la convertida em lontra - disse Amanda.
- Tampouco me parece que voc possa imaginar-se convertida em anjo.
Amanda ficou em silncio. De fato, no podia imaginar.
- Pessoalmente creio que uma vida de lontra ser bastante agradvel - continuou
Laura. - Comerei salmo o ano inteiro e terei a satisfao de pescar as trutas
em seu prprio reduto, sem ter que aguardar horas e horas at que se dignem a
reparar nas moscas que se agitam diante delas. Alm disso, uma figura elegante e
esbelta...
- Mas pense nos ces de caa - interrompeu Amanda. - Que coisa horrvel, ser
perseguida, acossada e finalmente martirizada at a morte!
- Ser bastante divertido, se metade da vizinhana estiver olhando. De qualquer
modo, no ser pior do que esta morte a prestaes, de tera-feira a sbado. E,
uma vez morta, encarnarei em outro ser. Se tiver sido uma lontra moderadamente
boa, suponho que poderei voltar sob forma humana, das mais primitivas, talvez;
provavelmente reencarnarei num garoto nbio, negro e nu.
- Oxal voc falasse a srio - suspirou Amanda -  o menos que podia fazer, se
realmente pensa em morrer na tera-feira.
Em verdade, Laura morreu na segunda-feira.
- Que transtorno horrvel! - exclamou Amanda, falando com seu tio, o poltico Sr
Lulworth Quayne. - Convidei muita gente para jogar golfe e pescar, e os
rododendros nunca estiveram to formosos.
- Laura sempre foi muita falta de considerao - disse Sir Lulworth. - Nasceu na
semana de Goodwood, num dia em que havia chegado a nossa casa um embaixador que
odiava bebs.
- Tinha as idias mais loucas possveis - disse Amanda. - O senhor sabe se havia
algum antecedente de loucura em sua famlia?
- Loucura? No, nunca ouvi falar disso. Seu pai vive  em West Kensington, mas
creio que, afora isso,  perfeitamente so.
- Laura havia metido na cabea a idia de que reencarnaria numa lontra.
-  to freqente encontrarem-se tais idias de reencarnao, mesmo no Ocidente
- disse Sir Lulworth - que no parece justo qualific-las de loucura. E Laura
foi, em vida, uma mulher to imprevisvel que no me atreveria a formular
opinio decisiva sobre sua possvel existncia ulterior.
- Cr realmente que possa haver assumido uma forma animal? - perguntou Amanda.
Era uma dessas pessoas que, com rapidez surpreendente, conformam seus juzos aos
dos que as rodeiam.
Precisamente naquele momento, entrou Egbert, com um ar de aflio que a morte de
Laura seria insuficiente para explicar.
- Quatro das minhas galinhas esto mortas! - exclamou. - As mesmas que, na
tera-feira, deveria levar  exposio. Uma delas foi arrastada e devorada no
centro desse novo canteiro que cravos que me custou tantos gastos e desvelos.
Minhas flores mais queridas e minhas melhores aves, destrudas! Como se a besta
que perpetrou o crime tivesse sabido exatamente qual era o pior desastre que
poderia ocasionar em to pouco tempo.
- Ter sido uma raposa? - perguntou Amanda.
- O mais provvel  que tenha sido uma doninha - opinou Sir Lulworth.
- No - disse Egbert. - Encontramos pegadas de patas membranosas por toda a
parte e seguimos o rastro at o arroio no fundo do jardim. Evidentemente, era
uma lontra.
Amanda lanou um olhar furtivo a Sir Lulworth.
Egbert estava por demais agitado para comer, e saiu para supervisionar as
operaes de reforo das defesas do galinheiro.
- Parece-me que, pelo menos, deveria esperar at que se realizasse o funeral -
disse Amanda, escandalizada.
-  o seu prprio funeral, no se esquea - retorquiu Sir Lulworth. - No sei
at que ponto se pode exigir de algum que respeite seus prprios restos
mortais.
O descaso pelas convenes fnebres foi levado a extremos mais graves no dia
seguinte. Durante a ausncia a famlia, que estava assistindo ao funeral, foram
massacradas as galinhas sobreviventes. A linha de retirada do predador parecia
haver abarcado a maior parte dos canteiros do jardim, mas os canteiros de
morangos, na horta, tambm haviam sofrido bastante.
- Vou trazer os ces de caa o mais breve possvel - exclamou Egbert.
- De modo algum! Nem sonhe com isso! - replicou Amanda. - Quero dizer, no
ficaria bem, to perto assim do funeral.
-  um caso de fora maior - disse Egbert. - quando uma lontra acha uma ceva,
nunca mais pe fim s suas correrias.
- Talvez v para outro lugar, agora que no restam mais galinhas - sugeriu
Amanda.
- Qualquer um pensaria que voc est tentando proteger esta maldita besta -
disse Egbert.
- H to pouca gua no arroio... - objetou Amanda. - No me parece prprio de um
bom desportista perseguir um animal que no tem possibilidade de refugiar-se em
nenhuma outra parte.
- Santo Deus! - gritou Egbert. - Quem fala em esporte? Quero matar esse animal o
mais cedo possvel.
A oposio de Amanda enfraqueceu no domingo seguinte, quando,  hora em que
todos estavam na missa, entrou a lontra pela casa adentro, roubou um salmo de
despensa e o fragmentou em pedacinhos escamosos sobre o tapete do estdio de
Egbert.
- Qualquer dia desses se esconder debaixo e nossas camas e nos morder os dedos
dos ps - disse Egbert, e Amanda, a julgar pelo que sabia daquela lontra, em
particular, teve de admitir no ser muito remota essa possibilidade.
Na vspera do dia marcado para a caada, Amanda andou sozinha durante mais de
uma hora pelas margens do arroio, dando gritos que imaginava semelhantes aos
latidos de um co. Os que a ouviram acreditaram, piedosamente, que estava
ensaiando imitaes de gritos de animais para a prxima festa da vila.
No dia seguinte, foi sua amiga e vizinha, Aurora Burret, quem lhe trouxe
notcias do acontecimento.
- Que pena que voc no viesse conosco! Divertimo-nos a valer. Encontramo-la
logo, escondida num aude vizinho ao jardim.
- Ma... mataram-na? - perguntou Amanda.
- Acho que sim. Uma bela lontra. Quando Egbert tentou agarr-la pelo rabo,
mordeu-o com fria. Pobre bicho, fez-me pena. Tinha uma expresso to humana nos
olhos quando a mataram... voc diria que sou uma boba, mas sabe a quem fazia
recordar aquele olhar? Oh! querida, que tem voc?
Depois que Amanda se recobrou, at certo ponto, do seu ataque de prostrao
nervosa, Egbert levou-a at o vale do Nilo, em viagem de descanso. A mudana de
lugar trouxe rapidamente a desejada recuperao da sade e do equilbrio mental
de Amanda. As correrias de uma lontra aventureira em busca de novo regime
alimentcio foram colocadas no lugar que competia: simples incidente sem
importncia. O carter normalmente tranqilo de Amanda prevaleceu, por fim. Nem
sequer a tempestade de gritos e maldies, procedentes do quarto de vestir de
seu esposo, e proferidos pela voz de Egbert, embora no em seu lxico habitual,
conseguiu perturbar a sua serenidade, enquanto fazia sua maquilagem naquela
tarde, num hotel do Cairo.
- Que se passa? - perguntou, com fingida curiosidade.
- Esse cretininho me atirou todas as camisas limpas dentro da banheira! Ah! Se
te agarro, animal...
- Que cretininho - perguntou Amanda, reprimindo o riso. O vocabulrio de Egbert
era to desesperadamente inadequado para expressar seus sentimentos
ultrajados!...
- Essa maldita besta, esse garoto negro e nu; esse garoto nbio! - explodiu
Egbert.
Atualmente, Amanda est muito doente.

***

Mamon e o arqueiro
O. Henry
O  velho Antony Rockwall, fabricante e proprietrio da Rockwall-Eureka Soap
olhou pela janela do escritrio de sua manso na Quinta Avenida e sorriu. O
vizinho da direita, o aristocrtico clubman G. Van Schuylight Suffolk-Jones
aproximou-se do automvel que o esperava no porto, franzindo o altivo nariz,
como de costume,  escultura estilo Renascimento italiano que ornava a fachada
do palcio.
- Velho presumido! Retrato mesmo da inrcia! - comentou o ex-rei do sabo
consigo prprio. - Se no se cuida em breve as musas do den acolhero esse
glido Nesselrode. No prximo vero mandarei pintar a casa de vermelho branco e
azul e veremos se aquele nariz holands no se levantar mais ainda!
Antony Rockwall, que jamais se importava com as campainhas, encaminhou-se para a
porta da biblioteca e, no mesmo tom de voz que fizera cair pedaos de cu nas
pradarias do Kansas, gritou:
- Mike!
 voz domstica que lhe contestou, berrou:
- Diga a meu filho que passe por aqui antes de sair.
Quando o jovem Rockwall penetrou no escritrio, o ancio largou o jornal,
mirou-o com sorriso bondoso, refletido no seu rosto grande, suave e avermelhado,
alisou, com uma das mos, uma mecha de cabelo branco e com outra fez tilintar as
chaves no bolso.
- Richard, quanto pagas pelo sabonete que usas?
Richard, que sara do colgio h apenas 6 meses, surpreendeu-se. O rapaz ainda
no havia captado as esquisitices do progenitor e era to inexperiente como uma
rapariga que vai pela primeira vez ao baile.
- Penso que 6 dlares a dzia, papai.
- E pelas roupas?
- Cerca de 60, mais ou menos.
- s um cavalheiro - afirmou convicto Antony. - Ouvi dizer que esses jovens de
estirpe pagam 24 dlares por uma dzia de sabonetes e gastam mais de 100 com
roupas. Dispuseste de tanto dinheiro quanto eles e no entanto te mantiveste
dentro de um nvel moderado e decente. Eu uso atualmente o velho Eureka, no s
por sentimentalismo, seno tambm porque  o mais puro que se fabrica. Se pagas
10 centavos por uma pedra de sabo, compras maus rtulos e perfumes. Porm
cinqenta est bem para um rapaz de tua posio, classe e gerao. Afirmam serem
necessrias trs geraes para se formar um cavalheiro. Esto enganados. O
dinheiro enverniza tanto o indivduo quanto suaviza a graxa do sabo. Contigo,
consegui-o. homem! Comigo no obteve grandes resultados. Sou quase to incivil e
desagradvel e possuo maneiras to rudes quanto esses dois velhos descendentes
de uma das primeiras famlias holandesas estabelecidas em NY, que vivem ao nosso
lado e que no podem dormir tranqilos  noite, porque comprei uma propriedade
entre os dois.
- H certas coisas que o dinheiro no pode comprar - aparteou o jovem Rockwall,
com tristeza.
- Ora, no digas isso! - respondeu surpreendido o velho Anthony. - j repassei a
enciclopdia at a ltima letra,  procura de algo que no se possa adquirir com
o dinheiro e creio que na prxima semana terei que rever o apndice, pois
verifiquei que com dinheiro tudo se consegue. Menciona alguma coisa que no se
possa comprar.
- Antes de mais nada - contestou Richard, nervoso - no se compra entrada nos
crculos mais exclusivos da sociedade.
- Ah! No?! - trovejou o campeo da raiz do mal. - Dize-me onde estariam os
crculos exclusivos se o primeiro Astor no tivesse dinheiro para pagar passagem
de proa?
Richard suspirou.
- E era disso mesmo que queria te falar - acrescentou o velho. - Para isso pedi
que viesses. Algo vai mal contigo, rapaz. J o percebi h muito tempo. Fora com
as tristezas! Poderei levantar mais de onze milhes em 24 horas, alm dos bens
de raiz. Se for pelo teu fgado, ali est o Rambler, na baa, carregado e pronto
para zarpar para as Bahamas, dentro de dois dias.
- No ests muito longe da verdade, papai.
- Ah! - exclamou Anthony - como se chama ela?
Richard ps-se a caminhar no escritrio, de um lado para outro. Existiam
cordialidade e simpatia suficientes no velho e rude pai, de maneira a
inspirar-lhe confiana.
- Por que no a pedes em casamento? - prosseguiu o velho. - Ela se jogar em
teus braos. Possuis dinheiro, fsico atraente e s um rapaz s direitas. Tuas
mos so limpas, nelas no existem resduos de sabo Eureka. Freqentaste bons
colgios, mas ela pouco se importar com isso.
- Ainda no se apresentou a oportunidade - comentou Richard.
- Cria a oportunidade! - ordenou o velho - Convida-a para um passeio ao parque,
uma caminhada sem destino, ou acompanha-a a casa de volta da igreja.
Oportunidade! Bah!
Tu no conheces o redemoinho social, papai. Ela  parte da corrente que o
impulsiona. Cada hora e minuto de seu tempo so marcados com dias de
antecedncia. Se no possuir essa criatura, essa cidade, para mim, no ter
graa alguma. E no posso escrever-lhe. No me atrevo.
- Basta! - exclamou o ancio. - Queres dizer que com todo o dinheiro que possuo
no s capaz de conseguir uma hora do dia dessa moa?
- Esperei muito. Depois de  amanha, ao meio-dia, ela embarcar para a Europa,
onde ficar dois anos. Amanha  noite a verei durante uns poucos minutos. Recebi
permisso para esper-la na Grand Central Station, s vinte e trinta. Devo
conduzi-la a galope pela Broadway at Wallacks onde sua me e um grupo nos
esperam  entrada do teatro. Por acaso parece que poderei declarar-me nesses 6
ou 8 minutos e em tal circunstncia? No. E que oportunidade terei no teatro, ou
depois? Nenhuma. No papai, essa  uma encrenca que teu dinheiro no resolve.
- Muito bem, meu rapaz - comentou o velho, alegremente. - Podes ir ao teu clube.
Estou satisfeito sabendo que teu fgado est em ordem. Porm no te esqueces de
acender, de quando em quando,  umas velas ao grande deus Mazuma. Dizes que o
dinheiro no compra tempo? Realmente, no se pode conseguir que te embrulhem a
eternidade e a entreguem a domiclio, por determinado preo, mas j vi o Papai
Tempo machucar os ps, quando caminhava pelos garimpos de ouro.
Nessa noite, tia Ellen, muito sentimental, suave, enrugada, suspirosa e oprimida
pela riqueza, aproximou-se do irmo Anthony, que lia os jornais da tarde e
ps-se a discorrer sobre as angstias do amor.
- J sei de tudo - bocejou Anthony - Afirmei-lhe que minha conta bancria est 
sua disposio. Foi ento que se ps a menosprezar o valor do dinheiro. Disse-me
que este no poder ajud-lo na emergncia em que se encontra e que a etiqueta
social no pode ser abalada sequer por 10 milionrios.
- , Anthony! - suspirou tia Ellen - gostaria que no pensasses tanto em
dinheiro. O amor  todo poderoso. Quando se trata de carinho verdadeiro, o
dinheiro no conta. Se ele tivesse falado antes! Essa jovem no poderia recusar
o nosso Richard. Todo o ouro que possuis no far feliz a teu filho.
No dia seguinte, s 20 horas, tia Ellen tomou de um belo anel de ouro, guardado
numa caixa comida pelas traas, e o entregou a Richard.
- Usa-o esta noite, querido sobrinho - pediu-lhe. - Foi tua me quem mo deu.
Disse que traria boa sorte e que o entregasse a ti, quando encontrasses tua
amada.
O jovem Richard recebeu o anel respeitosamente e provou-o no dedo mindinho. O
rapaz arrancou-o do dedo e guardou-o no bolso do colete. Imediatamente telefonou
pedindo o carro.
Na estao, descobriu Miss Lantry, s 20 e 30, em meio ao gentio.
- No podemos fazer mame e os outros esperarem - comentou a mocinha.
- Para o teatro Wallack e o mais rpido possvel! - ordenou Richard.
Fizeram a volta pela rua 42 at a Broadway e desceram a ruazinha iluminada pelas
estrelas. Na Rua 34, Richard preparou sua armadilha e mandou que o condutor do
coche se detivesse.
- Caiu meu anel - desculpou-se enquanto descia. - Era da minha me e sentiria
muito perd-lo. No me demorarei muito, pois vi onde caiu.
Em menos de 1 minuto estava de volta com o anel.
Foi ento que um carro enorme parou bem em frente ao deles. O cocheiro tentou
passar pela esquerda, mas  foi trancado por outro veculo. Livrou-se ento pela
direita e quase foi de encontro a uma carroa de mveis, que nada tinha que
fazer naquele lugar. Procurou avanar, mas as rdeas no obedeceram e ele
maldisse entre dentes. Estava bloqueado num confuso torvelinho de veculos e
cavalos.
- Por que no prossegue? - indagou Miss Lantry, impaciente. - Chegaremos
atrasados.
Richard olhou em volta. Uma nutrida fila de carros, caminhes, coches, carroes
de mveis e bondes atravancavam o vasto espao em que cruzavam a Broadway, a 6a
Avenida e a Rua 34. E ainda mias: das ruas perpendiculares marchavam com grande
velocidade, convergindo para o mesmo ponto, outros carros, entrelaando suas
rodas e agregando mais imprecaes ao clamor dos condutores. Tinha-se impresso
de que todo o trnsito de Manhattan se congestionara ao redor deles. Os
nova-iorquinos mais velhos jamais haviam presenciado bloqueio semelhante.
- Sinto muito - balbuciou Richard, quando tornou a sentar - mas estamos presos.
Nem em uma hora podero desembaraar tamanho embrulho. Eu tive a culpa. Se no
tivesse perdido o anel...
- Deixe-me ver a jia - disse Miss Lantry. - j que no tem remdio, no
importa. De qualquer maneira, no tinha mesmo vontade de ir ao teatro.
Nessa noite, s 23 horas, algum bateu levemente na porta de Anthony Rockwall.
- Pode entrar - gritou o velho, que se deliciava com um livro de aventuras de
piratas.
Era tia Ellen, com todo o aspecto de um anjo encanecido, que tivesse ficado na
terra por engano.
- Esto noivos, Anthony! - anunciou delicadamente. - Enquanto se dirigiam ao
teatro, houve uma congesto de trnsito e 2 horas se passaram antes que pudessem
continuar viagem. E,  mano Anthony! Nunca mais te vanglories do poder do
dinheiro. Richard encontrou a felicidade por meio de um pequeno emblema de
verdadeiro amor: um anelzinho que simbolizava carinho infindo e desinteressado.
Deixou-o cair na rua e desceu do coche para recolh-lo. E antes que pudessem
seguir, produziu-se a interrupo do trnsito. Confessou sua paixo  jovem e
conquistou-a enquanto o carro se encontrava cercado. O dinheiro  lixo, quando
se compara ao verdadeiro amor, Anthony.
- Muito bem - comentou o ancio. - Estou contente sabendo que o rapaz conseguiu
o que desejava. Bem lhe disse que no pouparia esforo algum a esse respeito...
- Mas mano, que poderia ter feito o teu dinheiro?
- Mana, o meu pirata arrumou uma encrenca dos diabos. Seu barco foi avariado e
ele conhece demasiado o valor do dinheiro para permitir que afunde. Muito te
agradeceria se me deixasses terminar a leitura desse captulo.
O conto deveria findar aqui. Eu o desejaria to sinceramente quanto os que o
lem. Mas devemos chegar at o fundo do poo para encontrar a verdade.
No dia seguinte, uma criatura de mos avermelhadas e gravata de algodo, chamada
Kelly, bateu  porta da casa de Anthony Rockwall e foi imediatamente introduzida
no escritrio.
- Bem - disse o dono da casa, alcanando seu livro de cheques - foi uma bela
soma de dinheiro. Vejamos, tu tinhas cinco mil dlares  disposio.
- E ainda gastei mais 300 do meu bolso - respondeu Kelly. - Foi mais caro do que
eu esperava. A maioria dos carros e coches aluguei pelos 5 mil dlares, porm os
caminhes e carroes me obrigaram a dobrar a quantia. Os condutores quiseram 10
dlares, alguns 20. Os guardas me exploraram. A dois, precisei dar 50 dlares e
ao resto, 25. Porm saiu maravilhosamente, no foi? E no houve ensaio algum! Os
rapazes chegaram na hora exata. Foram necessrias  mais de 2 horas antes que uma
minhoca pudesse chegar aos ps da esttua de Greeley.
- Mil e trezentos. A tens, Kelly. - disse Anthony ao lhe entregar o cheque. -
Os mil dlares so teus e mais os 300 que pagaste do teu bolso. No menosprezas
o dinheiro, no  verdade, Kelly?
- Eu? - protestou o homem. - Gostaria de surrar o sujeito que inventou a
pobreza.
Quando Kelly j se aproximava da porta, Anthony chamou-o.
- No viste, por acaso - perguntou - em algum lugar, durante a interrupo do
trnsito, um menino gordinho, nu a disparar flechas a esmo?
- Penso que no - respondeu Kelly, surpreso. - no, no vi. E se estava nu, como
o senhor diz, por certo um guarda levou-o, antes que eu chegasse.
- Passou-me pela cabea a idia de que o malandro por l estivesse - concluiu
Anthony, sofreando o riso. - Adeus, Kelly.
****


Memrias de um cachorro amarelo
O. Henry

o creio que a nenhum de vs incomode ler o que diz um co. Kipling e muitos
outros demonstraram que os animais podem expressar-se num ingls sofrvel e,
hoje em dia, no se imprime revista alguma que no publique a histria de um
animal; somente as revistas mensais de feio antiga continuam pintando os
horrores de Bryan e Monte Pelado.
Entretanto, no deveis procurar aqui literatura aborrecida, como a do urso, do
tigre ou da serpente da selva antilhana. Pode-se esperar qualquer surpresa de um
cachorro amarelo que passou a maior parte de sua vida num sobrado barato de NY,
dormindo num canto sobre um velho vestido de cetim: o mesmo em que a dona
derramou vinho do porto, em banquete oferecido por lady Longshoremen.
Vim ao mundo como um cachorrinho amarelo. A data, local, genealogia e peso me
so desconhecidos. O que primeiro me recordo  que uma velha me tinha metido
numa cesta, e que estava em entendimentos de me vender a uma robusta dama da
Broadway.
A velha, mame Hubard, enaltecia-me, dizendo que eu era um fox-terrier pomeriano
- hambletoniano - irlands roxo - Cochinchina - Stoke - Pogis.
A dama gorducha esgravatou entre amostras de moletom que levava em sua bolsa at
que encontrou uma nota de cinco, e entregou-lha. Desde aquele momento fui o
favorito mimado da dama gorducha. Dize-me, gentil leitor: alguma vez em tua
vida, uma gorducha de 200 libras de peso, de hlito misto de queijo camembert e
couro te levantou no ar e bamboleou, enquanto esfregava teu corpo com o nariz,
dizendo ao mesmo tempo palavrinhas como: Amor! Encanto! Riqueza!, etc?
De cachorrinho amarelo de raa fui crescendo at me converter num co amarelo
vira-latas, parecendo descender do cruzamento de gato angor com caixa de
limes. Porm, minha dona jamais hesitou: sempre imaginou que os dois primitivos
ces que No meteu na arca pertenciam a um ramo colateral de meus antecessores.
Fiz com que dois guardas impedissem que minha proprietria me apresentasse no
jardim do  Madison Square para que  eu concorresse ao prmio dos podengos
siberianos.
Vou contar algo a respeito daquele pavimento. A casa era como o so
ordinariamente em NY: de mrmore no poro e seixos nos pavimentos superiores. Ao
nosso, era preciso trepar ao invs de ascender. Minha dona o alugou
desmobiliado, e instalou nele uma antiga sala de estar estofada, de 1903, umas
oleogravuras com gueixas numa casa de ch, plantas artificiais e o marido.
Eis um bpede que me causava tristeza! Era um homem pequeno, de cabelos
amarelados como os meus. Era um dominado, um boneco que enxugava a loua e
escutava a mulher falar mal da vizinha do segundo, de quem dizia que usava capa
de peles de esquilo mas que a roupa interior era barata e esfarrapada e tinha a
ousadia de exibi-la, pendurando-a a secar. E todas as noites, enquanto ela
ceava, fazia com que o esposo me levasse a passeio, amarrado  ponta de uma
corda.
Se os homens soubessem como passam o tempo as mulheres quando esto sozinhas em
casa, nunca se casariam! Laura no fazia mais do que comer bombons e tomar
sorvetes de amndoa, falar com o orchateiro durante meia hora, ler um mao de
cartas antigas, comer uns quantos picles, beber duas garrafas de cerveja maltada
e passar as horas mortas olhando para o andar da frente atravs de um buraco
feito na cortina. Vinte minutos antes da hora em que o marido devia regressar do
trabalho, comeava ela a pr tudo em ordem, inclusive sua dentadura postia, e
tirava uma poro de roupa a fim de pass-la em dez minutos.
Eu, naquela casa, levava uma vida de cachorro. A maior parte do dia passava
deitado no meu canto, observando como a gorducha matava  o tempo. Algumas vezes
dormia, e sonhava que perseguia gatos at faz-los desaparecer nos portes, e
que rosnava a todas as velhas que usavam luvas negras com os dedos de fora:
coisas prprias de um cachorro. Depois, a dona me dava palmadinhas com melosa
bajulao e me beijava no focinho. Porm, que podia eu fazer? Um cachorro no
pode comer pedra.
Comecei a compadecer-me de Hubby, o marido; pareciamo-nos tanto, que a gente o
manifestava quando saamos juntos. Em amvel companhia visitvamos as ruas que
percorre o carro de Morgan, e pisvamos as ltimas neves que dezembro deixava
nas vielas habitadas pela gente pobre.
Uma noite, quando passevamos assim, enquanto procurava adotar a aparncia de um
so-bernardo premiado e meu amo tratava de parecer um homem incapaz de
assassinar o primeiro organista que executou a marcha nupcial de Mendelssohn,
levantei para ele a cabea e disse-lhe, a meu modo:
- Por que tendes esse gesto de amargura? Ela no vos beija. No tendes que
sentar-vos sobre seu regao nem escutar sua tagarelice, essa tagarelice capaz de
fazer que a letra duma opereta parea o livro de mximas de Epteto. Deveis
agradecer por no seres um cachorro. Dai o fora na melancolia.
Aquela infelicidade conjugal desceu at mim os olhos, quase com inteligncia
canina em seu semblante.
- Que h, cachorrinho? Olha-me como se fosses capaz de falar. Que  que h?
Gatos?
E claro que no podia compreender-me. Aos humanos  vedada a linguagem dos
animais. O nico terreno comum de comunicaes em que homens e cachorros esto
acordes  o da fico.
No andar em frente ao nosso morava uma dona que tinha um fox-terrier com manchas
negras e marrons. O marido daquela senhora punha-lhe a corrente e levava-o a
passear tambm todas as noites, mas sempre regressava a casa satisfeito e
assobiando. Um dia juntei meu focinho com o do fox-terrier malhado e pedi-lhe
que fizesse um esclarecimento.
- Escuta - disse-lhe eu - j sabes que  coisa imprpria de verdadeiros homens
fazer o papel de ama-seca com um cachorro em pblico. Eu nunca vi um que, indo
com o cachorro, no parea seno querer bater em quantos olham para ele. Porm
teu amo volta a casa todos os dias to galhardo e bem posto como um
prestidigitador diletante que fizesse o truque do ovo. Como faz isso? No me
venhas dizer que lhe agrada.
- Ele - respondeu o fox-terrier - usa o Prprio Remdio da Natureza. Quando
samos de casa  tmido como um coelho. Mas depois de termos passado por umas
oito tavernas, tanto se lhe d que o que leva na extremidade da corrente seja um
cachorro ou um peixe. J perdi duas polegadas de cauda entre as portas de vaivm
desses estabelecimentos.
Pus-me a meditar sobre o que me disse o fox-terrier.
Uma tarde, l pelas seis horas, minha ama ordenou ao seu marido que desse banho
em seu Amante. Ocultei at agora meu nome, porm era assim que eu me chamava.
Aquele nome era para mim uma espcie de lata amarrada ao rabo do meu prprio
respeito.
Num lugar tranqilo de certa rua, soltei a corda de meu guardio em frente a uma
atraente e refinada taberna. Empurrei com a cabea as portas, ladrando como um
co que avisa urgentemente  famlia que a pequena Alice caiu ao arroio quando
estava colhendo flores.
- Ou estou cego, disse meu amo, fazendo um  muxoxo - ou este bicho me est
dizendo que tome um gole. H quanto tempo no gasto as solas dos meus sapatos
pisando o cho destes estabelecimentos! Se...
Vi que era meu. Tomou assento a uma mesa e serviram-lhe usque quente. Ali
esteve uma hora tomando goles. Permaneci ao seu lado, batendo com a cauda para
que o empregado acudisse, comendo uma rica merenda, jamais igualada pelos
condimentos caseiros que mame Hubbard comprava numa tendinha oito minutos antes
de papai chegar em casa.
Quando se esgotaram os produtos da Esccia, exceto o po de centeio, o velho me
desamarrou da perna da mesa e tirou-me dali como um pescador tira os salmes. J
fora da casa, arrancou-me a coleira e atirou-a a rua.
- Pobre cachorrinho! J no te beijar mais essa sem-vergonha! Vai-te,
cachorrinho! Corre, e s feliz!
No quis abandon-lo e comecei a traquinar e pular em volta dele, contente como
um luluzinho sobre um tapete.
- Mas no vs, cabea de bobo, imbecil, que no quero deixar-te? No compreendes
que ambos somos os meninos perdidos no bosque e que tua mulher  o tio cruel,
que nos persegue, a ti, com o pano de cozinha e a mim, com a pomada para matar
pulgas e a fita encarnada para me enfeitar a cauda?

****
        Frei Genebro
        Ea de Queirs

        Nesse tempo ainda vivia, na sua solido nas montanhas da Umbria, o
        divino Francisco de Assis &#8211; e j por toda a Itlia se louvava a
        santidade de Frei Genebro, seu amigo e discpulo.
        Frei Genebro, na verdade, completara a perfeio em todas as virtudes
        evanglicas. Pela abundncia e perpetuidade da Orao, ele arrancava da
        sua alma as razes mais midas do pequeno, e tornava-a limpa e cndida
        como um desses celestes jardins em que o solo anda regado pelo Senhor, e
        onde s podem brotar aucenas. A sua penitncia, durante vinte anos de
        claustro, fora to dura e alta que j no temia o tentador; agora, s
        com o sacudir da manga do hbito, rechaava as tentaes, as mais
        pavorosas ou as mais deliciosas, como se fossem apenas moscas
        inoportunas. Benfica e universal  maneira de um orvalho de vero, a
        sua caridade no se derramava somente sobre as misrias do pobre, mas
        sobre as melancolias do rico. Na sua humilssima humildade ao se
        considerava nem igual dum verme. Os bravios bares, cujas negras torres
        esmagavam a Itlia, acolhiam reverentemente e curvavam a cabea a este
        franciscano descalo e mal remendado que lhes ensinava a mansido. Em
        Roma, em S. Joo de Latro, o Papa Honrio beijara as feridas de
        cadeiras que lhe tinham ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por
        amor dos escravos, padecera a escravido. E como nessas idades os anjos
        ainda viajavam na terra, com as asas escondidas, arrimados a um bordo,
        muitas vezes, trilhando uma velha estrada pag ou atravessando uma
        selva, ele encontrava um moo de inefvel formosura, que lhe sorria e
        murmurava:
        Bons dias, irmo Genebro!
        Ora, um dia, indo este admirvel mendicante de Spoleto para Terni, e
        avistando no azul e no sol da manha, sobre uma colina coberta de
        carvalhos, as runas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egdio,
        antigo novio como ele no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se
        retirara quele ermo para se avizinhar mais de Deus, e ali habitava uma
        cabana de colmo, junto das muralhas derrocadas, cantando e regando as
        alfaces do seu horto, porque a sua virtude era amena. E como mais de
        trs anos tinham se passado desde que visitara Egdio, largou a estrada,
        passou embaixo do vale, sobre as alpondras, o riacho que fugiu por entre
        os aloendros em flor, comeou a subir lentamente a colina frondosa.
        Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era doce e larga sombra
        dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os ps doloridos. A meia
        encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados, nas ervas midas,
        dormia, ressonando consoladamente, um homem, que decerto por ali
        guardava porcos, porque vestia um grosso surro de couro e trazia,
        pendurada na cinta, uma buzina de porqueiro. O bom frade bebeu de leve,
        afugentou os moscardos que zumbiam sobre a rude face adormecida e
        continuou a trepar a colina, com o seu alforje, o seu cajado,
        agradecendo ao Senhor aquela gua, aquela sombra, aquela frescura,
        tantos bens inesperados. Em breve avistou, com efeito, o rebanho de
        porcos, espalhados sob as frondes, roncando e fossando as razes, uns
        magros e agudos, de cerdas duras, outros redondos, com o focinho curto
        afogado em gordura, e os bacorinhos correndo em torno s tetas das mes,
        luzidios e cor-de-rosa.
        Frei Genebro pensou nos lobos e lamentou o sono do pastor descuidado. No
        fim da mata comeava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se
        erguiam, revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada
        sobre o cu, ou, numa esquina de torre, uma goteira que, esticando o
        pescoo do drago, espreitava por meio das silvas bravas.
        A cabana do ermito, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam,
        apenas se percebia, entre aqueles escuros granitos pela horta que em
        frente verdejava, com os seus talhes de couve e estacas de feijoal,
        entre alfazema cheirosa. Egdio no andaria afastado porque sobre o
        murozinho de pedra solta ficara pousado o seu cntaro, o seu podo e a
        sua enxada. E docemente, para o no importunar, se quela hora da sesta
        estivesse recolhido e orando, Frei Genebro empurrou a porta de pranchas
        velhas, que no tinha loquete para ser mais hospitaleira.
        Irmo Egdio!
        Do fundo da choa rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento
        gemido:
        Quem me chama? Aqui, neste canto, neste canto a morrer!... A morrer, meu
        irmo!
        Frei Genebro acudiu em grande d; encontrou o bom ermito estirado num
        monte de folhas secas, encolhido em farrapos e to definhado que sua
        face, outrora farta e rosada, era como um pedao de velho pergaminho,
        muito enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas. Com infinita
        caridade e doura, o abraou.
        E h quanto tempo, h quanto tempo, neste abandono, irmo Egdio?
        Louvado Deus, desde a vspera! S na vspera,  tarde, depois de olhar
        uma derradeira vez para sol e para a sua horta, se viera estender
        naquele canto para acabar... Mas havia meses que com ele entrara um
        cansao, que nem podia segurar a bilha cheia quando voltava da fonte.
        E dizei, irmo Egdio, pois que o Senhor me trouxe, que posso fazer eu
        pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes vs
        feito na virtude desta solido!
        Gemendo, arrepanhando para o peito as folhas secas em que jazia, como se
        fossem dobras dum lenol, o pobre ermito murmurou:
        Meu bom frei Genebro, no sei se  pecado, mas toda esta noite, em
        verdade vos confesso, me apeteceu comer um pedao de carne, um pedao de
        porco assado... Mas ser pecado?
        Frei Genebro, com a sua imensa misericrdia, logo o tranqilizou.
        Pecado? No, certamente. Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um
        contentamento honesto, desagrada ao Senhor! No ordenava ele aos seus
        discpulos que comessem as boas coisas da terra? O corpo  servo; e est
        na vontade divina que as suas foras sejam sustentadas, para que preste
        ao esprito, seu amo, bom e leal servio. Quando Frei Silvestre, j to
        doentinho, sentira aquela longo desejo de uvas moscatis, o bom
        Francisco de Assis logo o conduziu  vinha, e por suas mos apanhou os
        melhores cachos, depois de os abenoar para serem mais sumarentos e
        doces...
         um pedao de porco assado que apeteceis? &#8211; exclamava risonhamente o
        bom Frei Genebro, acariciando as mos transparentes do ermito &#8211; Pois
        sossegai, irmo querido, que bem sei como vos contentar
        E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o
        afiado podo que pousava sobre o muro da horta. Arregaando as mangas do
        hbito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um servio do
        Senhor, correu pela colina at os densos castanheiros onde encontrara o
        rebanho de porcos. E a, andando sorrateiramente de tronco para tronco,
        surpreendeu um bacorinho desgarrado que fossava a bolota, e desabou
        sobre ele, e enquanto lhe sufocava o focinho e os gritos, decepou, com
        dois golpes certeiros do podo, a perna por onde o agarrava. Depois, com
        as mos salpicadas de sangue, deixando a rs a arquejar numa poa de
        sangue, o piedoso homem galgou a colina, correu  cabana, gritou dentro
        alegremente:
        Irmo Egdio, a pea de carne j o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria
        dos Anjos, era bom cozinheiro.
        Na horta do ermito arrancou uma estaca do feijoal, que, como podo
        sangrento, aguou em espeto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com
        zeloso carinho assou a perna do porco. Era tanta a sua caridade que para
        dar a Egdio todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de
        mortificao anunciava com vozes festivas e de boa promessa:
        J vai aloirando o porquinho, irmo Egdio! A pele j tosta, meu santo!
        Entrou enfim na choa triunfalmente, com o assado que fumegava e
        rescindia, cercado de frescas folhas de alface. Ternamente ajudou a
        sentar o velho, que tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces
        maceradas os cabelos que o suor da fraqueza empastara. E, para que o bom
        Egdio no vexasse com a sua voracidade e to carnal apetite, ia
        afirmando enquanto lhe partia as febras gordas, que tambm ele comeria
        regaladamente daquele excelente porco se no tivesse almoado  farta na
        Locanda dos trs Caminhos!
        Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmo! Com uma galinha inteira
        me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um
        quartinho!
        E o santo homem mentia santamente &#8211; porque, desde madrugada, no provara
        mais que um magro caldo de ervas, recebido por esmola  cancela de uma
        granja.
        Farto, consolado, Egdio deu um suspiro, recaiu no seu leito de folha
        seca. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justia,
        pagasse a seu irmo Genebro aquele pedao de porco!... E o ermito, com
        as mos postas, Genebro ajoelhado, ambos louvaram, ardentemente, o
        Senhor que, a toda necessidade solitria, manda de longe o socorro.
        Ento, tendo coberto Egdio com um pedao de manta e posto, a seu lado,
        a bilha cheia de gua fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a
        fresta da cabana, Frei Genebro, debruado sobre ele, murmurou:
        Meu bom irmo, vs no podeis ficar neste abandono... Eu vou levado por
        obra de Jesus, que no admite tardana. Mas passarei no convento de
        Sambricena e darei recado para que um novio venha e cuide de vs com
        amor, no vosso transe. Deus vos vele entretanto, meu irmo; Deus vos
        sossegue e vos ampare com a sua mo direita.
        Mas Egidio cerrara os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou
        porque seu esprito, tendo pago aquele derradeiro salrio ao corpo, como
        a um bom servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra. Frei
        Genebro pensava quanto era magnnimo o Senhor em permitir que o homem,
        feito  sua imagem augusta, recebesse to fcil consolao duma perna
        decerto assada entre duas pedras.
        Retornou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde esse
        dia, a atividade de sua virtude. Atravs de toda a Itlia, sem descanso,
        pregou o Evangelho Eterno, adoando a aspereza dos ricos, alargando a
        esperana dos pobres. O seu imenso amor ia ainda para alm dos que
        sofrem, at aqueles que pecam, oferecendo um alvio a cada dor,
        estendendo um perdo a cada culpa: e com a mesma caridade que tratava os
        leprosos, convertia os bandidos. Durante as invernias e a neve, vezes
        inumerveis dava, aos mendigos, a sua tnica, as suas alpercatas; os
        abades dos mosteiros ricos, as damas devotas de novo o vestiam, para
        evitar o escndalo de sua nudez atravs das cidades; e, sem demora, na
        primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, ele se despojava sorrindo.
        Para remir servos que penavam sob um amo feroz, penetrava nas igrejas,
        afirmando, jovialmente, que mais apraz a Deus uma alma liberta que uma
        tocha acesa.
        Cercado de vivas, de crianas famintas, invadia as padarias, aougues,
        at as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em nome de
        Deus, a parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhao eram, para
        ele, as nicas alegrias completas: nada o deliciava mais do que chegar
        de noite molhado, esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia feudal, e
        ser repelido da portaria como um mau vagabundo; s ento, agachado nos
        lodos do caminho, mastigando um punhado de ervas cruas, ele se
        reconhecia verdadeiramente irmo de Jesus, que no tivera tambm, como
        tm sequer os bichos do mato, um covil para se abrigar. Quando um dia,
        em Perusa, as confrarias saram ao seu encontro, com bandeiras festivas,
        ao repique dos sinos, ele correu para um monte de esterco, onde se rolou
        e se sujou, para que daqueles que o vinham engrandecer, s recebesse
        compaixo e escrnio. Nos claustros, nos descampados, em meio das
        multides, durante as lides mais pesadas, orava constantemente, no por
        obrigao, mas porque na prece encontrava um deleite adorvel. Deleite
        maior, porm, era, para o franciscano, ensinar e servir. Assim, longos
        anos errou entre os homens, vertendo seu corao como a gua de um rio,
        oferecendo os seus braos como alavancas incansveis; e to depressa,
        numa ladeira deserta, aliviava uma pobre velha de sua carga de lenha,
        como numa cidade revoltada, onde reluzissem armas, se adiantava, com o
        peito aberto, e amansava as discrdias.
        Enfim, uma tarde, em vspera de Pscoa, estando a descansar nos degraus
        de Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma
        vasta mo luminosa que sobre ele se abria e faiscava. Pensativo,
        murmurou:
        Eis a mo de Deus, a sua mo direita, que se estende para me colher ou
        para me repelir.
        Deu logo a um pobre, que ali rezava a Ave-Maria, com a sua sacola nos
        joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do
        Evangelho, muito usado e manchado de suas lgrimas. No domingo, na
        igreja, ao levantar a Hstia, desmaiou. Sentindo ento que ia terminar a
        sua jornada terrestre, quis que o levassem para um curral e o deitassem
        sobre uma camada de cinzas.
        Em santa obedincia, ao guardio do convento, consentiu que o limpassem
        dos seus trapos, lhe vestissem um hbito novo: mas, com os olhos
        alagados de ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado,
        como fora o de Jesus, seu senhor.
        E, suspirando, s se queixava de no sofrer:
        O Senhor, que tanto sofreu, por que no me manda a mim o padecimento
        bendito?
        De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o porto do curral.
        Contemplou o cu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e
        silncio, comearam a cantar sobre o beiral do telhado e, sorrindo,
        recordou uma manh com Francisco de Assis  beira do lago de Perusa, o
        mestre incomparvel se detivera ante uma rvore cheia de pssaros e,
        fraternamente, lhes recomendara que louvassem sempre o Senhor! "Meus
        irmos, meus irmos passarinhos, cantai bem a vosso Criador, que vos deu
        essa rvore para que nela habiteis, e toda esta limpa gua para nela
        beber, e essas penas bem quentes para vos agasalharem, a vs e aos
        vossos filhinhos!" Depois, beijando humildemente a manga do monge que o
        amparava, Frei Genebro morreu.
        Logo que ele cerrou os olhos carnais, um grande anjo penetrou
        diafanamente no curral e tomou, nos braos, a alma de Frei Genebro.
        Durante um momento, na fina luz da madrugada, deslizou por sobre o prado
        fronteiro to levemente que nem roava as pontas orvalhadas da relva
        alta. Depois, abrindo as asas, radiantes e nveas, transps, num vo
        sereno, as nuvens, os astros, todo o cu que os homens conhecem.
        Aninhada nos seus braos, como na doura do bero, a alma de Frei
        Genebro conservava a forma do corpo que sobre a terra ficara; o hbito
        franciscano ainda a cobria, com um resto de poeira e de cinza nas pregas
        rudes; e, com um olhar novo, que agora tudo trespassava e tudo
        compreendia, ela contemplava, num deslumbramento, aquela regio em que o
        anjo parara, para alm dos universos transitrios e de todos os rumores
        siderais. Era um espao sem limite, sem contorno e sem cor. Por cima
        comeava uma claridade, subindo espalhada  maneira de uma aurora, cada
        vez mais branca, e mais luzente, e mais radiante, at que resplandecia
        num fulgor to sublime que nela um sol coruscante seria como uma ndoa
        pardacenta. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez mais baa, mais
        fusca, mais cinzenta, at que formava como um espesso crepsculo de
        profunda, insondvel tristeza. Entre essa refulgncia ascendente e a
        escurido inferior, permanecera o anjo imvel, esperando, com as asas
        fechadas. E a alma de Frei Genebro perfeitamente sentia que estava ali
        esperando tambm, entre o Purgatrio e o Paraso. Ento, subitamente,
        nas alturas, apareceram os dois imensos pratos duma balana &#8211; um que
        rebrilhava como diamante e era reservado s suas boas obras, outro,
        negrejando mais que carvo, para receber o peso das suas obras ms.
        Entre os braos do anjo, a alma estremeceu... Mas o prato diamantino
        comeou a descer lentamente. Oh! contentamento e glria! Carregado com
        as suas Boas Obras, ele descia, calmo e majestoso, espargindo claridade.
        To pesado vinha, que as suas grossas cordas se retesavam, rangiam. E,
        entre elas, formando como uma montanha de neve, alvejavam as incontveis
        esmolas que semeara no mundo, agora desabrochadas em alvas flores,
        cheias de aroma e de luz.
        A sua humildade era um cimo, aureolado por um claro. Cada uma das suas
        penitncias cintilava mais limpidamente que cristais purssimos. E a sua
        orao perene subia e enrolava-la em torno das cordas,  maneira duma
        deslumbrante nvoa d&#8217;oiro.
        Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou,
        finalmente, com a sua carga preciosa. O outro, l em cima, no se movia
        tambm, negro, da cor do carvo, intil, esquecido, vazio. J das
        profundidades, sonoros bandos de serafins voavam, balanando palmas
        verdes. O pobre franciscano ia entrar triunfalmente no Paraso &#8211; e
        aquela era a milcia divina que o acompanharia cantando. Um frmito de
        alegria passou na luz do Paraso, que um Santo novo enriquecia. E a alma
        de Genebro anteprovou as delcias da bem-aventurana.
        Subitamente, porm, no alto do prato negro oscilou como a um peso
        inesperado que sobre ele casse! E comeou a descer, duro, temeroso,
        fazendo uma sombra dolente atravs da celestial claridade. Que M Ao
        de Genebro trazia ele, to mida que nem se avistava, to pesava que
        forava o prato luminoso a subir, remontar ligeiramente, como se a
        montanha de Boas Aes, que nele transbordavam, fosse um fumo mentiroso?
        Oh! mgoa! Oh! desesperana! Os serafins recuavam, com as asas
        trementes. Na alma de Frei Genebro correu um arrepio imenso de terror. O
        negro prato descia, firme, inexorvel, com as cordas retesas. E na
        regio que se cavava sob os ps do anjo, cinzenta, de inconsolvel
        tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou, cresceu,
        rolou como a onda duma mar devoradora.
        O prato mais triste que a noite parara &#8211; parara em pavoroso equilbrio
        com o prato que rebrilhava. E os serafins, Genebro, o anjo que o
        trouxera, descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo,
        um porco, um pobre porquinho com uma perna barbaramente cortada,
        arquejando, a morrer, numa poa de sangue... o animal mutilado pesava
        tanto na balana da justia como a montanha luminosa de virtudes
        perfeitas!
        Ento, das alturas, surgiu uma vasta mo, abrindo os dedos que
        faiscavam. Era a mo de Deus, a sua mo direita, que aparecera a Genebro
        na escada de Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia
        para o acolher ou para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o
        Paraso fulgente ao Purgatrio crepuscular, se contraram num
        recolhimento de inexprimvel amor e terror. E na esttica mudez, a vasta
        mo, atravs das alturas, lanou um gesto que repelia...
        Ento o anjo, baixando a face compadecida, alargou os braos e deixou
        cair, na escurido do Purgatrio, a alma de Frei Genebro.



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A safra de tatus
Graciliano Ramos
- Como foi aquele negcio dos tatus que a senhora principiou a semana passada,
minha madrinha? Perguntou Das Dores.
O rumor dos bilros esmoreceu e Cesria levantou os culos para a afilhada:
- Tatus? Que inveno  essa, menina? Quem falou em tatu?
- A senhora, minha madrinha, respondeu a benzedeira de quebranto. Uns tatus que
apareceram l na fazenda no tempo da riqueza, da lordeza. Como foi?
Cesria encostou a almofada de renda  parede, guardou os culos no carit,
acendeu o cachimbo de barro ao candeeiro, chupou o canudo  de taquari:
- Ah! Os tatus. Nem me lembrava. Conte a histria dos tatus, Alexandre.
- Eu? Exclamou o dono da casa, surpreendido, erguendo-se da rede. Quem deu seu
n que o desate. Voc tem cada uma!
Dirigiu-se ao copiar e ficou algum tempo olhando a lua.
- Se os senhores pedirem, ele conta, murmurou Cesria aos visitantes. Aperte com
ele, seu Librio.
Ao cabo de cinco minutos Alexandre voltou desanuviado, pediu o cachimbo a
mulher, regalou-se com duas tragadas:
- Ora muito bem.
Restituiu o cachimbo a Cesria e foi sentar-se na rede. Mestre Gaudncio
curandeiro, seu Librio cantador, o cego preto Firmino e Das Dores exigiram a
histria dos tatus, que saiu deste modo.
- Sabero vossemecs que este caso estava completamente esquecido. Cesria tem o
mau costume de sapecar umas perguntas em cima da gente, de supeto. s vezes no
sei onde ela quer chegar. Os senhores compreendem. Um sujeito como eu, passado
pelos corrimboques do diabo, deve ter muitas coisas no quengo. Mas essas coisas
atrapalham-se: no h memria que segure tudo quanto uma pessoa v e ouve na
vida. Estou errado?
- Est certo, respondeu mestre Gaudncio. Seu Alexandre fala direitinho um
missionrio.
- Muito agradecido, prosseguiu o narrador. Isso  bondade. Pois a histria de
Cesria puxou tinha-se esvado sem deixar mossa no meu juzo. S depois de tomar
um deforete pude recordar-me dela. Vou dizer o que se deu. Faz vinte e cinco
anos. Hem, Cesria? Quase vinte e cinco anos. Como o tempo caminha depressa!
Parece que foi ontem. Eu ainda no tinha entrado forte na criao de  boi, que
me rendeu uma fortuna, j sabem. Ganhava bastante e vivia sem cuidado, na graa
de Deus, mas as minhas transaes voavam baixo, as arcas no estavam cheias de
pataces de ouro e rolos de notas. Comparado ao que fiz depois, aquilo era
pinto. Um dia Cesria me perguntou: - Xandu, porque  que voc no aproveita a
vazante do aude com uma plantao de mandioca?-- -Han? Disse eu distrado, sem
notar o propsito da mulher. Que plantao?-E ela, interesseira e sabia, a
criatura mais arranjada que Nosso Senhor Jesus Cristo botou no mundo: - -Farinha
est pela hora da morte, Xandu. Viaja cinqenta lguas para chegar aqui, a cuia
por cinco mil-ris. Se voc fizesse uma plantao de mandioca na vazante do
aude, tnhamos farinha de graa.-- - exato, gritei. Parece que  bom. Vou
pensar nisso. - E pensei. Ou antes, no pensei. O conselho era to razovel que,
por mais que eu saltasse para um lado e para outro, acabava sempre naquilo: no
havia nada melhor que uma plantao de mandioca, porque estvamos em tempo de
seca braba, a comida vinha de longe e custava os olhos da cara. amos ter
farinha a dar com o pau. Sem dvida. E plantei mandioca. Endireitei as cercas,
enchi a vazante de mandioca. Cinco mil ps, no, catorze mil ps ou mais. No fim
havia trinta mil ps. Nem um canto desocupado. Todos os pedaos de maniva que
peguei foram metidos debaixo do cho. - -Estamos ricos, imaginei. Quantas cuias
de farinha daro trinta mil ps de mandioca? Era uma conta que eu no sabia
fazer, e acho que ningum sabe, porque a terra  vria, s vezes rende muito,
outras vezes rende pouco, e se o vero apertar, no rende nada. Esses trinta mil
ps no renderam, isto , no renderam mandioca. Renderam coisa diferente, uma
esquisitice, pois, se plantamos maniva, no podemos esperar de modo nenhum
apanhar cabaas ou abboras, no  verdade? S podemos esperar mandioca, que
isto  a lei de Deus. A gata d gato, a vaca d bezerro e a maniva d mandioca,
sempre foi assim. Mas este  mundo, meus amigos, est cheio de trapalhadas e
complicaes. Atiramos num bicho, matamos outro. E sina Terta, que mora aqui
perto, na ribanceira, escura e casada com homem escuro, teve esta semana um
filhinho de cabelo cor de fogo e olho azul. H quem diga que sinha Terta no
seja sria? No h. Sinha Terta  um espelho. E por estas redondezas no existe
vivente de olho azul e cabelo vermelho. Boto a mo no fogo por sinha Terta e sou
capaz de jurar que o menino  do marido dela. Vossemecs esto-se rindo? No se
riam no, meus amigos. Na vida h muito surpresa, e Deus Nosso Senhor tem esses
caprichos. Sinha Terta  mulher direita. E as manivas que plantei no deram
mandioca. Seu Firmino esta a fala no fala, com a pergunta na boca, no  seu
Firmino? Tenha pacincia  e escute o resto. Ningum ignora que plantao em
vazante no precisa de inverno. Vieram umas chuvinhas e a roa ficou uma beleza,
no havia coisa parecida por aquelas beiradas. - -Valha-me Deus, Cesria,
desabafei. Onde vamos guardar tanta farinha?-mas estava escrito que no amos
arrumar nem uma prensa. Quando foi chegando o tempo da arranca, as plantas
comearam a murchar. Supus que a lagarta estivesse dando nelas. Engano.
Procurei, procurei, e no descobri lagarta. - -Santa Maria! cismei. A terra 
boa, aparece chuva, a lavoura vai para diante e depois desanda. No entendo.
Aqui h feitio.-Passei uns dias acuado, remexendo os miolos e no achei
explicao. Tomei aquilo como castigo de Deus, para desconto dos meus pecados. O
que  certo,  que a praga continuou: no fim de S. Joo todas as folhas tinham
cado, s restava uma garrancheira preta. - -Caiporismo, disse comigo. Estamos
sem sorte. Vamos ver se conseguimos levar ao fogo uma fornada.-Encangalhei um
animal, pendurei os caus nos cabeotes, marchei para a vazante. Arranquei um
pau de mandioca, e o meu espanto no foi deste mundo. Esperava tamboeira choca,
mas, acreditem vossemecs, encontrei uma raiz enorme, pesada, que se ps a
bulir. A bulir, sim senhor. Meti-lhe o faco. Estava oca, s tinha casca. E, por
baixo da casca, um tatu-bola enrolado. Arranquei outra vara seca: peguei o
segundo tatu. Para encurtar razes, digo aos amigos que passei quinze dias
desenterrando tatus. Os caus enchiam-se, o cavalo emagreceu de tanto caminhar
e Cesria chamou as vizinhas para salgar aquela carne toda. Apanhei uns quarenta
milheiros de tatus, porque nos ps de mandioca fornidos moravam s vezes casais,
e nos que tinham muitas razes acomodavam-se famlias inteiras. Bem. O preo do
charque na cidade baixou, mas ainda assim apurei alguns contos de ris, muito
mais que se tivesse vendido farinha. A princpio no atinei  com a causa daquele
despotismo e pensei num milagre.  o que sempre fao: quando ignoro a razo das
coisas, fecho os olhos e aceito a vontade de Nosso Senhor, especialmente se h
vantagem. Mas a curiosidade nunca desaparece do esprito da gente. Passado um
ms, comecei a matutar, a falar sozinho, e perdi o sono. Afinal agarrei um
cavador, desci a vazante, esburaquei  tudo aquilo. Achei a terra favada, como um
formigueiro. E adivinhei por que motivo a bicharia tinha entupido a minha roa.
Fora dali o cho era pedra, cascalho duro que s dava coroa-de-frade, quip e
mandacaru. Comida nenhuma. Certamente um tatu daquelas bandas cavou passagem
para a beira do aude, topou uma raiz de mandioca e resolveu estabelecer-se
nela. Explorou os arredores, viu outras razes, voltou, avisou os amigos e
parentes, que se mudaram. Julgo que no ficou um tatu na caatinga. Com a chegada
deles as folhas da plantao murcharam, empreteceram e caram. Estarei errado,
seu Firmino? Pode ser que esteja, mas parece que foi o que se deu.

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BELFAGOR
Novela Agradabilssima
Maquiavel
Sinopse de O Prncipe em www.consciencia.org
as memrias antigas das coisas de Florena l-se uma histria referida por um
homem santssimo, mui respeitado por todos os seus contemporneos. Certa vez,
absorto em suas oraes, graas a elas pde ver como um sem-nmero de almas de
mseros mortais que haviam morrido sem a graa de Deus iam para o inferno, e
como todas ou a maioria delas lamentavam ter-se casado, pois era esta, e no
outra, a causa de tamanha desdita. Minos e Radamanto, junto com os outros juzes
infernais, ficaram muito admirados e, no podendo dar crdito s calnias que as
almas lanavam ao sexo feminino, fizeram disso um relatrio regular a Pluto,
tanto mais que a grita crescia a cada passo. Pluto deliberou examinar o caso de
perto com todos os prncipes do Inferno e, depois, tomar o partido que fosse
julgado mais conveniente para descobrir a verdade. Convidou-os, pois, ao
conselho, e falou nestes termos:
- Embora eu, meus diletssimos amigos, por disposio celeste e sorte fatal, de
todo irrevogvel, possua este reino e no possa ser submetido a nenhum juzo,
nem celeste, nem mundano, contudo resolvi consultar-vos. Grande prudncia
revelam os mais poderosos se curvam eles mesmos s leis e levam em conta a
opinio alheia. Dizei-me, pois, com devo proceder num caso que poderia redundar
em infmia para nosso imprio. Todas as almas de homens que entram em nosso
reino pretendem ter sido causa disso a prpria mulher, o que nos parece
impossvel. Se condenarmos tal afirmao, talvez os levianos nos acusem de
crueldade; se no o fizermos, talvez os injustos nos considerem demasiado
indulgentes e pouco amantes da justia. Querendo evitar uma e outra acusao, e
no encontrando o meio, decidimos convocar-vos a fim de que nos ajudeis com
vossos conselhos e faais que este reino continue a viver sem infmia, como
sempre tem vivido.
Cada um daqueles prncipes achava o caso importantssimo, e de grande monta.
Estavam todos de acordo em que era preciso descobrir a verdade, mas discordavam
quanto  maneira de o fazer. Uns julgavam que se devia mandar um deles ao mundo,
outros que vrios, para conhecerem ali pessoalmente, sob forma humana, o que era
a verdade. A outros parecia desnecessrio tantos incmodos; bastava obrigar
vrias almas, por meio de tormentos diversos, a confess-la. Como, porm, a
maior parte se declarasse pela primeira opinio, foi adotada esta. Ningum, no
entanto, se oferecia espontaneamente a tentar a empresa; assim, recorreram 
sorte. Esta recaiu sobre Belfagor, arquidiabo, que anteriormente - antes de cair
do Cu, era arcanjo.
Aceitou ele o encargo com repugnncia, mas o poder de Pluto o constrangeu a
executar o que o conselho resolvera, e teve de consentir nas condies
solenemente aceitas por todos. Tinha sido deliberado que aquele em quem recasse
a sorte receberia imediatamente cem mil ducados, e com estes viria a nascer no
mundo, a casar-se sob forma humana e viver com a mulher durante dez anos;
depois, fingindo morrer, voltaria e exporia a seus superiores, fundado na
prpria experincia, quais so os encargos e os incmodos do casamento. Fora
deliberado, tambm, que durante o tempo em apreo ficaria submetido a todos os
achaques e males a que os homens esto sujeitos, sem excluir a pobreza, a
priso, as doenas e todas as desgraas que aos mortais ocorrem, salvo se por
meio de engano, astcia conseguisse livrar-se delas.
Aceitas, pois, as condies e os ducados, foi-se Belfagor ao mundo e,
devidamente provido de cavalos e companheiros, entrou honrosissimamente em
Florena. Escolhera esta cidade, de preferncia a todas as outras, para seu
domiclio, por lhe parecer entre todas a mais apta a suportar quem quisesse
viver empregando seu dinheiro em negcios. Fez-se chamar Rodrigo de Castela e
alugou casa no bairro de Todos os Santos. Para que no lhe pudessem investigar
os antecedentes, afirmou haver partido de Espanha ainda pequeno; dali fora 
Sria e a Alepo, onde ganhara tudo o que tinha; de l, viajara para a Itlia a
fim de casar-se num lugar mais humano, conforme  vida civilizada e  sua
prpria ndole.
Era Rodrigo um belssimo rapaz, que aparentava trinta anos. Em poucos dias
demonstrara quantas riquezas tinha e dera prova de sua liberalidade e
humanidade; e logo vrios cidados nobres, providos de muitas filhas e pouco
dinheiro, lhe ofereceram seus prstimos. Entre todas, Rodrigo escolheu uma
belssima rapariga, chamada Honesta, filha de Amrico Donati, que tinha mais
trs filhas, quase em idade de casar, e trs filhos j adultos. Posto que de
famlia muito nobre e tido em bom conceito em Florena, era Amrico bem pobre,
levando-se em conta sua numerosa prole e sua nobreza.
Rodrigo celebrou npcias magnficas, nada omitindo de quantas coisas em tais
festas se exigem. Segundo a lei que aceitara ao sair do Inferno, estava sujeito
a todas as paixes humanas; assim, logo entrou a deleitar-se com as honrarias e
pompas do mundo, e a gostar de ser louvado entre os homens, coisas que lhe
acarretavam no pequena despesa. Por outro lado, no tardou muito a apaixonar-se
perdidamente por sua D. Honesta, nem mais podia viver quando por alguma razo a
encontrava triste ou aborrecida.
Trouxera consigo D. Honesta, alm da nobreza e beleza, tanta soberba quanta nem
Lcifer tivera jamais; Rodrigo, que experimentara uma e outra, julgou superior a
da mulher.  medida, porm, que ela percebia o amor que lhe devotava o marido,
crescia-lhe sobremodo o orgulho. Pensava que o podia dominar em tudo, dava-lhe
ordens sem o menor respeito ou piedade e, se lhe negava ele alguma coisa, no
tinha escrpulos em agredi-lo com palavras grosseiras e injuriosas, o que a
Rodrigo causou incrvel enfado. Todavia, o sogro, os irmos, a parentela, as
obrigaes do casamento e sobretudo o grande amor que ela lhe inspirava,
faziam-no pacientar. Quero passar em silncio os grandes gastos a que era
obrigado para content-la, vestindo-a segundo os novos costumes e modas
recentes; nem lembrarei que, para ela o deixar em paz, teve ele de ajudar o
sogro a casar as outras filhas, o que lhe fez despender considervel
importncia. Depois, desejando-se manter em boa paz com a mulher, consentiu em
mandar um dos irmos dela para o Levante com casemiras e outro para o Ocidente
levando sedas, ao passo que para o terceiro abriu em Florena uma oficina de
ourives, em que despendeu a maior parte do dinheiro que tinha. Todas essas
coisas, suportava-as Rodrigo pelos motivos supracitados; apesar de gravssimas,
nem graves as teria achado se houvessem introduzido a paz em sua casa,
permitindo-lhe aguardar em sossego o momento de sua prpria runa. Mas foi o
contrrio que sucedeu, pois a ndole insolente de sua esposa, alm das despesas
insuportveis, carreava-lhe inmeros aborrecimentos. Nenhum criado a agentava,
no digo por muito tempo, mas nem sequer por alguns dias. Para Rodrigo era o
mais duro dos incmodos no possuir um criado que tivesse amor  sua casa. Os
prprios diabos que trouxera consigo como domsticos preferiam voltar aos fogos
do Inferno a viver no mundo s ordens daquela mulher.
Assim continuava Rodrigo na sua vida tumultuosa e inquieta. Tendo j consumido
nos gastos desenfreados o que reservara em espcie, comeou a viver  espera das
entradas que aguardava do Ocidente e do Levante. Como ainda tivesse bom crdito,
pediu dinheiro emprestado, para no ficar aqum de sua condio; e j certo
nmero de letras sacadas por ele circulavam na praa, o que logo foi notado
pelos que trabalham neste ramo de negcios.
J era bem precria a situao de Rodrigo, quando de sbito chegam notcias do
Levante e do Ocidente: aqui um dos irmos de D. Honesta perdera no jogo todo o
dinheiro de Rodrigo; ali, o outro, ao voltar em um navio carregado de suas
mercadorias, que no estavam no seguro, naufragou com toda a carga.
Mal se divulgaram essas novas, os credores de Rodrigo reuniram-se. Julgavam-no
um homem liquidado, mas ainda no podiam tomar providncias, por no haver
expirado o prazo das cobranas; resolveram, pois, mandar observ-lo habilmente,
para que num abrir e fechar de olhos no lhes escapasse das mos. Por sua parte,
Rodrigo no vendo outro remdio e sabendo as obrigaes que lhe impunha o pacto
infernal, decidiu fugir a todo transe. Certa manh, montou a cavalo e saiu pela
porta do Prato, perto da qual residia. Espalhada a notcia de sua fuga,
alarmados recorreram os credores s autoridades e puseram-se no encalo dele,
acompanhados no apenas dos meirinhos, seno tambm de muitos populares.
Em fuga pelos campos, Rodrigo chegou  casa de Joo Mateus del Bricca, lavrador
de Joo del Bene. O acaso f-lo encontrar com Joo Mateus, que trazia de comer
aos bois. A este se recomendou o fugitivo, prometendo-se que, se o salvasse de
seus inimigos, o tornaria rico, coisa de que lhe daria prova antes mesmo de sair
de sua casa; se no o fizesse, concordava em que o prprio campons o entregasse
aos seus adversrios.
Embora simples aldeo, era Joo Mateus homem de coragem. Julgava que nada tinha
a perder se tentasse salv-lo e prometeu auxlio. Havia diante da casa um monte
de estrume; foi l que o escondeu, cobrindo-o de canios e raminhos ajustados
para fazer fogo.
Mal acabara Rodrigo de esconder-se, chegaram seus perseguidores. Por mais
ameaas que fizessem a Joo Mateus, no alcanaram lev-lo a confessar que o
tinha visto. Assim, partiram e, depois de procur-lo todo aquele dia e mais o
dia seguinte, retornaram a Florena, exaustos.
Cessada a agitao, Joo Mateus tirou Rodrigo do esconderijo e pediu-lhe que
cumprisse a promessa, ao que Rodrigo lhe disse:
- Irmo meu, tenho contigo uma grande obrigao e quero cumpri-la de qualquer
maneira; e para que acredites que o posso fazer, dir-te-ei quem sou.
Nisso revelou a sua identidade, contando em que condies sara do Inferno e
como se casara. Explicou-lhe, em seguida, como pretendia faz-lo rico. O seu
projeto era o seguinte: quando Joo Mateus ouvisse que alguma mulher estava
espiritada, devia saber que era ele, Rodrigo, que se apoderara dela; nem sairia
do corpo da vtima sem que Joo Mateus viesse tir-lo; destarte, poderia o
campons pedir aos parentes da endemoniada o preo que bem entendesse. Joo
Mateus aceitou a proposta e Rodrigo partiu.
Decorridos alguns dias, propagou-se a notcia de que uma filha de mestre
Ambrsio Amadei, casada com Buonaiuto Tebalducci, estava espiritada. No
descuravam os parentes nenhum remdio a que se recorre em casos semelhantes;
assim puseram-lhe na cabea o crnio de S. Zenbio  e o manto de S. Joo
Gualberto. Rodrigo porm, zombava de tudo aquilo. E, para dar a entender a todos
que o mal da moa era um esprito e no qualquer imaginao fantstica, falava
latim, discutia coisas de filosofia e descobria os pecados de muitos,
desmascarando, entre outros, a um frade que guardara em sua cela, durante mais
de quatro anos, uma mulher vestida  maneira de fradinho, coisas que enchiam a
todos de espanto. Estava Mestre Ambrsio irritadssimo e, havendo experimentado
em vo todos os remdios, perdera j a esperana de curar a filha, quando Joo
Mateus veio ter com ele prometendo-lhe a sade da filha se lhe desse quintos
florins. Ambrosio aceitou a proposta. Ento Joo Mateus,  depois de mandar dizer
um certo nmero de missas e executar algumas cerimnias para embelezar a coisa,
achegou-se  moa e segredou-lhe ao ouvido:
- Rodrigo, aqui estou esperando que me cumpras a promessa.
Ao que Rodrigo respondeu:
- Com o maior prazer. Mas isso no chega ainda a tornar-te rico. Eis por que,
apenas sado daqui, entrarei na filha do rei Carlos de Npoles, e de l no
sairei sem que me chames. Ento exigirs uma propina a teu contento e depois
disso no devers mais importunar-me.
Nisso saiu do corpo da doente, com alegria e admirao de toda Florena.
No tardou e j se espalhava por toda Itlia outro acidente, com a filha do rei
Carlos. Como o remdio dos frades no servisse, o rei, que ouvira falar em Joo
Mateus, mandou cham-lo. Entretanto, Rodrigo, antes de sair do corpo da
princesa, disse-lhe:
- Olha Joo Mateus, cumpri a promessa de te enriquecer. Desobriguei-me contigo e
no te devo mais coisa alguma. Portanto, andars acertado em nunca mais me
aparecer, pois assim como te fiz bem at hoje, doravante te farei mal.
Joo Mateus tornou a Florena riqussimo, tendo recebido do rei mais de
cinqenta ducados. Estava resolvido a gozar em sossego a opulncia, sem crer que
Rodrigo pensasse realmente em prejudic-lo. Bem cedo, porm, se desiludiu, ante
a notcia de que a filha de Lus VII, rei de Frana, estava espiritada. Essa
notcia conturbou de todo a alma de Joo Mateus, que no cessava de pensar na
autoridade do monarca e nas palavras que dissera Rodrigo. De fato, o rei como
no encontrasse remdio para o mal da filha, e tendo ouvido falar da capacidade
de Joo Mateus, mandou cham-lo, primeiro simplesmente por correio, mas visto
que o homem alegava certa indisposio, viu-se o rei obrigado a reconhecer 
Signoria, a qual obrigou Joo Mateus a obedecer.
Desesperado, foi este a Paris onde comeou por explicar ao rei que efetivamente
curava, j, certas endemoniadas, mas que isso no queria dizer de modo algum que
soubesse ou pudesse cur-las todas, pois algumas h de natureza to prfida que
no temem ameaas, nem encantamentos, nem religio, seja qual for; de todavia
estava pronto a fazer o que pudesse, mas pedia desculpa se no fosse bem
sucedido. Enfastiado, o rei declarou que, se no lhe curasse a filha, mandaria
enforc-lo. Viu-se Joo Mateus em grandes apuros, mas fez da fraqueza, fora;
mandou vir a endemoniada e, achegando-se ao ouvido, recomendou-se humildemente a
Rodrigo, lembrando-lhe o benefcio prestado e como seria ingrato se o
desamparasse naquele transe.
- Irra! - exclamou Rodrigo. - Ento, miservel traidor, ainda tens coragem de te
apresentar diante de mim? Pensas poder-te gabar de que enriqueceste com meu
auxlio? Pois hei de mostrar-te, a ti e a todos, que sei dar e retirar qualquer
coisa, a meu talante; e, antes que partas daqui, farei enforcar-te, custe o que
custar.
Em tal conjuntura, Joo Mateus no vendo remdio, resolveu tentar a fortuna por
outro meio. Mandou embora a espiritada e disse ao rei:
- Senhor, como declarei, h muitos espritos to malignos que com eles ningum
pode; pois este  um dos tais. Mas quero fazer uma ltima experincia: se for
bem sucedido, teremos alcanado nosso fim; em caso contrrio, estarei em suas
mos, que saber ter comigo a compaixo a que faz jus minha inocncia. Ordene V.
Majestade que se erga na praa de Nossa Senhora, um grande estrado, em que
caibam todos os bares e todo o clero desta cidade; mande orn-lo em panos de
seda e ouro, e erguer no meio dele um altar. Quero que domingo prximo Vossa
Majestade com todo o clero, todos seus prncipes e bares,  se reunam no
estrado,  com pompa real. Depois de celebrada a missa V. M. far vir a
endemoniada. Quero, alm disso, que num ngulo da praa haja pelo menos vinte
pessoas munidas de trompas, cornetas, tambores, smbalos e instrumentos de toda
sorte. Quando  eu levantar o chapu, todos devero tanger os seus instrumentos e
encaminhar-se na direo do estado. Essas coisas, junto com certos outros
remdios secretos, julgo faro partir o tal esprito.
O rei ordenou tudo isso. Chegou a manh de domingo. O estado estava cheio de
personagens e a praa de povo. Celebrada a missa, a espiritada foi conduzida ao
estrado por dois bispos e muitos senhores. Ao ver tamanho ajuntamento e tanto
aparato, Rodrigo ficou quase tanto e disse consigo: - -Que ter inventado este
miservel traidor? Pensa espantar-me com essa pompa? Ignora que estou acostumado
a ver as pompas do Cu e as frias do Inferno? Hei de castig-lo, seja como
for.-
Quando, depois, Joo Mateus se aproximou dele novamente e lhe pediu que sasse,
ele falou:
- Bela idia a tua, na verdade! Que pensas alcanar com todo este aparato?
Acreditas escapar assim ao meu poder e  ira do rei? Miservel ladro, farei
enforcar-te, haja o que houver.
Como no cessasse de repetir estas palavras, Joo Mateus houve por bem no
perder mais tempo. Fez o sinal com o chapu e todas as pessoas encarregadas de
fazer barulho tocaram os seus instrumentos e com um rumor que ia ao Cu foram
chegando ao estrado. O barulho aguou os ouvidos a Rodrigo, o qual no
entendendo o que era aquilo, pediu a Joo Mateus que lho explicasse. Este lhe
respondeu, muito perturbado:
- Ai, meu Rodrigo,  a tua mulher que vem buscar-te!
Era de ver a alterao produzida na mente de Rodrigo pelo nome da mulher.
Tamanho lhe foi o espanto que, sem indagar de si mesmo se era possvel que ela
estivesse ali, fugiu sem dizer palavra e deixou a princesa livre; preferiu
voltar ao Inferno para dar conta de suas aes a submeter-se outra vez ao jugo
matrimonial, suportando tantos fastios, despeitos e perigos. Assim, Belfagor, de
volta ao Inferno, atestou os males que a esposa traz consigo a uma casa, ao
passo que Joo Mateus, que se mostrara mais esperto que o Diabo, regressou a
casa contentssimo.

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Deus e o homem
S. Kierkegaard
O homem que se interessa s ligeiramente e de raro em raro por sua afinidade com
Deus, mal pode pensar ou sonhar que se acha de tal forma intimamente ligado a
Deus, o que Deus se acha de tal forma perto dEle, que existe uma relao
recproca entre ambos: quanto mais forte  o homem, mais fraco  Deus; mais
fraco  o homem, mais forte  Deus nele. Todo homem admite a existncia de Deus,
naturalmente pensa nele como o Mais Poderoso, como Ele o  eternamente, a
criao  como nada; tal homem, porm, mal pensa na possibilidade de conexo
mtua. Mas o Deus amoroso, que em amor incompreensvel te criou a ti para seres
algo para Ele, amorosamente exige algo de ti.
Aqui temos a conexo recproca. Se o homem, egoisticamente, conservar aquilo que
o amor fez por ele, e desejar egocentricamente ser algo, ento, num sentido
terreno, ele  forte - mas Deus  fraco. E  como se o pobre Deus quase fosse
logrado: como amor incompreensvel, Deus foi adiante e fez o homem algo - e logo
depois o homem ludibria Deus e conserva aquilo como se fosse dele prprio. O
homem terreno confirma-se na noo de que  forte, e  ativado talvez pelo
julgamento profano de outras pessoas na mesma suposio, talvez por presumir que
pode transformar a face do mundo - mas Deus  fraco. Por outro lado, se o homem
abandonar esse algo, a independncia, a liberdade de agir por si mesmo, que o
amor lhe outorgou; se essa perfeio de seu desejo consiste em existir para Deus
ele no abusar, tomando-a em vo; se Deus alis, o auxiliar nessa venerao por
meio de sofrimentos amargos, ele  fraco - mas Deus  forte. Ele, o homem dbil,
abandonou inteiramente este alguma coisa em que o amor o transformou, admitiu
sem reservas que Deus tirou dele tudo o que era para ser tomado. DEUS somente
espera o homem dar terna e humildemente seu jubiloso consentimento, e com isto
entregar-se de maneira total, ento ele  completamente fraco - e Deus  mais
forte. Para Deus s h um obstculo: o egosmo do homem, que est entre Ele e o
homem como a sombra da terra quando produz eclipse da lua. Se existe este
egosmo, ento o homem  potente, mas sua fora  a fraqueza de Deus; se o
egocentrismo  inexistente, ento o homem  fraco, e Deus poderoso; quanto mais
fraco se torna o homem, mais forte Deus se torna.
Contudo, se  assim, ento em outro sentido, no verdadeiro sentido a relao
est invertida; e com isto chegamos  felicidade.
Pois aquele que  forte sem Deus,  precisamente o que  fraco. A fora pela
qual um homem permanece s pode ser comparada  fora de uma criana. Mas a
fora pela qual um homem permanece s em Deus  fraqueza - Deus  forte em tal
proporo que Ele  toda a fora, a prpria fora. De modo que estar sem Deus 
estar sem poder. E ser poderoso sem Deus  ser forte... sem fora;  com estar
amando sem amar a Deus, e assim amar sem amor, pois Deus  amor.
Mas quem se torna inteiramente fraco,  Nele torna-se forte. E o fato de que Deus
 mais e mais forte no homem, isto significa que tambm se torna mais e mais
forte. Se pudesses tornar-te inteiramente fraco em perfeita obedincia, para
que, amando a Deus compreendesses que no s capaz de fazer mais nada, ento
todos os poderosos da terra, se estivessem unidos contra ti, seriam incapazes de
ofender um cabelo de tua cabea - que poder prodigioso! Mas, de fato, isto no 
verdade e no digamos nada falso. Realmente, eles seriam capazes de fazer isto,
seriam mesmo capazes de mat-lo, e a grande conjuno de todos os poderosos da
terra no  de modo algum requisitada para este fim; um poder muito, muito
inferior pode faz-lo bem facilmente. Contudo, se fores inteiramente fraco em
obedincia perfeita, ento todos os poderosos da terra em conjunto no tero
poder para ofender um cabelo de tua cabea contrariamente  vontade de Deus. E
quando s ferido, quando s injuriado, quando s posto  morte - se foste
inteiramente fraco em perfeita obedincia - entenders amorosamente que nenhum
dano te vai ser causado, por mnimo que seja, e que tudo  para teu verdadeiro
bem-estar - que prodigiosa fora!
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Expresso Taosta
Lao-Ts
H uma essncia fundamental, que inclui tudo,  indiscriminada e que existiu
antes de haver qualquer apario do cu e da terra. Como  tranqila e vazia!
Como  auto-suficiente e imutvel! Como  onipresente e infinita! Contudo, esta
tranqila vacuidade tornou-se a Me de tudo. Quem sabe o seu nome? Somente posso
caracteriz-la e denomin-la Tao. Ainda que inteiramente inadequado,
mencion-la-ei mesmo como Grande. Mas, como  ilimitada a sua Grandeza!
Estende-se por longas distncias (como um crculo), somente para voltar de novo.
Tao  eterno, mas indescritvel. Sua simplicidade, embora considerada como das
mais humildes,  a mais independente. Nada no mundo  capaz de traz-lo 
sujeio.
O Grande Tao impregna tudo.  acessvel em toda parte, na mo direita e na
esquerda. Tudo depende dele para existir e isto nunca falha.
Tao  invisvel mas penetra em tudo, no importando o quanto ou como  usado,
nunca  exaurido.
s pessoas comuns, o princpio Tao, de simplicidade e humildade parece fraco e
inspido; elas desejam e procuram msicas e iguarias. Na verdade, Tao no tem
sabor. Quando olhado, nada h para ser apreciado, quando se procura escut-lo,
mal pode ser ouvido; mas seus prazeres so inexaurveis.
Tao age sem declarao; todavia, todas as coisas se desenvolvem de acordo com
isto.
O homem superior, to logo ouve a respeito de Tao, pratica-o fervorosamente; o
homem comum, ouvindo de Tao, s vezes o recorda, e s vezes o esquece; o homem
inferior, quando lhe falam de Tao, ridiculariza-o. Se isto no fosse assim, no
haveria mrito em seguir a Tao.

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O Estribo de Prata
Graciliano Ramos
- Este caso se deu, comeou Alexandre, um dia em que fui visitar meu sogro, na
fazenda dele, lguas distantes da nossa. J contei aos senhos que os arreios do
meu cavalo eram de prata.
- De ouro, gritou Cesria.
- Estou falando nos de prata, Cesria, respondeu Alexandre. Havia os de ouro, 
certo, mas estes s serviam nas festas. Ordinariamente eu montava numa sela com
embutidos de prata. As esporas, as argolas da cabeada e as fivelas dos loros
eram tambm de prata. E os estritos, aerados, faiscavam como espelhos. Pois sim
senhores, eu tinha ido visitar meu sogro, o que fazia uma ou duas vezes por ms.
Almocei com ele e passamos o dia conversando em poltica e negcios. Foi a que
ficou resolvida a minha primeira viagem ao sul, onde me tornei conhecido e
ganhei dinheiro. Acho que me referi a uma delas. Adquiri um papagaio...
- Por quinhentos e tantos mil-ris, disse mestre Gaudncio. J sabemos. Um
papagaio que morreu de fome.
- Isso mesmo, seu Gaudncio, prosseguiu o narrador, o senhor tem boa memria.
Muito bem. Passei o dia com meu sogro,  tarde montamos a cavalo, percorremos a
vazante, as plantaes e os currais. Justei e comprei cem bois de era,
despedi-me do velho e tomei o caminho de casa. Ia principiando a escurecer, mas
no escureceu. Enquanto o sol de punha, a lua cheia aparecia, uma lua enorme e
vermelha, de cara ruim, dessas que anunciam infelicidade. Um cachorro na beira
do caminho uivou desesperado, o focinho para cima, farejando misria. &#8211; -cala a
boca, diabo.-Bati nele com o bico da bota, esporeei o cavalo e tudo ficou em
silncio. Depois de um golpe curto, ouvi de novo os uivos do animal, uns uivos
compridos e agoureiros. No sou homem que trema  toa, mas aquilo me arrepiou e
deu-me um babecum forte no corao. Havia no campo uma tristeza de morte. A lua
crescia muito limpa, tinha lambido todas as nuvens, estava com inteno de
ocupar metade do cu. E c embaixo era um sossego que a gemedeira do cachorro
tornava medonho. Benzi-me e rezei baixinho uma orao de sustncia e disse
comigo: - -Est-se preparando uma desgraa neste mundo, minha Nossa Senhora.-
Afastei-me dali, os gritos de agouro sumiram-se, avizinhei-me da casa pensando
em desastres e olhando aquela claridade que tingia os xiquexiques e os
mandacarus. De repente, quando mal me precatava, senti uma pancada no p
direito. Puxei a rdea, parei, ouvi um barulho de guizo, virei-me para saber de
que se tratava e avistei uma cascavel assanhada, enorme, com dois metros de
comprimento.
- Dois metros, seu Alexandre? Inquiriu o cego preto Firmino. Talvez seja muito.
- Espere, seu Firmino, bradou Alexandre zangado. Quem viu a cobra foi o senhor
ou fui eu?
- Foi o senhor, confessou o negro.
- Ento escute. O senhor, que no v, quer enxergar mais que os que tm vista.
Assim  difcil a gente se entender, seu Firmino. Oua calado, pelo amor de
Deus. Se achar falha na histria, fale depois e me xingue de potoqueiro.
- Perdoe, rosnou o preto.  que eu gosto de saber as coisas por mido.
- Saber, seu Firmino, berrou Alexandre. Quem disse que o senhor no saber?
Saber. Mas no me interrompa, com os diabos. Ora muito bem. A cascavel mexia-se
com raiva chocalhando e preparando-se para armar novo bote. Tinha dado o
primeiro, de que falei, uma pancada aqui no p direito. &#8211; -Os dentes no me
alcanaram porque estou bem calado&#8221;, foi o que presumi. Saltei no cho e
levantei o chicote, pois ali perto no havia pau nem pedra. A miservel
enrolava-se, os olhos redondos pregados em mim e a lngua fora da boca. Zs!
Desmanchei-lhe a rodilha com uma chicotada. Tentou endireitar-se, estraguei-lhe
os planos e com o chicote fui batendo, batendo, at que, desanimada, ela meteu o
rabo entre as pernas e botou-se devagarinho para um monte de garranchos de
coivara.
- Como  isso, seu Alexandre? Perguntou o cego. A cascavel meteu o rabo entre as
pernas? Cascavel no tem pernas.
- Est claro que no tem, respondeu Alexandre. Quando a gente diz que uma
criatura mete o rabo entre as pernas, quer dizer que ela se encolhe, capionga,
percebe? Foi o que se deu. No  preciso um bicho ter penas para meter o rabo
entre as pernas. Seu Firmino  pessoa de entendimento curto e no compreende
isto. A cascavel, que no tinha pernas, meteu o rabo entre as pernas e
esgueirou-se para os garranchos e folhas secas que havia junto da estrada. Corri
atrs dela e obriguei-a a voltar. Amiudei os golpes, a desgraada bambeou e nem
pediu fogo para o cachimbo. Machuquei-lhe a cabea com o salto da bota.
Estrebuchou, fez o que pde para arrumar-se em novelo, depois se aquietou e
ficou estirada na poeira. Baixei-me e medi o corpo mole: nove palmos e meio
espichados. Isto  com o senhor, seu Firmino. Nove palmos e meio, entendeu? Mais
de dois metros, pensou eu. Que diz?
- Deve ser isso mesmo, resmungou o negro. No sei no. Estou escutando. Sempre
me dou mal quando fao perguntas. O senhor  que sabe.
- Perfeitamente, concluiu Alexandre. A cobra tinha mais de dois metros. Tirei a
vagem da cauda e contei nela dezessete anis, o que significa dezessete anos,
como ningum ignora. Vejam vossemecs: dezessete anos. Era uma cobra muito
velha, muito prtica. Se eu no estivesse com os ps bem protegidos, no teria
escapado, os senhores no ouviriam este caso.  Cesria, veja se arranja dois
dedos de cachimbo l dentro. Eu preciso molhar a palavra. E os nossos amigos
esto com o ouvido seco. V buscar o cachimbo, Cesria. E procure o chocalho da
cascavel, que voc guardou.
Cesria levantou0se da esteira e desapareceu. Alexandre enxugou na manga da
camisa o rosto suado. Mestre Gaudncio, curandeiro, seu Librio cantador e Das
Dores comentaram baixinho o tamanho e a idade da cobra. Passados alguns minutos,
Cesria voltou com uma garrafa e uma xcara.
- Preparei o cachimbo. Aguardente no falta, e as abelhas trabalham de graa.
Mas o chocalho sumiu-se. Estava no jirau, misturado com balaios e combucos:
provavelmente anda escondido num buraco de ratos.
- Faz pena, rosnou Alexandre. Eu queria encost-lo nas unhas de seu Firmino.  o
diabo. Acabou-se. Bote o cachimbo na xcara, Cesria.
A garrafa se esvaziou, os amigos elogiaram a bebida. Alexandre temperou a goela
e reatou a histria:
- Montei-me novamente. E a findou o desespero que o choro brabo do cachorro
tinha dado. A luz vermelha diminuiu e a noite se tornou uma noite de lua cheia
igual s outras noites de lua cheia &#8211; -Toda aquela armao de infelicidade foi
para mim -, assuntei c por dentro. Mas agora no havia perigo, porque a orao
que eu tinha rezado era poderosa e o couro da bota era duro. Entrei em casa sem
nuvens.
- Com o chocalho da cobra no bolso, murmurou o cego.
- Naturalmente, com o chocalho da cobra no bolso. Cesria se espantou: dezessete
anos para uma cascavel  muito ano. Fui dormir, e no dia seguinte ningum se
lembrava disso. Entreguei-me de corpo e alma aos arranjos necessrios  viagem
para o sul. Gastei o tempo arrumando cargas. Um ms depois, exatamente um ms
depois, tudo pronto, as reses no curral, os tangerinos amolando o ferro da
aguilhada, mandei selar o cavalo e resolvi despedir-me de meu pai, meu sogro e
alguns amigos da vizinhana. Vesti a roupa de casimira, calcei as botas, amarrei
no pescoo colarinho e gravata, tomei caf e dirigi-me ao copiar, onde encontrei
o cavalo sem arreios. Gritei para o interior da casa, aborrecido com aquela
demora, e um moleque apareceu atrapalhado, cinzento de medo, e falou assim: -
-No posso trazer a sela no, seu major. Rebentou o torno da parede e est
cada, pesada que no me ajudo com ela. Faz meia hora que procuro carreg-la.-
Pensei que o diabo do sujeito estivesse com embromaes e fui ver a coisa de
perto. Achei realmente o torno quebrado e a sela no cho. Tentei suspend-la,
resistiu. O loro esquerdo levantou-se, mas o direito parecia plantado na terra.
Acocorei-me para examinar aquele negcio e tomei um susto dos demnios: o
estribo estava grande que era um despotismo, sim senhores. Mal pude mov-lo.
Desatei-o, chamei dois homens e conseguimos arrast-lo at o copiar. Foi um
assombro, toda gente arregalou os olhos, sem adivinhar o motivo do crescimento.
Vieram pessoas de longe, a casa se encheu, fervilharam perguntas &#8211; -como foi,
onde foi, porque vira, porque mexe e ningum entendia nada. Eu coava a
cabea e puxava pelos miolos. Fiquei trs dias matutando. Afinal, depois de
muito pesar, compreendi tudo e dei a Cesria as explicaes que agora vou dar
aos senhores. Acho que ho de concordar comigo. Naquela noite de lua cheia supus
que a cascavel me tivesse mordido o couro da bota. Convenci-me, porm, que os
dentes da bicha tinham ferido o estribo e deixado l o veneno que existia no
corpo dela. Um ms depois, com a fora da lua, o estribo inchava, como incham
todas as mordeduras de cobras. Era por isso que ele estava to crescido e to
pesado. Mandei chamar um mestre na rua e, com martelo e escopro, retiramos do
estribo cinco arrobas de prata, antes que o metal desinchasse. Isso se repetiu
durante alguns anos: todos os meses o estribo inchava, inchava e, conforme a
fora d alua, eu tirava dele trs, quatro, cinco arrobas de prata.
Seu Librio cantador, mestre Gaudncio curandeiro, o cego preto Firmino e Das
Dores levantaram-se admirados.
- O senhor deve ter ganho uma fortuna, seu Alexandre, exclamou o cantador.
- Um pouco, seu Librio, sempre arranjei algum dinheiro, graas a Deus.
- E o estribo, seu Alexandre? O senhor ainda tem esse estribo? Perguntou o cego.
- No, seu Firmino, respondeu o dono da casa. Com o tempo ele deixou de inchar e
tornou-se um estribo comum. Julgo que o veneno perdeu a valia. Natural, no 
verdade?



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Morte herica
C. Baudelaire
Fanciullo era um bufo admirvel, e quase um dos amigos do Prncipe. Mas, para os
cmicos de profisso, as coisas srias tm atraces fatais, e, ainda que possa
ser estranho que as idias de ptria e liberdade tomem conta do crebro de um
histrio, um dia Fanciullo entrou numa conspirao tramada por alguns fidalgos
descontentes.
H, em toda a parte, pessoas de bem para denunciarem ao poder esses indivduos
de humor atrabilirio, que pretendem depor prncipes e operar, sem consult-la,
a desorganizao de uma sociedade. Os tais senhores foram presos junto com
Fanciullo, e destinados  morte.
Acredito que o Prncipe quase se aborreceu por encontrar, entre os rebeldes, o
seu comediante favorito. O Prncipe no era pior ou melhor do que outro
qualquer; mas uma sensibilidade excessiva tornava-o, em muitos casos, mais
desptico e mais cruel que todos os seus iguais. Amante das artes, e excelente
conhecedor da matria, era ele positivamente insacivel de volpias. Indiferente
aos homens e a moral, verdadeiro artista, no conhecia inimigo perigoso a no
ser o tdio, e os extraordinrios esforos que fazia para evitar ou vencer esse
tirano do mundo lhe haveriam sem dvida granjeado, da parte de um historiador
severo, o epteto de -monstro&#8221;, caso pudesse, nos seus domnios, escrever fosse
o que fosse que no tendesse apenas ao prazer, ou  surpresa, uma das mais
delicadas formas do prazer. A grande desgraa deste Prncipe foi que ele no
teve nunca um teatro bastante amplo para o seu gnio. H jovens Neros que
sufocam em limites demasiado estreitos, e de cujo nome e boa vontade jamais
tero conhecimento os sculos vindouros. A esse, dera-lhe a imprevidente
Providncia faculdades maiores que os seus Estados.
De repente, correu o boato de que o soberano estava disposto a conceder perdo a
todos os conjurados; e a origem de tal boato foi o anncio de um grande
espetculo em que Fanciullo devia representar um dos seus principais e melhores
papis, ao qual assistiriam, segundo se falava, os prprios fidalgos condenados;
sinal evidente, acrescentavam os espritos superficiais,  da generosa ndole do
Prncipe ofendido.
De homem to instintiva e voluntariamente excntrico, tudo era lcito esperar,
at a virtude, at a clemncia, sobretudo se ele chegara a conceber a esperana
de nelas encontrar prazeres imprevistos. Mas para aqueles que, tal como eu,
haviam logrado penetrar mais longe nas profundezas daquela alma curiosa e
doentia, era mil vezes mais provvel que o Prncipe quisesse ajuizar o valor do
talento cnico de um homem condenado  morte. Queria aproveitar a ocasio para
fazer uma experincia psicolgica de interesse capital, e verificar at que
ponto as faculdades habituais de um artista podiam ser alteradas ou modificadas
pela situao extraordinria em que ele se encontrava; demais, quem sabe se no
existia em sua alma uma inteno  mais ou menos contida de clemncia?  um ponto
que nunca se pde esclarecer.
Afinal, chegado o grande dia, aquela pequena corte exibiu todas as suas pompas,
e seria difcil imaginar, sem o ter visto, tudo quanto a classe privilegiada de
um pas modesto, de limitados recursos, pode ostentar de esplendores para uma
autntica solenidade. Aquela era duplamente autntica: pela magia do luxo
estadeado e pelo interesse moral e misterioso que se lhe prendia.
Fanciullo era excelente em papis mudos ou pouco carregados de palavras, que no
raro so os principais nesses dramas de magia, cujo objetivo  representar
simbolicamente o mistrio da vida. Entrou em cena lpido, com absoluto
desembarao, o que influiu para fortalecer no nobre pblico a idia de doura e
perdo.
Quando se diz de um comediante: - -Eis a um bom comediante&#8221; - usa-se uma
frmula da qual se deduz que sob a personagem se deixa adivinhar tambm o
cmico, isto , a arte, o esforo, a vontade. Ora, se chegasse um comediante a
ser, em relao  personagem que lhe cumpre interpretar, o que as melhores
esttuas da Antigidade, miraculosamente animadas, vivas, ambulantes, videntes,
seriam em relao a idia geral e confusa de beleza, isso constituiria, decerto,
um caso singular e inesperado. Fanciullo foi, naquela noite, uma perfeita
idealizao, que no se poderia deixar de supor viva, possvel, real. O bufo ia
e vinha, ria e chorava, contorcia-se, com uma indestrutvel aurola a cingir-lhe
a fronte, aurola invisvel para todos, mas visvel para mim, e na qual
mesclavam, em desconcertante amlgama, os esplendores da arte e a glria do
Martrio. No sei por que graa especial, Fanciullo introduzia o sobrenatural e
o divino at nas mais extravagantes bufonarias. Minha pena treme, e sobem-me aos
olhos lgrimas de uma comoo permanente, enquanto vos procuro descrever aquela
inesquecvel noite. Fanciullo provava-me, de modo peremptrio, irrefutvel, que
a embriaguez da Arte  a mais apropriada que  outra qualquer para velar os
terrores do abismo; que o gnio pode representar a comdia  beira do tmulo com
uma alegria que impede ver o tmulo - perdido, como est, num paraso  que
afasta qualquer idia de sepultura a destruio.
Todo aquele pblico, to embotado e frvolo, de pronto experimentou o domnio
onipotente do artista. Ningum pensou em morte, luto, suplcios. Cada um se
entregou, despreocupado, s copiosas volpias que oferece a contemplao de uma
obra-prima de arte. As exploses de alegria e admirao estremeceram
reiteradamente as abbadas do edifcio com a energia de um trovo ininterrupto.
Contudo, a um olhar clarividente essa embriaguez no era sem contraste.
Sentia-se ele vencido no seu poder de dspota? Humilhado na sua arte de
aterrorizar os coraes e entorpecer os espritos? Frustrado de esperanas e
ludibriado nas suas previses? Estas conjecturas, no exatamente justificadas,
mas no de todo injustificveis, atravessaram-me o esprito enquanto eu
contemplava o semblante do prncipe, onde uma nova palidez  se sobrepunha
incessantemente  palidez habitual, como a neve se sobrepe  neve. Seus lbios
cerravam-se cada vez mais, e seus olhos se iluminavam de um fogo ntimo,
semelhante ao do cime e do dio, at quando ele aplaudia s claras os talentos
do velho amigo, o estranho bufo, que com tamanha percia bufoneava a morte. Em
dado instante, vi Sua Alteza inclinar-se para um pequeno pajem, que lhe ficava
atras, e falar-lhe ao ouvido. A fisionomia maliciosa do lindo menino iluminou-se
de um sorriso; em seguida ele deixou, veloz, o camarote, como para desempenhar
misso urgente.
Alguns minutos aps, um assobio, agudo e prolongado, interrompeu Fanciulo num
dos melhores momentos, e dilacerou a um s tempo os ouvidos e os coraes. E do
ponto da sala de onde irrompera essa inesperada reprovao, um menino se
precipitava num corredor com risos abafados.
Fanciullo, abalado, desperto do seu sonho, primeiro fechou os olhos, reabriu-os
depois, quase no mesmo instante, desmesuradamente dilatados, logo aps abriu a
boca, como para um respirar convulsivo, claudicou um pouco para diante, um pouco
para trs, e por fim caiu em cheio, morto, sobre o tablado.
Teria na realidade o assobio, rpido como um gldio, frustrado a ao do
carrasco? Teria o Prncipe adivinhado toda a homicida eficcia de sua astcia? 
lcito p-lo em dvida. Ter ele lamentado o seu querido e inimitvel Fanciullo?
 doce e legtimo acredit-lo.
Os fidalgos delinqentes haviam gozado pela ltima vez o espetculo da comdia.
Na mesma noite foram riscados da vida.
Desde ento, vrios trues, justamente apreciados em diferentes pases, tm
vindo representar perante a corte de ***; nenhum deles, porm, chegou sequer a
lembrar os maravilhosos talentos de Fanciullo, nem conseguiram alcanar o mesmo
favor.

****


MMNON OU A SABEDORIA HUMANA
Voltaire
Um dia Mmnon concebeu o insensato projeto de ser perfeitamente sbio.
No existe ningum a quem alguma vez no tenha passado pela cabea esta loucura. Mmnon
disse consigo mesmo:
- Para ser muito sbio, e por conseguinte muito feliz, basta no ter paixes; e
nada  mais fcil, como se sabe. Antes de tudo, no amarei jamais mulher alguma,
pois,  vendo uma beleza perfeita, direi com os meus botes: - Essas faces um dia
se
cobriro de rugas; esses belos olhos ficaram avermelhados em redor; esse colo
redondo se tornar chato e pendente; essa bela cabea ficar calva.
- Ora, basta-me v-la agora com os mesmos olhos com que a verei ento, e
seguramente esta cabea no far a minha andar  roda. Em segundo lugar, serei
sbrio. No ter efeito sobre mim a tentao da boa mesa, dos vinhos deliciosos,
a
seduo da sociedade; bastar que eu me representa a conseqncia dos excessos -
 cabea pesada, estmago embrulhado, a perda da razo, da sade e do tempo - e
ento no comerei mais do que o necessrio; minha sade ser sempre igual,
minhas  idias sempre puras e luminosas. Tudo isso  to fcil que no h mrito
algum em  alcan-lo. Depois - dizia Mmnon -  preciso  refletir um pouco em
minha situao  pecuniria. Meus desejos so moderados; meus bens esto
solidamente confiados ao  recebedor-geral das finanas de Nnive; tenho com que
viver independente: eis a o maior dos bens. Nunca me verei na cruel necessidade
de cortejar: no invejarei ningum e ningum me invejar. Tambm  coisa fcil,
portanto. Tenho amigos, continuava ele -, hei de conserv-los, pois nada tero
que me disputar. No me aborrecerei jamais com eles, nem eles comigo; nenhuma
dificuldade nisso."
Havendo assim traado em seu quarto o pequeno plano de sabedoria, Mmnon ps a
cabea  janela. Viu, perto de casa, duas mulheres que passeavam sob os
pltanos. Uma era velha, e parecia no pensar em nada; a outra era jovem, linda,
e parecia muito preocupada. Suspirava, chorava, e isto s lhe fazia aumentar o
encanto. O nosso sbio sentiu-se comovido, no  pela beleza da dama (bem seguro
estava ele de no sentir uma tal fraqueza), mas pela aflio em que a via.
Desceu, achegou-se  jovem niniviana, na inteno de consol-la com sabedoria. A
bela criatura contou-lhe, com o ar mais ingnuo e comovente, todo o mal que lhe
fazia um tio que ela no tinha; com que astcias ele lhe arrancara um bem que
ela nunca possura; e tudo o que ela podia recear da violncia dele.
- Pareceis-me homem to prudente - disse-lhe ela - que, se tivsseis a
condescendncia de me acompanhar a minha casa, e examinar os meus negcios,
estou certa de que me tirareis do cruel embarao que me encontro.
Mmnon no hesitou em segui-la, para examinar sabiamente os seus negcios e
dar-lhe um bom conselho. A dama aflita o conduziu a um quarto perfumado e,
polidamente, f-lo sentar com ela num largo sof, onde se mantinham os dois de
pernas cruzadas um diante do outro. A  dama falou baixando os olhos, donde por
vezes saam lgrimas, e que, erguendo-se,
se encontravam sempre com os olhares do sbio Mmnon. Suas palavras eram cheiras
 de um enternecimento que dobrava de ponto todas as vezes que os dois se
fitavam.  Mmnon tomava extremamente a peito os negcios dela, e sentia de
momento a
momento o maior desejo de obsequiar pessoa to honesta e to desagradada. No
calor  da conversao, deixaram insensivelmente de estar um diante do outro.
Descruzaram-se-lhe as pernas. Mmnon aconselhou-a de to perto, fez-lhe
advertncias to ternas,  que j no podia nenhum dos dois falar de negcios,
nem sabiam mais onde se achavam.
Estavam assim quando chegou o tipo, como  fcil imaginar; vinha armado, da
cabea aos ps; e a primeira coisa que disse foi que ia matar, como de justia,
o sbio Mmnon e a sua sobrinha; a ltima que lhe escapou foi que podia perdoar
por muito
dinheiro. Mmnon viu-se obrigado a dar tudo o que tinha. Felizes tempos aqueles
em que se conseguia resgate por preo to mdico; a Amrica ainda no tinha sido
descoberta, e as damas aflitas estavam longe de ser perigosas como as de hoje.
Envergonhado e em desespero, Mmnon retornou a casa; l encontrou um bilhete que
o convidava a jantar com alguns de seus amigos ntimos. - Se eu ficar em casa
sozinho - pensou -, estarei com o esprito ocupado com a minha triste aventura,
no
comerei, cairei doente;  melhor ir fazer com os meus amigos ntimos minha
refeio frugal. Na doura de seu convvio esquecerei a tolice que pratiquei
esta manh.-Vai ter com os amigos; acham-no um pouco triste. Fazem-no beber
para dissipar a tristeza. Um pouco de vinho, tomado com moderao  remdio para
a alma e para o corpo. Assim pensa o sbio Mmnon; e embriaga-se. Propem-lhe
jogar, depois do repasto. Um jogo moderado com amigos  passatempo honesto.
Joga, ganham-lhe tudo o que tem na algibeira e quatro vezes mais sob palavra.
Trava-se uma disputa a propsito do jogo, acendem-se os nimos: um de seus
amigos ntimos atira-lhe  cabea um copo de dados e vaza-lhe um olho. Levam o
sbio Mmnon para casa, bbado, sem dinheiro, e com um olho a menos.
Ele curte um pouco a embriaguez; e apenas sente a cabea mais livre, manda seu
criado buscar dinheiro ao recebedor-geral das finanas de Nnive para pagar seus
amigos ntimos; dizem-lhe que o recebedor fez pela manh uma bancarrota
fraudulenta, que deixa alarmadas cem famlias. Furioso, Mmnon vai  corte com
um emplastro no olho e um requerimento na mo, para pedir justia ao rei contra
o bancarroteiro. Encontra num salo diversas damas, que traziam, todas, com um
ar desembaraado, arcos de vinte e quatro ps de circunferncia. Uma delas, que
o conhecia um pouco, disse, fitando-o de soslaio:
- Oh, que horror!
Outra, que o conhecia melhor, disse-lhe:
- Boa tarde, sr. Mmnon; mas falando com franqueza, sr. Mmnon, estou muito
contente de v-lo. A propsito, sr. Mmnon, como perdeu o olho?
E passou sem esperar resposta. Mmnon escondeu-se a um canto e esperou o momento
em que pudesse atirar-se aos ps do monarca. Esse momento chegou. Beijou trs
vezes o cho, e apresentou seu requerimento. Sua Graciosa Majestade
entregou-o a um dos seus strapas para que este o informasse a respeito do caso.
O strapa chamou  parte Mmnon, e disse-lhe com ar altivo, amargamente
escarninho:
- Eu acho graa, meu caolho, em te dirigires primeiro ao rei do que a mim, e
acho ainda mais graa em ousares pedir justia contra um honesto bancarroteiro
que eu honro com a minha proteo. Abandona essa causa, meu amigo, se queres
conservar o olho que te resta.Havendo assim, pela manh, renunciado s mulheres,
aos excessos de mesa, ao jogo,
a qualquer disputa, e sobretudo  corte, Mmnon tinha sido, durante a noite,
enganado e roubado por uma bela dama, embriagado-se, jogado, tido uma disputa,
perdido um olho e ainda zombado na corte.
Petrificado e ralado de dor, voltou com a morte na alma. Quer entrar em casa: l
encontra os meirinhos que lhe desmobiliavam a casa por parte dos credores.
Posta-se quase sem sentidos, sob um pltano; l encontra a bela mulher da manh,
que
passeava com seu caro tipo e que desatou a rir ao ver Mmnon com o emplastro.
Veio a noite; Mmnon deitou-se sobre umas palhas junto s paredes de sua
residncia. Salteou-o a febre; durante o acesso, adormeceu e um esprito celeste
apareceu-lhe em sonho.
Era todo resplandecente de luz. Tinha seis belas asas, mas no possua ps, nem
cabea, nem cauda, e no se assemelhava a coisa nenhuma.
- Quem s? - disse-lhe Mmnon.
- Teu bom gnio - respondeu-lhe o outro.
- Restitui-me ento o meu olho, a minha sade, os meus bens, a minha sabedoria,
- disse-lhe Mmnon.
A seguir contou-lhe como perdera tudo isso em um nico dia.
- Eis a aventuras que no nos acontecem nunca no mundo que habitamos - disse o
esprito.
- E que mundo habitas?- indagou o homem aflito.
- Minha ptria est situada a quinhentos milhes de lguas do Sol, numa pequena
estrela ao p de Srio, a qual tu avistas daqui.
- Belo pas - exclamou Mmnon - Qu! No tendes entre vs loureiras que enganam
um pobre homem, amigos ntimos que lhe ganham o dinheiro e lhe vazam um olho,
bancarroteiros, strapas que zombam de vs recusando-vos justia?
- No - disse o habitante da estrela -, nada disso. Jamais somos enganados pelas
mulheres porque no as temos; no nos entregamos a excessos de mesa, porque no
comemos; no temos bancarroteiros porque no h entre ns nem ouro nem
prata; no nos podem vazar os olhos, porque no temos corpos  maneira dos
vossos; e os strapas nunca nos fazem injustia, porque em nossa pequena estrela
todos so iguais.
Disse-lhe Mmnon, ento:
- Senhor, sem mulheres e sem jantares, em que empregais o vosso tempo?
- Em velar - respondeu o gnio - pelos outros globos que nos so confiados:
assim  que venho aqui te consolar.
- Ah! Prosseguiu Mmnon - por que no vieste a noite passada, para impedir-me de
praticar tantas loucuras?
- Eu estava ao lado de Assan, teu irmo mais velho -, respondeu o ser celeste.
Ele  mais digno de piedade do que tu. Sua Graciosa Majestade, o rei das ndias,
em cuja corte tem a honra de estar, fez-lhe vazar os dois olhos por causa de uma
pequena indiscrio, e atualmente ele se acha num calabouo, de mos e ps
algemados.
- Vale bem a pena - disse Mmnon - ter um bom gnio na famlia para que de dois
irmos um se torne caolho, o outro cego, um se veja deitado sobre palhas e o
outro prisioneiro.
- Tua sorte mudar - replicou o animal da estrela. - Verdade  que sers sempre
caolho; mas, ainda assim, sers muito feliz desde que no faas nunca o tolo
projeto de ser perfeitamente sbio.
- Ento isto  uma coisa impossvel de alcanar? - exclamou Mmnon suspirando.
- To impossvel - respondeu-lhe o gnio - quanto ser perfeitamente hbil,
perfeitamente forte, perfeitamente poderoso, perfeitamente feliz. Ns outros
mesmos estamos bem longe disso. H um globo onde tudo isto se encontra; mas
nos cem milhes de mundos que se acham dispersos no espao, tudo se segue
gradativamente. Tem-se menos sabedoria e prazer no segundo que no primeiro,
menos no terceiro que no segundo, e assim por diante at o ltimo, onde toda a
gente  completamente louca.
- Tenho muito receio - disse Mmnon - de que o nosso pequeno globo terrqueo
seja precisamente as casas de orates do Universo de que me dais a honra de
falar-me.
- Inteiramente no - disse o esprito -, mas aproxima-se disso:  necessrio que
tudo esteja em seu lugar.
- Mas ento - perguntou Mmnon - certos poetas, certos filsofos, esto muito
errados em dizer que tudo est bem?
- Eles tm toda a razo - disse de l de cima o filsofo, considerando a
organizao do Universo inteiro.
- Ah! No acreditarei nisso - retorquiu o pobre Mmnon - seno quando deixar de
ser zarolho.

****

        HORCIO SPARKINS
        Charles Dickens

        Com efeito, meu querido, ele deu muita ateno a Teresa no ltimo sarau
        &#8211; disse a Sra. Malderton dirigindo-se ao marido, o qual, aps as
        canseiras do dia na City, sentado com um leno de seda na cabea, os ps
        sobre o guarda-fogo, bebia seu vinho. &#8211; Muita ateno, realmente; e
        repito que se deve dar-lhe todo e qualquer estmulo. No h dvida que
        ele deve ser convidado para jantar aqui.
        Quem? &#8211; perguntou o sr. Madelton.
        Bem, voc sabe, meu querido, a quem estou me referindo: quele moo de
        suas pretas e gravata branca que h pouco veio ao nosso clube e de
        quem todas as moas falavam.  o jovem... meu Deus! como se chama
        mesmo?... Mariana, lembra-me o nome dele, - disse a Sra. Malderton
        voltando-se para a filha mais nova, que estava ocupada em fazer uma
        bolsa de tric e olhar sentimentalmente.
        Sr. Horcio Sparkins, mame &#8211; respondeu Mariana com um suspiro.
        Isso mesmo! Horcio Sparkins &#8211; disse a Sra. Malderton.
        Decididamente  o jovem mais elegante que j vi na minha vida. No casaco
        to elegante que ele usava a noite passada, parecia-se com... com...
        Com o prncipe Leopoldo, mame... to nobre, to cheio de sentimento! &#8211;
        sugeriu Mariana, entusiasmada.
        Voc no deve esquecer, meu querido &#8211; resumiu a Sra. Malderton -, que
        Teresa tem agora 28 anos.  da maior importncia que se faa alguma
        coisa.
        A Srta. Teresa Malderton era uma jovem muito pequena, gorducha, de faces
        avermelhadas, mas de bom humor e ainda sem compromisso, embora &#8211; para
        fazer-lhe justia &#8211; tal desgraa no decorresse absolutamente de sua
        falta de perseverana. Em vo tinha namorado durante 10 anos. Em vo o
        Sr. e a Sra. Malderton mantinham assiduamente relaes com grande nmero
        de rapazes solteiros e elegveis de Camberwell, e at de Wandsworth e
        Brixon, sem falar daqueles que ocasionalmente "caam" na cidade. A Sra.
        Malderton estava to conhecida como o leo do topo de Northumberland
        House e tinha a mesma probabilidade de "sair".
        Estou certa de que voc gostar dele &#8211; continuou a Sra. Malderton. &#8211; Ele
         to galante!
        E to hbil &#8211; acrescentou Mariana.
        E to eloqente &#8211; observou Teresa.
        Tem muito respeito a voc, meu querido &#8211; disse a Sra. Malderton ao
        esposo.
        Ele tossiu e olhou para o fogo.
        Sim, estou certo de que ele tem o maior interesse em conhecer papai &#8211;
        declarou Mariana.
        Sem a menor dvida &#8211; ecoou Teresa.
         verdade, ele me disse confidencialmente &#8211; voltou a Sra. Malderton.
        Est bem &#8211; replicou o Sr. Malderton, algo lisonjeado. &#8211; Se o encontrar
        amanh no clube, talvez o convide. Naturalmente ele sabe que moramos em
        Oak Lodge, no, minha querida?
        Naturalmente. Sabe tambm que voc tem uma carruagem de um cavalo.
        Vou ver isso &#8211; disse o sr. Malderton, dispondo-se a uma soneca.
        O sr. Malderton era um homem cujo campo de idias estava limitado ao
        Lloyd&#8217;s,  Bolsa,  Indian Houve e ao Banco. Algumas especulaes bem
        sucedidas o levaram de uma situao de obscuridade e relativa pobreza a
        um estado de abastana. Como tantas vezes acontece em tais casos, suas
        idias e as da sua famlia foram-se exaltando em extremo, ao passo que
        lhe crescia a fortuna; todos afetavam elegncia, bom-gosto, e outras
        tolices, imitando seus superiores, e tinham um horror muito decidido e
        caracterstico a tudo quanto pudesse eventualmente ser considerado
        baixo. Era hospitaleiro por ostentao, liberal por ignorncia, e cheio
        de preconceitos por presuno. O egosmo e o amor  exibio faziam-no
        manter mesa excelente; a convenincia e o amor s coisas boas da vida
        asseguravam-lhe grande nmero de convivas. Gostava de ter  mesa homens
        hbeis ou que considerava tais, pois eram grande tema para conversao,
        mas nunca pde suportar aqueles a quem chamava "camaradas espertos".
        Provavelmente conseguiu comunicar este sentimento a seus dois filhos,
        que nesse ponto no causavam nenhuma inquietao ao responsvel
        progenitor. A famlia tinha a ambio de travar conhecimentos e relaes
        em qualquer esfera social superior  sua, e uma das conseqncias de tal
        desejo, facilitada pela extrema ignorncia em que estavam de tudo quanto
        ficava alm de seu estreito crculo, era que toda pessoa pretendia
        conhecer gente da alta sociedade tinha seguro passaporte para a mesa de
        Oak Lodge.
        O aparecimento do sr. Horcio Sparkins no clube provocou, entre os
        freqentadores assduos, extraordinria surpresa e curiosidade. Quem
        podia ser? Ele era evidentemente reservado e visivelmente melanclico.
        Um eclesistico? Mas danava bem demais. Um advogado? Mas dizia que
        ainda no fora chamado a praticar. Empregava palavras muito finas e era
        grande conversador. Seria algum estrangeiro distinto vindo  Inglaterra
        que freqentava jantares e bailes pblicos a fim de conhecer a
        alta-roda, a etiqueta, o requinte ingls? Mas no tinha sotaque. Era um
        cirurgio, um colaborador de revistas, um autor de romances, um artista?
        No: a cada uma dessas suposies, como ao conjunto delas, havia alguma
        objeo vlida. "De qualquer maneira &#8211; concordavam todos -, ele deve ser
        algum.: - "Deve ser, com certeza &#8211; dizia com seus botes o sr.
        Malderton -, uma vez que percebe a nossa superioridade e nos d tamanha
        ateno."
        A noite seguinte a conversa que acabamos de relatar era noite de
        reunio. A carruagem recebeu ordem de estar  porta de Oak Lodge s nove
        horas em ponto. As srtas Malderton estavam vestidas de azul-celeste
        ornado de flores artificiais, e a Sra. Malderton (que era baixa e
        gorda), idem, idem, parecendo sua filha mais velha multiplicada por
        dois. O sr. Frederico Malderton, o filho mais velho, em traje de rigor,
        representava o beau idal de um garom elegante, e o sr. Tomas
        Malderton, o mais jovem, de gravata branca de gala, palet azul, botes
        brilhantes e fita de relgio vermelha, de perto se parecia com Jorge
        Barnewll. Todos do grupo estavam interessados em cultivar a amizade do
        sr. Horcio Sparkins. A Srta. Teresa preparava-se para mostrar amvel e
        interessante como em geral o so as moas de 28 anos  procura de um
        marido. A Sra. Malderton ia ser toda sorrisos e graas. A Srta. Mariana
        lhe pediria o favor de escrever alguns versos em seu lbum. O sr.
        Malderton tomaria sob sua proteo, o grande desconhecido, convidando-o
        a jantar em sua casa. Tom dispunha-se a averiguar a extenso de seus
        conhecimentos em matria de rap e charutos. O prprio Sr. Frederico
        Malderton, a autoridade da famlia em tudo o que dizia respeito 
        elegncia do traje e das maneiras, e ao bom gosto; que possua seu
        apartamento prprio na cidade; que tinha ingresso livre no teatro Covent
        Garden; que se vestia sempre com formalidade com a moda do ms; que ia
        s guas duas vezes por semana, durante a estao; que tinha um amigo
        ntimo que outrora conhecera um cavalheiro que tinha vivido no Albany &#8211;
        ele mesmo declarou que o sr. Horcio devia ser um sujeito famoso e que
        lhe daria a honra de desafi-lo para uma partida de bilhar.
        O primeiro objeto que feriu os olhos ansiosos da expedita famlia, ao
        entrarem no salo, foi o interessante Horcio, com os cabelos atirados
        sobre a fronte e os olhos fixos no cho, recostado numa das cadeiras em
        atitude contemplativa.
        Ei-lo, meu querido, - cochichou ao marido a Sra. Malderton.
        Como se parece com Lord Byron &#8211; murmurou Teresa.
        Ou com Montgomery &#8211; segredou a Srta. Mariana.
        Ou com os retratos do capito Cook! &#8211; sugeriu Tom.
        Tom, no seja burro! &#8211; disse o pai, que o morigerava a cada passo,
        provavelmente com o intuito de o impedir de se tornar "esperto", coisa
        totalmente desnecessria.
        O elegante Sparkins continuava em sua atitude afetada, de admirvel
        efeito, at que a famlia cruzou a sala. Ento se levantou precpite,
        com o ar mais natural de surpresa e enlevo, aproximou-se da Sra.
        Malderton com a maior cordialidade, cumprimentou as moas de modo
        encantador, inclinou-se perante o sr. Malderton, cuja mo apertou com
        respeito que raiava a venerao, e retribuiu a saudao dos dois rapazes
        com um jeito meio agradecido, meio protetor, que acabou convencendo-os
        que ele devia ser uma personagem importante mas condescendente ao mesmo
        tempo.
        Srta. Malderton &#8211; disse Horcio aps os cumprimentos de praxe e
        inclinando-se profundamente &#8211; -me lcito conceber a esperana de que me
        permitir ter o prazer de...
        No sei se j estou comprometida &#8211; disse a Srta. Teresa com terrvel
        afetao de indiferena -, mas realmente... assim... to...
        Horcio ostentou uma expresso primorosamente lastimvel.
        Terei muito prazer &#8211; externou por fim a interessante Teresa. O rosto de
        Horcio brilhou de repente como um velho chapu sob a chuva.
         realmente um moo muito distinto &#8211; declarou o sr. Malderton, quando o
        obsequioso Sparkins e seu par se dirigiram para a quadrilha que se
        formava.
        Ele tem, de fato, boas maneiras &#8211; observou o sr. Frederico.
        Sim,  um rapaz notvel &#8211; interveio Tom, que no deixava passar
        oportunidade de meter os ps pelas mos. &#8211; ele fala que s um leiloeiro.
        Tom, disse o pai com solenidade, suponho j lhe ter pedido que no seja
        tolo.
        Tom ficou to contente como um galo em manh escura.
        Como  delicioso &#8211; dizia  sua dama o interessante Horcio &#8211; enquanto
        passeavam pela sala depois da contradana -, como  delicioso,
        repousante, abrigar-nos das tempestades nebulosas das vicissitudes, dos
        dissabores da vida, embora apenas por alguns instantes fugazes, e passar
        esses instantes por mais efmeros e rpidos que sejam, no delicioso, no
        abenoado convvio de um ser &#8211; cujo franzir de sobrancelhas seria a
        morte, cuja frieza seria a loucura, cuja falsidade seria a runa, cuja
        constncia seria a ventura, e cuja afeio seria a recompensa mais
        brilhante e elevada que os Cus pudessem outorgar a um homem!
        Quanto ardor! Quanto sentimento!"- pensava a Srta. Teresa, apoiando-se
        com fora no brao de seu cavalheiro.
        Mas basta, basta! &#8211; resumiu o elegante Sparkins com ar teatral. &#8211; Que
        foi que eu disse? Que tenho eu... que ver... com sentimentos como este?
        Srta. Malderton &#8211; aqui ele parou de repente -, posso esperar o
        consentimento para oferecer-lhe o humilde tributo de...
        Na verdade, Sr. Sparkins &#8211; retrucou a enlevada Teresa, corando na mais
        deliciosa confuso &#8211; tem que falar com papai. Eu nunca poderia sem o
        consentimento dele atrever-me a ...
        Decerto ele no far objeo alguma...
        Ora, o Sr no o conhece ainda! &#8211; interrompeu-o a Srta. Teresa, bem
        sabendo que no havia nada a temer, mas desejosa de transformar a cena
        em um romance romntico.
        Ele no poder fazer objeo alguma a que eu lhe oferea um copo de
        sangria &#8211; volveu o adorvel Sparkins com certa surpresa.
        "Era apenas isso? &#8211; pensou Teresa desiludida &#8211; Quanto barulho por nada!"
        Terei o maior prazer, senhor, em v-lo a jantar em Oak Lodge,
        Camberwell, domingo prximo, s cinco horas, se no tiver compromisso
        melhor, - disse o sr. Malderton no fim da reunio, quando ele e os
        filhos conversavam com o sr. Horcio Sparkins.
        Este curvou-se agradecendo e aceitando o convite.
        Devo-lhe confessar &#8211; continuou o pai, oferecendo rap ao novo conhecido
        &#8211; que gosto muito menos destas reunies que do conforto, ia quase a
        dizer do luxo, de Oak Lodge. Elas no tm grandes encantos para um homem
        de certa idade.
        Alis, senhor, que  afinal o homem? &#8211; perguntou o metafsico Sparkins.
        &#8211; que  o homem? Digo eu.
        Ah, isso mesmo &#8211; disse o sr. Malderton -, isso mesmo.
        Sabemos que vivemos e respiramos &#8211; continuou Horcio &#8211; que temos
        aspiraes e desejos, anelos e apetites...
        Sem dvida &#8211; replicou o sr. Frederico Malderton com ar profundo.
        Sabemos que existimos, digo eu &#8211; repetiu Horcio, levantando a voz -,
        mas a nos detemos; ai est o fim do nosso conhecimento, o limite do
        nosso alcance, o termo de nossos fitos. Que mais sabemos?
        Nada &#8211; respondeu o sr. Frederico.
        E realmente ningum tinha mais direito que ele de fazer to afirmativa.
        Tom ia arriscar um reparo, mas, a bem de sua reputao, percebeu o olhar
        zangado do pai e escapuliu-se como um co apanhado em flagrante de
furto.
        Palavra de honra &#8211; disse o sr. Malderton pai quando a famlia voltava
        para casa na carruagem -, este sr. Sparkins  admirvel. Quantos
        conhecimentos! Que amplido de informaes! Que maneira esplndida de se
        exprimir!
        Para mim ele deve ser algum disfarado &#8211; declarou a Srta. Mariana. &#8211;
        Que encantadoramente romntico!
        Tom arriscou:
        Ele fala forte e muito bem. Apenas no entendo exatamente o que ele quer
        dizer.
        Quase comeo a desesperar de voc entender qualquer coisa, Tom -, disse
        o pai, o qual, naturalmente, ficara edificadssimo com a palestra do sr.
        Horcio Sparkins.
        Tenho a impresso, Tom &#8211; disse a Srta. Teresa -, de que voc foi
        bastante ridculo esta noite.
        Sem a menor dvida! - gritaram todos.
        E o pobre Tom procurou reduzir-se ao menor volume possvel. Naquela
        noite o sr. e a Sra. Malderton conversaram longamente sobre as
        perspectivas e o futuro de sua filha. A Srta. Teresa foi deitar-se
        perguntando a si mesma se, caso desposasse um aristocrata, devia
        incentivar as visitas de suas conhecidas atuais, e sonhou a noite
        inteira com gentis-homens disfarados, grandes recepes, plumas de
        avestruz, presentes nupciais e Horcio Sparkins.
        Na manh do domingo se aventaram diversas conjecturas acerca da conduo
        que o ansiosamente esperado Horcio iria adotar. Ia tomar um cabriol?
        Montaria a cavalo? Preferiria a diligncia? Tais e outras mais hipteses
        de igual importncia absorveram a ateno da Sra. Malderton e de suas
        filhas durante toda a manh, depois do ofcio divino.
        A palavra de honra, minha querida, aborrece-me que o simplrio do seu
        irmo tenha convidado a si mesmo para jantar aqui hoje &#8211; disse o sr.
        Malderton  mulher. &#8211; Por causa da visita do sr. Sparkins eu me abstive,
        de propsito, de convidar fosse quem fosse, alm de Flamwell. E agora
        pensar que seu irmo... um lojista... no,  insuportvel. No gostaria
        que fizesse qualquer referncia  loja diante do nosso convidado... no,
        nem por mil libras! Preferiria que tivesse o bom senso de esconder a
        desgraa que ele representa para a famlia, porm ele gosta tanto do seu
        horrvel negcio que no deixar de falar a respeito.
        O sr. Jos Barton, a pessoa em apreo, era dono de um grande armazm,
        homem vulgar e to despido de sensibilidade que no tinha o menor
        escrpulo em confessar que no estava acima do seu negcio; juntara seu
        dinheiro graas a ele, e no fazia questo de encobri-lo.
        Ah, Flamwell, meu caro amigo, como vai? &#8211; perguntou o sr. Malderton ao
        ver um homenzinho azafamado, de culos verdes, entrar na sala. &#8211; Recebeu
        o meu bilhete?
        Recebi sim, e estou aqui s suas ordens.
        No conhecer de nome, por acaso, esse Sr. Sparkins? Voc conhece todo o
        mundo.
        Era o r. Flamwell um desses cavalheiros de relaes extremamente vastas
        que a gente encontra de quando em quando na sociedade, os quais
        pretendem conhecer a todos mas na verdade no conhecem ningum. Em casa
        dos Maldertons, onde qualquer histria sobre gente distinta era acolhida
        com ouvidos gulosos, estimavam-no especialmente. Vendo com que espcie
        de pessoas tratava, levou ao extremo a paixo de exibir as suas
        relaes. Tinha um modo peculiar de contar as suas maiores mentiras num
        parntese, com ar de quem se desmente a si mesmo, como se estivesse
        receando parecer egosta.
        Bem, no o conheo por esse nome -, replicou em voz baixa e com um jeito
        de imensa importncia. &#8211; No entanto, devo conhec-lo, sem a menor
        dvida.  alto?
         de estatura mediana &#8211; disse a Srta. Teresa.
        Cabelos pretos? &#8211; perguntou Flamwell, arriscando uma suposio arrojada.
        Sim &#8211; respondeu a Srta. Teresa ansiosamente.
        De nariz bastante arrebitado?
        No &#8211; replicou Teresa com desaponto. &#8211; tem um nariz romano.
        Pois no foi o que eu disse, um nariz romano? &#8211; disse Flamwell. &#8211; No 
        um moo elegante?
        .
        De maneira excessivamente simpticas?
        Sim &#8211; exclamou a famlia toda. &#8211; Naturalmente voc o conhece.
        Foi o que pensei: naturalmente voc o conhece, se ele  "algum", -
        triunfou o Sr. Malderton. &#8211; Quem pode ser ele?
        Bem, pela descrio de vocs &#8211; disse Flamwell ruminando e baixando a voz
        at o cochicho -, ele se parece de modo estranho com o nobre Augustus
        Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne.  um rapaz de muito talento e
        bastante excntrico.  muitssimo provvel que tenha mudado de nome por
        algum motivo especial.
        O corao de Teresa batia forte. Seria mesmo o nobre Augustus
        Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne? Que nome para ser gravado
        elegantemente em dois cartes acetinados, atados com uma fita de cetim
        branco! A nobre senhora Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne! S
        o pensar nisso dava um xtase!
        Faltam cinco para as cinco &#8211; disse o Sr. Malderton consultando o
        relgio. &#8211; Espero que ele no nos desiluda.
        Ei-lo! &#8211; exclamou a Srta. Teresa ao ouvir duas fortes pancadas  porta.
        Todos procuraram assumir o ar de quem nem suspeitava a chegada de quem
        quer que fosse, como costumam fazer as pessoas que esperam ansiosas uma
        visita.
        A porta da sala abriu-se.
        O Sr. Barton &#8211; anunciou a criada.
        Raios o partam! &#8211; murmurou Malderton &#8211; Ah, meu querido, como vai voc?
        Que h de novo?
        De novo mesmo &#8211; retrucou o comerciante na sua habitual maneira rude &#8211;
        no h nada. Nada que eu saiba. Como vamos, meninas e rapazes? Sr.
        Flamwell, prazer em v-lo!
        Eis o Sr. Sparkins &#8211; disse Tom, que estava olhando pela janela -, num
        formidvel cavalo preto!
        La vinha Horcio, bem seguro, montando um grande cavalo preto que
        curveteava e cabriolava como um surpanumerrio de bufar, de empinar-se,
        de escoicear, o animal consentiu parar a umas cem jardas da porta. O sr.
        Sparkins apeou-se e o confiou aos cuidados do cavalario do sr.
        Malderton. A cerimnia de introduo realizou-se com as devidas
        formalidade. O sr. Flamwell fitou Horcio por trs de seus culos verdes
        com ar misterioso e importante ao mesmo tempo, e o galante Horcio olhou
        para Teresa com uma expresso indizvel.
         o nobre Sr. Augustus como-se-chama-mesmo? &#8211; perguntou baixinho o sr.
        Malderton a Flamwell, que o escoltava para a sala de jantar.
        Bem, no  ele... pelo menos no precisamente &#8211; volveu a grande
        autoridade -, no precisamente.
        Quem , ento?
        Psiu! &#8211; disse Flamwell abanando a cabea com gravidade como para mostrar
        que o sabia bem, mas se achava impedido por alguma grave razo de
        revelar o notvel segredo.
        Podia ser um ministro que procurava inteirar-se das opinies do povo.
        Sr. Sparkins &#8211; disse a encantadora Sra. Malderton -, queira dividir as
        senhoras. Joo, ponha uma cadeira para o cavalheiro entre as senhoritas.
        Estas palavras foram dirigidas a um homem que, em condies normais,
        acumulava as funes de criado e jardineiro mas, como era necessrio
        impressionar o sr. Sparkins, fora forado a calar sapatos e pr um
        leno branco no pescoo, e havia sido retocado e escovado at
        assemelhar-se a um segundo lacaio.
        O jantar era excelente. Horcio dava a maior ateno  Srta. Teresa e
        todos estavam de bom humor, exceto o sr. Malderton, o qual, conhecendo
        as propensoes de seu cunhado, sofreu a espcie de agonia que, segundo as
        informaes dos jornais, experimenta a vizinhana quando um servente de
        taverna se enforca num depsito de feno, agonia "mais fcil de ser
        imaginada que descrita".
        Flamwell, tem visto ultimamente o seu amigo sir Thomas Noland? &#8211;
        perguntou o Sr. Malderton, lanando a Horcio um olhar oblquo para ver
        o efeito que sobre ele exercia o nome de tamanho homem.
        Bem, no muito... quer dizer, no ultimamente. Mas vi Lorde Gubbleton h
        trs dias.
        Ah espero que S. Excia esteja passando bem &#8211; disse Malderton num tom de
        profundo interesse.
        Desnecessrio declarar que, at aquele momento, ignorava de todo a
        existncia da personalidade em apreo.
        O bem, estava passando bem... muito bem at.  um timo camarada.
        Encontrei-o na City, e tivemos uma longa prosa. Damo-nos muito. Mas no
        pude conversar com ele todo o tempo que queria, porque ele ia  casa de
        um banqueiro, um homem rico e membro do Parlamento, com o qual tambm me
        dou bastante... poderia at dizer &#8211; intimamente.
        Sei a quem voc est se referindo &#8211; retrucou o hospedeiro, que o sabia
        to pouco, na realidade, quanto o prprio Flamwell. &#8211; Ele tem um negcio
        formidvel.
        Era tocar em assunto perigoso.
        Por falar em negcios &#8211; interveio o sr. Barton, do centro da mesa &#8211; um
        cavalheiro que voc conhecia muito bem, Malderton, antes de voc ter
        dado aquele primeiro golpe feliz, passou outro dia na nossa loja e...
        Barton, permite-me que lhe pea uma batata? &#8211; interrompeu o infeliz dono
        da casa, na esperana de cortar a histria pela raiz.
        Pois no! &#8211; respondeu o comerciante, insensvel de todo ao objetivo de
        seu cunhado &#8211; E ele me disse sem rodeios...
        Mais farinhenta, por favor, - interrompeu Malderton outra vez, temendo o
        fim da anedota e a repetio da palavra loja.
        Ele me disse assim &#8211; continuou o culpado depois de passar a batata: -
        "Como vo os negcios?" Entoa eu lhe disse brincando &#8211; voc conhece a
        minha maneira -, sim, eu lhe disse: "Eu nunca estou acima dos meus
        negcios, e espero que eles tambm nunca estejam acima de mim" Ah! Ah!
        Sr. Sparkins &#8211; disse o dono da casa, debalde procurando disfarar a sua
        consternao - , um copo de vinho?
        Com o maior prazer, meu senhor.
        O prazer  todo meu.
        Obrigado.
        Uma dessas noites &#8211; resumiu o hospedeiro dirigindo-se a Horcio, em
        parte com a inteno de ostentar os dotes de conversador de seu novo
        conhecido, em parte com a esperana de abafar as histrias do cunhado -,
        uma destas noites conversamos sobre a natureza do homem. Sua
        argumentao me impressionou muito fortemente.
        E a mim tambm &#8211; disse o sr. Frederico.
        Horcio inclinou a cabea graciosamente.
        Por favor, sr. Sparkins, qual a sua opinio a respeito da mulher? &#8211;
        indagou a Sra. Malderton.
        As moas sorriam tolamente.
        O homem &#8211; respondeu Horcio -, o homem, quer quando erra nos campos
        luminosos, alegres e floridos de um segundo den, quer quando percorre
        as regies estreis, ridas e, por assim dizer, vulgares a que somos
        forados a nos habituar em tempos como estes; o homem, em qualquer
        circunstncia ou em qualquer lugar, vergado sob as mortferas rajadas da
        zona frgida ou comburido pelos raios de um sol vertical -, o homem sem
        a mulher, estaria sozinho.
        Estou muito contente de verificar que o senhor tem opinies to
        respeitveis &#8211; declarou a Sra. Malderton.
        Eu tambm &#8211; acrescentou a Srta. Teresa.
        Horcio fitou-a com olhar encantado, e a jovem corou.
        Pois bem, na minha opinio... &#8211; disse o sr. Barton.
        Eu sei o que  que voc quer dizer &#8211; interveio Malderton, determinado a
        no dar oportunidade a seu parente -, e discordo de voc.
        Como? &#8211; perguntou o comerciante, espantado.
        Sinto no estar de acordo com voc, Barton &#8211; lanou o hospedeiro de modo
        to positivo como quem deveras contradiz uma assero feita por seu
        interlocutor -, mas no posso aprovar o que eu considero uma afirmao
        monstruosa.
        Mas eu queria dizer...
        Voc nunca poder me convencer &#8211; afirmou o sr. Malderton com obstinada
        determinao &#8211; Nunca.
        Pois eu &#8211; disse o sr. Frederico, a auxiliar o ataque de seu pai &#8211; no
        posso subscrever integralmente a argumentao do sr. Sparkins.
        Como! &#8211; exclamou Horcio, que se tornara mais metafsico e argumentador
        ao ver a parte feminina da famlia ouvi-lo com enlevada ateno. &#8211; Como!
         o efeito conseqncia da causa?  a causa precursora do efeito?
        A est &#8211; disse Flamwell.
        Sem dvida &#8211; concordou o sr. Malderton.Porque se o efeito  a
        conseqncia da causa e se a causa precede o efeito, parece que o senhor
        se engana &#8211; prosseguiu Horcio.
        Sem sombra de dvida &#8211; acudiu o sicofanta Flamwell.
        Pelo menos esta deducao me parece lgica e justa.
        Sem dvida alguma &#8211; repercutiu Flamwell &#8211; Com isso a questo est
        liquidada.Talvez esteja &#8211; disse o sr. Frederico. &#8211; No o percebi logo.Eu
        nem agora o percebo &#8211; opinou o comerciante -, mas suponho que tudo
        esteja certo.Que inteligncia maravilhosa! &#8211; segredou a Sra. Malderton
        s filhas quando se retiraram para o salo. um amor! &#8211; disseram juntas
        as duas moas. &#8211; fala como um orculo. Ele deve ter visto coisas.
        Ficando a ss os cavalheiros, produziu-se uma pausa, durante a qual
        todos olharam com suma gravidade, como se exaustos com a profundidade da
        discusso. Flamwell, que resolvera elucidar quem era e o que era o sr.
        Horcio Sparkins, foi o primeiro a quebrar o silncio.
        Desculpe-me, senhor &#8211; disse aquela distinta personalidade -, suponho que
        estudou para advogado, no? Eu mesmo j tive o desejo de adotar essa
        profisso... pois estou em relaes bastante ntimas com algumas das
        glrias do nosso foro.
        N... no... &#8211; respondeu Horcio depois de hesitar um pouco. &#8211;
        Precisamente, no.
        Mas, ou muito me engano, ou o senhor tem tido contato com as becas de
        seda, - disse Flamwell com deferncia.
        Quase toda a minha vida &#8211; replicou Sparkins.
        Assim, a questo estava resolvida no esprito do sr. Flamwell.
        Tratava-se de um moo que entraria a advogar dentro em pouco.
        Eu no gostaria de ser advogado &#8211; disse Tom, falando pela primeira vez e
        olhando para todos a ver se algum lhe prestava ateno.
        Ningum respondeu.
        No gostaria de usar cabeleira postia &#8211; insistiu o rapaz.
        Tom, peo que no se torne ridculo, - observou-lhe o pai. &#8211; Peo-lhe
        que preste ateno ao que est ouvindo, para aproveit-lo, sem fazer a
        cada momento essas declaraes absurdas.
        Est certo, papai, - respondeu o infeliz Tom, que no pronunciara nem
        uma palavra sequer depois que pedira outro bife, s cinco e um quarto;
        agora j eram oito.
        Bem, Tom &#8211; disse o tio bondoso -, no se aflija. Eu estou de acordo com
        voc. No gostaria de usar cabeleira postia; prefiro um avental.
        O sr. Malderton tossiu com violncia. O sr. Barton quis concluir:
        Pois se um homem est acima dos seus negcios...
        A tosse voltou com decuplicada violncia, e no cessou antes que o seu
        infeliz motivo, de to alarmado, houvesse de todo esquecido o que
        pretendia dizer.
        Sr. Sparkins &#8211; interrogou Flamwell, voltando a carga -, conheceu por
        acaso o Sr. Delafontaine, de Bedford Square?Trocamos os nossos cartes,
        e desde ento j tive a oportunidade de servi-lo bastante, - replicou
        Horcio, corando um pouco, sem dvida por haver sido forado a fazer
        essa confisso.O senhor pode considerar-se feliz por haver tido ocasio
        de ser til a esse grande homem &#8211; observou Flamwell com profundo
        respeito.
        Depois, murmurou confidencialmente ao sr. Malderton, quando acompanhavam
        Horcio ao salo:
        No sei quem . Mas  certo que ele pertence  justia e que  algum de
        grande importncia, com relaes das mais altas.
        No h dvida.
        O resto da noite decorreu de modo mais agradvel. Aliviado de suas
        apreenses por haver o sr. Barton cado em sono profundo, o sr.
        Malderton ficou to amvel e gentil quanto possvel.
        A Srta. Teresa tocou A queda de Paris de maneira magistral, conforme
        declarou o sr. Sparkins, e ambos, assistidos pelo sr. Frederico,
        ensaiaram um sem nmero de canes e trios do comeo ao fim, chegando 
        agradvel evidncia de que suas vozes se harmonizavam  perfeio. Por
        via das dvidas, cantaram todos a primeira parte. Horcio, alm da leve
        desvantagem de no ter ouvido, estava na mais perfeita ignorncia de
        qualquer nota musical. Contudo, passaram o tempo deliciosamente. Era
        mais de meia-noite quando o sr. Sparkins pediu que lhe trouxessem o seu
        corcel com ar de cavalo de coche fnebre, pedido esse que s foi
        satisfeito com a condio expressa de que ele repetiria a visita no
        domingo seguinte.
        Quem sabe se o Sr. Sparkins no deseja fazer parte do nosso grupo amanh
        de noite? &#8211; sugeriu a Sra. Malderton &#8211; O sr. Malderton quer levar as
        meninas a verem o pantomimo.
        O sr. Sparkins inclinou-se e prometeu ir ter com elas no decorrer da
        noite, no camarote n. 48.
        No o requisitamos para a parte da manh &#8211; disse a Srta. Teresa num tom
        fascinante &#8211; porque mame nos leva a uma poro de lojas a fazer
        comprar. Sei que os cavalheiros tm horror a essa espcie de passatempo.
        O sr. Sparkins inclinou-se outra vez e declarou que ficaria encantado,
        mas negcios de grande monta ocupavam-no durante a manh. Flamwell olhou
        significativamente para o sr. Malderton.
         dia de vencimento &#8211; sussurrou.
        No dia seguinte a carruagem encontrava-se s 12 h  porta de Oak Lodge a
        fim de levar a Sra. Malderton e as filhas para a sua expedio. Deviam
        elas jantar e vestir-se para o espetculo na casa de um amigo. Primeiro,
        carregadas de caixas de chapus, tinham de fazer uma excurso  loja dos
        Srs. Jones, Spruggins and Smith, em Tottenham Court Road; depois, outra,
         Casa Redmayne, em Bond Street; depois outras, a inumerveis lugares de
        que nunca ningum tinha ouvido falar. As meninas procuravam diminuir o
        tdio da viagem elogiando o sr. Horcio Sparkins, censurando a prpria
        me por conduzi-las to longe s para economizar um xelim, e perguntando
        se jamais chegariam a seu destino. Por fim o veculo parou em frente 
        loja de um fanqueiro, de aspecto sujo, com toda espcie de mercadoria e
        letreiros de todos os tamanhos na vitrina. Havia ali enormes setes com
        minsculos "3 farthings ao lado, perfeitamente invisveis a olho nu;
        cinqenta mil e trezentos bos de senhoras, desde um xelim at um pni e
        meio; sapatos franceses de legtima pele de cabrito, dois xelins e nove
        pence o par; sombrinhas verdes, a preo no menos mdico; e "toda
        espcie de mercadorias cinqenta por cento abaixo do custo", como diziam
        os donos, que o deviam saber melhor do que ningum.
        Por Deus, mame, a que lugar a senhora nos trouxe! &#8211; exclamou a Srta.
        Teresa. &#8211; Que diria o sr. Sparkins se nos visse?Com efeito, que diria! &#8211;
        concordou a Srta. Mariana, horrorizada com a idia.Sentem-se, minhas
        senhoras. Qual  o primeiro artigo? &#8211; perguntou o obsequioso mestre de
        cerimnias do estabelecimento, o qual, com seu grande leno branco no
        pescoo e sua gravata solene, parecia um mau "retrato de um cavalheiro"
        numa exposio de Somerset House.Gostaria de ver sedas &#8211; respondeu a
        Sra. Malderton.Pois no, minha senhora! Sr. Smith! Onde est o Sr.
        Smith?Estou aqui, senhor! &#8211; gritou uma voz do fundo da loja.Tenha a
        bondade de apressar-se, Sr. Smith, - disse o mestre-de-cerimnias. &#8211; O
        senhor nunca est onde a sua presena  necessria.
        Convidado assim a desenvolver a maior rapidez possvel, o Sr. Smith
        pulou o balco com grande agilidade e plantou-se diante das freguesas. A
        Sra. Malderton deu um grito abafado. A Srta. Teresa, que se tinha
        curvado para falar  irm, levou a cabea e viu &#8211; Horcio Sparkins!
        "Encobriremos com um vu", como dizem os romancistas, a cena
        subsequente. O misterioso, filosfico, romntico e metafsico Sparkins &#8211;
        aquele que, aos olhos da interessante Teresa, parecia encarnar o ideal
        dos jovens duques e dos tafuis poticos que vestiam chambre de seda azul
        e chinelos idem idem, os quais ela conhecia dos livros e com os quais
        sonhava, mas que nunca esperava ver -, transformara-se de repente no Sr.
        Samuel Smith, auxiliar de uma loja barata, o caixeiro mais moo de uma
        firma incerta, de 3 semanas de existncia. O desaparecimento honroso do
        heri de Oak Lodge, em seguida a esse reconhecimento inesperado, no
        pde seno ser comparado ao furtivo esgueirar-se de um cachorro com uma
        enorme chaleira presa ao rabo. Todas as esperanas dos Maldertons se
        derreteram de vez, como sorvetes de limo num banquete; Almacks era para
        eles mais distantes que o Plo Norte.



***

Congresso Pan-Planetrio
Lima Barreto
Tal forma se haviam multiplicado dos congressos, que foi preciso ser original.
Dentro de cada um dos oito planetas, desde o mais bronco, que parece ser Vnus,
at o mais inteligente, que deve ser Netuno, no era possvel reunir um que no
fosse a milsima repartio dos outros anteriores. Congressos nunca foram coisas
de primeira necessidade; mas a necessidade do espetculo tem em todos ns fortes
exigncias como desvios convenientes.
Demais, Jpiter estava em tal estado de adiantamento que precisava mostrar-se ao
sistema todo. Produzia por ano 200.000$000 toneladas de aperfeioadas farpas de
bambus (especfico contra as dores de dentes); e os seus filsofos e escritores,
graas s modernas mquinas eltricas de escrever, abarrotavam os armazns das
estradas de ferro com bilhes de toneladas de papel impresso. Houve um que,
narrando todas as conversas e atos do ano, dia por dia, hora por hora, minuto
por minuto, segundo por segundo, escreveu uma obra de 68.922 volumes, com
20.677.711 pginas das quais 3.000.000 alvas e limpas - as melhores! -
significavam as horas de seu sono sem sonhos.
O autor no omitiu nelas nem as ordens aos criados, nem tampouco as frases
vulgares que trocamos ao cumprimentar. Tudo registrou porque, dizia ele, isso
aumentava o peso da obra, portanto, o seu valor.
Era unicamente Jpiter que estava assim: o resto dos satlites do Sol vivia
sofrivelmente... Como porm, houvessem descoberto que todos eles estavam ligados
por uma fora oculta que, embora influindo mutuamente sobre todos eles pesava
mediocremente sobre os destinos particulares de cada um; e, como tambm fosse
preciso ser original nos Congressos - Jpiter props, e todos os planetas
restantes aceitaram, a reunio de um congresso Pan-Planetrio. Era preciso,
diziam os embaixadores de Jpiter, formar um esprito planetrio, em
contraposio ao esprito estelar. Com isso, eles escondiam o secreto desejo de
vender aos outros planetas farpas aperfeioadas, remdio para calos, toneladas
de um literrio papel de embrulhos e outros produtos similares de sua atividade
sem limites, no esquecendo o fito de conquistas alguns destes ltimos ou parte
deles.
Todos os outros no viram bem esse propsito de Jpiter; mas este lhes venceu a
resistncia, convencendo-os de que deviam ser originais e chamar a ateno do
Universo... O mundo estelar no nos debocha? Altair no est sempre a rir-se
sarcasticamente de ns? Aldebaran no nos ameaa com seu rubor? Srios no nos
desdenha? Havemos de lho mostrar.
A reunio - ficou decidido - teria lugar na Terra. No porque a Terra fosse
muito poderosa, mas porque nos ltimos anos ela instalara nos seus plos uma
imensa buzina que gritava para as estrelas: - Sou o primeiro planeta do orbe,
tenho estradas de milhes de metros, sou o paraso do universo, etc. etc.
A buzina era indispensvel, visto que os caminhos, palcios, jardins e teatros,
etc., se destinavam aos extraterrestres e tinham por fim atra-los, no
pensamento de que os estranhos viessem trazer a segura prosperidade dela - a
Terra.
O seu povo, todos conhecem-no:  uma gente cheia de uma nerventa poesia, terna,
loquaz, um tanto indolente mas liberal, por ser relaxada e generosa, por ser
liberal.
So defeitos e so qualidades, mesmo porque, para os povos, no h defeitos nem
qualidades, h caractersticas, e mais nada.
Os de Jpiter no so assim: so rgidos, duros e frios, e tm dois sentimentos
dominadores: o do enorme, que  o seu critrio de beleza, e o do dourado.
Um habitante do grande planeta, uma vez na Terra, ao ver pelo crepsculo o cu
banhado de ouro liqefeito, esperneou de tal modo e de tal modo subiu s
montanhas para colh-lo que nos antpodas houve um terremoto.
Em vendo a cor do ouro, eles saem bufando, com o olhar injetado, em estado de
fria; e saem matando, estripando a indiferentes, a amigos, a parentes e at aos
pais; e - curioso - s querem ouro para construir caixes de seis lguas de
altura e seis polegadas quadradas de base. Eis como sentem a beleza... A isso
juntam um horror pelos gatos, um dio idiota e histrico; no entanto, os gatos
so bons; se velhos, tm a candura de criana; se crianas, uma grcil
espontaneidade de encantar. Mesmo se no so melhores do que seus companheiros
de Planeta, so perfeitamente iguais a eles. Contudo, so doridos e auditivos, o
que lhes d a faculdade de criar uma poesia e uma msica prprias, das quais os
de Jpiter se aproveitam,  mngua de poder eles mesmos criar essas
manifestaes artsticas, pois a sua insensibilidade no o permite.
Mas os jupiterianos no os toleram, porque podem os gatos votar, embora fossem
os prprios algozes destes que lhes tivessem dado este direito.
Por qualquer d c aquela palha, os estpidos jupiterianos se renem em praa
pblica e matam a pauladas,  foice, sem forma de processo alguma, sob o
pretexto de que o gato queria casar ou namorava uma filha deles. L se chama
banditismo e  coisa parecida com o linchamento ianque.
Um viajante, entretanto, que l esteve, achou esses gatos excepcionalmente
tmidos e doces, admirando-se que l no houvesse mais crimes, provocados pelos
sofrimentos e humilhaes que eles sofrem.
Perseguem-nos de um modo brbaro e covarde. Chamam-nos de poltres, mas quando
querem guerrear, socorrem-se deles e os gatos se portam bem. Vem a paz,
oprimem-nos, encurralam-nos; mas, assim mesmo, eles crescem e multiplicam-se...
Fraca raa!
Jpiter, como ia dizendo, acudiu ao grito da buzina e reuniu o Congresso na
Terra.
Na primeira sesso, logo os jupiterianos falaram na fraternidade de todos os
animais do Universo: homens e gatos, burros e jupiterianos, marcianos e raposos.
Um principal de Jpiter at, a esse respeito, fez um discurso muito bonito.
 muito sedia a manobra de Jpiter falar sempre em liberdade, fraternidade,
etc. Certa vez ele declarou guerra a Saturno para libertar-lhe os povos. Logo,
porm, que o venceu, restabeleceu a escravatura que j estava absolvida. Tal e
qual a Amrica do Norte fez com o Texas, provncia do Mxico, em 1837.
Como todos esperavam, os trabalhos do Congresso prosseguiram com grande
atividade.
Alm de tratar do estabelecimento de pontes pnseis que ligassem todos os
planetas entre si, o Congresso votou as seguintes concluses sobre a perfeita
fraternidade animal, estabelecido nos seguintes pontos:
a) No se deveria comer qualquer animal (boi, carneiro, porco);
b) As gaiolas dos pssaros deveriam ser aumentadas do dobro, no mnimo;
c) Na caa, uma espingarda no poderia ser carregada com mais de seis gros de
chumbo;
d) Generalizar os jogos de bola na sociedade dos cabritos.
O programa era vasto e piedoso; e at um principal de Jpiter, a esse respeito,
orou e citou largamente a Bblia, tanto o Antigo como o Novo Testamento, fazendo
pena no haver ali muitas beatas que pudessem chorar com tal homem, to digno de
vir a substituir S. Vicente de Paula, porque no  prprio citar akia-Muni.
O povo da Terra - boa gente! - exultou e encheu-se de orgulho por poder mandar
as estrelas este grito: no comemos mais bois!! Nada temos com as estrelas!
Houve festas, banquetes e bailes para alguns; luminrias para quem quisesse ver
e fantasmagorias surpreendentes nos rgos de publicidade.
No Cu, porm Sirius sorriu e Altair mais amarela se fez. Da Pliade duas
estrelas empalideceram de espanto, e Aldebaran quis avisar aos nscios, mas no
pde.
Jpiter vendeu a todos os seus irmos toneladas de farpas, de remdios para
calos, de papel literrio; e isso com alguma violncia, que me eximo de contar.
De passagem, digo-lhes que ele ocupou um pedao de Mercrio...
Se tais produtos no estavam completamente envenenados, foram, no entanto,
deletrios. A terra banalizou-se; Marte perdeu a inteligncia; Vnus, o amor
desinteressado; Netuno, a bravura generosa; os gatos de todos os planetas,
contudo, vieram a gozar dos benefcios das instituies jupiterianas, isto ,
foram expulsos da comunho dos patrcios.

****

Um convidado  mesa
Lus Pirandello

Ser muito ou ser pouco? - perguntaram, na cozinha, umas s outras, as trs
irms, Santa, Lisa e Anglica Borgianni, que h dois dias se dedicavam em
preparar um jantar de grandes propores.
Santa, a menor, era mais alta que Anglica; e esta, de Lisa, a mais velha das
trs. Ademais, todas bem favorecidas de seios e de quadris, podendo rivalizar
com os irmos em estatura elevada e em fora herclea.
- Famlia Borgianni: oito colunas! - gostava de dizer Mauro, o menor dos irmos
e de toda a famlia.
Trs irms, portanto, e cinco irmos: Rosrio, Nicolau, Tita, Lucas e Mauro,
segundo a ordem de idade.
Rosrio e Nicolau viviam no campo; Tita trabalhava na mina de enxofre, junto ao
bairro de Aragona; Lucas era empreiteiro de servios pblicos, na redondeza;
Mauro era apaixonado pela caa e era s do que se interessava.
Rosrio Borgianni era famoso pelos seus impulsos juvenis de besta selvagem.
Contavam-se dele as mais audaciosas aventuras, nos tempos abominveis do
banditismo, naturalmente aumentadas e enriquecidas pela imaginao popular.
Dizia-se at, que certa ocasio andara  frente de um magote de bandidos, e que
depois os matara a todos.
Havia muito exagero nesses relatos. Apenas quatro: dois no prprio stio e
outros dois pela mesma estrada que desce de Comitini a Aragona.
Igualmente de Mauro se contavam muitas proezas. Um dia, por exemplo, indo 
caa, rolou do alto do Monte Delle Forche; rolando, saltou trs vezes pelos
espiges agrestes, e de cada vez, saltando com a espingarda em punho, exclamava:
- Graas a Deus, eu sei danar!
Contudo, quebrou a perna direita e, - como se h muito tempo no tivesse a
cabea fora do lugar! - uma leve congesto cerebral.
Outra ocasio, durante uma caada, divisou trs ou quatro tordos pousados no
lombo de alguns bois, que pastavam por uma ladeira. Aproximou-se, quieto,
curvado, e apontando a arma, deu um disparo de espingarda. O boiadeiro
encolerizado, saiu-lhe ao encontro.
- Alto l! - gritou-lhe Mauro, em postura de guarda. Se ds mais um passo,
viro-te de pernas para o ar!
- Mas senhor Mauro! Os meus bois...
- E tu no sabes, animal, que eu atiro onde vejo caa?
- At no lombo dos animais
- At na cabea do Menino Jesus se eu confundir o Esprito Santo com um pombo!
O jantar parecia preparado para trinta convidados, no mnimo. Contudo, o
convidado era um s, e nem sequer o conheciam.
Apenas sabiam que chegaria no dia seguinte, de Comitini, e que lhe deviam esse
jantar em agradecimento ao refgio que oferecera ao irmo Lucas, o empreiteiro,
que estava escondido h quinze dias.
Homicdio? Sim... isto , no; quase... A coisa aconteceu assim: Lucas tomara,
de empreitada, a construo da estrada entre Favara e Naro. Uma tarde, ao voltar
do servio, a cavalo, a certa altura viu uma sombra estender-se ameaadora sobre
a areia do caminho, iluminada pelo luar. Algum certamente estava ali  espera.
Lucas, por sorte, percebeu-o; ou melhor, percebeu o capuz. E desconfiou que o
bandido estivesse acocorado para fugir ao claro da lua que vinha do outeiro, 
esquerda.
- Quem est a?
Nenhuma resposta.
Carregou a arma, por cautela. Nisto, ouviu-se um grilo.
Entao Lucas perguntou, detendo o cavalo:
- Quem est a?
Silncio. S o grilo continuava a trilar.
- Vou contar at trs! - gritou, afinal, Lucas, tornando-se plido. - Se no
respondes, poder fazer o sinal da cruz. Um!
A sombra no se mexeu. E silncio  volta.
- Dois!
S o grilo trilando.
- Trs!
E um disparo. Alguma coisa saltou pelo ar; e Lucas no cavalo a rdea solta,
chegou  casa, quase sem ar. Os irmos e irms acorreram ao seu encontro.
- Escondei-me! Escondei-me!
- Por que? Ferido?
- No... morto...
- Tu! Quem?
- Um... no sei... com a espingarda... Escondei-me.
Os irmaos pegaram-no e o levaram, provisoriamente, para a adega. Entrementes,
Mauro saiu de casa afim de certificar, pela aldeia, se sabia do homicdio. Ro
srio e Tita aguardavam, impacientes, que Lucas, escondido na adega, recobrasse
um pouco as foras para lev-lo a lugar mais seguro; haviam pensado j no
esconderijo, em Comitini, na casa de um compadre, para onde ele se poderia
transferir nessa mesma noite, a cavalo. Nicolau, muito bem armado, dirigiu-se ao
lugar indicado pelo irmo, para saber quem fora a vtima. Lucas, por fim,
pusera-se a caminho.
No dia seguinte, de madrugada, apareceu Nicolau.
- Ento?
- Nada! Encontrei apenas um capote, com o capuz, por terra. O ferido certamente
se arrastou at a aldeia e deixou o capote, varado. Que pontaria a de Lucas.
Deve t-lo ferido mortalmente, a julgar pelo capote... Palavra que no entendo;
dois furos no capote e, portanto, na cabea. No h dvida, matou-o .
Decorreram trs dias, atormentados pela espera. Na aldeia no se sabia de nada;
nem nas aldeias prximas nenhuma notcia de ferimento ou morte violenta.
Finalmente, dezesseis dias depois, conseguiu-se saber que um campons,
trabalhando naqueles arredores, se servira para cabide, de um marco de pedra, 
beira da estrada. Cobrira-o com o capote, do qual se esquecera,  tarde, quando
retornou  aldeia. Lucas atirara naquela coluna, julgando-a um encapuado 
espreita.
Agora o jantar ali estava, pronto desde a vspera, sobre a mesa comprida, no
meio da sala; um plido leitaozinho, coberto de folhas de louro, e recheado de
macarro, numa forma; sete lebres assadas rodeadas de tordos, mortos por Mauro,
numa de suas caadas; dois perus peitudos; um cabrito; tripa e fatias de carne;
gelatina de ps de boi; um grande peixe, ao vinagre; depois, uma coleo de
garrafas e muitas frutas.
-  pouco!  pouco!
Tita dizia que sim; Mauro, que no; fazia os clculos:
- Ns oito; com o convidado, nove; o criado e a criada, onze; graas a Deus cada
um de ns come por quatro, e... e...
- No tenhas medo; o convidado no passar mal - assegurava Tita.
Essa conversa se realizou  meia-noite, em torno da mesa: irmos e irms, os
sete, tinham-se levantado, devagar, impelidos pelo memso desejo de ver o efeito
que produzia o jantar preparado; e estavam todos em camisola, com uma candeia em
punho, como sombras notvagas. Entre Tita e Mauro, pouco depois se iniciou a
discrdia. Mauro agarrou numa lebre e ameaou o irmo. Chegaram a
engalfinhar-se.
- Mazurca! Mazurca! - exclamou, de sbito, Anglica, ouvindo por acaso e,
providencialmente os bandolins e a guitarra de uma serenata, pela noite a
dentro.
- A noturna! - exclamou Santa, ao mesmo tempo, batendo as maos e puxando a irm
para o meio da sala, onde se puseram a danar em camisola.
Os outros, entao, imitaram-nas; Lisa atirou-se aos braos de Tita. Rosrio
juntou-se a Nicolau, e Mauro, que ficou s, tambm saiu danando com a lebre de
orelhas voejantes, e rindo jovialmente.
Por entre os apertos de mao, os abraos, os beijos e as perguntas ao irmo
Lucas, ningum reparou num homenzinho de idade incerta, sob um imenso chapu que
lhe afundava at a nuca, amparado, de lado a lado, pelas orelhas recurvadas sob
o peso das abas. O homenzinho estava emocionado com as expansoes de afeto
daqueles oito colossos, que no lhe dirigiam sequer um olhar, por sua natureza
acanhada e por ser to pequeno que nem chegava (incluindo o chapu) aos ombros
de Lisa, a mais baixa de todas.
-Ah, um momento. Apresento Dom Diego Filinia, mais conhecido como Schiribillo, -
disse, afinal, Lucas, notando a falta. E ps-lhe a mao no ombro, sorrindo,
tomando ares protetores.
- Meu Deus, como  pequeno... - exclamaram em coro, as trs irms.
- Compleio, minhas senhoras, disse Dom Diego tirando o chapu e sorrindo com
uma humildade um pouco vexada.
Que desiluso! Era esse o convidado? E entao... se soubessem antes!...
- Por que chora? Perguntou Anglica, depois de observ-lo atentamente, com
inequvocas demonstraes de nusea e de pesar.
- Chora? - interrompeu Lucas, virando-se para aliviar-se logo e olhar de perto o
rosto do minsculo convidado.
- No choro no, respondeu D. Diego, quando pretendia passar no olho direito um
enorme leno de algodo. - Pelo caminho entrou-me uma palhinha no olho... No
estou chorando.
- Ah!... - exclamaram os colossos tranquilizados.
-  melhor o senhor tirar a capa, sugeriu Santa.
- No! No... pelo amor de Deus, quero ficar com ela! Se comeo a espirrar, que
Deus me livre, no paro mais.  por isso que sempre trago a capa.
Ningum se animava a falar, e aquela perplexidade se tornava cada vez mais
insuportvel.
-  de nosso dever - comeou finalmente a dizer Lucas, - agradecer a Dom
Schiribillo o grande favor e as cortesias com que me distinguiu durante a minha
estada em Comitini.
- Ns lhe agradecemos de todo o corao! - disse entao Rosrio, estirando a mao
ao hspede.
Esteja a vontade, como em sua casa, acrescentou Nicolau, apertando, por sua vez,
a mao do hspede, e olhando para os outros irmos, como que a dizer-lhes: -
"Agora vocs; eu j disse o que me competia."
Tita e Mauro, um aps outro, seguiram o exemplo, e disseram algumas palavras,
dando um passo a frente, militarmente, e apertando a mao de Dom Diego, o qual s
soube dizer como resposta: - "Por favor, muito obrigado".
Mas dos lbios das trs irms decepcionadas, nem uma s palavra foi possvel
arrancar.
Foram revividas as circunstncias que obrigaram Lucas homisiar-se.
- Qual pedra, qual nada! Exclamou este, indignado. - Homem sim, de carne e osso,
 espreita. Tanto  assim que logo depois do tiro, ouvi um grito, ouvi com estes
meus ouvidos... Gostaria, em primeiro lugar de saber quem foi o safado que andou
espalhando essa anedota. Eu ia mostrar que no se ri impunemente de Lucas
Borgianni.
- Basta! Disse Rosrio. Seja quem for, j est dito. No falemos mais nisso.
Tratemos de nos divertir, por hoje.
Dom Diego concordou com a cabea, no porque esperasse se divertir, coitado,
entre aqueles oito gigantes, mas para evitar discusses. Ningum sabe o que pode
acontecer.
Atendendo ao convite para o jantar, Rosrio e Niccolau comearam a discutir com
o convidado sobre o campo, as colheitas boas e ms. D. Diego, com humildade,
confiava-se sempre, s maos de Deus; mas esta humildade acabou por subitamente
arrancar Nicolau do silncio.
- Que mos de Deus, que nada! Para a terra, s braos de homem! Como esses, por
exemplo!
E exibiu a Dom Diego os braos hercleos estendidos, com os punhos fechados,
como se ele costumasse dar sopapos na terra, para obrig-la a render,
anualmente, mais do que devia.
Tita e Mauro quiseram tambm mostrar os seus, e arregaaram as mangas do palet
e da camisa. O pobre D. Diego viu-se, de repente, entre oito braos musculosos,
prprios para domar oito bois.
- Estou vendo... estou vendo...
- Apalpe! Apalpe! Convidaram os Borgianni. E D. Diego devagar, foi apalpando,
com um dedo tremulo, enquanto a outra mao passava o leno pelo nariz, temeroso
de que alguma gota casse, santo Deus, sobre aqueles braos.
-  mesa, - veio anunciar Santa.
- Schiribillo,  mesa! Gritou Mauro - Deixe tudo por nossa conta. O senhor h-de
crescer... H de comer tanto que depois no poder sair pela porta. Ns o
jogaremos pela janela, empanturrado e cheio.
- Eu no sou muito de comer, - adiantou Dom Diego, com inteno.
- Qual  o lugar do convidado? - perguntou em voz baixa, Tito s irms.
- Entre Rosrio e Lisa - props Mauro.
Lisa rebelou-se.
- Ns, as mulheres, queremos ficar ao lado,  parte.
Dom Diego sentou-se entre Rosrio e Nicolau. Os oito Borgianni, logo que
sentaram, encheram de vinho os grandes copos.
-  para fazer o sinal da cruz! - disse Rosrio com gravidade. E maos  obra!
- O senhor no bebe, D. Diego? - perguntou Tita.
- Muito obrigado, antes das refeioes, nunca, - Excusou-se o hspede,
timidamente.
- Ora, deixe-se disso,  para abrir o apetite, - sugeriu Nicolau, passando-lhe
um copo.
D. Diego levou-o  boca, por gentileza, e mal e mal o tocou, bebendo
cautelosamente um gole.
- Mais! Mais, at o fundo! - incitavam-no os oito Borgianni.
- No posso... muito obrigado, no posso...
Mauro levantou-se:
- Esperem que vou p-lo no bom caminho!
Com umam das mos, segurou o copo, com a outra a cabea de D. Diego e, 
proporo que ia dizendo:
- Deixe-me servi-lo! - o esvaziou todo na boca do coitado, que inultimente
lutava.
- Meu Deus! - soluou, erguendo-se, Dom Diego, meio afogado, comm os oolhos
cheio de lgrimas.
- Oh, vejam s, saiu vinho at pelos olhos! Observou Anglica, gracejando.
Trouxeram o leitozinho recheado. Rosrio levantou-se; destrinchou-o e deu o
maior pedao a D. Diego.
-  muito...  muito... - disse ele com o prazo na mo.
- Qual muito! Exclamou Nicolau. - O senhor no comea?
- Basta a metade, por favor... - insistiu Dom Diego. - No  possvel... Eu sou
parco...
- Parco? Pois bem, isto  carne de porco! Coma! Gritou Mauro, erguendo-se outra
vez.
D. Diego, espantado, baixou a cabea sobre o prato e principiou a comer, quieto,
quietinho.
Comeram aquele primeiro prato, em silncio. S o convidado  que de vez em
quando fazia timidamente meno de depor os talheres.
- Coma! Repetiam-lhe os colossos. - At o ltimo pedao.
- Chega, no posso mais, no quero mais nada! - Protestou Dom Diego, pondo nas
palavras alguma energia, depois de ter dado conta da sua parte, e dando um
grannde suspiro de alvio. - Fiz, como se costuma dizer, como Carlos em Frana.
- Que  que o senhor est dizendo! - retrucou Mauro, - No v que estamos apenas
comeando.
- Quanto aos senhores, est certo... - Observou, sorrindo Dom Diego - os
senhores tm grande capacidade.. Eu falo de mim...
- Mas que  que o senhor est pensando de ns? - interrogou Tita, alterando-se.
- Ento o senhor acredita que ns o convidamos para jantar apenas um prato e
basta! Trate de comer, que e a sua obrigao. Temos de agradecer-lhe tudo o que
fez pelo nosso irmao.
- Mas no  ofensa - Apressou-se em desculpar-se D. Diego. - Estou dizendo que
eu...
- Que o senhor h de comer! - interrompeu Rosrio. - Aqui est uma caa de
Mauro.
- Uma lebre e cinco tordos? - exclamou aterrorizado D. Diego. - Ser possvel?
No tenho mais lugar. Os senhores no ho de querer que eu deixe aqui a pele...
- Que pele? Perguntou Rosrio. - O senhor no tem que deixar nada. A lebre est
preparada.
- Falo da minha, falo da minha! Onde querem que eu encontre lugar para uma
lebre?
- Uma lebre e cinco tordos...
- Mais essa! Sofresse eu de... Bem, como apenas os tordos.
- Tome! Irrompeu Mauro, brandindo uma anca da lebre. - Esta caa  minha. Pelo
senhor, cansei-me durante trs dias seguidos. Se no comer tudo, ser uma ofensa
dirigida a mim, pessoalmente.
- No se altere... no se altere, por favor! Vou fazer um esforo...
E em si mesmo, o pobre Diogo encomendou a alma a Deus misericordioso.
Mastigando, o suor comeou a escorrer-lhe pela fronte. De vez em quando erguia
os olhos; via aqueles oito demnios sados do inferno, que nunca terminavam de
encher os copos de vinho, de vinho e mais vinho. E:
- Cristo, ajudai-me! - Implorava ele, baixo consigo mesmo.
O jantar no terminava mais. D. Diego desejava chorar, atirar-se ao cho de
tanto desespero, arranhar o rosto com as unhas, desarticular a boca de tanta
raiva. Que suplcio aquele! Neros! Neros! Sentia-se exausto, sem foras at para
empurrar o prato: talheres, copos, garrafas bailavam diante dos seus olhos,
sobre a mesa; sentia um rumor nos ouvidos, e as plpebras fechavam-se por si,
enquanto os oito Borgianni, j embriagados, uivavam, gesticulavam como
possessos, levantando-se, sentando-se e injuriando-se reciprocamente.
Agora, se D. Diego empurrava um pouco o prato, dizendo como que a si mesmo: -
No quero mais... no quero mais... - os oito gigantes erguiam-se, com as facas
de mesa em punho, e os dois mais prximos, ameaando-o, uivavam:
- Coma senhor Bebo! Por sua causa  que fizemos toda esta despesa!
D. Diego no se sentia mais deste mundo. De repente, entre as plpebras
semi-cerradas, pareceu-lhe descobrir, sobre a mesa, como que uma grande roda de
moinho. Fez, entao, um esforo intil para levantar-se e fugir.
- Oh! Deus do cu, amarraram-me na cadeira! - Gemeu ele, e comeou a chorar.
No era verdade: era o que parecia ao pobre D. Diego!
Rosrio ergueu-se, com a faca na mo. A D. Diego parecia que a cabea de Rosrio
tocava no forro da casa e que empunhava um chicote para justi-lo.
- A metade  para D. Diego! - gritou Rosrio, cortando pelo meio o enorme bolo,
que o coitado sups fosse uma roda de moinho.
- A outra metade  para os que esto mais perto! Props Anglica.
- E ns, perguntou Mauro? - Ns nada! Eu queroa minha parte!
Lucas manifestou-se a favor da proposta de Anglica.
- Para os que esto mais perto! Para os que esto mais perto!
A vida de D. Diego dependia daquele conflito.
- Pois bem, eu quero a minha parte,  fora! - exclamou Mauro, erguendo-se e
estirando a mo para o bolo.
Lucas, porm, foi mais rpido: agarrou o bolo e, acompanhado pela famlia
inteira, entre gritos, empurres e arrancos, atirou-o pela janela. Seguiu-se uma
briga tremenda, irmos e irms se agarraram pelos cabelos: berros, socos,
sopapos, arranhaduras, cadeiras derrubadas, garrafas, copos, pratos quebrados,
vinho derramado sobre a tolha; um inferno. Rosrio subiu numa cadeira e gritou,
com voz tonitroante:
- Que vergonha! Que espetculo! Temos um convidado  mesa!
Diante deste apelo, os furiosos se acalmaram, como por encanto. Procuraram o
convidado: onde estava? Onde se escondera?
A capa estava sobre a cadeira, e no cho um par de botinas. O desgraado fugira
descalo mesmo, para correr mais depressa.
- No fim das contas, tudo andou muito bem - diziam uns para os outros, pouco
depois, os oito Borgianni, j quietos. - Tudo, menos as frutas, que ainda no
foram servidas!

****

Um msico extraordinrio
Lima Barreto
Quando andvamos juntos no colgio, Ezequiel era um franzino menino de quatorze
ou quinze anos, triste, retrado, a quem os folguedos colegiais no atraam. No
era visto nunca jogando barra, carnia quadrado, peteca, ou qualquer outro jogo
dentre aqueles velhos brinquedos de internato que hoje no se usam mais. O seu
grande prazer era a leitura e, dos livros, os que mais gostava, eram os de Jlio
Verde. Quando todos ns lamos Jos de Alencar, Macedo, Aluizio e, sobretudo, o
infame Alfredo Gallis, ele lia a "Ilha Misteriosa", o "Heitor Servadac", as
"Cinco Semanas em balo" e, com mais afinco, as "20 mil lguas submarinas".
Dir-se-ia que a sua alma ansiava por estar s com ela mesma, mergulhada, como o
Capito Nemo do romance vernesco, no seio do mais misterioso dos elementos da
nossa misteriosa Terra.
Nenhum colega o entendia, mas todos o estimavam, porque era bom, tmido e
generoso. E porque ningum o entendesse nem as suas leituras, ele vivia consigo
mesmo; e, quando no estudava as lies de que dava boas contas, lia seu autor
predileto.
Quem poderia pr na cabea daquelas crianas fteis pela idade e cheias de
anseios de carne para puberdade exigente, o sonho que o clebre autor francs
instila nos crebros dos meninos que se apaixonam por ele, e o blsamo que os
seus livros do aos delicados que prematuramente adivinham a injustia e a
brutalidade da vida?
O que faz o encanto da meninice, no  que essa idade seja melhor ou pior que as
outras. o que a faz encanta. dora e boa  que, durante esse perodo da
existncia, nossa capacidade de sonho  maior e mais fora temos em identificar
os nossos sonhos com a nossa vida. Penso, hoje, que o meu colega Ezequiel tinha
sempre no bolso um canivete no pressuposto de, se viesse a cair em uma ilha
deserta, possuir  mo aquele instrumento indispensvel para o imediato arranjo
de sua vida; e aquele meu outro colega Sanches andava sempre com uma nota de dez
tostes, para, no caso de arranjar a "sua" namorada, ter logo em seu alcance o
dinheiro com que lhe comprasse um ramalhete.
Era, porm, falar ao Ezequiel, em "Heitor Servadac", e logo ele se punha
entusiasmado e contava toda a novela do mestre de Nantes. Quando acabava,
tentava ento outra; mas os colegas fugiam um a um, deixavam-no s com o seu
Jules Vernes, para irem fumar um cigarro s escondidas.
Ento, ele procurava o mais afastado dos bancos do recreio, e deixava-se ficar
l, s imaginando, talvez, futuras viagens que havia de fazer, para repassar as
aventuras de Roberto Grant, de Hatteras, de Passepartout, de Keraban, de Miguel
Strogoff, de Cesar Cascavel, de Philas Fogg e mesmo daquele curioso Dr.
Lindenbrock, que entra pela cratera extinta de Sueflels, na desolada Islndia, e
vem  superfcie da Terra, num ascensor de lavas, que o Stromboli vomita nas
terras risonhas que o Mediterrneo afaga...
Samos do Internato quase ao mesmo tempo e, durante algum ainda nos vimos; mas,
bem depressa, perdemo-nos de vista.
Passaram-se anos e eu j o havia de todo esquecido, quando no ano passado, vim a
encontr-lo em circunstncias bem singulares.
Foi em um domingo Tomei um bonde da Jardim, ali na Avenida, para visitar um
amigo e, com ele jantar em famlia. Ia ler-me um poema; ele era engenheiro
hidrulico.
Como todo o sujeito que  rico ou se supe ou quer passar como tal, o meu amigo
morava para as bandas de Botafogo.
Ia satisfeito, pois de ha muito no me perdia por aquelas bandas da cidade e me
aborrecia com a monotonia dos meus dias, vendo as mesmas paisagens e olhando
sempre as mesmas fisionomias. Fugiria, assim, por algumas horas,  fadiga visual
de contemplar as montanhas desnudadas que marginam  Central, da estao inicial
at Cascadura. Morava eu nos subrbios. Fui visitar, portanto, o meu amigo,
naquele Botafogo catita, Meca das ambies dos nortistas, dos sulistas e dos...
cariocas.
Sentei-me nos primeiros bancos; e j havamos passado o Lrico e entravamos na
rua 13 de Maio, quando, no banco atrs do meu, se levantou uma altercao com o
conductor,uma dessas vulgares altercaes comuns nos nossos bondes.
- Ora, veja  l com quem fala! dizia um.
- Faa o favor de pagar a sua passagem, retorquia o recebedor.
- Tome cuidado, acudia o outro. Olhe que no trata com nenhum cafajeste! Veja l
- Pague a passagem, seno o carro no segue.
E como eu me virasse por esse tempo a ver melhor to patusco caso, dei com a
fisionomia do disputador que me pareceu vagamente minha conhecida. No tive de
fazer esforos de memria. Como uma ducha, ele me interpelou desta forma:
- Vejas tu s Mascarenhas, como so as coisas! Eu, um artista. urna celebridade,
cujos servios a este pas so inestimveis, vejo-me agora maltratado por esse
brutamontes que exige de mim, desaforadamente, a paga de uma quantia nfima,
como se eu fosse da laia dos que pagam.
Aquela voz, de sbito, pois ainda no sabia bem quem me falava, reconheci o
homem: era o Ezequiel Beiriz. Paguei-lhe a passagem, pois no sendo celebridade,
nem artista, podia perfeitamente e sem desdouro, pagar quantias nfimas; o
veculo seguiu pacatamente o seu caminho, levando o meu espanto e a minha
admirao pela transformao que se havia dado no temperamento do meu antigo
colega de colgio. Pois era aquele parlapato o tmido Ezequiel?
Pois aquele presunoso que no era da laia dos que pagam, era o cismtico
Ezequiel do Colgio, sempre a sonhar viagens maravilhosas,  Jules Verne? Que
teria havido nele? Ele me pareceu inteiramente so, no momento e para sempre.
Travamos conversa e mesmo a procurei, para decifrar to interessante enigma.
- Que diabo, Beiriz! Onde tens andado? Creio que ha bem quinze anos que no nos
vemos - no ? Onde andastes?
- Ora! Por esse mundo de Cristo. A ltima vez que nos encontramos... Quando foi
mesmo?
- Quando eu ia embarcar para o interior do Estado do Rio, visitar a famlia.
-  verdade! Tens boa memria... Despedimo-nos no largo do Pao .. Ias para
Muru - no  isso?
- Exatamente.- Eu, logo em seguida, parti para o Recife a estudar Direito.
- Estiveste l este tempo todo?
- No. Voltei para aqui, logo de dois anos passados l.
- Por que?- Aborrecia-me aquela "churumela" de direito.. Aquela vida solta de
estudantes de primeira no me agradava. ... So vaidosos... A sociedade lhes d
muita importncia, da...
- Mas, que tinhas com isso? Fazias vida  parte...
- Qual! No era bem isso o que eu sentia... Estava, era aborrecidssimo com a
natureza daqueles estudos... Queria outros...
- E tentastes?
- Tentar! Eu no tento; eu os fao... Voltei para o Rio afim de estudar pintura.
- Como no tentas, naturalmente...
- No acabei. Enfadou-me logo tudo aquilo da Escola de Belas Artes.
- Por que?
- Ora! Deram-me uns bonecos de gesso para copiar... J vistes que tolice? Copiar
bonecos e pedaos de bonecos... Eu queria a coisa viva, a vida palpitante...
-  preciso ir aos jornais, comear pelo comeo, disse eu sentenciosamente.
- Qual! Isto  para toda gente... Eu vou de um salto; se erro, sou como o Tigre
diante do caador - estou morto!
- De forma que... Foi o que me aconteceu com a pintura. Por causa dos tais
bonecos, errei o salto e a abandonei. Fiz-me reprter, jornalista, dramaturgo, o
diabo! Mas, em nenhuma dessas profisses dei-me bem. .. Todas elas me
desgostavam. Nunca estava contente com o que fazia... Pensei de mim para mim,
que nenhuma delas, era a da minha vocao e a de meu amor; e, como sou honesto
intelectualmente, no tive nenhuma dor de corao em larg-las  e ficar   toa,
vivendo ao Deus dar.
- Isto durante muito tempo?
- Algum. Conto-te o resto. J me dispunha a experimentar o  funcionalismo,
quando, certo dia. descendo as escadas de uma Secretaria, onde fui levar um
pistolo, encontrei um parente afastado que as subia. Deu-me ele a noticia da
morte do meu tio rico que me pagava colgio e, durante alguns anos, me dera
penso; mas, ultimamente, a tinha suspendido, devido, dizia ele a eu no
esquentar lugar,, isto , andar de escola em escola, de profisso em profisso.
- Era solteiro, esse seu tio?
- Era, e, como j no tivesse mais pai (ele era irmo de meu pai), ficava sendo
o seu nico herdeiro, pois morreu sem testamento. Devido a isso e mais
ulteriores ajustes com a Justia, fiquei possuidor de cerca de duas centenas e
meia de contos.
- Um nababo! Hein?
- De algum modo... Mas escuta, filho! Possuidor dessa fortuna, larguei-me para a
Europa a viajar. Antes -  preciso que saibas - fundei aqui uma revista
literria e artstica - "Vilhara" - em que apresentei as minhas idias budistas
sobre a arte, apesar do que nela publiquei as coisas mais escatolgicas
possveis poemetos ao suicdio, poemas em prosa   "Vnus genitrix", junto com
sonetos, cantos, glosas de coisas de livros de missa de meninas do colgio de
Sion.
- Tudo isto de tua pena?
- No. A minha teoria era uma e a da revista outra, mas publicava as coisas mais
antagnicas a ela,, porque eram dos amigos.
- Durou muito a tua revista?
- Seis nmeros e custaram-me muito, pois at tricotomias publiquei e hs de
adivinhar que foram de quadros contrrios ao meu ideal bdico Imagina tu que at
estampei uma ma reproduo dos "Horcios" do idiota do David
- Foi para encher, certamente?
- Qual! A minha orientao nunca dominou a publicao. .. Bem! vamos adiante.
Embarquei quase como fugido deste pas em que a esttica transcendente da
renncia, do aniquilamento do desejo era to singularmente traduzidas em versos
fesceninos e escatolgicos e em quadros apologticos da fora da guerra. Fui-me
embora!
- Para onde?
- Pretendia ficar em Lisboa, mas, em caminho, sobreveio uma tempestade; e deu-me
vontade, durante ela, de ir ao piano. Esperava que sasse o "litu"; mas, qual
no foi o meu espanto, quando de sob os meus dedos, surgiu e ecoou todo o
tremendo fenmeno metereolgico, toda a sua msica terrvel! Ah! Como me senti
satisfeito! Tinha encontrado a minha vocao. Eu era msico! Poderia
transportar, registrar no papel e reproduzi-los artisticamente com os
instrumentos adequados, todos os sons at ali intraduzveis pela arte, da
Natureza. O bramido das grandes cachoeiras, o marulho soluante das vagas, o
ganido dos ventos, o roncar divino do trovo, estalido do raio - todos esses
rudos, todos esses sons no seriam perdidos para a Arte; e, atravs do meu
crebro, seriam postos em forma de msica, idealizados transcendentalmente, a
fim de mais fortemente, mais intimamente prender o homem  Natureza, sempre boa
e sempre fecunda, vria e ondeante; mas...
- Tu sabias msica?
- No. Mas, continuei a viagem at Hamburgo, em cujo conservatrio me
matriculei. No me dei bem nele, passei para o de Dresde, onde tambm no me dei
bem. Procurei o de Munique, que no me agradou. Freqentei o de Paris e o de
Milo...
- De modo que deves estar muito profundo em msica?
Calou-se o meu amigo um pouco e logo respondeu:
- No. Nada sei, porque no encontrei um conservatrio que prestasse. Logo que o
encontre, fica certo de que serei um msico extraordinrio. Adeus, vou saltar.
Adeus! Estimei em ver-te.
Saltou e tomou por uma rua transversal que no me pareceu ser a da sua
residncia.

****

Uma rvore de Natal e um casamento
Dostoievski
Um dia destes, vi um casamento... mas no, prefiro falar-vos de uma rvore de
Natal. Achei o casamento bem bonito, mas a rvore de Natal me agradou mais. Nem
sei como, olhando para o casamento, me lembrei da rvore. Eis como o caso se
passou.
H cerca de cinco anos fui convidado, na vspera de Natal, para um baile
infantil. A pessoa que me convidou era um conhecido homem de negcios, cheio de
relaes e maquinaes, e, assim, no se h de estranhar que o baile infantil
servisse apenas de pretexto para os pais se reunirem e, no meio da multido, se
ocuparem de seus interesses materiais com ar inocente e surpreendido.
Como houvesse chegado ali por acaso e no tivesse nenhum assunto comum com os
outros, passei a noite de maneira muito independente. Havia mais um cavalheiro
que, como eu, no tinha, decerto, conhecidos no grupo, e participava casualmente
da felicidade familiar. Ele deu-me na vista antes de todos. Era um homem alto,
magro, muito srio, vestido muito decentemente. Notava-se que a felicidade da
famlia no lhe comunicava a menor alegria; mal se retirava a um cantinho,
cessava de sorrir e franzia as sobrancelhas espessas e negras.
Afora o dono da casa, no conhecia vivalma em todo o baile. Via-se que ele se
entediava horrivelmente, mas que resolvera manter at o fim o papel do homem que
se diverte e  feliz. Soube depois que era um provinciano vindo  capital a
algum negcio importante e complicado. Trouxera carta de recomendao para o
nosso hospedeiro, que o protegia, porm, no con amore, e o convidara, por
cortesia, para o baile infantil. No jogavam cartas com o provinciano, ningum
lhe oferecia um charuto nem com ele entabulava conversao, talvez porque
reconhecessem de longe o pssaro pela plumagem, e, deste modo, o meu cavalheiro
via-se obrigado, para ter que fazer das mos, a alisar a noite inteira as suas
suas. Eram, alis, umas suas realmente belas - porm ele as acariciava com
tanto zelo que a gente, ao fit-lo, sentia-se inclinada a pensar que primeiro
vieram ao inundo as suas e s depois o homem, para cofi-las, inserido entre
elas.
Alm desse personagem, que tomava parte na felicidade do dono da casa, pai de
cinco garotos bem nutridos, do modo que acabo de relatar, outro conviva cara no
meu agrado. Mas este era de aspecto completamente diverso. Era um personagem a
quem os outros chamavam Julio Mastakovitch. Percebia-se  primeira vista que
era ele o convidado de honra. Estava para o dono da casa como este para o
cavalheiro que afagava as suas. o dono e a dona da casa falavam-lhe com
amabilidade extraordinria, cortejavam-no, enchiam-lhe o copo, amimavam-no, e
lhe apresentavam, recomendando-os, vrios convidados, ao passo que a ele no o
apresentavam a ningum. Notei at uma lgrima nos olhos do hospedeiro quando
Julio Mastakovitch observou que raras vezes passara o tempo de maneira to
agradvel como naquela noite. Comecei a sentir-me acabrunhadssimo em presena
de semelhante figura, e, depois de haver admirado as crianas, retirei-me a um
pequeno salo, totalmente vazio, e fui sentar-me sob o florido caramancho da
dona da casa, o qual ocupava quase a metade de toda a pea.
Eram as crianas incrivelmente gentis, e no queriam, apesar de todas as
exortaes das mames e das governantas, parecer-se com as pessoas grandes. Num
piscar de olho desmontaram toda a rvore de Natal, e conseguiram quebrar a
metade dos brinquedos antes mesmo de saber a quem eram destinados. Achei
particularmente engraado um menino de olhos pretos e cabelos frisados que 
viva fora me queria matar com a sua espingarda de pau. Entretanto, mais que
todos, atraa-me a ateno sua irm, menina de onze anos, um amor de criana,
meiga, cismativa, plida, com grandes olhos sonhadores  flor do rosto. Parecia
que os amiguinhos a tinham ofendido, pois veio ao salo onde eu estava sentado
e, a um cantinho. ps-se a brincar com as suas bonecas. Os convidados apontavam,
com respeito, um rico negociante, pai da menina, e algum observou, cochichando,
que ela j tinha trezentos mil rublos reservados como dote. Voltei-me para ver
quem se interessava por esses pormenores, e o meu olhar caiu sobre Julio
Mastakovitch o qual, de mos cruzadas atrs das costas e inclinando a cabea
para um lado, parecia acompanhar com particular ateno o mexerico de alguns
senhores. Pouco depois, no pude furtar-me a admirar a sabedoria dos anfitries
na distribuio dos brindes s crianas. A menina que j tinha seus trezentos
mil rublos de dote ganhou uma boneca suntuosssima
Desde ento os presentes foram diminuindo de valor, de acordo com a diminuio
da importncia dos pais daquelas crianas felizes. Afinal, a ltima' um menino
de dez anos, magrinho, baixinho, sardento e ruivo, ganhou apenas um livrinho de
contos sobre as maravilhas da natureza, DS lgrimas da sensibilidade, etc., sem
estampas e at sem vinhetas. Filho da governanta dos meninos da casa, uma pobre
viva, era um pequeno muitssimo encolhido e tmido, metido num pobre
paletozinho de nanquim. Recebido o seu livrinho, andou muito tempo  volta dos
brinquedos dos outros. Tinha uma vontade imensa de brincar com as outras
crianas, mas no se atrevia; claro, j sabia e compreendia a sua situao.
Gosto muito de observar crianas. So sobremodo curiosas as suas primeiras
manifestaes independentes na vida. Notei, pois, que o menino ruivo se deixava
seduzir pelos brinquedos dos outros, sobretudo pelo teatro, em que ele se
empenhava para representar um papel qualquer, a ponto de aviltar-se. Pegou a
sorrir para os outros, a cortej-los, deu a sua ma a um pequeno gordo que j
tinha o leno cheio de presentes. e at se ofereceu para carregar outro, s para
que no o afastassem do teatro. No entanto, poucos minutos aps um rapazinho
arrogante deu-lhe uma boa surra. o ruivinho nem teve coragem de chorar. Logo
apareceu sua me, a governanta, e ordenou-lhe no se intrometesse nos brinquedos
alheios. O menino retirou-se para o salo onde estava a menina bonita. Esta o
deixou aproximar-se, e as duas crianas entraram a enfeitar a suntuosa boneca.
Fazia j meia hora que eu estava sentado no caramancho de hera, e quase
adormecera ao zunzum da conversa entre o ruivinho e a menina dos trezentos mil
rublos de dote, que se entretinham a respeito da boneca, quando de repente vi
entrar no salo Julio Mastakovitch. Aproveitando a distrao dos presentes com
uma briga surgida entre as crianas, sara do salo principal sem fazer barulho.
Notara eu, poucos minutos antes, que ele mantinha animada palestra com o pai da
futura noiva rica, a quem mal acabara de conhecer, explicando-lhe as vantagens
de qualquer emprego pblico sobre os demais. Parou  porta, tomado de hesitao,
e parecia calcular alguma coisa nas pontas dos dedos.
- Trezentos. . . trezentos - murmurava.- Onze.. . doze.. . treze... at
dezesseis, so cinco anos... Faamos de conta que sejam quatro por cento, so
doze... cinco vezes doze, sessenta; estes sessenta... bem, calculados por alto,
ao cabo de cinco anos sero quatrocentos. Est certo... Mas naturalmente o
malandro no os ter colocado a quatro por cento! Talvez receba oito ou at dez
por cento. Suponhamos que sejam quinhentos, no mnimo, sim, quinhentos mil, na
certa. .. o excedente gasta-se no enxoval, hum...
Acabou a meditao, assoou-se, e, indo a sair do salo, sbito avistou a menina
e estacou. Como eu estivesse assentado atrs dos vasos de flores, no me pde
ver. Tive a impresso de que o homem se achava muito excitado. Seria o clculo
que operava esse efeito sobre ele, ou outro motivo qualquer? No sei. seja como
for, o certo  que esfregava as mos e no conseguia permanecer no mesmo lugar.
Quando a sua agitao chegou ao cmulo, parou um instante e lanou um segundo
olhar, muito resoluto,  futura noiva. Quis aproximar-se dela, mas primeiro
olhou em redor. Depois, como quem tem sentimentos criminosos, aproximou-se da
criana nas pontas dos ps. Com um sorrisinho nos lbios, inclinou-se para ela e
beijou-a na testa. A menina, no esperando a agresso, gritou assustada.
- Que  que voc est fazendo aqui, bela menina?&#8212;perguntou ele em voz baixa.
E, olhando em torno de si, deu-lhe uma palmadinha no rosto.
- Estamos brincando...
- Com ele? - disse Julio Mastakovitch fitando o menino de esguelha.
E logo acrescentou:
- Escuta, meu amigo, por que no vais para o salo?
O menino fitava-o sem falar, de olhos arregalados. Julio Mastalovitch olhou de
novo em redor e aproximou-se outra vez da pequena:
- Que  que voc tem a bela menina? Uma bonequinha?- Uma bonequinha - respondeu
a criana de cara fechada, cabisbaixa.
- Uma bonequinha... Mas voc sabe, gentil menina, de que  feita a bonequinha?
- No sei... -  cochichou a pequena, abaixando ainda mais a cabea.
- De trapos, minha alma... Mas tu, meu filho, deverias ir para o salo brincar
com os teus camaradas, - disse Julio Mastakovitch encarando o menino com
severidade.
As duas crianas franziram a testa e agarraram-se pela mo. No queriam
separar-se.
- Sabe voc por que lhe deram essa bonequinha? - perguntou Julio Mastakovitch
baixando cada vez mais a voz.
-  No.
- Porque voc  uma criana boa e se comportou bem a semana toda.
Perturbado a mais no poder, Julio Mastakovitch lanou mais uma vez um olhar em
roda, e baixou a voz de modo que a sua pergunta, formulada em tom impaciente e
embargada pela emoo, saiu quase imperceptvel:
- Diga-me, gentil menina: voc gostar de mim se eu fizer uma visita a seus
pais?
Havendo proferido tais palavras, Julio Mastakovitch quis beijar a pequena mais
uma vez; mas o menino, vendo-a prestes a romper no choro, puxou-a pela mo e,
compadecido, comeou, ele prprio, a choramingar.
Dessa vez Julio Mastakovitch aborreceu-se deveras.
- Vai-te embora - disse ao menino - Vai para a sala brincar com os teus
camaradas.
- No v, no - protestou a menina. - Voc  que deve ir-se embora. Deixe-o
aqui, deixe-o - disse quase soluando.
Algum fez barulho  porta. Assustado, Julio Mastakovitch ergueu no mesmo
instante o corpo majestoso. O menino ruivo, porm, assustou-se ainda mais do que
ele, largou a mo da menina e, devagarinho, roando a parede, caminhou do salo
 sala de jantar. Para no despertar suspeitas, Julio Mastakovitch tambm
passou  sala de jantar. Estava vermelho feito uma lagosta e, mirando-se ao
espelho, parecia at envergonhado de si mesmo, talvez arrependido da sua
sofreguido. Teria sido o clculo feito na ponta dos dedos que o arrebatara a
ponto de inspirar-lhe, apesar de toda a sua seriedade e gravidade, um
procedimento de criana? Aproximava-se de chofre do seu objetivo, embora este
no viesse a tornar-se um objetivo real antes de cinco anos, no mnimo.
Acompanhei o respeitvel cavalheiro a sala de jantar, e ali testemunhei um
espetculo curioso. Rubro de raiva e despeito, Julio Mastakovitch perseguia o
menino ruivo, o qual, recuando cada vez mais, j no sabia para onde correr:
- Sai daqui! Que diabo vens fazer aqui, velhaco? Vieste roubar frutas, hem?
Vieste? Fora daqui, patife! Vai, fedelho, procura os teus camaradas!
Espantado, o pequeno recorreu a um expediente extremo: foi esconder-se debaixo
da mesa. Ento o seu perseguidor, no auge da excitao, puxou do bolso o grande
leno de batista e, brandindo-o, procurou enxotar o menino do seu esconderijo.
Este se encolhia caladinho, sem se mexer. Cumpre observar que Julio
Mastakovitch era um tanto gordo: rapaz bem nutrido, corado, barrigudo, de pernas
robustas, - em uma palavra, como se costuma dizer, redondo e forte como uma noz.
Suava, enrubescia, arfava terrivelmente. Estava exasperado por um sentimento de
indignao e, quem sabe, de cime.
No pude conter uma gargalhada. Julio Mastakovitch virou-se e, a despeito de
toda a sua importncia, ficou mortalmente acanhado. Nesse instante, na porta
oposta, apareceu o dono da casa. O ruivinho saiu logo do esconderijo e ps-se a
limpar os joelhos e os cotovelos. Julio Mastakovitch, com um gesto rpido,
levou ao nariz o leno que tinha na mo, seguro por uma das extremidades.
O dono da casa fitava-nos aos trs, perplexo, mas, como homem que conhece a vida
e a considera pelo lado srio, resolveu aproveitar a circunstncia de
encontrar-se quase a ss com o seu hspede.
-  este o menino - disse indicando o ruivinho - que tive a honra de lhe
recomendar...
- ? - respondeu Julio Mastakovitch, que ainda no voltara inteiramente a si.
-  filho da governanta de meus filhos - prosseguiu o dono da casa em tom de
solicitao -, uma senhora pobre, viva de um funcionrio honesto; portanto,
Julio Mastakovitch... se  for possvel. . .
- Mas no !&#8212;exclamou sem demora Julio Mastakovitch. - Perdoe-me, Filipe
Alexeievitch,  totalmente impossvel. Pedi informaes... No momento no h
vaga, e, ainda que houvesse, j se tem dez candidatos, cada um mais qualificado
que este..
- Sinto muito... muitssimo..
-  pena - disse o dono da casa. -  um menino bonzinho, modesto . . .
-  Pelo que vejo,  um grandssimo vadio, - estourou Julio Mastakovitch, com
uma careta histrica. - Sai da, menino. Que  que tu queres a? Vai brincar com
os teus camaradas &#8212; disse ainda, voltando-se para o ruivinho.
No conseguindo mais conter-se, olhou para mim de soslaio. Por minha vez, no
pude deixar de lhe rir deliberadamente nas barbas. Ele desviou de mim os olhos,
e em voz bem alta perguntou ao dono da casa quem era aquele rapaz esquisito.
Saram os dois da sala cochichando. Vi que Julio Mastakovitch, ouvindo as
explicaes de seu hospedeiro, abanava a cabea, meio desconfiado.
Ri a bom rir com os meus botes, e voltei ao salo. Rodeado de mames, de papais
e dos donos da casa, o grande homem explicava alguma coisa com muito calor a uma
senhora a quem acabavam de apresent-lo. Esta segurava pela mo a menina com
quem, dez minutos antes, Julio Mastakovitch representara a sua cena no pequeno
salo. Agora ele estava-se derramando em extticos elogios  beleza, aos
talentos,  graa e  boa educao da gentil menina. Manifestamente engodava a
mamezinha, que o escutava quase com lgrimas de enlevo. Os lbios do pai
sorriam. o dono da casa alegrava-se com essas alegres efuses. os prprios
convidados tomavam parte no jbilo; at os brinquedos das crianas foram
suspensos para no se perturbar a conversa. Era uma atmosfera quase religiosa.
Logo depois, ouvi a me da interessante pequena, comovida at o fundo da alma
pedir a Julio Mastakovitch, com expresses escolhidas, que lhe desse a subida
honra de distinguir-lhe a casa com sua preciosa visita, e ele aceitou o convite
com entusiasmo; enfim, ouvi os demais convidados, no momento da de despedida,
expandirem-se, como o exigiam as convenincias, em louvores comovidos ao rico
negociante, a sua mulher e a sua filha, e principalmente a Julio Mastakovitch.
-  casado esse cavalheiro? - perguntei em voz quase alta a um conhecido que
estava mais perto dele.
Julio Mastakovitch enviou-me um olhar indagador e feroz.
- No - disse-me o meu conhecido, profundamente penalizado com a leviandade que
eu de propsito cometera.
Passava eu, h pouco tempo. em frente  igreja de ***, quando um grande
ajuntamento me despertou a ateno. Em redor falava-se de um casamento. O dia
estava nublado, comeava a chuviscar; entrei na igreja abrindo caminho atravs
da multido. Logo avistei o noivo. Era um rapaz baixo, gordo, bem nutrido, de
ventre pondervel, muito enfeitado, que corria para todos os lados, se agitava
sem parar, dava ordens. Enfim, levantou-se um murmrio de vozes anunciando a
chegada da noiva. Fendi a turba de curiosos e vi uma jovem de admirvel beleza,
para quem a primavera apenas comeava. Mas estava plida e parecia triste a
linda noiva. Olhava distrada e tinha os olhos vermelhos, o que me deu impresso
de lgrimas recentes. A severidade clssica de suas feies emprestava-lhe 
beleza uma expresso algo solene. Atravs daquela severidade, daquela gravidade,
de toda aquela tristeza, transpareciam os traos de uma criana inocente, algo
de incrivelmente ingnuo, juvenil e ainda no formado, que parecia, sem
palavras, implorar piedade.
Ouvi observar que ela mal acabava de completar dezesseis anos. Examinando atento
o noite, nele reconheci Julio Mastakovitch, que eu no via desde cinco anos.
Olhei para ela... Meu Deus! Fendi a multido outra vez para sair da igreja o
mais breve possvel. Ainda ouvi um espectador dizer que a noiva era rica, que
tinha quinhentos mil rublos de dote... e no sei mais quanto para o enxoval.
- Ento o clculo era justo; disse comigo.
- E sa para a rua.

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Zadig ou o Destino
Voltaire
Trecho
O Nariz
m dia Azora regressou de um passeio muito encolerizada e soltando grandes
exclamaes.
- Que tens tu, minha querida esposa - perguntou ele - para ficares assim to
exaltada?
- Ai! - respondeu ela, - estarias como eu se visses o espetculo que acabo de
testemunhar. Fui consolar a jovem viva Cosrou que h dois dias mandou edificar
o tmulo de seu esposo  beira do riacho que atravessa este prado. Em sua
aflio ela prometera aos deuses ficar ao p do tmulo enquanto o riacho por ali
corresse.
- Ento! Eis uma estimvel senhora que amava realmente o marido!
- No dirias isso - continuou Azora - se soubesses em que ela se ocupava hoje
quando a visitei.
- Pois em que, minha bela Azora?
- Estava desviando o riacho.
Azora derramou-se em to longas invectivas, explodiu em to violentas
recriminaes contra a jovem viva, que semelhante ostentao de virtude acabou
por desgostar Zadig.
Tinha ele um amigo, chamado Cador, um desses moos a quem sua mulher atribua
mais probidade e mrito que aos outros; confiou-se a Cador, e assegurou-se tanto
quanto possvel de sua fidelidade por meio de um valioso presente. Azora tendo
passado dois dias no campo com uma amiga,voltou para a casa no terceiro. Criados
em prantos anunciaram-lhe que o marido morrera de repente, nessa mesma noite,
que ningum tivera corao de lhe levar a funesta notcia, e que acabavam de
sepultar Zadig no tmulo de seus pais, no fundo do jardim. Ela chorou, arrancou
os cabelos, jurou morrer.  noite, Cador mandou pedir para lhe falar e ficaram
ambos chorando. No dia seguinte j choraram menos e jantaram juntos. Cador
confessou que o amigo lhe deixara a maior parte dos bens, e deu-lhe a entender
que a sua maior felicidade seria partilhar a fortuna com ela. A jovem chorou,
zangou-se e depois sossegou; a ceia foi mais longa que o jantar e falaram-se com
mais intimidade. Azora fez o elogio do defunto, admitindo embora ter ele certos
defeitos que no notava em Cador.
No meio da refeio, Cador queixou-se de uma violenta dor no bao; a dama,
preocupada e solcita, mandou buscar todas as essncias com que se perfumava, a
fim de experimentar se alguma seria benfica para a dor de bao; deplorou muito
que o grande Hermes no estivesse em Babilnia, dignou-se mesmo a apalpar o
ponto onde a dor era mais viva.
- Sofres muito com essa cruel doena? - perguntou ela compassiva.
- s vezes sinto-me a dois passos da morte - respondeu Cador, - e s h um
remdio que me traz algum alvio:  aplicar-me no local, o nariz de um homem que
tenha morrido na vspera.
- Estranho remdio! - exclamou Azora.
- No mais estranho que os saquinhos de ervas do senhor Arnou contra a
apoplexia.
Essa razo, aliada aos grandes mritos do jovem, decidiu enfim a dama.
- De qualquer modo - volveu ela, - quando meu parido passar do mundo de ontem
para o de amanh, atravs da ponte Tchinavar, o anjo Asrael decerto lhe no
recusar passagem s porque o seu nariz vai ficar um pouco mais curto na segunda
vida do que na primeira!
Apanhou uma navalha de barba e dirigiu-se ao tmulo do esposo, regou-o de
lgrimas e preparou-se para cortar o nariz de Zadig que l estava estendido na
campa. Zadig ergueu-se, protegendo o nariz com uma das mos, ao mesmo tempo que
afastava a navalha com a outra.
- Senhora - disse ele - no censure tanto a jovem Cosrou; a inteno de me
cortar o nariz vale bem a de desviar as guas de um riacho.
O Co e o Cavalo
Zadig convenceu-se de que o primeiro ms do casamento, como est escrito no
livro do Zenda,  a lua de mel, e que o segundo  a lua de fel. Pouco tempo
depois viu-se obrigado a repudiar Azora, que se tornou difcil de aturar, e
procurou satisfao no estudo da natureza. -Ningum  mais feliz - dizia ele, -
que um filsofo que l o grande livro aberto por Deus diante dos nossos olhos.
So as suas verdades que descobre: alimenta e educa a alma, vive tranqilo; nada
receia dos homens, e sua meiga esposa no vem lhe cortar o nariz&#8221;.
Cheio destas idias recolheu a uma casa de campo  beira do Eufrates, onde no
se ocupava a calcular quantas polegadas de gua correm por segundo sob os arcos
de uma ponte, ou se no ms do rato cai uma linha cbica de chuva a mais que no
ms do carneiro. No cuidava de fazer seda com teias de aranha, nem porcelana
com cacos de vidro, antes estudou sobretudo as propriedades dos animais e das
plantas, no tardando a adquirir uma sagacidade que lhe apontava mil diferenas
onde os outros homens viam s uniformidade.
Certo dia, passeando na orla de um bosque, viu aproximar-se um eunuco da rainha
seguido de vrios oficiais que pareciam tomados da maior inquietao, e corriam
de um lado para outro como pessoas extraviadas em busca da maior preciosidade
perdida.
- Moo - perguntou o eunuco, - por acaso no viu o cachorro da rainha?
Zadig respondeu modestamente:
- Creio tratar-se de uma cadela e no de um cachorro.
- Tem razo, volveu o eunuco.
-  uma cachorrinha de caa que deu cria h pouco tempo. Manqueja da pata
dianteira esquerda e tem orelhas muito compridas.
- Viu-a ento? - tornou o eunuco, esbaforido.
- No - respondeu Zadig, - nunca a vi e nem mesmo sabia que a rainha tivesse uma
cadela.
Justamente nessa ocasio, por um capricho muito comum da sorte, o mais belo
cavalo das coudelarias do rei fugira das mos de um palafreneiro para as
campinas da Babilnia. O monteiro-mor e todos os outros oficiais andavam atras
dele com tanta apreenso quanta a do eunuco atras da cadela. O monteiro-mor
dirigiu-se a Zadig e perguntou-lhe se no vira passar o cavalo do rei.
-  o cavalo que melhor galopa - respondeu Zadig; - tem cinco ps de altura e os
cascos muito pequenos; sua cauda mede trs ps de comprimento e as rodelas do
seu freio so de ouro de vinte e trs quilates; usa ferraduras de prata de onze
denrios.
- Que caminho tomou ele? Onde est? - perguntou o monteiro mor.
- No sei - respondeu Zadig; - no o vi nem nunca ouvi falar nele.
O monteiro-mor e o eunuco ficaram certos de que Zadig tinha roubado o cavalo e a
cadela, e levaram-no  presena do grande Desterham, que o condenou ao knut, e a
passar o resto dos seus dias na Sibria. Mal havia terminado o julgamento, foram
encontrados o cavalo e a cadela. Os juzes viram-se na desagradvel contingncia
de reformar a sentena, mas condenaram Zadig a pagar quatrocentas onas de ouro
por dizer que no vira o que tinha visto. Primeiro ele teve que pagar a multa, e
s depois lhe permitiram defender a sua causa, onde falou nestes termos:
Estrelas de justia, abismos de cincia, espelhos da verdade, que tendes o peso
do chumbo, a dureza do ferro, o brilho do diamante e muita afinidade com o ouro:
j que me  consentido falar diante  desta augusta assemblia, juro-vos por
Orosmade que nunca vi a respeitvel cadela da rainha, nem o sagrado cavalo do
rei dos reis. Aqui est o que me sucedeu: andava eu passeando pelo pequeno
bosque onde depois encontrei o venervel eunuco e o muito ilustre monteiro-mor.
Percebi na areia pegadas de animal e facilmente conclu serem as de um co.
Leves e longos sulcos, visveis nas ondulaes da areia entre os vestgios das
patas, revelaram-me tratar-se de uma cela com as tetas pendentes, e que,
portanto, deveria ter dado cria poucos dias antes. Outros traos em sentido
diferente, sempre marcando a superfcie da areia ao lado das patas dianteiras,
acusavam ter ela orelhas muito grandes; e como alm disso notei que as
impresses de uma das patas eram menos fundas que as das outras trs, deduzi que
a cadela da nossa augusta rainha manquejava um pouco, se assim me posso
exprimir.
-Quanto ao cavalo do rei, sabei que estando eu a passear pelos carreiros desse
bosque, avistei as marcas das ferraduras de um cavalo, todas colocadas a igual
distncia.  -Eis aqui - disse comigo - um cavalo que tem o galope perfeito.A
poeira das rvores, num caminho de no mais de sete ps de largura, mostrava-se
um pouco revolvida  direita e  esquerda,  a trs ps e meio do centro da rota.
-Este cavalo - tornei a considerar - tem a cauda de trs ps e meio, a qual nos
seus movimentos para a direita e para a esquerda, varre esta poeira. Vi depois
sob as rvores, que formavam um docel de cinco ps de altura, alguns ramos cujas
folhas tinham cado recentemente, e conclu que o animal que as roara com a
cabea, tendo, portanto, cinco ps de altura. Seu freio deve ser de ouro de
vinte e trs quilates, pois tendo batido numa pedra que verifiquei ser uma pedra
de toque, pude em seguida identific-lo. Enfim, pelas marcas das ferraduras
deixadas em pedras de outra espcie, deduzi que estava ferrado com prata fina.
Todos os juzes admiraram o profundo e sutil discernimento de Zadig; a notcia
chegou aos ouvidos do rei e da rainha. S se ouvia falar de Zadig nas
antecmaras, nas salas e gabinetes; e embora alguns magos opinassem que ele
devia ser queimado como feiticeiro, o rei ordenou que lhe devolvessem a multa de
quatrocentas onas de ouro a que havia sido condenado. O escrivo, os oficiais
de justia e os procuradores foram a sua casa em grande aparato levar-lhe as
quatrocentas onas, das quais apenas retiveram trezentas e noventa e oito para
as custas do processo, alm dos honorrios reclamados pelos servidores.
Zadig compreendeu que s vezes era perigoso ser demasiadamente sbio, e prometeu
a si mesmo no tornar a dizer o que porventura houvesse visto.
A ocasio no tardou a apresentar-se. Um prisioneiro de Estado tendo fugido,
passou por baixo das janelas de sua casa. Zadig interrogado nada respondeu, mas
provaram-lhe que ele havia olhado pela janela. Por esse crime foi condenado a
pagar quinhentas onas de ouro, e ainda agradeceu a benevolncia dos juzes,
como  costume em Babilnia. -Santo Deus! - exclamou ele para si, - quanto 
lastimvel ir-se passear a um bosque onde passaram a cadela da rainha e o cavalo
do rei! Como  perigoso a gente chegar  janela, e como  difcil ser feliz
neste mundo



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EXIBIO DA PROVA DE VIRGINDADE
Lus da Cmara Cascudo
Minha av materna, Dona Maria Ursulina da Camara Fernandes Pimenta (1835-1929),
referindo-se a uma moa desenvolva e airada no seu tempo, disse, distrada e
precisa: "Aquela no mostra os panos!..."
Eu j estava, h muitos anos, pesquisando etnografia e terminava o curso
jurdico. Perguntei a razo da frase. Vov atrapalhou-se e foi com muita
insistncia minha que atendeu explicar. Outrora, mesmo no tempo da Guerra do
Paraguai, uma hgira nos seres do Brasil, era costume a  exibio dos panos
ntimos da desposada, mas a me ou a sogra ia provar a virgindade da filha ou da
nora recm-casada, mostrando as ndoas de sangue na cambraia domstica. Os
membros da famlia, tios, avs, tinham o direito de ver o documento da violacao
legal do hmen. Quando tal exibio no ocorria, era natural a suposio de que
a noiva tivera matrimnio com marido no paciente na ocultao de pecado
anterior da nubente. "Aquela que no mostra os panos..." nao poder documentar
sua donzelice. Mesmo casada, ficava com fama de "mulher-solteira".
Na sua autobiografia, Freud alude  infinita hipocrisia com que todos escondem
quanto se refira  sexualidade, como se dela no participassem. Nos estudos de
etnografia e registros do folcore essa seo  tabu respeitado e ambivalente na
atrao e repugnncia de sua pesquisa e fixao.
Estudante de medicina, convivi em Natal com os velhos mdicos parteiros e deles
ouvi muita anedota curiosa sobre o pudor que enrolava ciumentamente a vida
sexual dos cnjuges consulentes. Quando lhes perguntava por que no escreviam
sobre aquele precioso material, limitavam-se a sorrir ou abanar a mo num gesto
de afastamento da tentao. Era assunto proibido. Ningum mais os consultaria
depois de divulgada tal observao. Segredo profissional.
Um estudioso honesto e de meticulosidade comprovada, Sr. Manuel Rodrigues de
Melo, revelara observao feita no serto do Serid: "Com o casamento, o lenol
da noiva era furado no centro para facilitar a cpula, resguardando,
naturalmente, o corpo dos olhares do noivo. Na manh seguinte ao casamento os
lenis eram estendidos  admirao do pblico, como prova da virgindade da
noiva e virilidade do noivo". Ora, a exigncia do pudor fsico outrora atingia
mincias inauditas. Rara seria a mulher casada que se despisse diante do marido.
Para muitos homens a nudez feminina era vista na intimidade mercenria das
cidades, fora uma revelao perturbadora. Nem a mulher se despia nem eles o
faziam, igualmente. O corpo era vedado ao olhar conjugal, para que no excitasse
demasiado, privando o homem do emprego de maior energia nos trabalhos da rotina
cotidiana. A cpula debilita como uma grande sangria na veia, diziam os antigos.
Ficava-se com o corpo aberto, enfraquecido pela descarga seminal. Cangaceiros,
caadores, viajantes no praticavam o coito em vspera de ao profissional.
Meu pai, em 1885, no lugar Quixab, sete lguas ao norte da cidade de Sousa,
Paraba, viu um pequeno avental de linho, bordado de retrs preto e vermelho
reproduzindo o rgo feminino, e com cordes para ser atado  cinta. Meu pai
deparou aquele folium vitis matuto enxugando ao sol numa dependncia da casa
onde se hospedara. Empregavam o avental na prpria juncao carnal. Afirmou-me ser
de uso comum naquele tempo. Meu pai confirmava a normalidade do uso do lenol
furado para casados de pouco tempo, primeiros meses de unio ntima. O lenol
era bordado com lavores em relevo e pea valiosa do enxoval.
O Sr. Alvaro Jos de Melo, alagoano d Sant'Antnio Grande, ouviu do seu tipo,
Ernesto Marinho de Melo, que na mesma cidade de Alagoas Velha (hoje Deodoro),
havia antigamente a mesma tradio do lenol furado, enfeitado ricamente e
tambm a exibio da camisa ou panos ntimos da recm-casada no dia seguinte ao
matrimnio. Expunham  janela ou dobrada na meia-porta, bem visvel a parte
manchada, e o pai da noiva ficava sentado, esperando os transeuntes que,
deparando a prova da virgindade, saudavam-no afetuosamente: "Meus parabns!" E o
velho respondia amvel: Muito obrigado. Assim dezenas de vezes. Quando no havia
tal documento visvel, os comentrios eram desfavorveis e cruis  honestidade
da nova senhora. Ela no mostrara os panos. Minha av dissera, evidentemente, um
fato indiscutvel e que desaparecera na citao comum e popular, perdida 
memria do uso e mesmo uma aluso  sua passada vulgaridade. (...)
Com tais rigores de evitao, seria um ndice de espantosa fora a tradicao de
algum expor aos parentes a camisa ou o lenol da noiva, ainda manchado das
provas da virgindade desfeita na noite anterior. Para essa amostra pblica o
pudor era no pratic-la, porque implicava confisso expressa de desonestidade
indiscutvel.
Meu pai, informador maravilhoso do serto e agreste do seu tempo (1863-1935),
evocava que, em certas ocasies, indo os noivos residir em casa separada daquela
em que a festa se fazia durante toda a noite, os parentes e familiares que
estavam danando e bebendo eram avisados da situao regular dos recm-casados
por um foguete ou disparo de espingarda. O estampido tranqilizava a todos e as
alegrias recrudesciam, mais intensas, sonoras e prolongadas. No havendo o sinal
esperado, ficavam aguardando o desfecho melanclico, a entrega da noiva,
humilhada, ao sogro confuso pelo seu pouco cuidado com a filha, impaciente de
amor sem casamento.
O lenol furado e os aventais bordados denunciavam o tabu do contato epidrmico,
materializando formas de impedir ou evitar a atordoante nudez feminina. A mesma
proibio, formal e categrica, no permitindo banhos conjuntos, de homens e
mulheres, para gregos e romanos, vive entre amerndios e africanos, orientais e
ocidentais, de maneira positiva e total. O negro e o indgena nem mesmo
atravessam as guas dos banhos femininos. Acreditam as mais humildes e pobres
meretrizes que esse banho irresponsvel, provocando a imagem confusa e reprovada
da promiscuidade, inferior e bestial. Dever interferir a lembrana do banho
sagrado, ritual lavador de mazelas morais, ao lado da defesa convencional ou
instintiva, do pejo e da vergonha.


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FINGIMENTO FELIZ
Marqus de Sade


 O mundo vive cheio de mulheres imprudentes que imaginam, contanto que no cheguem
s vias de fato com o amante, poder, sem ofenderem ao marido, condescender ao
menos num comrcio galante. Dessa maneira de ver resultam mais
de uma vez conseqncias mais perigosas do que seriam as de uma queda completa.
O que sucedeu  Marquesa de Guissac, dama de certa condio, de Nimes, no
Languedoc,  prova segura da mxima que entendemos formular aqui.
Louca, estouvada, alegre, cheia de esprito e gentileza, a Sra. de Guissac
pensou que algumas cartas galantes trocadas entre ela e o baro de Aumelas no
teriam nenhuma conseqncia, porque ficariam ignoradas para sempre, e, se por
infelicidade viessem a ser descobertas, podendo ela demonstrar ao esposo sua
inocncia, de modo algum incorreria em desgraa.
Foi engano.
O Sr. Guissac, ciumento em excesso, entra a suspeitar do comrcio dos dois,
interroga uma criada de quarto, apodera-se de uma carta na qual, embora nada
encontrando que lhe possa legitimar os receios, acha mais que o bastante para
alimentar-lhe as suspeitas.Neste cruel estado de incerteza, mune-se de uma
pistola e de um copo de limonada, e
penetra no quarto da esposa como um possesso.
- Estou sendo trado, senhora -, grita-lhe com furor. - Leia este bilhete. Ele
me esclarece. No h mais tempo para hesitao, deixou-lhe escolher a morte que
deseja. A Marquesa defende-se, jurando ao esposo que ele est enganado. Ser
culpada de imprudncia, mas no de nenhum outro crime.
- No mais me enganars, prfida -, responde furioso o marido. - No mais me
enganars. Apressa-te em escolher, seno esta arma h de privar-te imediatamente
da luz do dia.
Aterrada, a pobre Marquesa decide-se pelo veneno, pega do copo e pe-se a
esvazi-lo.
- Pra! - interrompe-a o marido no instante em que j foi absorvida a metade do
lquido. - No perecers sozinha. Odiado e trado por ti, que outro fim haveria
eu de levar?
Ao concluir essas palavras, engole a outra metade do lquido.
- Senhor - exclama a Sra. Marquesa de Guissac -, no horrvel estado a que acaba
de nos reduzir, no me recuse um confessor, e que eu possa pela ltima vez
abraar meu pai e minha me.
Mandam-se buscar imediatamente as pessoas reclamadas por aquela desditosa
mulher. Ela se atira ao seio daqueles a quem deve a vida e protesta de novo a
sua inocncia. Mas como censurar um marido que se julga enganado e que, ao
infligir to
cruel castigo  esposa, se imola a si mesmo tambm? S resta o desespero, e as
lgrimas que correm abundantes dos olhos de ambos.
Nisso chega o confessor.
- Neste momento cruel da minha vida - diz a Marquesa -, desejo, para consolao
de meus pais e honra de minha memria, fazer uma confisso pblica.
E logo passa a acusar-se em voz alta de quanto lhe pesa na conscincia desde que
nasceu. O marido, atento, como no ouve pronunciar o nome do Baro, e certo de
que no  num momento daqueles que a esposa ousaria recorrer ao fingimento,
levanta-se no auge da alegria.
- Meus queridos pais - exclama abraando o sogro e a sogra -, consolem-me, e que
sua filha me perdoe o susto que lhe preguei; ela me deu bastante inquietao
para que me fosse permitido retribuir-lha. No que acabamos de engolir nunca
houve a menor dose de veneno. Ela que sossegue, assim como todos aqui, mas
lembre-se de que uma esposa deveras honesta no s deve abster-se de agir mal,
mas tambm no deixar pairar suspeitas acerca do seu procedimento.
A Marquesa tardou a refazer-se: julgara estar realmente envenenada a ponto de a
fora da prpria imaginao lhe fazer experimentar todas as angstias de
semelhante morte. Ergue-se trmula, abraa-se ao marido. A alegria sucede  dor,
e a jovem senhora, admoestada mais do que seria mister por aquela cena horrvel,
promete evitar, no futuro, at a aparncia da mais leve incorreo.
Manteve a palavra, e viveu mais de trinta anos com o esposo, sem lhe dar motivo
para a mais leve censura.

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Histria de dois irmos siameses
Tristan Bernard

Todos vocs sabem, de memria, aquela fbula de La Fontaine, em que um velho, no
leito de morte, pede aos filhos que permaneam unidos, se quiserem prosperar na
vida.
A quem melhor se pode dirigir este conselho, que a dois irmos siameses? Se
permanecerem bem unidos, podero ganhar at 150 francos por dia em um circo. Ao
passo que, se resolvessem se separar, ganhariam, com dificuldade, 1,5 dirio,
escrevendo endereos em envelopes.
Conheci, em Londres, dois destes gmeos ligados, chamados comumente de irmos
siameses e denominados cientificamente xifpagos.
Edward-Edmond possuam fortuna considervel, o que os dispensava de exibir-se
como fenmenos.
Edward nasceu em Manchester, havia 25 anos.
Edmond nasceu, igualmente, em Manchester, na mesma altura.
Na adolescncia, se pareciam se maneira extraordinria, a tal ponto que as
pessoas, que no diferenavam a sua esquerda da sua direita, no conseguiam
distingui-los.
Porm, com o andar do tempo, surgiram, entre eles, diferenas morais muito
profundas. Edward era dado aos estudos e tinha pontos de vista severos, ao passo
que Edmond tinha um instinto plebeu. O ltimo s encontrava prazer no convvio
de mulherzinhas e de bbados. O infeliz Edward, livro de estudos nas mos, era
obrigado a seguir Edmond em tavernas e lupanares. E, quando Edmond tornava brio
a casa, Edward, o rubor a marcar-lhe a fronte, era compelido a ziguezaguear com
ele, para no afetar sua membrana.
Edward fez-se erudito conhecido. Mas no podia ser convidado freqentemente a
banquetes de sociedades cientficas, pois o inconveniente Edmond, a partir da
sopa, principiava a contar histrias obscenas, que as pessoas decentes reservam,
em geral, para a sobremesa.
No ano passado, Edward pediu a mo de uma jovem bela e rica. O matrimnio
realizou-se com grandes pompas. No houve outra soluo seno convidar Edmond,
que, alis, se portou bastante bem durante a cerimnia. Teve-se a impresso de
que a cunhada o intimidava ligeiramente. No cortejo nupcial, a esposa de Edward,
o dito Edward, Edmond e sua dama de honra, desfilaram os quatro em fila, em meio
 admirao geral.
Edmond, na noite de npcias, foi muito delicado e discreto. Adormeceu antes que
os outros e, na manh seguinte, aparentou despertar muito tarde. Durante a lua
de mel de seu irmo, bebeu com menos freqncia, cuidou o vocabulrio e
vestiu-se decentemente, pois que deveria sair em companhia de uma senhora.
A jovem esposa - j lhes disse que se chamava Cecily? - exercia enorme
influencia sobre Edmond. Ao fim de certo tempo, aconteceu o que acontece muito
amide, quando se introduz um rapaz solteiro em seu lar. Cecily e o prfido
Edmond encetaram relaes culposas.
Durante 6 meses, Edward de nada se apercebeu.
Porm, tudo se acaba por saber.
Edward encontrou, em uma caixa mal fechada, umas cartas e soube de maneira
insofismvel que sua mulher e seu irmo o traam diariamente.
Que partido tomar?
Bater-se em duelo com Edmond, seria entrar em conflito com os costumes ingleses.
Temia tambm as soporferas discusses dos padrinhos. O duelo, com pistolas,
resultaria impossvel, bem como o com espadas, dada a proibio do
corpo-a-corpo.
Alm do mais, que sucederia se matasse ao irmo? Poderia continuar a vida em
comum com sua mulher? Sempre haveria um cadver entre eles!
Chamou Cecily.
- A partir de hoje - disse-lhe - no mais profanars o domiclio conjugal.
Vai-te.
- Est bem - disse ela.
- Est bem - disse Edmond. - Eu a acompanho.
O marido no teve outro remdio que segui-los.
Edmond instalou Cecily num apartamento deveras confortvel. E, como entre
xifpagos, tudo termina por acomodar-se, os trs viveram muito felizes.

*****


O Armrio
Thomas Mann

O crepsculo descera, fresco e nublado quando o expresso Berlim-Roma se deteve
numa pequena estao. Num compartimento de primeira classe, de poltronas altas,
forradas de pelcia coberta de renda, ergueu-se um viajante solitrio: Albert
van der Qualen. Despertara. Tinha na boca um sabor adocicado e seu corpo era
presa de sensaes desagradveis que, aps uma longa corrida, provoca a parada
do trem, o emudecer do seu ritmo barulhento, o silncio em que se destacam de
modo expressivo os rudos exteriores, os gritos, os sinais.  como voltar a si
de uma embriaguez, de um atordoamento. Aos nossos nervos so subitamente
arrancados o apoio, o ritmo a que se tinham abandonado; e sentem-se abalados e
desamparados. Tanto mais se nesse momento despertamos de um sono pesado de
viagem.
Albert van der Qualen espreguiou-se um pouco, aproximou-se da janelinha e
abaixou o vidro. Olhou ao longo do trem. Na frente, junto ao vago do correio,
alguns homens afanavam-se, carregando e descarregando pacotes. A locomotiva
apitou vrias vezes, espirrou e gorgoleou um pouco, depois se calou e permaneceu
imvel, mas como est imvel um cavalo que levanta os cascos, impaciente, agita
as orelhas e espera avidamente o sinal para pr-se em movimento. Uma senhora
alta e gorda, vestida com um longo impermevel, carregava com ar de grande
preocupao uma maleta que pesava algumas arrobas; impelia-a para a frente com
um joelho, aos saltos, ao longo dos vages, em ziguezagues; no dizia uma s
palavra e tinha o olhar amedrontado de um animal acuado; o lbio superior,
sobretudo, projetado para a frente e coberto de gotculas de suor, tinha algo de
indizivelmente comovente. -Pobre criatura-, disse consigo mesmo van der Qualen -
-pudesse eu ajudar-te, arranjar um lugar, confortar-te, fosse apenas por amor ao
teu lbio! Mas cada um por si:  a regra. E eu, que neste momento no tenho o
menor motivo de preocupao, aqui estou a olhar-te, como olharia um escaravelho
cado de costas.-
A modesta estao estava imersa numa luz crepuscular. Seria manh ou tarde? No
sabia. Dormira, e tanto podia ter dormido duas horas como cinco ou doze. J no
lhe acontecera dormir vinte e quatro horas e mais, mesmo, sem a menor
interrupo, com um sono profundo, fora de propsito? Van der Qualen envergava
um casaco de inverno, um tanto curto, marrom, com gola de veludo. Pelos traos
de sua fisionomia seria muito difcil determinar-lhe a idade: podia oscilar
entre vinte e cinco e quarenta anos. Tinha a ctis amarelada e seus olhos
negros, cercados de sombras profundas, brilhavam como brasas. Diversos mdicos a
ele se dirigindo com gravidade e franqueza, sem rebuos, poucos meses de vida
lhe haviam dado. Seus cabelos castanhos e lisos estavam repartidos do lado.
Em Berlim, porquanto no fosse Berlim a cidade de onde iniciara sua viagem -
subira por acaso, com uma maleta de couro vermelho, no expresso que ia partir.
Dormira e, agora ao despertar, sentiu-se to inteiramente fora do tempo que foi
invadido por uma sensao de bem-estar.
No tinha relgio. Dava-lhe prazer a idia de que  correntinha de ouro, que
trazia ao pescoo, estava preso apenas um pequeno medalho que enfiava no bolso
do colete. No lhe aprazia saber as horas, ou o dia da semana; e nem mesmo
possua um calendrio. Durante muito tempo se subtrara ao habito de estar a par
do dia, dos meses ou at do ano. -Tudo deve flutuar no ar-, costumava pensar; e
com essa frase, na verdade um pouco obscura, ele abrangia muitas coisas. Envolto
na sua ignorncia, era raramente incomodado. Raramente, ou melhor, nunca; pois
se esforava para conservar longe de si tudo quanto pudesse incomod-lo. No lhe
bastava saber em que estao do ano estava? -Estamos no outono, imaginou,
olhando, l fora, a estao mida e baa; mais no sei! Onde estarei eu?-
E, subitamente, a essa idia, a sua satisfao se transformou em sbito horror.
No, no sabia onde se encontrava. Estaria ainda na Alemanha? Sem dvida. Na
Alemanha do norte? Quem sabia? Com olhos ainda anuviados pelo sono vira a
janelinha do seu compartimento deslizar diante de uma tabuleta iluminada, na
qual provavelmente estaria escrito o nome da estao; nem uma s das letras lhe
chegara ao crebro. Ainda entorpecido ouvira o guarda gritar duas ou trs vezes
um nome, mas no distinguira uma nica slaba. Mas ali, sob o crepsculo, no
sabia se vespertino ou matutino, ali se oferecia um lugar desconhecido, uma
cidade ignorada. Albert van der Qualen tirou da rede o chapu de feltro, apanhou
a maleta de couro vermelho, que apertava nas correias uma manta de l macia, de
xadrez branco e vermelho, dentro da qual estava tambm enfiado um guarda-chuva
de cabo de prata, e embora tivesse passagem para Florena, deixou o
compartimento, atravessou a estaozinha, depositou a bagagem no lugar adequado,
acendeu um charuto, meteu as mos nos bolsos do casaco - no levava bengala, nem
guarda-chuva - e afastou-se da estao.
Fora, na praa escura e mida e quase vazia, cinco ou seis cocheiros faziam
estalar o chicote; e um homem com bon de gales, que se agasalhava trmulo, num
longo capote, disse interrogativamente: -Hotel Galantuomo?- Van der Qualen
agradeceu-lhe cortesmente e continuou a andar. As pessoas que encontrava haviam
levantado a gola; fez o mesmo e, afundando o queixo no veludo, prosseguiu a
passo normal, fumando.
Passou diante de um muro escorado por estacas, de uma velha porta com duas
torres macias, e atravessou uma ponte; no parapeito desta havia duas esttuas,
embaixo a gua corria, turva e lenta. Passou uma barcaa decrpita; na popa um
homem remava com uma longa vara. Van der Qualen deteve-se um momento e
inclinou-se sobre o parapeito, pensando: -Vejo um rio: o rio.  bom no
saber-lhe o nome-. E prosseguiu.
Caminhou ainda um momento pela calada da rua, nem larga, nem estreita, depois
virou  esquerda. Anoitecia. As lmpadas de arco oscilaram, piscaram duas ou
trs vezes, irrequietas, acenderam-se, silvaram, cintilaram na nvoa. As lojas
iam se fechando. -Podemos dizer que estamos no outono, sob todos os pontos de
vista-, pensou van der Qualen, e continuou a caminhar pela calada mida e
negra. No tinha galochas mas suas botinas eram muito largas, slidas,
resistentes, e nem por isso destitudas de elegncia.
Virou  esquerda, outra vez. Transeuntes passavam a seu lado, friorentos. -E eu
caminho no meio deles - pensou van der Qualen, sozinho e desconhecido como
provavelmente nenhum homem jamais se encontrou. No tenho negcios e no tenho
objetivo. Nem mesmo uma bengala em que me apoiar. No  h uma s pessoa que
possa sentir-se mais entregue a si mesma, mais livre, mais desembaraada.
Ningum me deve nada e no devo nada a ningum. Deus no ps sua mo na minha
cabea, no me conhece de maneira alguma. Ter sido sempre um desgraado sem
nunca ter mendigado  uma bela coisa;  possvel dizer-se: no tenho dvidas
para com Deus.
Chegara ao limite da cidade. Provavelmente ele a atravessara por dentro, em
diagonal. Encontrava-se numa ampla estrada perifrica, com rvores e palacetes;
virou  direita, percorreu trs ou quatro vielas, que pareciam ruas de aldeia,
iluminadas por lampies de gs e finalmente se deteve numa rua um pouco mais
larga, junto a uma porta de madeira; ao lado havia uma casa pintada de amarelo
sujo, uma casa de aspecto vulgar e que, contudo, se destacava das outras, pois
os vidros das janelas eram de cristal, fortemente convexos e bem escuros. 
porta estava fixado um cartaz com os dizeres: -Nesta casa se alugam quartos no
terceiro andar-. -Ah, sim?- Murmurou van der Qualen. Atirou fora o toco do
charuto, entrou, ladeou um tabique que separava a propriedade da vizinha,
transps,  esquerda, a porta da casa, atravessou com dois passos o vestbulo
onde um miservel cobertor pardo fora estendido  guisa de passadeira, e comeou
a subir a modesta escada de madeira.
Tambm as portas dos alojamentos eram despretensiosas, com vidros opalescentes
protegidos por redes metlicas; de quando em vez havia um carto com um nome. Os
patamares eram iluminados por lmpadas de petrleo. E no terceiro andar - o
ltimo antes das guas-furtadas - tambm havia portas  direita e  esquerda da
escada: singelas portas escuras, que davam diretamente nos quartos; no se via
nenhum nome. Van der Qualen puxou a campainha de lato, junto  porta do meio. A
campainha retiniu mas no se ouviu o menor movimento no interior do cmodo.
Bateu na porta,  esquerda; nenhuma resposta. Bateu na porta,  direita;
ouviram-se leves passos arrastados e a porta abriu.
Era uma mulher, uma senhora alta e magra, idosa e esguia. Usava uma touca com um
grande lao lils plido e um vestido preto, desbotado e fora de moda. Tinha um
rosto escarnado de pssaro e via-se-lhe na testa um tumor, uma excrescncia
fungosa e repulsiva.
- Boa noite! Disse van der Qualen. Os quartos... A velha senhora assentiu;
assentiu e sorriu lentamente, muda e compreensiva; e com uma bela mo longa e
branca, com gesto vagaroso, fatigado e fidalgo, indicou com a fronte a porta 
esquerda. Retirou-se em seguida e tornou a surgir com uma chave. -Bem!- Disse
van der Qualen consigo mesmo, ao v-la reaparecer, sois como um pesadelo, como
uma gravura de Hoffmann, gentil senhora-. Ela tirou do gancho a lmpada de
petrleo e mandou-o entrar.
Era um quarto pequeno e de pouca altura, com um soalho escuro; tinha as paredes
revestidas de cima a baixo com esteiras cor de palha. A janela, no fundo, 
direita, estava velada por uma cortina de musselina branca, que caa em longas e
graciosas pregas.  direita, uma porta branca comunicava com o quarto contguo.
A velha senhora abriu-a e suspendeu a lmpada. O quarto era terrivelmente
descorado: trs cadeiras de vime, envernizadas de vermelho-claro, destacavam-se
como morangos em nata batida contra as paredes brancas e nuas. Um armrio, um
lavatrio com espelho... Uma cama, mvel macio de mogno, ocupava o centro do
quarto.
- Tem qualquer objeo a fazer? Indagou a velha senhora, com a bela mo longa e
branca apalpou o tumor fungoso da testa. Parecia ter falado por engano, como se
no momento no conseguisse encontrar uma expresso mais adequada. Acrescentou em
seguida: -posso falar assim?-
- No, nenhuma objecao, respondeu van der Qualen. O aluguel do quarto  bastante
razovel. Fico com ele... Gostaria que algum fosse retirar a minha bagagem da
estao; aqui est o comprovante... Tenha a bondade de mandar arrumar a cama e a
mesa de cabeceira... e de entregar-me a chave da casa e a do apartamento... e
tambm de arranjar-me duas toalhas. Vou me arrumar um pouco, depois cearei no
restaurante e voltarei mais tarde.
Tirou do bolso um estojo niquelado, apanhou o sabo e comeou a esfregar o rosto
e as mos no lavatrio. Atravs dos vidros acentuadamente recurvos avistava, l
embaixo, as lmpadas de arco e os palacetes, alm da estrada enlameada da
periferia, imersa na luz de gs.
Enquanto enxugava as mos, aproximou-se do armrio: era um mvel quadrado,
pintado de marrom, um pouco oscilante, com uma cimalha muito simples; e estava
embutido no meio da parede,  direita bem no vo de uma segunda porta branca;
esta deveria abrir-se para os quartos que, no patamar, davam acesso  porta
principal, e para a do meio. Abriu-o. O armrio estava vazio e mostrava vrias
fileiras de ganchos pendentes do forro; percebeu, porm, que aquele mvel macio
no tinha parede de fundo; era apenas tapado por um tecido cinzento, um pano
rgido e grosseiro, preso nos quatro quantos por pregos.
Van der Qualen fechou o armrio, apanhou o chapu, levantou a gola do casaco,
apagou a vela e saiu. Ao atravessar o quarto da frente pareceu-lhe distinguir,
por entre o rumor de seus passos, um som que provinha do quarto contguo; era um
som metlico, lmpido e leve; mas podia ser que se enganasse: -Tal como um anel
de ouro que casse num copo de prata-, pensou, ao fechar a porta do seu
apartamento; desceu a escada e reencontrou a estrada que levava  cidade.
Entrou num restaurante iluminado, numa rua movimentada, e sentou-se a uma mesa,
na parte da frente, voltando as coisas a todos os que chegavam. Tomou uma sopa
de repolho com torradas, comeu um bife com ovos, compota de fruta, vinho, um
pedacinho de gorgonzola e meia pra. Enquanto pagava a nota e vestia o casaco,
aspirou algumas baforadas de um cigarro russo, depois acendeu um charuto e saiu.
Andou um pouco ao acaso, depois encontrou a estrada que o levava  casa, na
periferia, e por ela enveredou sem pressa.
A casa dos vidros de cristal estava imersa no silncio e nas trevas quando van
der Qualen abriu a porta e subiu as escadas escuras. Acendeu um fsforo e, ao
chegar ao terceiro andar, abriu a porta escura,  esquerda, que dava entrada ao
seu quarto.
Colocou o casaco e o chapu sobre o div, acendeu a lmpada pousada sobre a
grande escrivaninha e avistou a maleta, e a manta enrolada com o guarda-chuva.
Desdobrou a manta e tirou de dentro uma garrafa de conhaque, depois apanhou um
clice na maleta e, enquanto acabava de fumar o charuto, recostado na poltrona,
sorveu a bebida. - bom que no mundo sempre haja conhaque-, pensou. Depois se
dirigiu ao dormitrio, acendeu a lmpada do outro quarto. Colocou na cadeira
junto  cama, uma a uma, as peas do terno cinzento; enquanto desapertava o
cinto, lembrou-se de que o casaco e o chapu tinham ficado em vima do div; foi
busc-los, abriu o armrio... Deu um grande passo para trs, estendeu a mo para
segurar uma das grandes bolas de mogno vermelho escuro que adornavam os quatro
cantos da cama, s suas costas.
O quarto com suas esqulidas paredes brancas, com as cadeiras envernizadas de
vermelho que ressaltavam como morangos na nata batida, estava imerso na luz
bruxuleante da vela. E la no fundo, o armrio, com a porta escancarada, no
estava vazio; havia algum l dentro, uma criatura, um ser vivo, to linda, que
o corao de Alberto estacou durante um momento, e depois recomeou a pulsar com
batidas lentas, suaves e cheias. Ela estava toda nua e conservava erguido o
brao delicado, segurando-se com o indicador a um dos ganchos fixados no
armrio. A onda dos longos cabelos escuros caa-lhe nos ombros; e aqueles ombros
infantis tinham um fascnio a que s se consegue responder com um soluo; nos
olhos negros, oblongos, refletia-se a luz das velas. A boca era um pouco grande,
mas tinha uma expresso meiga, como os lbios do sono quando se pousam na nossa
testa, depois de um dia de sofrimento. Conservava os calcanhares juntos e as
pernas esbeltas estavam apertadas uma contra a outra.
Alberto van der Qualen passou pelos olhos e viu... viu tambm que o pano
cinzento, no fundo do armrio, estava despregado, no canto  direita.
- Como? Indagou ele, no quer entrar?... como direi... sair? No aceita um
clice de conhaque? Meio clice?... - Mas no esperava e no obteve resposta.
Aqueles olhos estreitos, cintilantes, estavam fixos nos seus, mas com um olhar
vago, incerto, vazio, como se no o visse.
- Quer que te conte? Perguntou-lhe de chofre, com voz velada e calma.
- Conta, respondeu ele. Sentou-se pesadamente na beira da cama, conservando
sobre os joelhos o casaco, no qual pousava as mos juntas. Tinha a boca
entreaberta e os olhos entrefechados. Mas o sangue corria-lhe quente e suave nas
artrias e seus ouvidos zumbiam ligeiramente.
Ela se sentara no armrio e com os braos delicados cingia um joelho, que
conservava soerguido, ao passo que a outra perna pendia para fora. Os pequenos
seios estavam comprimidos pela parte superior do brao e a pela esticada do
joelho rebrilhava. Ela contou... contou em voz baixa, enquanto a chama da vela
executava danas mudas...
-Um casal passava na charneca e a cabea da mulher descansava no ombro do homem.
As ervas exalavam um perfume acre, mas do horizonte j subiam nvoas turvas da
noite-. Foi esse o comeo. E muitas vezes eram versos, que tinham rimas doces e
alegres, como costuma acontecer na sonolncia de certas noites de febre. Mas no
acabou bem. O fim foi triste, como quando dois entes esto estreitamente
abraados e, enquanto seus lbios se tocam, um deles crava no peito do outro um
grande punhal, e talvez tenha boas razoes para faz-lo.
Foi assim que terminou. E depois se ergueu com um movimento calmo, impregnado de
modstia, suspendeu o pedao de tecido cinzento que compunha a parede de fundo
do armrio e desapareceu.
Da por diante todas as noites ele a encontrou dentro do armrio e ouviu contar.
Quantas noites? Quantos dias, semanas ou meses ter permanecido naquela casa,
naquela cidade? Seria intil dizer quantas. A quem importaria um miservel
nmero? E sabemos que vrios mdicos tinham concedido a Alberto van der Qualen
apenas alguns meses de vida.
Ela continuava a contar. E eram histrias tristes e desoladas; mas pesavam
suavemente no corao e faziam-no pulsar mais devagar, beatificamente. s vezes
ele no conseguia conter-se. O sangue lhe fervia, estendia as mos para ela, que
no lhe oferecia resistncia. Depois, porm, por muitas noites no mais a
encontrou no armrio; e quando voltou, por muitas noites no contou coisa
alguma; recomeou a faz-lo devagar, at que outra vez ele no se conteve...
Quanto tempo durou isso? Quem poder diz-lo? E quem poder dizer que Alberto
van der Qualen realmente despertou aquela tarde e desceu naquela cidadezinha
desconhecida, ou se permaneceu no seu compartimento de primeira classe, e foi
levado a grande velocidade para longe, alm das montanhas, no expresso
Berlim-Roma? Qual de ns ser capaz de dar uma resposta certa a essa pergunta e
de sustent-la sob palavra? O fato , na verdade, incerto. -Tudo deve flutuar no
ar...-



****

Namorados
D.H. Lawrence
- Pois  verdade, minha querida - disse Henriqueta - se eu tivesse uma expresso
assim enfastiada ao ir passar o fim de semana com o noivo (com quem se est para
casar dentro de um ms) faria o possvel para modificar, ou esconder
sentimentos, ou qualquer coisa neste gnero.
- Cale-se - disse Ester em tom intimidativo. - E no me olhe.
- V l, menina, no te d alguma das tuas raivas! Mas se queres saber o que te
quis notar, olha-te no espelho.
Henriqueta, que era a mais nova e no estava ainda prometida, ps-se a assobiar
uma msica.  Tinha vinte e um anos e no queria arriscar a sua paz de esprito
aceitando um anel de noivado. Contudo, achava graa em ver Ester -lanar-se ao
mar-, segundo sua frase pitoresca. Esta  que j tinha vinte e cinco anos,
circunstncia de certa gravidade.
O pior  que Ester, ultimamente, apresentava sua famosa expresso de tdio em
presena do simptico Jos: olheiras, testa enrugada, etc. Quando a irm se
mostrava assim, Henriqueta no podia evitar uma sensao de horror; confrangia
seu corao, detestava aquilo. Chegava a se sentir amedrontada.
O que eu queria dizer - continuou ela - era isto: que parece deslealdade com
Jos essa cara com que tu o recebes. Arranje outra, ou ento...
Calou-se, porm. Ia dizer: -Ou ento, desiste-. Mas a verdade  que se
interessava pelo casamento da irm. Uma vez realizado, seria um peso que lhe
tiravam da cabea!
Sentou-se na cama, ergueu o queixo, e comps uma face suave, de anjo
meditabundo. Era deveras amiga da irm, e o ar maado desta afligia-a com maus
prenncios.
- Olha para mim, Ester. Queres que v contigo a Markbury? No me importo de ir,
se quiseres.
- Minha querida, que vantagem haveria nisso? - exclamou a noiva, desesperada.
- Julguei que podia pr obstculo as intimidades, que tanto te maam...
Ester ripostou como uma gargalhada falsa, motejadora.
- No sejas criana, Henriqueta! - comentou ela.
E Ester foi sozinha para o Wiltshire, onde o seu Jos havia acabado de adquirir
uma pequena fazenda, pensando no casamento. Depois de ter sido militar,
sentira-se cansado e doente; alm disso, Ester nunca havia estado em uma vila
suburbana. Todas as mulheres idealizam o seu lar atravs do anel de casamento.
Ester apenas o antevia de esguelha, e to longe!
Jos construra o seu bangal de madeira, em grande parte com suas prprias
mos. Em um dos extremos do terreno passava um riacho, junto de dois salgueiros
antigos. Aos lados havia telheiros pintados de castanho e capoeiras. Em um
recinto vedado com arame ficavam os porcos e, mais adiante, duas vacas e um
cavalo. Eram, enfim, trinta e tantos acres de terra e s com um rapaz para
ajud-lo. J se sabe, contava tambm com Ester.
Tudo aquilo tinha um ar moderno e asseado. Jos era trabalhador. Ele mesmo
transparecia juventude e limpeza, parecia saudvel e satisfeito consigo prprio.
No chegava a ver a tal -expresso enfastiada-. Ou, se a via, se limitava a
dizer:
- Acho-te com certa fadiga, Ester. A vida da cidade te cansa mais que a mim.
Quando vieres para c, sers outra moa.
-  possvel - respondia Ester.
Ela tambm gostava do lugar. Gostava das galinhas brancas e das amarelas, dos
porcos e do resto. Os ramos dos salgueiros levavam at o cho as suas folhas de
lminas finas. Ester adorava isso, assim como a folhagem morta que se despregava
das rvores.
Disse a Jos que tudo se lhe afigurava delicioso, belo, imponente. Ele ficou
encantado. Adaptara-se plenamente a essa vida.
A me do ajudante serviu-lhes almoo. De tarde, Ester e o noivo gozaram o sol e
fizeram mil e uma tarefas; depois, ela enxugou a loua que a me do rapaz havia
lavado.
- No falta muito! - repetiu Ester, cirandando na minscula cozinha de paredes
de madeira.
A mulher foi embora. Depois do ch, o rapaz tambm partiu, e Jos e Ester
recolheram as galinhas e os porcos. Caa a noite. Ester entrou em casa e
preparou a ceia, arranjando um pouco de fruta cozida. Jos acendeu o fogo da
sala de estar e considerou-se uma pessoa importante e satisfeita.
Os dois deviam ficar ss no bangal at que o ajudante regressasse, na manh
seguinte. Seis meses antes, Ester teria achado adorvel. Sentiam-se to bem
juntos! Haviam sido amigos desde muito novos, as respectivas famlias davam-se
bem. Jos era pacato, srio; nada se podia recear dele. Nem dela. Graas a Deus!
Mas agora, infelizmente, desde que lhe prometera casamento, Jos cometera o erro
de se apaixonar por Ester. Antes nunca fora assim. E, se ela adivinhasse que tal
aconteceria, teria dito com franqueza: -Continuemos amigos, Jos; isso  uma
inferioridade.- Uma vez ele ps-se a acarinh-la, a
Beij-la. Ester achou a cena intolervel mas compreendeu que seu dever seria
suportar.
- Tenho pena, Ester - disse ele - que no estejas enamorada de mim como eu estou
de ti.
- Ora adeus! - exclamou ela - Se no estou,  caso para te regozijares.  tudo
quanto te digo.
Ouviu esta observao certeira, mas no lhe deu todo o valor. Nunca encarava as
coisas como deviam ser: abertamente. Atenuava-as, deixando-as no escuro, e
achava que assim era melhor. Melhor para ele,  claro.
Jos era bastante competente em automveis, em lavoura e noutros conhecimentos.
E Ester devia ter um organismo to complexo como um carro! Toda ela estava cheia
de muitas e sutilssimas vlvulas e magnetes e aceleradores e de tudo mais que
lhe constitua o ser. Se, ao menos, pudesse conduzi-la com cuidado com que
guiava seu automvel! Era preciso p-la em marcha e dar um jeito certo ao
guiador. A prpria Ester sentia que necessitava de umas voltas a manivela, para
seguir na estrada matrimonial com o seu Jos. Ele, no entanto - que insensato -
sentava-se em um carro parado e supunha estar fazendo muitos quilmetros a hora.
Naquela noite, a moa ficou bastante desesperada. Trabalhara com ele toda a
tarde e gostara de se sentir na sua companhia. Mas agora que estavam sozinhos -
essa estpida salinha, e o fogo confortvel, e o Jos, e o cachimbo do Jos, e
o ar asseado do Jos, tudo lhe pareceu insuportvel.
- Vem sentar aqui, minha filha - convidou ele em tom persuasivo, indicando um
canto do sof a seu lado. E ela, porque acreditava que uma senhorita decente se
consideraria contentssima em aceitar, foi e sentou-se junto do noivo. Mas
estava furiosa. Que desaforo. Que descaramento, isso de ter um sof. Ester odiou
a vulgaridade dos sofs.
Aturou-lhe em seguia o amplexo do brao, que lhe cingiu a cintura, e certa
presso que presumiu ser uma carcia. Ester pensou que nada haveria mais
inspido do que a cara dele, agora que a sua franqueza e retido estavam
ausentes. Que ridcula a maneira de lhe afagar o pescoo! Que idiotice essa de
quererem imitar pombinhos. Gostaria de saber que doces banalidades Lord Byron,
por exemplo, teria murmurado ao ouvido das suas eleitas. Esse no havia de ter
sido, com certeza, nem to jovial nem to incompetente. Que monstruosidade,
beija-la daquela maneira!
- Preferia que tocasses qualquer coisa para eu ouvir, disse ela, esquivando-se.
- achas que  preciso tocar esta noite, minha querida?
- Por que dizes esta noite? Gostava tanto de ouvir Tchaikowsky... qualquer
msica que me desperte!
Jos levantou-se, obediente, e sentou-se ao piano. Tocou muito bem e ela
ouviu-o. Tchaikowsky podia conserv-la desperta toda a noite. Se Ester j estava
desesperada com o aspecto amoroso de Jos, depois da msica  que ento a coisa
se agravou.
- Que lindo! - exclamou - Agora toca o meu noturno favorito.
Enquanto ele se concentrava a premer as teclas, Ester escapuliu para o ar livre.
Ah! Que suspiro de alvio ao respirar a atmosfera suave de outubro! A escurido
era intensa; a ocidente luzia um crescente de lua. No mexia uma folha; as
trevas jaziam sobre a terra como uma espcie de nevoeiro.
Ester sacudiu o cabelo e foi se afastando da casa, que ressoava toda, agora, com
o seu noturno favorito. O que ela queria era por-se fora do alcance das notas.
Que noite adorvel! Abanou outra vez a cabea e sentiu-se disposta a
arremessar-se ao infinito - embora o infinito fosse um campo pertencente a uma
fazenda ao lado. Ester, porm, deliciava-se na contemplao da lua distante.
- -Oh, partir para longe, para o alm! Reconheo que sou idiota- - disse para
si.
Todavia, continuou embebida nas suas fantasias. Se houvesse outra soluo, fora
do romantismo de Jos! Sim, que noivo ridiculamente apaixonado!
Havia, contudo, cavalos soltos naquele campo, e ela, cautelosamente, voltou para
acerca do noivo. Aquilo definia-o bem: ter um terreno to acanhado que no podia
fugir ao som do piano sem invadir a propriedade alheia.
Quando chegou junto do bangal, o piano, de sbito, calou-se. Oh, cus! Ester
olhou em roda, desnorteada. - Um dos velhos salgueiros inclinava-se para o
riacho. Ela agachou-se, rastejou e, com a ligeireza de um gato, foi trepando no
tronco at a espessura da folhagem.
Mal se havia colocado em posio razovel quando Jos surgiu de dentro de casa e
se ps a procur-la. Que atrevimento! Ester manteve-se quietinha, como um
morcego entre as folhas da rvore, espiando, vendo-o errar de cabea nua e ar
aparvalhado, em busca dela. Onde estava a sua suposta magia varonil? Por que se
mostrava to perplexo?
- Ester!- chamava ele, com voz meiga. Onde te meteste?
Comeava a zangar-se. A moa conservou-se na rvore, afetando indiferena. No
tinha a menor inteno de responder. Era como se ele no existisse. E Jos
prosseguia na busca, vagamente infeliz.
Ela, ento, teve o seu escrpulo de conscincia. -Na verdade - pensou -  cruel
a maneira como o trato. Coitado do Jos.- E, dentro da sua alma, repercutiam-se
essas vozes conciliadoras. Mas, apesar disso, no lhe agrava recolher a casa e
passar a noite com ele, um frente ao outro.
- absurdo admitir a possibilidade de me apaixonar por esse rapaz. Antes queria
meter-me no chiqueiro.  to aflitivamente vulgar! Na realidade, isso  prova
que, no fundo, no me tem amor.-
Este pensamento, uma vez suscitado, j no a largou. -O prprio fato da sua
denguice prova que no me ama. Nenhum homem que ame uma mulher a namora desta
maneira. Chega a ser insultante!-
Pensou assim e comeou a chorar. Escorregou-lhe um p e esteve quase caindo. Com
isto, voltou a compenetrar-se na realidade.
Viu-o, ento,  distancia, de regresso  casa,  aquela imagem amargurou-a -Para
que arranjou toda esta embrulhada? Eu jamais quis casar, fosse com quem fosse, e
nunca dei ensejo a que se enamorassem de mim! Sou muito infeliz! Serei anormal?
A maioria das moas passa por esta fase do namoro. A maioria deve ser normal. De
forma que eu no sou, e alm disso, trepei a uma rvore. Detesto-me. Quanto a
Jos, estragou tudo o que existia entre ns e conta forar-me ao casamento.  de
perder a cabea! Que vida a minha! Odeio essas confuses!-
Derramou algumas lgrimas, e entretanto ouviu fechar-se, com estrondo, a porta
do bangal. Jos entrara em casa, justamente ressentido. E novo receio de
apoderou da moa.
O salgueiro era desconfortvel. O ar da noite estava frio e mido. Se apanhasse
outra constipao haveria de fungar todo o inverno. Atravs da janela vinha a
luz do interior e Ester disse entre dentes:
- Diabos me levem!
Aquilo significava que no se sentia muito  vontade.
Deslizou pelo tronco, esfolou um brao e rasgou decerto as meias - as suas meias
mais bonitas. -Que raio!-, exclamou com nfase, preparando-se para ir fazer
companhia ao noivo.
Neste momento ouviu-se o rudo de um carro na vereda e um toque de buzina. Os
faris projetaram-se no porto da fazenda.
- Que atrevimento! Que descaro! Isto  Henriqueta que vem ter comigo!
E correu pelo passeio como uma bacante.
- Ol, Ester! - gritou a voz juvenil de Henriqueta, vinda da obscuridade do
carro. - Como vai isso?
-Que descaro! - murmurou a outra. - Que atrevimento!- E abriu o porto,
arquejante.
- Como vai isso? - repetiu a irm.
- Que queres dizer? - perguntou Ester.
- No, filha, no te exaltes! No julgues que viemos meter o nariz nos teus
negcios. Vamos acampar na propriedade de Bonamy. O tempo est divinal.
Bonamy era companheiro de Jos e tambm antigo militar, que se instalara em uma
herdade, mais adiante. Jos, sem dvida, fazia figura de Cruso, metido no seu
bangal.
- Como vo vocs?
- Menos mal - replicou Donaldo, irmo de Jos. Estava ao volante e Henriqueta ia
ao lado dele.
- O mesmo para variar - acudiu Eduardo, colocando a cabea fora do automvel.
Este era primo em segundo grau.
- Muito bem - resumiu Ester, acalmando-se - Agora, que esto aqui, suponho que
ho de querer entrar. J comeram?
- Comemos, sim - respondendo Donaldo. E no queremos incomodar. No se preocupe
conosco.
- Por que no? - replicou a moa, pronta para discutir.
- Temos medo do mano Jos - explicou Donald.
- Alm disso, Ester - atalhou Henriqueta - bem sabes que no nos deseja a.
- Henriqueta, no sejas tola! Entrem e deixem de pieguices.
- No, Ester - disse Donald.
- No, senhora - disse Eduardo.
- Que grandes parvos! Por que no? - insistiu Ester.
- Por causa do mano mais velho - repetiu Donald.
- Perfeitamente - rematou - Ento eu  que vou com vocs.
- Posso espreitar? - indagou Henriqueta, estendendo uma perna fora do carro.
Tenho curiosidade de ver isto.
A noite estava mais escura, porque a Lua havia desaparecido. As duas moas
seguiram em silncio o passeio que conduzia at a casa. Henriqueta ia ansiosa. O
seu cerebrozinho perturbara-se e ela ambicionada qualquer coisa que a
esclarecesse melhor. Ester no dizia nada, mas deixou que a irm lhe tomasse o
brao. Por fim, desembaraou-se da outra e ordenou:
- S normal, minha querida.
Depois deus trs passos para a porta do bangal, que abriu e atravs da qual
puderam ver a saleta alumiada e Jos em uma poltrona, de costas para elas. No
voltou a cabea quando entraram.
- Aqui est Henriqueta - exclamou a noiva, em um tom que significava: -Que h de
novo?-
Jos levantou-se e encarou-as com olhar zangado.
- Como chegou at aqui? - perguntou rudemente.
- De automvel - respondeu a pequena, com o seu ar de inocncia.
- Com Donald e Eduard, que esto l fora - acrescentou Ester. A malta toda!
- Vo entrar? Inquiriu o dono da casa, preocupado.
- Suponho que no deixars de lhes fazer o convite.
Jos ficou pensando, sem se mexer.
- Bem sei que  desagradvel esta intromisso - disse Henriqueta, com entoao
humilde - amos a caminho da herdade de Bonamy. - Mirou em volta da sala, sempre
com olhos inocentes, e disse: - Isto  realmente delicioso, de muito bom gosto.
Agrada-me imenso. Deixa-me aquecer as mos?
Jos, que estava de chinelas, afastou-se para lhe dar lugar. Henriqueta estendeu
as mos, vermelhas de frio, na direo do lume.
- No me posso demorar - declarou.
- Oh, no vs... - acudiu a irm, sem grande convico.
- Tenho que ir. Donald e Eduard esto  espera. Como a porta ficara aberta,
viam-se alm os faris do automvel.
- Oh! - continuou Ester, no mesmo tom. - Dize-lhes que ficas comigo esta noite.
Preciso um pouco de companhia.
Jos olhou para ela.
- Que brincadeira  essa?
- No  brincadeira. J que a Henriqueta chegou, bem podia ficar...
- Oh, Ester! - bradou a outra. - Vou com Donald e Eduard  fazenda Bonamy.
- No irs, se eu quiser que fiques comigo.
Henriqueta pareceu surpresa, mas j resignada.
- Que brincadeira  essa; - repetiu Jos - Vocs combinaram passar aqui a noite,
de sociedade?
- No, Jos, palavra de honra! - volveu Henriqueta, com alvoroada inocncia -
Nem eu tinha idia de sair, quando Donald se lembrou disso esta tarde, as quatro
horas. Mas o tempo estava to bom, apetecia-me sair...
- E, se tivssemos combinado no seria nenhum crime - retrucou Ester - De
qualquer maneira, j que vocs esto aqui, acho prefervel acamparem aqui mesmo.
- No, Ester! Donald no consentiria. Ficou zangado comigo por causa desta
demora... Fui eu quem tocou a buzina. No foi ele, fui eu. Curiosidade feminina,
em suma. E agora, adeus. Boa noite!
Aconchegou o casaco e dirigiu-se lentamente para a porta.
- Nesse caso, vou contigo - declarou Ester.
- Oh, filha - replicou a irm. E olhou para Jos.
- Sei to pouco como voc o que isto quer dizer... - comeou, como que
desculpando-se.
- Ester! - exclamou Henriqueta - S mais sensata. H qualquer mal-entendido. Por
que no explicas? E dizes-te pessoa normal. Parece que andas brincando com os
outros.
Seguiu-se um silncio teatral.
- Que sucedeu? - continuou Henriqueta , com os olhos muitos brilhantes, aflita.
- Nada - respondeu a irm, com entoao irnica.
- E voc, que diz? - inquiriu Henriqueta, voltando-se para o rapaz, pesarosa,
qual uma segunda Prcia.
Por momentos Jos considerou como Henriqueta era mais simptica do que a noiva.
- S sei que ela me pediu que tocasse piano, e a seguir desapareceu de casa.
Desde ento parece que no regula bem do miolo.
- Ah! Ah! Ah! - E Ester rompeu em uma gargalhada falsa, melodramtica - Gosto
disso! Gosto dessa fuga. Fui l para tomar ar fresco. Queria que eu explicasse o
que  isso de no regular bem do miolo.
- A verdade  que fugiste de casa.
- Sim? E por que?
- Calculo que tiveste as tuas razes.
- Pois tinha, e de primeira ordem.
Houve uns instantes de espanto. Jos e Ester conheciam-se toa bem havia j tanto
tempo. E agora uma coisa daquelas!
- Mas por que o fizeste? - perguntou Henriqueta, com a mais ingnua das
entonaes.
- Por que o fiz?
A buzina do automvel comeou a dar sinal de impacincia.
- Esto chamando por mim. Adeus! - disse Henriqueta, apertando o casaco e
voltando-se para a porta.
- Se fores, irei contigo - declarou Ester.
- Mas por que? - insistiu a irm, espantada.
A buzina continuava a dar sinal. A moa abriu a porta e gritou para fora:
- S mais um minuto! - Fechou a porta, devagar, encarou outra vez a irm, sempre
perplexa.
- Mas por que, Ester?
Os olhos de Ester, com o desespero, at pareciam vesgos. Mal podiam suportar a
cara de pau do indignado Jos.
- Por que?
- Sim, por que? - repetiu Henriqueta.
Toda a ateno recaa sobre Ester. Mas Ester mantinha-se impenetrvel.
- Por que?
- Ela nem o sabe - sugeriu Jos, proporcionando uma evasiva.
A interpelada riu outra vez, de forma melodramtica, sinistra.
- No sabe no! - o rosto dela tomou uma expresso furiosssima. - Pois bem, se
pretendem saber, direi que no posso aturar esta espcie de namoro, se tal  o
nome que isso tem.
Henriqueta largou a mo da porta e caiu numa cadeira, sem foras.
A coisa ia de mal a pior. O rosto de Jos tornou-se escarlate, e depois
empalideceu at ficar amarelo.
- De maneira que no podes casar com ele - comentou Henriqueta.
- No posso casar, se ele insistir em se mostrar apaixonado. Pronunciara esta
palavra de forma insidiosa.
- E no h possibilidade de casamento, sem isso? - inquiriu o anjo da guarda
Henriqueta.
- No. Aceitei-o perfeitamente enquanto ele no se apaixonou. Agora o caso 
diverso.
Houve uma pausa. Henriqueta da a pouco, volveu:
- No fim das contas, Ester,  natural que o homem se enamore da mulher com quem
est para casar.
- Ento  melhor que guarde isso para si. Eis tudo quanto tenho a dizer.
Novo intervalo. Jos, silencioso, como sempre, olhava com expresso ainda
estpida e zangada.
- Mas ouve, Ester: no concebes que um homem se apaixone por ti? - indagou a
irm.
- Por mim, no. No admito a hiptese.
Henriqueta suspirou, desanimada.
- Ento no podes casar com ele. Evidente. Que pena!
Outra pausa.
- No h nada mais humilhante para uma mulher do que um homem enamorado -
declarou Ester - Detesto semelhante coisa.
-  porque talvez esse homem no te agrada - lembrou Henriqueta, com tristeza,
relanceando a vista pelo pobre Jos.
- Creio que no toleraria nada disso, fosse com quem fosse. Henriqueta, fazes
idia do que  ser acariciada e beijada?
- Calculo - replicou a outra, pensativa. - Como se fssemos um pedao de carne e
viesse um co lamber-nos antes de nos engolir.  repugnante, concordo.
- E o que  pior  um homem decente, perfeito cavalheiro, enveredar por esse
caminho. Nada mais terrvel do que apaixonado! - exclamou Ester.
- Compreendo o que dizes - atalhou a irm -  prprio dos ces.
A buzina do carro tocava desesperadamente. Henriqueta ergueu-se, abriu a porta
e, chamando em voz alta pelos amigos, penetrou na escurido.
- Vo andando, no esperem. Irei depois.
- Quanto tempo te demoras com eles? - ouviu-se uma voz perguntar,  distncia.
- No sei. Mas no deverei tardar.
- V se apareces antes de uma hora.
- Est bem.
A porta fechou-se. Ento Henriqueta, desiludida, sentou-se e ficou calada. Faria
companhia  irm. E aquele idiota do Jos, pespegado ali junto a parede, como
uma cabea de veado.
Ouviram o automvel partir, descendo a vereda.
- Os homens so imbecis - murmurou Henriqueta, em tom de desnimo.
- Seja como for, h um equvoco - disse Jos, de repente, com amarga entoao. -
Eu no estou apaixonado por voc, Miss Clever.
As duas moas olharam para ele como se fosse Lzaro ressuscitado.
- Nunca estive enamorado de sua pessoa, assim dessa maneira - prosseguia ele. Os
olhos cintilavam-lhe com uma chama de clera e vergonha... e de dura paixo.
- Ento, foi mentiroso! Eis o que tenho a dizer - proclamou Ester.
- Quer dizer que tudo isto foi fingido? - perguntou Henriqueta, espantada.
- Julguei que ela me quisesse assim - replicou ele, com um sorrisinho indecente
que paralisou completamente as duas.
Se Jos se houvesse transformado em cobra, o espanto delas no teria sido maior.
Que sorriso escarninho! Grande patife!
- Pensei que ela quisesse que eu fosse assim - repetiu o rapaz, sempre trocista.
Ester sentiu-se horrorizada.
- Portou-se muito mal! - observou Henriqueta.
- Que mentiroso! - comentou Ester. - E comprazia-se em semelhante coisa!
- Crs que sim, Ester? - inquiriu Henriqueta.
- De certa maneira,  verdade - confessou ele. - Mas no o teria feito se
soubesse que ela no gostava.
Ester levantou os braos ao ar.
- Henriqueta! - bradou ela - Por que no matamos?
- Que m dera poder - respondeu a outra. - E atreveu-se... sabendo como a moa 
assim to severa... e que voc a amava por esse seu feitio... e que iam unir-se
para toda a vida... voc... voc... voc... aproveitar-se d&#8217;alguma forma...
fazer-se de Rodolfo Valentino!
- J morreu, coitado. E nunca simpatizei com ele - disse Ester.
- No parecia... - atalhou Jos.
- De qualquer forma, o senhor no  Rodolfo Valentino... e eu detesto-o no papel
de gal.
- No apanha outra oportunidade. Detesto-a tambm.
- Que alvio ouvir confessar uma coisa dessas, meu amigo!
Houve um silncio demorado, aps o qual se ouviu Henriqueta declarar, com
deciso:
- Bem, acabou-se. Queres vir comigo  fazenda Bonamy, Ester? Ou devo ficar aqui
contigo?
- No vale a pena - volveu Ester, em ar de bravata.
- Tambm acho que no vale a pena - acudiu Jos - Mas deixe-me dizer: da sua
parte foi muito mal feito no ter me prevenido.
- Julguei que o senhor era sincero e no quis ofend-lo.
- Fala de tal maneira que se pensaria nunca desejar ofender-me.
- Oh, agora o caso  diferente, visto que tudo foi fingido.
Calaram-se. O relgio, na sua qualidade de relgio da casa, fazia um tique-taque
apressado.
- Seja como for - recomeou Jos - a senhora desiludiu-me.
- Ainda bem! - gritou Ester - visto que esteve brincando comigo.
Fitaram-se. Conheciam-se ambos muito bem.
Porque havia experimentado ele representar este estpido papel de apaixonado?
Fora uma traio  intimidade que entre os dois existia. Jos compreendia isso,
e arrependia-se.
Ela, por seu lado, lia nos olhos do rapaz o amor puro e paciente que ele lhe
votada, e o seu desejo calmo, estranho, mas verdadeiro. Era a primeira vez que
reparava neste desejo tranqilo, paciente, sincero, do homem que havia sofrido
durante os primeiros anos da juventude e que procurava o sossego presentemente.
Subiu-lhe no corao uma onda de sangue. Sentia-se irmanada com ele.
- Que decidiste, Ester? - pergunta a irm.
- Afinal, fico com Jos - respondeu ela.
- Bravo! - exclamou Henriqueta - Entoa vou eu  Bonamy.
Abriu a porta, muito devagar, sair.
Jos e Ester olharam-se a certa distncia.
- Desculpe - disse o rapaz.
- Bem sabes, Jos - explicou ela - que no me importo com o que tu fazes - uma
vez que goste de mim a valer.

*****
xxx
William Blake

O matrimnio do Cu e do Inferno:
No tempo de semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos.
O caminho do excesso leva ao palcio da sabedoria.
A Prudncia  uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotncia.
Aquele que deseja e no age engendra a peste.
O verme perdoa o arado que o corta.
Imerge no rio aquele que a gua ama.
O tolo no v a mesma rvore que o sbio v.
Aquele cuja face no fulgura jamais ser uma estrela.
A Eternidade anda enamorada dos frutos do tempo.
 laboriosa abelha no sobra tempo para tristezas.
As horas de insensatez, mede-as o relgio; as de sabedoria, porm, no h
relgio que as mea.
Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem lao.
Toma nmero, peso & medida em ano de mngua.
Ave alguma se eleva a grande altura, se se eleva com suas prprias alas.
Um cadver no revida agravos.
O ato mais alto  at outro elevar-te.
Se persistisse em sua tolice, o tolo sbio se tornaria.
A tolice  o manto da malandrice.
O manto do orgulho, a vergonha.
Prises se constroem com pedras da Lei; Bordis, com tijolos da Religio.
A vanglria do pavo  a glria de Deus.
O cabritismo do bode  a bondade de Deus.
A fria do leo  a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher  a obra de Deus.
Excesso de pranto ri. Excesso de riso chora.
O rugir de lees, o uivar de lobos, o furor do mar em procela e a espada
destruidora so fragmentos de eternidade, demasiado grandes para o olho humano.
A raposa culpa o ardil, no a si mesma.
Jbilo fecunda. Tristeza engendra.
Vista o homem a pele do leo, a mulher, o velo da ovelha.
O pssaro um ninho, a aranha uma teia, o homem amizade.
O tolo, egosta e risonho, & o tolo, sisudo e tristonho, sero ambos julgados
sbios, para que sejam exemplo.
O que agora se prova outrora foi imaginrio.
O rato, o camundongo, a raposa e o coelho espreitam as razes; o leo, o tigre,
o cavalo e o elefante espreitam os frutos.
A cisterna contm: a fonte transborda.
Uma s idia impregna a imensido.
Dize sempre o que pensas e o vil te evitar.
Tudo em que se pode crer  imagem da verdade.
Jamais uma guia perdeu tanto tempo como quando se disps a aprender com a
gralha.
A raposa prov a si mesma, mas Deus prov ao leo.
De manh, pensa, Ao meio-dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme.
Quem consentiu que dele te aproveitasses, este te conhece.
Assim como o arado segue as palavras, Deus recompensa as preces.
Os tigres da ira so mais sbios que os cavalos da instruo.
Da gua estagnada espera veneno.
Jamais sabers o que  suficiente, se no souberes o que  mais que suficiente.
Ouve a crtica do tolo!  um direito rgio!
Os olhos de fogo, as narinas de ar, a boca de gua, a barba de terra.
o fraco em coragem  forte em astcia.
A macieira jamais pergunta  faia como crescer; nem o leo ao cavalo como
apanhar sua presa.
Quem reconhecido recebe, abundante colheita obtm.
Se outros no fossem tolos, seramos ns.
A alma de doce deleite jamais ser maculada.
Quando vs uma guia, vs uma parcela do Gnio; ergue a cabea!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para pr seus ovos, o
sacerdote lana sua maldio sobre as alegrias mais belas.
Criar uma pequena flor  labor de sculos.
Maldio tensiona: Beno relaxa.
O melhor vinho  o mais velho, a melhor gua, a mais nova.
Oraes no aram! Louvores no colhem!
Jbilos no riem! Tristezas no choram!
A cabea, Sublime; o corao, Paixo; os genitais, Beleza; mos e ps,
Proporo.
Como o ar para o pssaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o
desprezvel.
O corvo queria tudo negro; tudo branco, a coruja.
Exuberncia  Beleza.
Se seguisse os conselhos da raposa, o leo seria astuto.
O Progresso constri caminhos retos; mas caminhos tortuosos sem Progresso so
caminhos de Gnio.
Melhor matar um beb em seu bero que acalentar desejos irrealizveis.
Onde ausente o homem, estril a natureza.
A verdade jamais ser dita de modo compreensvel, sem que nela se creia.
Suficiente! ou Demasiado.
*
Os Poetas antigos animaram todos os objetos sensveis com Deuses e Gnios,
nomeando-os e adornando-os com os atributos de bosques, rios, montanhas, lagos,
cidades, naes e tudo quanto seus amplos e numerosos sentidos permitiam
perceber.
E estudaram, em particular, o carter de cada cidade e pas, identificando-os
segundo sua deidade mental;
At que se estabeleceu um sistema, do qual alguns se favoreceram, & escravizaram
o vulgo com o intento de concretizar ou abstrair as deidades mentais a partir de
seus objetos: assim comeou o Sacerdcio;
Pela escolha de formas de culto das narrativas poticas.
E proclamaram, por fim, que os Deuses haviam ordenado tais coisas.
Desse modo, os homens esqueceram que todas as deidades residem no corao
humano.
* * *


Stira terceira
Horcio
O Amigo
Ensina que devemos ser indulgentes com os amigos e no considerar como faltas
imperdoveis
os seus menores defeitos.
(...)
No odiemos, sequer, do amigo o vcio
(Se tem algum) como usa o pai com o filho:
Se  torto, diz q tem olhos petos,
Se ano , como Ssifo abortivo,
Pequenino lhe chama, e chama zambro
O que  de todo trpego e aleijado:
Se para dentro os ps disformes volta,
Dir que nos artelhos mal se estriba.
Assim co&#8217;o amigo proceder devemos:
 mesquinho? Econmico se diga.
 fanfarro, vaidoso? Prazenteiro
Deseja parecer. Em demasia
 livre e rude? Franco e bravo o julga.
 ardente, arremessado? Activo, o chama.
Isto, se no me engano, amigos ganha,
E os ganhados conversa. Mas diverso
 nosso proceder - desfiguramos
T a mesma virtude - e assim cobrimos
De torpe ornato um vaso puro e belo.
Vives com homem de honra e probidade?
Dirs que tem rasteiros sentimentos.
 lento e refletido? Alcunha-o logo
De crasso e sotranco. Estoutro evita
Em ciladas cair, e nunca o lado
A malcia descobre, bem q o cinja
A negra inveja, a atroz maledicncia:
E em vez de circunspecto e cauteloso,
Astuto e refolhado o apelidamos.
Se algum, mais simples, te interrompe acaso
Com distraes e prticas insulsas
Enquanto ls, ou tcito meditas:
(Como eu, caro Mecenas, muitas vezes
Bem poderia praticar contigo)
Um sandeu, desde logo,  proclamado!
Ah! Que, sem o pensar, decreto injusto
Contra ns sancionamos! Sem defeitos
Ningum nasceu jamais: o timo  sempre
O que menos comporta. O doce amigo
Vcios, virtudes como  justo pese,
E se estas montam mais, com isso folgue,
Se quer amado ser. Se assim pratica,
Em balanas iguais ser pesado.
Queres que esses lobinhos no enojem
O amigo teu? Desculpa-lhe as verrugas:
Justo  que outorgues o perdo que imploras.
E se o louco da clera o defeito,
E outros mais, que o corao lhe empolgam,
Inteiramente exterminar no pode,
Por que os seus pesos, e bitola exata,
No emprega a razo, impondo ao vcio
Proporcionada pena que o refreie?
Se algum mandasse pr na cruz o escravo,
Porque engolira do pescado o resto,
Coa morna salsa ao retirar dos pratos;
Mais louco entre avisados se diria
Que o prprio Labeo! Quo mor demncia,
E mor erro no , por tnue falta
Odiar, fugir o amigo, como evita
De ruzo encontrar esse que os juros,
Nem capital, de parte alguma arranja,
Para as tristes e prximas calendas,
E que h-de ouvir-lhe as brbaras histrias,
Como um cativo, cabisbaixo e mudo?
Outro, brio um pouco, te enxovalha o leito,
Ou da mesa te arroja uma escudela,
Surrada pelas mos do velho Evandro:
E por isso, ou porque faminto apanha
O franguinho que j tinha em meu prato,
Ser-me- menos jucundo? E que faria
Se um furto cometera, se  palavra
Me faltasse, ou trasse os meus segredos?
Esses que as faltas em geral nivelam,
Na praxe encontram graves embaraos.
Opem-se-lhe o bom senso, os bons costumes
E mesmo a convenincia, quase origem
Da justia e equidade. Quando os homens
Das entranhas da terra pularam,
(Rebanho mudo e horrendo!)  unha, ao soco,
Depois com varapaus, e enfim com armas
Que o uso introduziu, se disputavam
A boleta e o covil: enfim palavras,
E nomes, com que a mente declarassem,
Chegaram a inventar: da bruta guerra
Desistiram de ento, e principiaram
Cidades a murar: leis instituram
Contra o ladro violento, ou formigueiro,
E contra os adultrios, pois que inda antes
Que Helena seduzisse o frgio moo,
O amor foi causa de sangrentas guerras.
Mas esses, que pleiteando incerta Vnus,
(Como touros rivais na flrea quadra)
Dos brutos  maneira, s mos caram
Daquele que em vigor se avantajava,
Faleceram de obscura e ignota morte.
Cumpre, enfim confessar, se recorrermos
s priscas eras, e aos anais do mundo,
Que o temor da injustia as leis criara;
Nem discernir a natureza pode
O que  justo do injusto, como extrema
O bem do mal, o til do nocivo.
A razo no dir que um mesmo crime
Comete o que devasta a horta alheia,
E os que roubam de noite as sacras aras.
Deve pois norma haver que justa pena
Aos delitos rogue - e no golpeies
O que de aoites mdicos  digno.
No que eu tema que  frula castigues
O que merece rgido azorrague;
Que o roubo de estrada ao ferto iguala,
Por certo cortar coa mesma foice
Leve e grave - se acaso o seu regime
Os homens lhe outorgarem - Mas se o sbio
 tudo neste mundo, belo e rico,
Bom sapateiro, Rei... por que desejas
O que j tens em ti! - J no te lembra
O que nos diz o preceptor Crisipo!
O sbio nunca fez chapins e alparcas,
No entanto  sapateiro consumado.
De que arte? - Como Hermgenes calado
De ser no deixa um msico excelente;
Como era sapateiro o astuto Alfeno
Inda depois de ter fechado a loja,
E haver deposto os utensis do ofcio
Eis como o sbio  artfice perfeito
Em qualquer arte - e Rei diz-lo podes.
Mas o travesso rapazio em chusma
A barba te arrepela, e se a bordoada
O no dispersas, te circunda, aperta,
E hs-de, infeliz! arrebentar, ladrando,
Bem que sejas o Rei maior do mundo!
Para no ser prolixo - enquanto ao banho
Tu vais por um ceitil, ningum te segue,
Como Rei, a no ser Crispino, o parvo.
Se eu cair em algum desmancho, incauto,
Desculpa encontrarei no terno amigo:
Perdoar-lhe-ei, bom grado, em cmbio as faltas;
E mais que tu, nessa alta dignidade,
Mero particular, serei ditoso.

*****





SOLFIERI
Alvares de Azevedo
Yet one kiss on your pale clay
And those lips once so warm beart! my bears! my bears!
BYRON;Cain
Sabeis-lo. Roma e a cidade do fanatismo e da perdio: na alcove do sacerdote
dorme a gosto a amsia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lvido.  um
requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilgio a  convulso do amor, o beijo
lascivo a embriaguez da crena! Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai
ela
no vero pr aquele cu morno, o fresco das guas se exalava como um suspiro do
leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a ss pela ponte de As luzes se
apa-garam uma por uma nos palcios, as ruas se fazias ermas, e a lua de
sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa
janela solitria e es-cura. Era uma forma branca.-A face daquela mulher era como
a de uma esttua plida a lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taa cada,,
rolavam fios de lgrimas.
Eu me encostei a aresta de um palcio. A viso desapareceu no escuro da janela e
da um canto se derramava. No era s uma voz melodiosa: havia naquele cantar um
como choro de frenesi, um como gemer de insnia: aquela voz era sombria como a
do vento a noite nos cemitrios cantando a nnia das flores murchas da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia
algum nas ruas. No viu a ningum-saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no cu, e a chuva caa as gotas
pesadas: apenas eu sentia nas faces carem-me grossas lgrimas de gua, como
sobre um tmulo prantos de rfo..
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estvamos num
campo.
Aqui, ali, alm eram cruzes que se erguiam de entre o ervaal. Ela ajoelhou-se.
Parecia soluar: em torno dela passavam as aves da noite.
No sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a ss no
cemitrio. Contudo a criatura plida no fora uma iluso-as urzes, as cicutas do
campo santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido a chuva, causaram-me uma febre. No meu
delrio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluos e
todo aquele devaneio se perdia num canto suavssimo...
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da
saciedade me vinha aquela viso.

Uma noite, e aps uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa
Barbara. Dei um ltimo olhar quela forma nua e adormecida com a febre nas faces
e a lascvia nos lbios midos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia
volutuosa do amor. -Sa.. -No sei se a noite era lmpida ou negra-sei apenas
que a cabea me escaldava de embriaguez. As taas tinham ficado vazias na mesa:
nos lbios daquela criatura eu bebera ate a ltima gota o vinho do deleite.
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus
raios brancos entre as vidraas de um templo. As luzes de quatro crios batiam
num caixo entreaberto. Abri-o: era o de uma moa. Aquele branco da mortalha, as
grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lvida e embaada, o vidrento dos
olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traos todos me lembraram
uma idia perdida. . -Era o anjo do cemitrio? Cerrei as portas da igreja, que,
ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadver nos meus braos para fora do
caixo. Pesava como chumbo.
Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, "do cadver sem cabea e o
homem sem corao" como a conta Brantme?Foi uma idia singular a que eu tive.
Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lbios. Ela era bela assim:
rasguei-lhe o sudrio, despi-lhe o vu e a capela como o noivo as despe a noiva.
Era uma forma purssima.. Meus sonhos nunca me tinham evocado uma estatua to
perfeita. Era mesmo uma esttua: to branca era ela. A luz dos tocheiros
dava-lhe aquela palidez de mbar que lustra os mrmores antigos. O gozo foi
fervoroso-cevei em perdio aquela viglia. A madrugada passava j froixa nas
janelas. quele calor de meu peito, a febre de meus lbios, a convulso de meu
amor, a donzela plida parecia reanimar-se. Sbito abriu os olhos empanados.
-Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre nvoa-, apertou-me em seus
braos, um suspiro ondeou-lhe nos beios azulados. No era j a  um desmaio. No
aperto daquele abrao havia contudo alguma coisa de horrvel. O leito de ljea
onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me
daquele aperto do peito dela. Nesse instante ela acordou&#8230;
Nunca ouvistes falar da catalepsia? E um pesadelo horrvel aquele que gira ao
acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros
tolhidos, e as faces banhadas de lgrimas alheias sem poder revelar a vida!
A moa revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e
tomei-a nos braos coberta com seu sudrio como uma criana. Ao aproximar-me da
porta topei num corpo; abaixei-me-olhei: era algum coveiro do cemitrio da
igreja que a dormira de brio, esquecido de fechar a porta .
Sa.-Ao passar a praa encontrei uma patrulha -Que levas a?
A noite era muito alta-talvez me cressem um ladro.
-E minha mulher que vai desmaiada
-Uma mulher! Mas essa roupa branca e longa? Sers acaso roubador de cadveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte-era fria.
-E uma defunta
Cheguei meus lbios aos dela. Senti um bafejo morno.-Era a vida ainda.
-Vede, disse eu.
O guarda chegou-lhe os lbios: os beios speros roaram pelos da moa. Se eu
sentisse o estalar de um beijo. . o punhal j estava nu em minhas mos frias
-Boa noite, moo: podes seguir, disse ele.
Caminhei.-Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo: e eu sentia que a moa
ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais
esforo. .
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um
grito de medo
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus
companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moa no meu quarto-e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda.
A turvao da embriaguez fez que no notassem minha. ausncia.
Quando entrei no quarto da moa vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a
insnia,, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre assim No houve como sanar-lhe aquele
delrio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de
delrio.
A noite sai-fui ter com um estaturio que trabalhava perfeitamente em cera-e
paguei-lhe uma esttua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mrmore do meu quarto, e com as
mos cavei a um tmulo.-Tomei-a ento pela ltima vez nos braos, apertei-a a
meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lenol
de seu leito.-Fechei-a no seu tmulo e estendi meu leito sobre ele.
Um ano-noite a noite-dormi sobre as lajes que a cobriam Um dia o estaturio me
trouxe a sua obra. -Paguei-lha e paguei o segredo
No te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo vu
do meu cortinado? No te lembras que eu te respondi que era uma virgem que
dormia?
-E quem era essa mulher, Solfieri?
-Quem era? seu nome?
-Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz os
lbios? quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a
seus beijos, quando nem ha dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taa-Bebeu-a.-Ia erguerse da mesa quando um dos convivas
tomou-o pelo brao.
-Solfieri, no e um conto isso tudo?
-Pelo inferno que no! por meu pai que era conde e bandido, por minha me que
era a bela Messalina das ruas-pela perdio que no! Desde que eu prprio
calquei aquela mulher com meus ps na sua cova de terra -eu v-lo
juro-guardei-lhe como amuleto a capela de defunta.-Ei-la!
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoo uma grinalda de flores mirradas.
-Vede-la murcha e seca como o crnio dela!


Trs Quadros
Virgnia Wolf
PRIMEIRO
 impossvel no encontrar quadros por toda a parte, pois o simples fato de meu
pai haver sido ferreiro, por exemplo, e o vosso, Par do Reino, leva-nos uns para
com os outros, a assumir o aspecto de personagens de quadro, o que possivelmente
no poderamos evitar se sassemos da moldura que as circunstncias criaram para
ns, por mais que procuremos expressar-nos com toda naturalidade.
Ao lembrarem-se de mim, certamente me imaginaro  porta da forja, com uma
ferradura na mo, e ho de comentar: -Que coisa mais pitoresca!-. De minha
parte, no posso evitar as fantasias que me assaltam de ver-nos comodamente
reclinados num luxuoso carro, cumprimentando o povo, e tal viso a meus olhos, 
o smbolo da Inglaterra aristocrata. Certamente, nem uma, nem outra destas duas
imagens corresponder  realidade, mas, que posso fazer?
Ora, acontece que, h pouco, numa curva da estrada, divisei um desses quadros
que poderia intitular-se -O regresso do marinheiro-, ou coisa parecida.
Tratava-se de um marinheiro jovem, simptico, transportando um saco na mo e de
uma moa agarrada ao seu brao; em volta dele, alguns vizinhos e, ao fundo, uma
pequena casa rodeada de um jardim florido.
Ao passar, via-se que aquele marinheiro acabava de chegar da China e que, no
interior da casa, a sala fora cuidadosamente preparada para receb-lo.
Adivinhava-se tambm que, no saco que ele transportava, trazia um presente para
a jovem esposa, e que esta ia dar-lhe o primeiro filho. Tudo estava certo, tudo
parecia perfeito nesse quadro, e contemplar tamanha felicidade tornava a vida
mais suave e agradvel de viver.
Pensando assim, segui adiante, completando o quadro, de memria, o mais que
pude, com pormenores que conseguia observar, a cor do vestido dela, a expresso
dos olhos deles, o gato amarelo enroscado  porta da casa.
Durante certo tempo o quadro fixou-me nos olhos, tornando tudo em volta mais
brilhante, mais quente e mais simples do que  habitual, e fazendo com que
certas coisas se me apresentassem como loucuras, outras como tolices e outras
ainda exatas, perfeitas, e com muito mais sentido do que sempre imaginara.
Naquele dia e no dia seguinte, nos momentos mais singulares, o quadro voltou-me
 memria, pensando com inveja, mas tambm com ternura, no marinheiro e na
esposa, perguntava-me o que estariam fazendo e dizendo, naquele instante.
A minha imaginao, aos poucos, foi acrescentando ao primeiro, outros quadros
que, por assim dizer, o completavam. Via o marinheiro rachando lenha, tirando
gua do poo do jardim; ouvia-o conversar com a esposa sobre o que vira na
China, imaginava ela colocando cuidadosamente o presente que o marido trouxera
sobre a lareira da sala, depois imaginava a moa costurando roupinhas de
crianas enquanto todas as portas e janelas se encontravam abertas para o
jardim, onde pssaros cantavam e abelhas zumbiam. Rogers &#8211; era o nome dele &#8211; no
encontrava palavras para expressar o prazer que tudo lhe causava, depois de ter
percorrido os mares da China, e detinha-se a fumar cachimbo, fora da porta,
admirando o jardim.
SEGUNDO
No meio da noite, um grito dilacerante rompeu o silncio; depois, ouviu-se como
que um vozear, a seguir um silncio de morte dominou tudo. O que pude divisar,
da minha janela, foi uma haste do lils do jardim, pendendo imvel sobre a
estrada. Era ainda noite escura. No havia luar. O grito emprestara s coisas um
aspecto singular. Quem gritara? Por que gritara ela? Tratava-se de uma voz de
mulher, quase inexpressiva, quase assexuada, pela violncia da emoo.
Dir-se-ia a natureza humana gritando contra qualquer inexplicvel iniquidade,
contra qualquer indescritvel horror. Seguiu-se ao grito um silncio de morte.
As estrelas cintilavam ntidas, serenas, os campos dormiam tranqilos e as
rvores continuavam imveis; no entanto, por toda a parte se espalhara um
sentimento de culpa, todas as coisas se sentiam responsveis por no sei que
tremendo crime. Tinha-se a sensao de que era imprescindvel tentar qualquer
coisa. Devia, forosamente, aparecer alguma luz agitando-se, movendo-se,
inquieta, numa e noutra direo. Algum devia aparecer correndo pela estrada. As
janelas da casinha curva do caminho iluminar-se-iam e ento talvez um outro
grito se fizesse ouvir menos desesperado, no entanto, j no inarticulado e
repleto de to indescritvel horror.
Contudo, nenhuma luz apareceu, nenhum rumor de passo se ouviu, e no houve
segundo grito. O primeiro extinguira-se, desapareceram dele os derradeiros ecos,
e seguiu-se-lhe um silncio mortal.
Deitada no escuro do quarto, inutilmente eu escutava. Fora uma voz apenas. Uma
voz sem sentido. No era possvel imaginar qualquer quadro que com esse grito
tivesse relao e que pudesse ajudar a interpret-la ou a torn-lo inteligvel.
A manh comeava a romper quando avistei uma forma humana, meio diluda em
treva, indefinida, informe, erguendo em vo um brao gigantesco contra qualquer
intransponvel iniquidade.
TERCEIRO
O tempo permanecia suave. Se no tivesse ouvido aquele grito durante a noite,
teria a impresso de que, finalmente, o mundo aportara a porto seguro, que vida
deixara de ser agitada pelo vendaval, que o mundo alcanara, enfim, uma enseada
tranqila, onde repousaria quase imvel. Entretanto, nos meus ouvidos, o som
persistia. Onde quer que me dirigisse e, mesmo ao dar um passeio pelas colinas,
qualquer coisa me parecia existir sob a superfcie serena das coisas, fazendo-me
descrer da estabilidade, da segurana, que  minha volta pareciam existir. Pela
vertente, um rebanho pastava tranqilo e o vale, ao fundo, estendia-se, ondulado
como um mar calmo de vero. Passei por uma herdade solitria. No ptio um
cachorro brincava e borboletas voltejavam sobre a urze. Tudo parecia gozar uma
felicidade serena e pura. Contudo, na noite anterior, ouvira-se aquele grito e
toda a beleza, toda a serenidade, que eu tinha ante os olhos, fora cmplice.
Sim, pelo menos consentira, e tudo continuava sereno, belo, embora aquele grito
se tivesse feito ouvir e pudesse voltar a repetir-se. Toda a serenidade, toda a
segurana eram aparncia falaz...
E ento, para alegrar-me, para dominar esta opressiva disposio, recordei a
chegada do marinheiro. Tornei a ver o quadro, enriquecendo-o ainda com mais
alguns pormenores &#8211; o vestido azul que ela trazia, a sombra que a rvore florida
projetava sobre o jardim &#8211; que no notara at ali. Tornei a avist-los junto da
porta da casa, ele com seu saco, ela enfiando-lhe o brao, o gato amarelo
enroscado  porta. E desta maneira, rememorando o quadro em todos os seus
pormenores, pude, aos poucos, convencer-me de que realmente existiam calma e
bem-estar para alm da superfcie das coisas e no nos esperava sempre qualquer
surpresa traioeira e sinistra.
O rebanho pastando, espalhado pelo ondulado das colinas, a herdade longnqua,
guardada pelo co, e as borboletas pousando aqui e ali, eram realmente fatos e
nada havia oculto sob tais aparncias. E assim regressei  casa, pensando no
marinheiro e na mulher, desenhando, um aps outro, vrios quadros de felicidade
perene e de alegria, de modo a silenciar o desassossego que o tremendo grito
deixara dentro de mim.
Alcancei finalmente a aldeia, atravessando o adro, por onde  foroso
atravessar; e, como sempre me acontece de cada vez que passo naquele local de
paz, atentei na tranqilidade das cinzas, repousando dentro do tmulo de pedra,
ou em covas onde no existe sequer um nome a recordar. Quando por aqui passo,
tenho sempre a impresso de que a morte  uma coisa alegre.
Eis ento que um quadro mais se me apareceu.
Um homem abrindo uma cova e um bando de crianas merendando ao lado da
sepultura. A mulher do coveiro, gorda e bonita, encostada a um tmulo, estendera
o avental na relva, mesmo ao lado da cova que acabava de ser aberta, fazendo-o
de toalha. De vez em quando, algum torro caa no meio do servio de ch. -Quem
vai ser enterrado-, perguntei, -morreu finalmente o velho Mr. Dodson?- -No,
no, respondeu-me a mulher. - para Rogers, o marinheiro. Morreu a noite passada
de uma febre que apanhou na viagem. No ouviu a mulher? Veio  estrada e
gritou...- Depois, virando-se para um dos pequenos, -tem juzo, Tommy, ests te
sujando de terra!-
Que quadro tremendo que no me atrevo sequer a esboar...



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O Diabo e o Relojoeiro
Daniel Defoe
Vivia na parquia de S. Bennet Fynk, perto da Bolsa Real, uma viva pobre e
honesta, a qual, tendo perdido o marido, aceitou inquilinos em sua casa, isto ,
alugou algumas peas desta a fim de reduzir a despesa do aluguel. Entre outras,
cedeu a gua-furtada a um fabricante de maquinarias de relgio, ou que fazia
peas do gnero, e, segundo o hbito da poca, trabalhava para as relojoarias.
Certo dia, um homem e uma mulher subiram para falar com o relojoeiro sobre
alguma coisa relacionada a sua profisso. Chegando perto da escada, e vendo a
porta inteiramente aberta, conseguiram enxergar o pobre infeliz (o fazedor de
relgios ou de seus mecanismos) enforcado numa viga que saa da parede, um pouco
abaixo do teto. Surpreendida com o espetculo, a mulher parou e gritou para o
homem que a seguia pela escada para que corresse e cortasse a corda do infeliz.
Naquele momento, de um canto do quarto, que da escada no era possvel ver,
corre outro homem, trazendo na mo um banco dobradio, como quem vinha com muita
pressa, e coloca-o no cho debaixo do pobre enforcado, e, apressado sempre, sobe
ao banco, tira do bolso uma faca e, segurando a corda com uma das mos, acena
com a cabea para o casal que se achava na porta, como para dizer-lhes que
parassem, que no subissem, e mostra-lhes a faca na outra mo, como se estivesse
a ponto de cortar  a corda do enforcado.
Nisso a mulher estacou, mas o homem que estava no banco dobradio continuava a
remexer na corda com a mo e com a faca, como procurando o n, mas sem dar o
corte. Ento a mulher gritou outra vez, e o homem que vinha atrs dela falou:
- Vamos subir - disse ele - supondo que havia algum obstculo - e ajudar o homem
que est no banco.
Mas o homem que estava no banco fez-lhe de novo sinais para ficarem quietos e
no subirem, como a dizer: - Fao isso num instante. Deu dois cortes com a faca
como se cortasse a corda e parou outra vez. Entretanto, o pobre continuava
enforcado e, consequentemente, morrendo. Nisso a mulher pergunta:
- Que h? Por que no corta a corda duma vez?
E o homem que estava atrs dela, esgotada a pacincia, empurrou-a para o lado e
disse-lhe:
- Deixe que resolvo isso!
E sobe correndo e invade o quarto.
Mas, quando ali chegou, vejam, o msero l estava enforcado, porem no se via
nenhum homem com faca, nem banco dobradio, nem outra coisa qualquer. Tudo isso
no passara de espectro e iluso, destinados, sem dvida, a deixar perecer e
expirar o pobre infeliz que se tinha enforcado.
O homem ficou to surpreso e aterrado que, no obstante a coragem de que dera
mostra, caiu no cho como morto. E a mulher viu-se na obrigao de cortar a
corda ao enforcado com uma tesoura, s o conseguindo com grande esforo.
Como no tenho motivo para duvidar da veracidade desta histria, que soube por
pessoas em cuja honestidade posso confiar, penso que no nos ser nada difcil
saber quem podia ser o homem do banco: era o Diabo, que l se pusera a fim de
acabar o assassnio do homem, a quem, na sua condio de Diabo, havia tentado e
levado a ser o carrasco de si mesmo. O fato, alis, corresponde to bem a
natureza do Diabo e ao seu ofcio, o de assassino, que nunca o pus em dvida.
Nem me parece injustia com o Diabo acus-lo desse crime.


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O mendigo ou o cachorro morto
Bertolt Brecht

Um porto.  direita, sentado, um mendigo, plido, roupas esfarrapadas. Segura
um realejo, escondido na roupa.  de manha, bem cedo. Um tiro de canho soa.
Entra o Imperador, cercado de soldados. Seus cabelos so longos e sua cabea
est descoberta. Usa roupa de l. Os sinos tocam.
IMPERADOR - No momento em que vou celebrar meu triunfo sobre o meu mais
importante inimigo, quando o pas mistura meu nome com o fumo negro do incenso,
h um mendigo sentado diante da minha porta, fedendo a misria. Mas, com tantos
acontecimentos importantes, pode-se conversar sobre o Nada. Os soldados
retrocedem. Homem, voc sabe por que os sinos dobram?
MENDIGO - Sim. Meu cachorro morreu.
IMPERADOr - Isso foi uma insolncia?
MENDIGO - No. Foi por velhice. Mas agentou bem. Pensava eu: por que as suas
patas tremem? Ele tinha apoiado as da frente no meu peito, e ficamos deitados
assim a noite toda, mesmo quando comeou a esfriar. Mas, de madrugada, ele j
estava morto e eu o afastei de mim. Agora no posso voltar para casa, porque ele
est apodrecendo, cheirando mal.
IMPERADOR - Por que voc no o enterra?
MENDIGO - No  da sua conta. Agora voc tem o peito oco como um buraco de
esgoto, pois dez uma pergunta tola. Todos fazem perguntas tolas. Perguntar j 
bobagem!
IMPERADOR - Mas mesmo assim vou continuar perguntando: quem cuida de voc?
Porque se no h ningum que o cuide, vai ter que ir embora, aqui no se admite
carne podre nem gritos.
MENDIGO - estou gritando?
IMPERADOR - agora  voc quem est perguntando, embora com um certo sarcasmo que
no entendo.
MENDIGO - sim, isso eu no sei, pois se trata de mim.
IMPERADOR - no fao caso de voc. Mas quem cuida de voc?
MENDIGO - de vez em quando, um menino, que um anjo fez na sua me enquanto ela
colhia batatas.
IMPERADOR - voc no tem filhos?
MENDIGO - foram embora.
IMPERADOR - como o exrcito do Imperador Ta Li, que as areias do deserto
engoliram?
MENDIGO - ele atravessava o deserto e seus homens falaram:  muito longe, volta,
Ta Li. E ele respondia: esta terra precisa ser conquistava. Marchavam
diariamente at gastar os sapatos, ento sua pele rachou e continuaram marchando
de joelhos. Uma vez um tufo derrubou um cavalo. Ele morreu diante dos olhos de
todos, uma vez chegaram a um osis e disseram:  assim a nossa ptria. A o
filho do Imperador caiu numa cisterna e se afogou. Guardaram sete dias de luto,
a dor que sentiam era infinita. Uma vez viram os cavalos morrerem. Uma vez as
mulheres no puderam mais segui-los. Uma vez chegaram o vento e a areia, e a
areia cobriu todos, e ento tudo terminou, e voltou o silncio, e a terra foi
deles, e eu esqueci o nome dele.
IMPERADOR - como  que voc sabe disso? Est tudo errado. Foi bem diferente.
MENDIGO - quando ele era to forte que eu parecia seu filho, fugi, porque no
permito que me dominem.
IMPERADOR - de que voc est falando?
MENDIGO - passavam nuvens perto da meia-noite apareceram estrelas. Depois, tudo
foi silncio.
IMPERADOR - As nuvens fazem barulho?
MENDIGO -  verdade que morreu muita gente nas cabanas perto do rio que
transbordou semana passada, mas no conseguiram atravessar.
IMPERADOR - j que sabe tudo isso, voc nunca dorme?
MENDIGO - Quando me deito em cima das pedras, a criana que acabou de nascer
chora. E ento sopra um vento novo.
IMPERADOR - Ontem  noite o cu estava estrelado, ningum morreu perto do rio,
no nasceu criana alguma, no soprava vento.
MENDIGO - ento voc deve ser cego, surdo e ignorante. Ou  maldade sua.
Pausa
IMPERADOR - O que voc faz o tempo  todo? Nunca vi voc. De que ovo saste?
MENDIGO - Percebi que este ano o milho est ruim, porque no choveu. Um vento
escuro e quente sopra nos campos.
IMPERADOR -  verdade, o milho no est bom.
MENDIGO - assim aconteceu h 38 anos. O milho torrou no sol e, antes que
morresse, caiu uma chuva to forte que apareceram ratos e devastaram os campos.
Depois entraram nos povoados e morderam as pessoas. Este alimento matou os
ratos.
IMPERADOR - Nunca soube nada disso. Deve ser tambm inveno, como o resto. A
histria no fala nada disso.
MENDIGO - No existe histria.
IMPERADOR - E Alexandre? E Csar? E Napoleo?
MENDIGO - Histrias! Quem  esse tal de Napoleo?
IMPERADOR - Aquele que conquistou metade do mundo e sucumbiu pela prpria
soberba.
MENDIGO - Isso  coisa que s dois podem crer: ele e o mundo.  falso. A verdade
 que Napoleo era um homem que remava numa galera e tinha uma cabea to grande
que todos diziam: no podemos remar porque sobra muito pouco espao para os
nossos cotovelos. Quando o barco afundou, porque no remavam, ele encheu a
cabea de ar e se salvou, s ele, e como estava acorrentado teve que continuar
remando, l de baixo, no via para onde e que todos tinham se afogado. Ento,
pensando no mundo, abanou a cabea e, como era muito pesada, ela se desprendeu.
IMPERADOR - essa  a maior tolice que escutei na vida. Voc me decepcionou muito
com essa histria. As outras pelo menos estavam bem contadas. Mas que opinio
tem voc do imperador?
MENDIGO - No existe Imperador. S o povo pensa que existe um, e s um nico
homem pensa que  Imperador. Quando tiverem construdo bastantes carros de
guerra e os tambores estiverem treinados, haver guerra e vo procurar um
adversrio.
IMPERADOR - Mas agora o Imperador derrotou seu adversrio.
MENDIGO - Matou, no derrotou. O idiota matou o idiota.
IMPERADOR - com esforo - Era um inimigo forte, acredite.
MENDIGO - Um homem bota pedrinhas no meu arroz.  esse meu inimigo. Ele se
vangloria porque tinha a mo forte. Mas morreu de cncer e quando fecharam o
caixo, a mo dele ficou presa e no perceberam quando levaram o caixo, de modo
que a mo ficou pendurada, vazia, desamparada, nua.
IMPERADOR - Voc nunca se aborrece de ficar deitado?
MENDIGO - Antes as nuvens passavam no cu, sem parar.  a elas que contemplo.
No param nunca.
IMPERADOR - Agora no h nuvens. Portanto ests delirando. Isso  claro como o
sol.
MENDIGO - O sol no existe.
IMPERADOR - Voc talvez seja at perigoso, paranico ou louco furioso.
MENDIGO - Era um cachorro bom, no um cachorro qualquer. Merecia o melhor. At
me trazia carne, e  noite dormia no meio dos meus trapos. Uma vez houve uma
grande gritaria na cidade, todo mundo tinha algo contra mim, porque no dou nada
de importante a ningum, e at os soldados vieram atras de mim. Mas o cachorro
afugentou todos.
IMPERADOR - Por que me conta isso?
MENDIGO - Porque acho voc burro.
IMPERADOR - Que mais pensa de mim?
MENDIGO - Tem uma voz fraca, portanto  medroso; pergunta demais, portanto 
lacaio; procura me preparar armadilhas, portanto no est seguro de si, nem nas
coisas mais seguras; voc no acredita em mim mas fica me escutando, portanto 
um homem fraco; e por vim pensa que o mundo toda gira em torno de voc, quando
h pessoas muito mais importantes, eu por exemplo. Alm disso, voc  cego,
surdo e ignorante. Os outros defeitos, no conheo ainda.
IMPERADOR - No  um quadro muito animador. No v nenhuma virtude em mim?
MENDIGO - Voc fala em voz baixa, portanto  humilde; pergunta muito, portanto
tem nsia de saber; examina tudo, portanto  ctico; escuta o que imagina ser
mentira, portanto  indulgente; acredita que tudo gira em torno de voc,
portanto no  pior que os outros homens e sua crena no  mais tola que a dos
outros. Alm disso, ver demasiado no o confundiu; no se preocupa com o que no
lhe interessa; no est paralisado pelo saber. As outras virtudes, voc deve
saber melhor que eu e qualquer outro.
IMPERADOR - Voc  espirituoso.
MENDIGO - Toda adulao merece pagamento. Mas agora no vou pagar nada pelo meu
pagamento.
IMPERADOR - Eu pago todos os servios que me fazem.
MENDIGO - Isso est claro. O fato de esperar aprovao revela a sua alma comum.
IMPERADOR - No guardo nenhum rancor de voc. Isso tambm  comum.
MENDIGO - . Porque voc no pode me fazer mal.
IMPERADOR - Posso mandar jogar voc num calabouo.
MENDIGO -  fresco l?
IMPERADOR - O sol no entra nunca.
Mendigo - Sol no existe. Voc deve ter memria ruim.
IMPERADOR - Tambm posso mandar matar voc.
MENDIGO - Ento j no vai chover na minha cabea, os insetos vo embora, meu
estmago vai me deixar em paz e haver o maior silncio que j conheci.
Um mensageiro entra e fala em voz baixa com o imperador.
IMPERADOR - diga que no me demoro. Sai o mensageiro. No vou te fazer nada
disso. Pondero as coisas que fao.
MENDIGO - No diga isso a ningum, seno vo tirar concluses observando teus
atos.
IMPERADOR - No creio que me desprezem.
MENDIGO - Diante de mim todos se curvam. Mas isso no me impressiona. S os
insistentes me incomodam com suas conversas e perguntas.
IMPERADOR - Incomodo-te?
MENDIGO - essa  a pergunta mais boba que voc fez hoje. Voc no tem vergonha.
No respeita a intangibilidade de um ser humano. No conhece a solido, por isso
procura a aprovao de um desconhecido como eu. Voc depende do respeito de cada
homem.
IMPERADOR - Eu domino os homens. Por isso me respeitam.
MENDIGO - A rdea tambm pensa que domina o cavalo, o bico da andorinha pensa
que orienta seu vo e a ponta da palmeira pensa que arrasta a rvore em direo
ao cu!
IMPERADOR - Voc  um homem mau. Eu o faria eliminar, se depois no tivesse que
pensar que foi minha vaidade ferida.
O mendigo apanha o realejo e toca. Um homem passa rapidamente e faz uma
reverncia.
MENDIGO - guardando o realejo - Esse homem tem uma mulher que rouba dele. 
noite ela se inclina sobre ele para lhe tirar dinheiro. s vezes ele acorda e a
v inclinada sobre ele. Entoa pensa que ela o ama tanto, que no pode passar uma
noite sem o contemplar. Por isso perdoa os pequenos roubos que descobre.
IMPERADOR - Vai comear outra vez. Nem uma palavra disso  verdade.
MENDIGO - Pode ir. Voc est ficando vulgar.
IMPERADOR -  inacreditvel. O Mendigo toca o realejo. Terminou a audincia?
MENDIGO - Agora todos vem outra vez o cu mais bonito e a terra mais frtil,
por causa desse pouquinho de msica, e prolongam sua vida e perdoam a si mesmos
e a seus vizinhos, por esse pouquinho de som.
IMPERADOR - Diga-me, pelo menos, por que no me suporta mas me contou tanta
coisa?
MENDIGO displicente - Porque voc no foi orgulhoso demais para escutar minha
conversa, nica coisa que eu precisava para esquecer a morte do meu cachorro.
IMPERADOR - Agora vou embora. Voc estragou o dia mais belo da minha vida. No
devia ter parado. Piedade no leva a nada. a nica coisa que vale em voc  a
coragem de falar comigo nesses termos. E foi por isso que fiz todos esperarem.
Parte, escoltado pelos soldados. Novamente tocam os sinos.
MENDIGO percebe-se que  cego - Agora ele foi embora. Deve ser de manh, pois o
ar est to quente. O garoto hoje no vem. H festa na cidade. Aquele idiota
tambm foi para l. Agora tenho que pensar outra vez no meu cachorro.

****

O TRNSITO DA ALMA
Plato
Raciocinemos um pouco para sentir que  uma esperana profunda, essa, consoante
a qual a morte  um bem. Porque, de duas, uma: ou a morte  um entorpecimento
absoluto, uma privao de todo sentimento, ou, como se diz, um trnsito da alma
deste para um outro lugar. Se  a privao de todo sentimento, um sono pacfico
no qual no se  turbado pelo mais simples sonho, quo maravilhosa deve ser a
morte! Porque se algum, depois de uma noite tranqila, sem nenhuma inquietao,
sem o menor sonho, a comparasse com todos os dias e todas as noites de sua vida,
e se se obrigasse a dizer em s conscincia quantos dias e quantas noites tivera
que julgara melhores que aquela noite, estou em que desde o mais simples
particular at o mais glorioso rei encontraria bem poucos e com muita facilidade
poderia enumer-los. Se a morte  coisa semelhante, chamo-a com razo  um bem;
desse modo, o tempo, todo ele, nada mais  que uma simples noite.
Mas se a morte  um trnsito da alta deste para um outro lugar e, como dizem,
sob ns se encontra o lugar para onde vo todos os que vivem, que maior bem se
pode desejar, juzes meus? Porque, se ao deixar os juzes prevaricadores deste
mundo, encontra-se no inferno os verdadeiros juzes que, segundo se diz, ali
fazem justia: Minos, Radamento, aco, Triptlemo e todos os outros semideuses
que foram justos durante toda a sua vida, no ser essa mais ditosa das trocas?
Que preo no pagareis pela felicidade de conversar com Orfeu, Hesodo e
Homero? No que me toca, se essa  a verdade, mil vezes morreria com gosto. Que
transporte de alegria quando me encontrasse com Palamedes, com Ajax, ou qualquer
outro heri da antigidade que tenha morrido em virtude de uma sentena injusta!
Que gosto ser-me dado comprar minha sorte com a deles! Ser-me-ia prazer
inenarrvel passar os dias a interrogar, a examinar todas essas personagens,
para distinguir as que so verdadeiramente sbias das que acreditam s-lo e no
o so. Existe algum, juzes, que no desse tudo o que tem no mundo para
examinar aquele que conduziu um numeroso exrcito contra Tria, Ulisses, Ssifo,
e tantos outros homens e mulheres cuja conversao e cujo exame seria uma
felicidade inexplicvel?
Vs tambm, juzes, deveis possuir essa confiana em presena da morte, fundados
na verdade de que no h nenhum mal para um homem de bem durante a sua vida e
mesmo depois da morte; e que os deuses sempre os protegem; o que neste momento
me acontece no  obra da simples casualidade; e estou convencido de que o
melhor  partido para mim  morrer, logo, e libertar-me de todos os desgostos
desta vida. Eis porque a voz divina nada me disse neste dia. Nenhum
ressentimento tenho dos meus acusadores, nem dos que me condenaram com inteno
de me fazer mal, e pois, dando-me motivos para que deles eu me queixasse. Mas
uma s merc vos quero pedir. Quando meus filhos forem maiores, eu vos suplico:
atormentai-os, fustigai-os como eu vos atormento e fustigo, se notardes que eles
tambm do preferncia s riquezas ou quaisquer outras coisas  virtude; e se
crem em algo quando nada so, no deixeis de tirar-lhes vingana, porque no se
aplicam ao que deveriam aplicar-se e acreditam ser aquilo que  no so; porque
da mesma forma tenho obrado para com vocs. Se me concedeis essa merc, no s
eu como tambm meus filhos no deixaremos de alardear vossa justia. Mas  tempo
que daqui nos retiremos, eu, para morrer, vs, para viver. De ns todos, quem
leva a melhor parte? Isso  o que ningum sabe.


****

O Vingador
Anton Tchecov

ogo depois de haver surpreendido sua mulher em flagrante, encontrava-se Fedor
Fedorovich Sigaev na loja de armas de Schmuks e Cia, a escolher o revolver que
melhor lhe pudesse servir. Seu rosto expressava ira, dor e deciso irrevogvel.
-Bem sei o que devo fazer!-, pensava. -Quando os fundamentos de uma famlia so
profanados, e a honra  arrastada pela lama e triunfa o vcio... eu, como
cidado e como homem honrado, devo ser o vingador. Matarei primeiro a ela,
depois ao amante e finalmente suicidar-me-ei-.
No havia ainda escolhido o revolver e nem sequer assassinara algum, mas na
imaginao j se lhe apresentavam trs cadveres ensangentados, de crnios
triturados, os miolos a flutuarem... Barulho, rudo de curiosos e autpsia.
Possudo pela insensata alegria do homem ofendido, calculava o horror dos
parentes e do pblico, a agonia da traidora e at lhe parecia poder ler em
pensamento os artigos da primeira pgina, a comentarem a decomposio dos
fundamentos da famlia.
O empregado da loja, tipo inquieto, afrancesado, de ventre pequeno e colete
branco, apresentava-lhe os revlveres e juntando os calcanhares dizia, sorrindo
respeitosamente:
- Eu aconselharia a Mousieur que levasse este magnfico modelo do sistema Smith
& Wesson.  a ltima palavra na cincia das armas. Possui trs propulsores e
pode-se dispar-lo a uma distncia de seiscentos passos. Chamo tambm a ateno
de Mousieur para a limpeza do acabamento. Seu sistema  que est mais em moda.
Vendemos diariamente dezenas deles, que so utilizados contra os bandidos, os
lobos e os amantes. Seu tiro  preciso e forte, alcana distncias enormes e
mata, atravessando-os, a mulher e o amante. Quanto aos suicidas, Mousieur, no
conheo, para eles, melhor sistema.
E o empregado, apertando e soltando o gatinho, soprando o cano e fingindo mirar,
parecia prximo a afogar-se de puro entusiasmo. A julgar-se pela expresso
extasiada de seu rosto, poder-se-ia pensar que ele mesmo, de boa vontade,
pregaria um tiro na testa, se possusse uma arma to maravilhosa quanto aquela.
- E qual o preo? - perguntou Sigaev.
- Quarenta e cinco rublos, Mousieur.
- Hum!  muito caro, para mim.
- Neste caso, Mousieur, posso oferecer-lhe algo mais em conta. Aqui est. Tenha
a bondade de examinar. Temos estoque variado e de todos os preos... Este, por
exemplo, do sistema Lefrauch, que custa somente 18 rublos. Porm... - o
empregado fez um muxoxo de pouco caso -  um sistema, Mousieur, demasiadamente
antiquado. Quem o compra so os pobres de esprito e os psicopatas. Suicidar-se
ou matar a prpria mulher com um Lefauch  considerado atualmente de mau gosto.
O bom-tom admite somente uma Smith & Wesson.
- No necessito matar-me ou a algum - mentiu, com acento sombrio, Sigaev. -
Compro-o simplesmente para a minha casa de campo... Para assustar os ladres.
- No nos interessa o seu motivo -sorriu o empregado, baixando modestamente os
olhos - Se, em cada caso, buscssemos as razes, j deveramos ter fechado a
loja. Para espantar os corvos, Mousieur, o Lefauch no serve, pois produz rudo
um tanto surdo. Eu lhe proponho uma pistola Mortimer, das chamadas para duelos.
-E se eu o provocasse para um duelo?-, passou pela cabea de Sigaev. -Porm...
no... Seria honra demasiada. A essas bestas, devemos mat-las, como
cachorros...-
O empregado, revoluteando graciosamente e em pequenos passos, sem deixar de
sorrir e de conversar, apresentou-lhe todo o monte de revlveres. O Smith &
Wesson era o de aspecto mais slido e justiceiro. Sigaev tomou um destes nas
mos, fixou-o e quedou ensimesmado. A imaginao desenhava-o destroando um
crnio, o sangue a escorrer como um rio sobre o tapete e o assoalho, a traidora,
moribunda, agitando um p convulso... Para a alma indignada, aquilo era pouco. O
quadro de sangue, os soluos e o estupor no o satisfaziam. Deveria pensar em
algo mais terrvel.
-Isto  o que farei-, pensou. -Matarei a ele e a mim em seguida, porm ela...
deixaria viver. Que morra do arrependimento e do desprezo dos que a cercam! Para
natureza to nervosa quanto a sua, ser martrio maior que a morte!-
Comeou a imaginar o prprio funeral: ele, o ofendido, estendido no atade, com
um sorriso bondoso nos lbios... Ela, plida, torturada pelos remorsos,
caminhando atrs do fretro, como uma Nobe, sem poder escapa aos olhares
depreciativos e aniquiladores, lanados pela multido indignada...
- Vejo, Mousieur, que lhe agrada o Smith & Wesson - comentou o empregado,
interrompendo o devaneio - Se o acha muito caro, posso fazer uma reduo de
cinco rublos, embora tenhamos outros mais baratos.
A figurinha afrancesada girou graciosamente sobre os prprios taces e alcanou
na prateleira outra dzia de estojos com revlveres.
- Aqui est outro, Mousieur. O  preo, trinta rublos. No  caro, se lembrarmos
que o cmbio est baixo e que os direitos alfandegrios sobem cada dia mais...
Juro-lhe, Mousieur, que sou conservador, porm j comeo a protestar! Imagine
que o cmbio e a tarifa da alfndega so o motivo de que somente os ricos possam
adquirir armas! Para os pobres nada mais resta que as armas de Tula, e os
fsforos. E as armas de Tula so uma desgraa! Se algum pretender disparar uma
arma de Tula sobre a prpria mulher, apenas consegue atingir a prpria
omoplata...
Repentinamente Sigaev entristeceu-se com a idia de morrer e no contemplar os
sofrimentos da traidora. A vingana unicamente  doce quando existe a
possibilidade de ver e tocar seus frutos. Pois, que sentido encontraria em estar
deitado no atade, se nada poderia perceber?!
-E se eu fizesse isto?... mat-lo, ir a seu enterro, ver tudo e depois me
suicidar?... Sim. Porm... antes do enterro eu seria preso e me tirariam a
arma... Bem... O que farei ser mat-lo e deixar que ela viva. Eu... enquanto
no decorra um certo tempo, no me matarei. Serei preso. Para suicidar-me,
sempre terei ocasio. Estar preso ser melhor, pois que ao prestar declaraes,
terei possibilidade de demonstrar, ante o poder e a sociedade, toda a baixeza do
seu comportamento. Se eu morresse, ela, com seu carter desavergonhado e
embusteiro, jogaria a culpa sobre mim, e a sociedade acabaria por absolv-la....
de outro lado, talvez caoe de mim, se continuo a viver... Ento....
Um minuto depois, pensava:
-Se... Talvez me acusem de sentimentos mesquinhos se eu me matar... E, depois,
para que suicidar-me? Isso em primeiro lugar. Em segundo... o suicdio 
covardia. Ento, o que farei ser mat-lo, deix-la viver e eu irei para o
crcere. Serei julgado e ela figurar como testemunha... Veremos seu sobressalto
e vergonha, quando precisar enfrentar meu advogado! Por certo que as simpatias
do tribunal, do pblico e da imprensa estaro ao meu lado!...-
Enquanto assim devaneava, o empregado continuava a expor a mercadoria e
considerava de seu dever, entreter o comprador.
- Veja aqui, outros, ingleses, de sistema novo, que recebemos h pouco. Porm,
previno-o, Mousieur, de que todos os sistemas empalidecem diante do Smith &
Wesson. Por certo, ter lido, h poucos dias, acerca de um militar que comprara
um Smith & Wesson em nossa casa, e que o usou contra o amante... E que imagina
tenha acontecido? A bala atravessou primeiro o amante, alcanou, depois o abajur
de bronze, em seguida o piano de cauda e deste, como uma carambola, matou um
cachorro pequins e roou a esposa... As conseqncias foram brilhantes e
honraram nossa firma. O militar est preso agora... Por certo o condenaro a
trabalhos forados!... Em primeiro lugar, porque temos leis muito antiquadas ,
em segundo, porque j se sabe que o tribunal sempre toma o partido do amante.
Por qu? Muito simples, Mousieur. Porque tambm o jurado, os juzes, o
procurador e o advogado de defesa se entendem com esposas alheias e mais
tranqilos esto quando sabem de que um marido h na Rssia. A sociedade se
encantaria, caso o Governo desterrasse todos os maridos para a ilha de Sajalin.
Ah! Mousieur! No pode o senhor imaginar a indignao que me desperta este
desmoronar dos costumes morais contemporneos!... Nestes tempos, cortejar
mulheres alheias causa tanto prazer quanto filar cigarros os outros ou pedir
livros emprestados! Cada ano que passa, o nosso comrcio declina, porm no
significa que haja menos amantes... Significa que os maridos reconciliam-se com
a situao e temem os trabalhos forados - e o empregado, olhando em torno de
si, sussurrou:  - E quem  o responsvel, Mousieur? O Governo!
-Acabar em Sajalin, por causa de um porco... no, no  razovel-, refletiu
Sigaev. -Se me condenam aos trabalhos forados, somente conseguirei dar  minha
mulher a possibilidade de casar-se outra vez e de enganar tambm ao segundo
marido. O lucro ser todo dela! O que farei ento ser isto: deix-la viver, no
me matar e nem matar a ele... Devo imaginar algo mais prudente e sentimental.
Castig-los-ei com meu desprezo e encetarei escandaloso processo de divrcio...-
- Aqui est, Mousieur, um sistema novo - comentou o empregado, recolhendo de
outra prateleira mais uma dzia de revlveres. - Chamou-lhe a ateno para o
mecanismo original do co...
Porm, uma vez tomada aquela deciso, Sigaev no mais necessitava de revlver.
Em compensao, o empregado, cada vez mais inspirado, no cessava de mostrar-lhe
os artigos que tanto elogiava. O marido ofendido envergonhou-se de que, por sua
causa, o sujeito estava trabalhando em vo, a entusiasmar-se e a perder tempo.
-Bem - balbuciou. - Ser melhor que eu volte mais tarde ou mande algum...
Conquanto no visse a expresso do rosto do empregado, compreendeu que, para
suavizar a violncia da situao, no havia outra sada que comprar algo. Porm,
o que? Seus olhos percorreram as paredes da loja, em busca de uma coisa barata,
e se detiveram numa rede de cor verde, pendurada junto  porta.
- E isso? Que  isso? - perguntou.
-  uma rede para caar codornas.
- Qual o preo?
- Oito rublos.
- Pois pode mandar embrulhar.
O marido ofendido pagou os oito rublos, passou a mo na rede para lev-la e,
cada vez mais ofendido, saiu da loja.


***

O xale de Selim (Gaudissart II)
Honor de Balzac
Saber vender, poder vender, e vender! O pblico no desconfia de todas as
grandes coisas que Paris deve a essas trs faces do mesmo problema. O luxo de
lojas to ricas quanto os sales da nobreza antes de 1789, o esplendor dos cafs
que freqentemente supera, e muito facilmente, no do neo-Versailles, poema das
exposies nas vitrines, destrudo todas as noites, reconstrudo todas as
manhs; a elegncia e a graa dos jovens em contato com as compradoras, as
fisionomias sedutoras e a toalete das moas que devem atrair os compradores; e,
por fim, recentemente, as profundezas, os espaos imensos e o luxo babilnico
das galerias, onde negociantes monopolizam as especialidades, reunindo-as - tudo
isso no  nada!... Trata-se, ainda, apenas de aprazer ao mais vido e mais
gasto rgo que se desenvolveu no homem, desde a sociedade romana, e cuja
exigncia tornou-se ilimitada, graas aos esforos da refinadssima civilizao.
Esse rgo  o olho dos parisienses! Esse olho consome fogos de artifcio de cem
mil francos, palcios de dois quilmetros de comprimento por sessenta ps de
altura, em vidros multicores, luminosos em catorze teatros todas as noites,
panoramas renascentes, contnuas exposies de obras-primas, mundos de dores e
universos de alegrias, em passeio pelas avenidas ou errando pelas ruas;
enciclopdias de frioleiras no carnaval, vinte obras ilustradas por ano, mil
caricaturas, dez mil vinhetas,litografias e gravuras. Esse olho absorve cerca de
quinze mil francos de gs todas as noites; finalmente, para satisfaz-lo, a
cidade de Paris despende anualmente alguns milhes em propagandas e em
decoraes. E isso ainda no  nada... Isso no  seno o lado material da
questo. Sim, quanto a ns,  pouca coisa, em comparao com os esforos de
inteligncia, de astcia, dignas de Molire, empregadas pelos sessenta mil
caixeiros e as quarenta mil moas penduradas aos bolsos dos compradores, como os
milhares de peixinhos nos pedaos de po que flutuam nas guas do Sena.
O Gaudissart do lugar  pelo menos igual em recursos, em esprito, em chiste, em
filosofia, ao ilustre caixeiro-viajante que se tornou o prottipo dessa tribo.
Fora de sua loja, de sua funo, ele  como um balo sem gs; no deve as
faculdades seno ao seu meio de negociantes, como o ator que no  sublime seno
no seu teatro. Se bem que em relao aos outros caixeiros da Europa, o francs
tenha mais instruo, para que possa, numa emergncia, falar de asfalto, de Bal
Mabille, polca, literatura, livros ilustrados, estradas de ferro, poltica,
cmaras e revoluo, ele  excessivamente tolo quando deixa seu trampolim, seu
poleiro, suas graas de encomenda; mas ali, na corda tensa do balco, a palavra
nos lbios e o olho na freguesia, o xale na mo, ele eclipsa o grande
Talleyrand; tem mais esprito que Dsaugiers, mais finura que Clepatra, vale
Monrose multiplicado por Molire. Talleyrand caoaria de Gaudissart na prpria
casa deste; mas em sua loja, Gaudissart teria caoado de Talleyrand.
Expliquemos esse paradoxo por um fato.
Duas bonitas duquesas tagarelavam ao lado deste ilustre prncipe, queriam um
bracelete. Esperavam, da casa do mais clebre joalheiro de Paris, um caixeiro e
os braceletes. Um Gaudissart chega munido de trs braceletes, trs maravilhas,
entre as quais as duas mulheres hesitam. Escolher!  o lampejo da inteligncia.
Hesitais?... J sei, errastes. O gosto no tem duas inspiraes. Por fim, depois
de dez minutos, o prncipe foi consultado; v as duas duquesas assoberbadas com
as mil facetas da incerteza entre as duas jias mais notveis; porque, logo de
incio uma foi rejeitada. O prncipe no deixa sua leitura, no olha para os
braceletes, examina o caixeiro.
- Qual escolheria o senhor para a sua amiguinha? - pergunta-lhe.
O rapaz mostra uma das jias.
- Nesse caso, pegue a outra, e far a felicidade de duas mulheres, - disse o
mias fino dos diplomatas modernos - e o senhor, rapaz, faa a felicidade de sua
amiga. - As duas belas mulheres sorriem, o caixeiro se retira, toa lisonjeado
pelo presente que o prncipe acaba de lhe fazer, quanto da boa opinio que o
mesmo tem dele.
Uma mulher acompanhada de outra, desce de sua brilhante carruagem, parada na rua
Vivienne, diante de um desses suntuosos magazines onde se vendem xales. As
mulheres so quase sempre duas para esta espcie de expedies. Todas, em
circunstncias semelhantes, passeiam em dez lojas, antes de se decidirem; e, no
intervalo entre uma e outra, zombam da comediazinha que os caixeiros
representam. Examinemos quem desempenha melhor o seu papel: a compradora ou o
vendedor? Qual dos dois leva vantagem nesta pequena encenao?
Quando se trata de descrever o maior feito do comrcio parisiense, a Venda!
Deve-se criar um tipo sintetizando nele a questo. Ora, aqui o xale ou a
correntinha de mil escudos, causaro mais emoes que a pea de cambraia, que  o
vestido de trezentos francos. Porm,  estrangeiros dos dois mundos! Se apesar
de tudo tomastes conhecimento da fisiologia da fatura, sabei que esta cena se
desenrola nas lojas de novidades, pela barege (espcie de l), de dois francos
ou pela musselina estampada, de quatro francos o metro!
Como ireis desconfiar, princesas ou burguesas, desse belo rapazinho de rosto
aveludado e colorido como um pssego, de olhos cndidos, vestido quase to bem
quanto o vosso... o  vosso primo, e dotado de uma voz to doce como a l que vos
desdobra? H trs ou quatro assim: um de lhos negros, semblante decidido, que
vos diz: -Aqui est!- com um ar imperial. Outro tem olhos azuis, maneira
tmidas, frases submissas e de quem se diz: -Pobre criana! No nasceu para o
comrcio!...- Este, castanho claro, olhos amarelos e sorridentes, a frase
aprazvel, e dotado de uma atividade, de uma alegria meridionais. Aquele,
vermelho fulvo, barba em leque, angustiado como um comunista, severo, imperioso,
de gravata fatal, e com discursos breves. Essas diferentes espcies de caixeiro,
que respondem aos principais caracteres de mulheres, so os braos de seu
patro, um gordo bonacho, de alegre figura, meio calvo, com ventre de deputado
ministerial, s vezes condecorado com a Legio de Honra por ter mantido a
superioridade da indstria francesa, oferecendo linhas de uma rotundidade
satisfatria, tendo mulher, filhos, casa de campo e conta no banco. Esse
personagem desce  arena,  maneira do deus ex machina, quando a intriga muito
embaralhada exige uma rpida soluo. Assim, as mulheres so cercadas de
bonomia, de juventude, de graas, de sorrisos, de delicadezas, disso que a
humanidade civilizada oferece de mais simples, de mais enganadoramente sedutor,
de perfeitamente arrumado por nuanas, para todos os gostos.
Uma palavra sobre os efeitos naturais de tica, de arquitetura, de decorao;
uma palavra curta, decisiva, terrvel; uma palavra que  a histria feita no
prprio local. O livro em que ledes esta pgina instrutiva  vendido na r. de
Richelieu, 76, num elegante bazar, branco e ouro, forrado de veludo vermelho,
que possua uma pea na sobreloja, onde a luz se expande amplamente da Rua
Mnars, e vem, como uma pintura, franca, pura, limpa, sempre igual a si mesma.
Que passante no admirou o persa, o rei da sia que se posta na esquina da rua
da Bolsa, encarregado de dizer urbi et orbi; - -Eu reino aqui mais
tranqilamente que em Laore-. Em quinhentos anos, essa escultura na rua poderia,
sem esta imortal anlise, ocupar os arquelogos, fazer escrever volumes
in-quatro com figuras, como o de M. de Quatremre sobre o Jpiter Olmpico, e
onde se demonstraria que Napoleo foi um pouco sofi (sofi - ttulo do x da
Prsia) em alguma regio do Oriente, antes de ser imperador dos franceses. Pois
bem, esse rico magazine se estabeleceu na pobre sobrelojazinha, e, a golpes de
cheques bancrios, tomou-a para si. A COMDIA HUMANA cedeu lugar  comdia das
casimiras. O persa sacrificou alguns diamante de sua coroa para obter esse dia
to necessrio...
Voltemos aos jovens, quele quadragenrio condecorado, recebido pelo rei dos
franceses  sua mesa, quele primeiro-caixeiro de barba rua e ar autocrtico.
Esses Gaudissarts emritos so medidos com mil caprichos por semana e conhecem
todas as vibraes da corda-casimira do corao das mulheres. Quando uma
prostituta, uma dama respeitvel, uma jovem me de famlia, uma elegante, uma
duquesa, uma inocente senhorinha, uma estrangeira inocentssima se apresentam,
cada uma delas  bem depressa analisada por aqueles sete ou oito homens, que a
estudam no momento em que ela ps a mo na maaneta da porta, e que se postam
junto s janelas, ao balco,  porta, num ngulo, no meio da loja, tendo um ar
de pensar nas alegrias de um domingo arrebatador; examinando-os, perguntamos
mesmo: - Em que podem eles pensar? A bolsa de uma mulher, seus desejos,
intenes, fantasias, so ento melhor dissecados, num minuto do que em sete
quartos de hora uma carruagem suspeita, na fronteira,  revistada pelos
empregados da alfndega. Esses inteligentes espertalhes, srios como os pais
nobres da tragdia, viram tudo, os pormenores do arranjo, uma invisvel marca de
lama na botinha, uma copa de chapu antiquada, uma fita de chapu suja ou
mal-escolhida, o corte e o feitio do vestido, o estado de conservao das luvas,
o vestido cortado pelos inteligentes costureiros de Vitorina, a jia de
Froment-Meurice, a bijuteria da moda, enfim, tudo que pode, numa mulher, trair
sua qualidade, sua fortuna, seu carter. Tremei! Esse sindrio de Gaudissarts,
presidido pelo patro, jamais se engana. Alm disso, as idias de cada um so
transmitidas ao outro com uma rapidez telegrfica, por olhares, tiques,
sorrisos, movimentos de lbios que, observando-os, direis o sbito iluminar-se
da Av dos Campos Elseos, onde o gs voa de candelabro para candelabro, como
aquela idia alumia o fundo dos olhos de caixeiro para caixeiro.
E, bem depressa, se se trata de uma inglesa, o Gaudissart sombrio, misterioso e
fatal avana, como um personagem de lorde Byron.
Se  uma burguesa, designa-se o mais velho dos caixeiros; ele lhe mostra cem
xales num quarto de hora, deslumbra-a com as cores, os desenhos, desdobra tantos
xales quantas voltas descreve um milhafre em torno de um coelho; e, ao fim de
meia hora, maravilhada, e no sabendo o que escolher, a digna burguesa recorre
ao caixeiro, que a coloca entre os extremos deste dilema, e as iguais sedues
de dois xales: - -Este, senhora,  mais vantajoso,  verde-ma, a cor da moda;
mas a moda muda, enquanto este aqui (o negro ou o branco do qual a venda 
urgente), no ver seu fim, e combina com todas as toaletes.-
Isto  o a b c da profisso.
- Vocs no podem imaginar de quanta eloquncia se precisa nesta profisso
ingrata - dizia ultimamente o primeiro Gaudissart do estabelecimento, falando a
dois de seus amigos, Duronceret e Bixou, vindos para comprar um xale, e
confiando-lhe a escolha. - Vejam bem, vocs so artistas discretos e posso
falar-lhes das astcias do nosso patro, que certamente  o homem mais forte que
j vi.  Ele inventou o xale-Selim, um xale impossvel de se vender, e que
vendemos sempre. Guardamo-lo numa caixa de cedro, muito simples, forrada de
cetim, um xale de quinhentos a seiscentos francos, um desses xales enviados por
Selim a Napoleo. Este xale  a nossa Guarda Imperial, fazemo-lo avanar em
desespero de causa: ele se vende e no morre.
Naquele momento uma inglesa saiu de uma carruagem e se mostrou no belo ideal de
sua fleuma, particular  Inglaterra e a todos os seus produtos pretendidamente
animados.
- A inglesa - disse ele ao ouvido de Bixou -  a nossa batalha de Waterloo.
Temos mulheres que nos escorregam das mos como enguias, apanhamo-las na escada;
meretrizes que caoam de ns, rimos com elas, as seguramos pelo crdito;
estrangeiras indecifrveis, a cuja resistncia levamos diversos xales e com as
quais nos entendemos; mas com a inglesa  lutar com o bronze da esttua de Lus
XIV. Essas mulheres acostumam-se a uma ocupao, a um prazer de pechinchar...
Elas nos fazem de otrios, veja s!...
O caixeiro romanesco avanara.
- A senhora deseja seu xale das ndias, ou da Frana, a preos alto, ou...
- Eu ver.
- Quanto a senhora quer despender?
Voltando-se para apanhar os xales e expor sobre o cabide, o caixeiro lanou aos
seus colegas um olhar significativo (Que estopada!), acompanhado de um
imperceptvel movimento de ombros.
- Eis aqui as nossas mais belas qualidades em vermelho das ndias, em azul, em
alaranjado; todos so de dez mil francos... Eis os de cinco mil e os de trs
mil.
A inglesa, com uma indiferena profunda, olhou de soslaio ao seu redor, antes de
olhar para as trs exibies, sem dar sinal de aprovao ou reprovao.
- O senhor ter outras? - pergunta ela.
- Sim, minha senhora, mas a senhora talvez no esteja muito decidida a comprar
um xale?
- H! Muito decidido.
E o caixeiro foi procurar xales de preo inferior; porm, exibe-os solenemente,
como dizendo: -Ateno para essas magnificncias!-
- Estes so muito mais caros, - disse ele - no foram despachados, vieram por
mensageiros e so comprados diretamente de Laore.
- H! Eu compreende - disse ela - ser para mim muita melhor.
O caixeiro permaneceu srio, malgrado sua irritao. A inglesa, sempre fria como
uma planta aqutica, parecia feliz com sua fleuma.
- Que preo? - perguntou ela, mostrando um xale azul-celeste, coberto de
pssaros.
- Sete mil francos.
Ela tomou o xale, envolveu-se nele, olhou no espelho e disse, devolvendo-o:
-Non, eu no gostar nada.-
Um bom quarto de hora transcorre nesses ensaios infrutferos.
- No temos mais nada, minha senhora, disse o caixeiro, olhando o patro.
- A senhora  difcil como todas as pessoas de bom gosto - disse o chefe do
estabelecimento, avanando, com aquelas graas de lojista, onde o despretensioso
e o chocarreiro se misturam agradavelmente.
A inglesa tomou o seu lornho e mediu o fabricante da cabea aos ps.
- S me resta um nico xale, mas eu nunca o mostro; - retornou ele - pessoa
nenhuma o achou de seu gosto,  muito extravagante; e esta manh eu pensava em
d-lo  minha mulher.
- Vejamos, senhor.
- V busc-lo! Disse o patro a um caixeiro - est na minha casa...
- Eu ser muita mais satisfeita de ver - respondeu a inglesa.
A resposta foi um triunfo, porque essa mulher cacete parecia a ponto de ir
embora.
- Custou sessenta mil francos na Turquia, minha senhora.
- H!
-  um dos sete xales enviados por Selim ao imperador Napoleo. A imperatriz
Josefina, muito caprichosa, trocou-o por um desses trazidos pelo embaixador
turco e que meu predecessor tinha comprado; mas nunca alcanou preo; porque em
Frana, nossas mulheres no so to ricas quanto na Inglaterra... Este xale vale
sete mil francos que, certamente, representam catorze ou quinze, pelos
interesses compostos...
- Compostas de que? - disse a inglesa.
- Aqui est, senhora.
E o patro, tomando precaues de demonstradores do Grune-gewelbe (museu
histrico e artstico), abriu com uma chave minscula uma caixa quadrada, feita
de cedro, cuja forma e simplicidade causaram profunda impresso na inglesa.
Dessa caixa saiu um xale de cerca de mil e quinhentos e francos, amarelo ouro,
com desenhos negros, em que o colorido no era ultrapassado seno pela bizarria
das invenes indianas.
- Splendid! - disse a inglesa -  verdadeiramente belo... Eis my ideal de xale,
it is very magnificent...
O resto foi perdido na pose de madona que ela tomou para mostras seus olhos sem
calor, que acreditava belos.
- O imperador Napoleao admirava-o muito, serviu...
- Muita - repetiu ela.
Tomou o xale, envolveu-se nele, examinou-o O patro retomou o xale, veio  luz
do dia esfreg-lo, manuseou-o, f-lo brilhar; dedilhou como Liszt dedilha o
piano.
-  very fine, beautiful, sweet - disse a inglesa com a expresso tranqila.
Duronceret, Bixiou, os caixeiros trocaram olhares de prazer que significavam -o
xale est vendido-.
- E ento, senhora? - perguntou o negociante, vendo a inglesa absorta numa
espcie de contemplao.
- Decididamente -disse ela - eu amar melhor uma carruagem!
Um mesmo sobressalto animou os caixeiros silenciosos e atentos, como se algum
fluido eltrico os tivesse tocado.
- Tenho uma linda, senhora, - respondeu o patro - ela me veio de uma princesa
russa, a princesa Narzicoff, que me deixou em pagamento de fornecimentos; se a
senhora quiser v-la, ficar maravilhada;  nova, no rodou dez dias e no tem
igual em Paris.
A estupefao dos caixeiros foi contida por uma profunda admirao.
- Quero muito - respondeu ela.
- A senhora pode conservar o xale - disse o negociante - ver que efeito tem na
carruagem.
O negociante foi buscar as luvas e o chapu.
- Como acabar isso? - disse o primeiro caixeiro.
Isto, para Duronceret e Bixiou teve o atrativo de um fim de romance, ou por
outra, o interesse particular de todas as lutas, mesmo mnimas, entre Inglaterra
e Frana. Vinte minutos depois o patro voltou.
- V ao Hotel Lawson, eis o carto. Miss Noswell. Leve a fatura que lhe vou dar,
h seis mil francos a receber.
- Como o conseguiu? - perguntou Duronceret, saudando o rei da fatura.
- Ora, senhor, reconheci essa natureza de mulher excntrica; ela adora ser
notada; quando viu que todo o mundo olhava para seu xale, disse-me:
-Decididamente, guarde a sua carruagem, senhor, fico com o xale.-- Enquanto o
senhor Bigorneau - disse ele, mostrando o romanesco caixeiro - lhe desdobrava
xales, eu examinava a nossa mulher, que lhes dirigia o lornho, para saber que
idia tinham dela, ocupava-se mais de vocs que dos xales. As inglesas tm uma
falta de gosto particular (porque eu no posso dizer um gosto), no sabem o que
querem e se decidem a comprar uma coisa, mais por uma circunstncia fortuita do
que pelo seu valor. Reconheci uma dessas mulheres entediadas do marido, de seus
moleques, virtuosa a contragosto, em busca de emoes e sempre fantasiadas de
carpideiras...
Eis, literalmente, o que disse o chefe do estabelecimento.
Isso prova que no negociante de qualquer outro pas no h seno um negociante;
enquanto que na Frana, e sobretudo em Paris, h um homem egresso do colgio
real, instrudo, que ama as artes, ou a pesca, ou o teatro, ou devorado pelo
desejo de ser sucessor do senhor Cunin-Cridaine, ou coronel da guarda nacional,
ou membro do Conselho Geral do Sena, ou Juiz do Tribunal do Comrcio.
- Senhor Adolfo, - disse a mulher do fabricante ao seu pequeno caixeiro louro -
encomende uma caixa de cedro no marceneiro.
- E, - disse o caixeiro, reconduzindo Duronceret e Bixiou, que tinham escolhido
um xale para a senhora Schontz - ns vamos escolher entre nossos velhos xales
aquele que poder desempenhar o papel do xale de Selim.



****

O Barba-Azul
Charles Perrault

Era uma vez um homem que tinha belas casas na cidade e no campo, baixela de ouro
e prata, mveis trabalhados e carruagens douradas; mas, por desventura, esse
homem tinha a barba azul: isto o fazia to feio e to terrvel que no havia
mulher nem moa que no fugisse ao v-lo.
Uma de suas vizinhas, dama de alta linhagem, tinha duas filhas absolutamente
belas. Ele pediu-lhe uma delas em casamento, deixando a escolha  vontade
materna. Nenhuma das duas o queria, e cada uma o passava  outra, pois nenhuma
podia decidir-se a aceitar um homem de barba azul. Aborrecia-as tambm a
circunstncia de ele j ter desposado vrias mulheres sem que ningum soubesse o
que era feito delas.
Para travar relaes com as moas, Barba-Azul levou-as, juntamente com a me e
as trs ou quatro melhores amigas, e algumas jovens da vizinhana, a uma das
suas casas de campo, onde passaram nada menos de oito dias. E eram s passeios,
caadas e pescarias, danas e festins e merendas: ningum dormia, levavam a
noite a pregar peas uns aos outros; afinal, tudo correu s mil maravilhas, e a
mais nova das meninas comeou a achar que o dono da casa no tinha a barba to
azul, e que era homem muito digno. E, logo que tornaram  vidade, realizou-se o
casamento.
Ao cabo de um ms, Barba-Azul disse  mulher que tinha de fazer uma viagem 
provncia, de seis semanas, no mnimo, para um negcio de importncia; que lhe
pedia se divertisse  vontade durante a ausncia dele - mandasse buscar suas
boas amigas, levasse-as ao campo, se quisesse, comesse do bom e do melhor.
- Aqui esto - disse-lhe - as chaves dos dois grandes guarda-mveis; aqui as da
baixela de ouro e de prata que s se usa nos grandes dias; aqui as dos meus
cofres, onde est o meu ouro e a minha prata, as dos cofres de minhas jias e
aqui a chave de todas as dependncias da casa. Esta chavezinha  a chave do
gabinete que fica no extremo da grande galeria do poro: pode abrir tudo, pode
ir aonde quiser, mas neste pequeno gabinete eu lhe probo de entrar, e o probo
de tal maneira que, se acontecer abri-lo, no h nada que voc no possa esperar
da minha clera.
Ela prometeu cumprir  risca tudo quanto acabava de ser ordenado: e ele, depois
de beij-la, toma sua carruagem e parte.
As vizinhas e as boas amigas no esperaram, para ir  residncia da jovem
esposa, que as mandassem buscar, to sfregas estavam de ver-lhe todas as
riquezas da casa, no havendo ousado ir l enquanto o marido se achava por causa
de sua barba azul, que lhes fazia medo. E ei-las, sem perda de tempo, a
percorrer os quartos, gabinetes, vestirios, cada um mais belo que os outros.
Subiram depois aos guarda-mveis, onde no se cansavam de admirar o nmero e a
beleza das tapearias, dos leitos, dos sofs, dos guarda-roupas, dos veladores,
das mesas e dos espelhos, nos quais a gente se via da cabea aos ps, e cujos
ornatos, uns de vidro, outros de prata, ou de prata dourada, eram os mais belos
e magnficos que j se poderiam ter visto. No cessavam de exagerar e invejar a
felicidade da amiga, a quem, no entanto, no alegravam todas essas riquezas,
ansiosa que estava de abrir o gabinete do poro.
Sentiu-se to premida pela curiosidade que, sem refletir que era uma
indelicadeza deixas sozinhas as visitas, desceu at l por uma escadinha oculta,
e com tamanha precipitao que por duas ou trs vezes pensou em quebrar o
pescoo. Chegando  porta do gabinete, a se deteve algum tempo, lembrando-se da
proibio que o marido lhe fizera e considerando que lhe poderia acontecer uma
desgraa por haver sido desobediente; mas a tentao era to forte que ela no a
pde vencer: tomou da chavezinha e abriu, trmula, a porta do gabinete.
A princpio no viu coisa alguma, porque as janelas se achavam fechadas;
momentos depois comeou a notar que o soalho estava todo coberto de sangue
coalhado, no qual se espelhavam os corpos de vrias mulheres mortas, presas ao
longo das paredes (eram todas mulheres que Barba-Azul desposara e que havia
estrangulado). Cuidou morrer de susto, e a chave do gabinete que acabava de
retirar da fechadura, caiu-lhe da mo. Aps haver recobrado um pouco o nimo,
apanhou a chave, fechou a porta e subiu ao quarto para refazer-se; no o
conseguia, porm, devido  sua grande perturbao.
Tendo notado que a chave do gabinete estava manchada de sangue, limpou-a duas ou
trs vezes, mas o sangue no desaparecia; lavou-a, esfregou-a com sabo e
pedra-pomes; debalde: o sangue ficava sempre, pois a chave era fada, e no havia
meio de limp-la inteiramente: quando se tirava o sangue de um lado, ele voltava
do outro.
Barba-Azul regressou de sua viagem logo nessa noite, e disse haver recebido, no
caminho, notcias de que o negcio que o levara a partir acabara de realizar-se
com vantagem para ele. A mulher fez quanto pde para se mostrar encantada com
esse breve retorno.
No dia seguinte ele pediu-lhe as chaves, e ela as entregou, porm a mo tremia
tanto que Barba-Azul adivinhou sem esforo todo o ocorrido.
- Por que  - perguntou-lhe - que a chave do gabinete no est junto com as
outras?
- Devo t-las deixado l em cima, sobre a minha mesa.
- Quero a chave aqui, j!
Depois de vrias delongas, a mulher teve que lev-la. Barba-Azul examinou-a e
disse:
- Por que h sangue nesta chave?
- No sei nada disso - respondeu a pobre criatura, mais plida que a morte.
- Voc no sabe nada - continuou ele - mas eu sei muito bem; voc quis entrar no
meu gabinete! Est certo, senhora, l entrar e ir ter o seu lugar ao lado das
que l encontrou.
Ela se atirou aos ps do marido, chorando e pedindo-lhe perdo, com todos os
sinais de um arrependimento sincero de no haver sido obediente. Bela e aflita
como estava, seria capaz de enternecer um rochedo; mas Barba-Azul tinha o
corao mais duro que um rochedo:
- Tem de morrer, senhora, e imediatamente.
- Visto que tenho que morrer - respondeu ela, fitando-o com os olhos banhados de
lgrimas - d-me um pouco de tempo para rezar a Deus.
- Dou-lhe meio quarto de hora - replicou Barba-Azul - e nem um momento  a mais.
Quando ela se viu sozinha, chamou a irm e disse-lhe:
- Minha irm, sobe ao alto da torre, eu te suplico, para ver se meus irmos no
vm; eles me prometeram que me viriam ver hoje, e, se os vires, faze-lhes sinal
para que se apressem.
A irm subiu ao alto da torre, e a pobre aflita gritava-lhe de vez em quando:
- Ana, minha irm, no vs ningum?
E a irm respondia:
- No vejo nada a no ser o Sol que brilha e a erva que verdeja.
Entrementes, Barba-Azul, com um grande cutelo na mo, gritava para a esposa com
toda a fora:
- Desce depressa, ou eu subirei a.
- Mais um momento, por favor -, respondia-lhe a mulher. E logo, baixinho:
- Ana, minha irm, no vs ningum?
E a irm Ana respondia:
- No vejo nada a no ser o Sol que brilha e a erva que verdeja.
- Desce depressa - bradava Barba-Azul -, ou eu subirei a.
- J vou - respondeu a mulher. E depois:
- Ana, minha irm, no vs ningum?
- S vejo - respondeu a irm Ana - uma grossa poeira que vem desta banda.
- So meus irmos?
- Infelizmente no, minha irm;  um rebanho de carneiros.
- No queres descer? - bradava Barba Azul.
- Mais um momento - respondia a mulher.
E depois:
- Ana, minha irm, no vs ningum?
- Vejo - respondeu ela - dois cavaleiros que vm deste lado, mas ainda esto
muito longe... Louvado seja Deus! - exclamou um instante depois. - So meus
irmos; estou lhes fazendo sinal, tanto quanto me  possvel, para que se
apressem.
Barba Azul ps-se a gritar to alto que a casa estremeceu. A pobre mulher desceu
e atirou-se-lhe aos ps, desgrenhada e em prantos.
- Isto no adianta nada - disse Barba Azul. - Tens de morrer.
Em seguida, segurando-a com uma das mos pelos cabelos e erguendo-a com a outra
o cutelo no ar, ia cortar-lhe a cabea. A pobre mulher, voltando-se para ele,
rogou-lhe que lhe concedesse um breve momento para se recolher.
- No, no - disse ele -, e encomenda bem tua alma a Deus.
E erguendo o brao... Neste momento bateram  porta com tanta fora que Barba
Azul se deteve instantaneamente. Abriram e logo se viu entrar dois cavaleiros
que, sacando da espada, correram direto a Barba Azul.
Ele reconheceu que eram os irmos da esposa, um deles drago e o outro
mosqueteiro, e fugiu sem demora para salvar-se; mas os dois irmos o perseguiram
to de perto que o alcanaram antes que ele pudesse atingir a escada externa.
Atravessaram-no a fio de espada, e o deixaram morto. A pobre dama estava quase
to morta quanto o marido, nem lhe restavam foras para beijar os irmos.
Verificou-se que Barba-Azul no tinha herdeiros, razo por que sua mulher se
tornou dona de todos os seus bens. Empregou parte deles no casamento de sua irm
Ana com um jovem fidalgo, que a amava desde muito tempo; outra parte na compra
do posto de capito para seus dois irmos, e o resto no casamento dela prpria
com um homem muito distinto, que lhe fez esquecer o  mau tempo que ela passara
com Barba Azul.
Moralidade
A curiosidade  to cheia de encantos!
Mas custa s vezes dores, prantos...
Cada instante se v disso exemplo bem claro.
 - perdoe, belo-sexo - um deleite fugaz,
Mal o gozamos se desfaz.
E custa sempre muito caro.


*****

O CASAMENTO ENGANOSO
Cervantes
Saa do Hospital da Ressurreio, em Valladolid, alm da Porta do Campo, um
soldado que, por usar a espada como bordo e pela fraqueza de suas pernas e
palidez do rosto, denotava claramente - embora a temperatura no fosse to
clida - que ele deveria ter transpirado em vinte dias toda a disposio que,
com toda a certeza, adquirira numa hora. Andava aos ziguezagues, tropeando a
cada momento, como um convalescente e, ao transpor a porta da cidade, percebeu
aproximar-se da sua direo um amigo a quem no via h mais de seis meses. Este,
benzendo-se, como se tivesse visto alguma assombrao, aproximou-se e lhe disse:
- Que aconteceu, Senhor Alferes Campuzano?  possvel que esteja por aqui?
Imaginava-o em Flandres, de lana em riste e no por esses lados, arrastando a
espada. Que palidez, que fraqueza  essa?
Campuzano respondeu:
- Se estou ou no nesta terra, Senhor Licenciado Peralta, a minha simples
presena o diz. Quanto s outras perguntas, nada tenho a responder seno que
estou saindo daquele hospital, onde sofri quatorze suadouros, por causa de uma
mulher a quem escolhi para minha, quando jamais o devia ter feito.
- Quer vossa merc dizer que se casou? - perguntou Peralta.
- Sim - respondeu Campuzano.
- Teria sido por amor? -  disse Peralta, acrescentando: - tais casamentos trazem
sempre o arrependimento.
- No saberei se foi por amor - respondeu o Alferes - embora possa garantir ter
sido por amargor, pois do meu casamento, ou cansamento, carrego tais coisas no
corpo e na alma que as do corpo, para cur-las, me custaram quarenta suadouros,
mas as da alma no encontro remdio sequer para alivi-las. Mas vossa merc me
perdoar; no posso manter longas conversas neste lugar. Qualquer outro dia,
mais comodamente, contar-lhe-ei minhas aventuras; so as mais novas e originais
que vossa merc ter ouvido em todos os seus longos dias.
- No ser assim - disse o Licenciado - pois desejo que venha  minha pousada,
para ali desabafarmos nossas mgoas. Alm disso, tenho l uma comida prpria
para convalescentes. Embora tenha sido preparada para dois, meu criado se
contentar com um pastel. E se a sua convalescena permitir, umas fatias de
presunto serviro para nos abrir o apetite. A boa vontade com que lhe ofereo,
no somente agora, mas todas as vezes que vossa merc quiser, est acima de
qualquer dvida.
Agradeceu-lhe Campuzano, aceitando o convite e os oferecimentos. Foram ambos a
So Lorente, onde ouviram missa, e depois Peralta levou o amigo  sua casa,
dando-lhe o prometido e insistindo que repetisse. Mal Campuzano conclura,
pediu-lhe Peralta que narrasse os acontecimentos que tanto o haviam mortificado.
Campuzano no se fez de rogado, pondo-se logo a falar.
- Vossa merc bem se recorda, Sr Licenciado Peralta, como fui, nesta cidade,
amigo do Capito Pedro de Herrera, que agora est em Flandres.
- Bem me recordo - respondeu Peralta.
- Pois um dia - prosseguiu - quando mal acabvamos a refeio na pousada da
Solana,  onde vivamos, entraram duas mulheres de belo porte, acompanhadas por
dois criados. Uma delas ps-se logo a falar com o Capito, encostados ambos a um
canto da janela. A outra sentou-se numa cadeira junto  minha, cobrindo-se com o
xale at o pescoo, no deixando ver do seu rosto mais do que a transparncia do
xale permitia. Embora cortesmente lhe suplicasse que se descobrisse, no foi
possvel conseguir tal coisa. E, para completar a histria - fosse de caso
pensado ou por simples acaso - ela exibiu suas mos muito brancas, cobertas por
excelentes jias. Por meu lado, estava importantssimo com aquela grande
corrente que vossa merc ter, talvez, conhecido, o chapu com plumas e cordes,
o traje de cores e a arrogncia de um militar, to imponente aos olhos da minha
vaidade que me julgava pairando no ar. Com tudo isto, roguei-lhe que se
descobrisse, ao que ela respondeu:
- No sejais importuno. Tenho minha casa; fazei com que um pajem me siga, pois
embora seja mais honrada do que faz crer esta resposta, quero ver se vossa
discrio corresponde  vossa galhardia. Folgarei, ento, que me vejais.
Beijei-lhe as mos pela grande merc que me fazia, em paga da qual lhe prometi
punhados de ouro. O capito conclura sua conversa. Elas se foram, seguidas pelo
meu criado. O capito disse-me que a dama lhe pedira para levar algumas cartas a
outro capito, em Flandres. Dizia serem para um primo, mas ele bem sabia no
serem seno para o amante. Eu ficara abrasado pelas mos de neve que havia visto
e ansioso pelo rosto que desejava ver. E assim, no dia seguinte, guiado pelo meu
criado,  fui visit-la. Encontrei uma bela residncia e uma mulher de quase
trinta anos, a quem reconheci pelas mos. No era bela ao extremo, mas era-o de
maneira que nos podia render pelo trato, pois possua um tom de voz to suave e
penetrante, que  ia at a alma. Mantivemos longos e amorosos colquios.
Blasonei, garganteei, prometi, enfim, dei todas as demonstraes que me
pareceram necessrias para tornar-me benquisto. Mas ela parecia ter sido feita
para ouvir semelhantes ou maiores oferecimentos e razes. Era toda ouvidos e
nenhuma surpresa. Para concluir: nossos colquios duraram quatro floridos dias.
Continuei a visit-la sem que chegasse, porm, a colher o fruto ambicionado.
Nos momentos em que a visitei, encontrei a casa livre; jamais percebi traos de
parentes reais ou fingidos. Servia-lhe certa moa, mais astuta que simplria.
Tratando meus amores como soldado em vspera de partida, apertei finalmente a
senhora Dona Estefnia de Caicedo -  este o nome de quem assim me deixou - que
respondeu: -Tola seria, Senhor Alferes Campuzano, se quisesse vender-me  vossa
merc por santa. Pecadora tenho sido e ainda sou, embora no tanto que os
vizinhos murmurem e os empregados comentem. Nem de meus parentes herdei coisa
alguma, mas, apesar disso, o que tenho aqui em casa vale - bem contados - dois
mil e quinhentos escudos. E isso em coisas que vendidas se convertero em bom
dinheiro. Com esta fortuna procuro marido a quem entregar-me e a quem obedecer.
A quem, juntamente com o arranjo da minha vida, entregarei uma incrvel
solicitude em agradar e servir. Prncipe algum ter cozinheiro mais cuidadoso ou
quem melhor saiba dar o ponto nos guisados. Tanto sei dirigir uma casa como
orientar uma cozinha ou receber visitas. Na verdade sei mandar e fazer com que
me obedeam. Nada desperdio e muito economizo. O dinheiro no vale menos e sim
mais, quando gasto sob minha orientao. A roupa branca que possuo, que  muita
e da melhor, no foi adquirida em lojas ou vendedores ambulantes; esses dedos e
os de minhas criadas fizeram-na, e se fosse possvel, t-la tecido em casa,
assim teramos feito. Digo estas coisas sem modstia, pois no h mal quando a
necessidade nos obriga a diz-las. Acrescento, finalmente, que procuro marido
que me ampare, dirija e honre, e no amante que se aproveite e depois v falar
por a... Se vossa merc souber apreciar a prenda que neste momento se lhe
oferece, aqui estou  vossa disposio, sujeita a tudo quanto vossa merc
ordenar, e isso sem me pr em leilo, que  a mesma coisa que andar em lngua de
casamenteiros. No h nada para consertar o todo como as suas prprias partes.
Eu, que estava com o juzo, no na cabea, mas nos calcanhares, julgando a
felicidade ainda maior do que a imaginao me pintava e oferecendo-se-me to 
mo, quantidade tal de bens - j os contemplava convertidos em dinheiro! - sem
fazer mais comentrios do que aqueles a que dava lugar a ventura (que me
entibiava o raciocnio), respondi-lhe que me sentia muito alegre e afortunado
por haver-me dado o cu, quase por milagre, companheira tal, para faz-la
senhora da minha vontade e dos meus haveres, que no eram to  poucos que no
valessem, junto com aquela corrente que trazia no peito e outra joiazinhas que
estavam em casa, alm das minhas galas de soldado, mais de dois mil ducados, os
quais, junto aos dois mil e quinhentos dela, formavam quantia mais do que
suficiente para vivermos na aldeia onde nasci e ainda possua alguns bens. Tais
haveres, convertidos em dinheiro, renderiam seus frutos com o tempo,
permitindo-nos uma vida alegre e descansada. Em suma, naquela noite acertamos o
nosso casamento e esclarecemos nossa vida de solteiros. E nos prximos trs dias
de festas que vieram logo pela Pscoa, fizeram-se os proclamas e no quarto dia
nos casamos, encontrando-se presentes dois amigos meus e um rapaz que dizia ser
primo dela. Tratei-o como a um parente, com palavras amveis, como foram as que
at ento ele dirigira a minha nova esposa. Falava, no entanto, com inteno to
falsa e hipcrita que prefiro ficar calado. Embora esteja dizendo somente
verdades, no so verdades de confessionrio, dessas que no podem deixar de ser
ditas.
O criado conduziu meu ba da pousada para a casa de minha mulher. Encerrei nele,
diante dela, minha esplndida corrente, mostrando-lhe outras trs ou quatro, no
do mesmo tamanho, porm da melhor qualidade, assim como trs ou quatro cintos de
diversos tipos. Mostrei-lhe, tambm as roupas e chapus, entregando-lhe para as
despesas da casa os quatrocentos reais que possua. Seis dias desfrutei,
calmamente, como genro pobre em casa de sogro rico, a lua de mel. Pisei custosos
tapetes, amassei colchas de Holanda, alumiei-me com candelabros de prata.
Almoava na cama, levantando-me s onze horas, comendo as doze e sesteando as
duas. Dona Estefnia e a criada excediam-se em agrados e cuidados. Meu criado,
que at ali fora lerdo e preguioso, transformara-se num azougue. Os momentos
que Dona Estefnia no passava ao meu lado, era fcil encontr-la na cozinha,
toda solcita em ordenar guisados que me despertassem o gosto e avivassem o
apetite. Minhas camisas, colarinhos e lenos, pelo perfume que exalavam,
pareciam um novo Aranjuez de flores, banhados como eram em gua de flor de
laranjeira.
Esses dias passaram voando como passam os anos sob o imprio do tempo. Por
ver-me to regalado e bem servido, transformara-se em boa a m inteno com que
comeara aquele negcio. Ao fim deles, certa manh - quando ainda no leito com
Dona Estefnia - chamaram com grandes batidas na porta. Ouo a criada dizer,
assomando a janela:
- Oh! Seja bem-vinda! Vejam s, veio antes do que avisara em sua carta...
- Quem  que chegou, mulher? - perguntei.
- Quem? - respondeu ela - Minha Senhora Dona Clementa Bueso, acompanhada por Dom
Lope Melendez de Almendrez, dois criados e Hortigosa, a ama.
- Corra, mulher, e abra-lhes a porta, que j vou - disse Dona Estefnia 
criada, que parara sem saber que atitude tomar. - E vs, senhor, pelo amor que
me tendes, no os assusteis nem respondais, em meu nome, a coisa alguma que
contra mim ouvirdes.
- Mas, quem vos ofender, ainda mais em minha presena? Dizei. Que gente  essa
que tanto alarma vos causa?
- No tenho tempo para responder-vos - disse Dona Estefnia: - sabei somente que
tudo o que aqui se passar  fingido e visa a certo desgnio o qual sab-lo-eis
depois.
Quis replicar, mas a Senhora Dona Clementa Bueso no permitiu, pois entrou no
quarto, arrastando a cauda do longo vestido verde todo enfeitado com cordes de
ouro, capinha da mesma qualidade, chapu de plumas verdes, brancas e vermelhas,
e rico cinto de ouro. Metade do seu rosto estava oculto por um vu leve. Em sua
companhia entrou o Senhor Dom Lope Melendez de Almendrez, no menos bizarro nem
menos ricamente ataviado.
Dona Hortigosa foi a primeira a falar, exclamando:
- Jesus! Que  isto? Ocupando o leito da senhora Clementa, e alem disso, com um
homem? Milagres vejo hoje nesta casa! No h dvida de que Dona Estefnia tomou
o p pela mo abusando da amizade de minha senhora.
- Tendes razo, Dona Hortigosa, mas a culpa  minha. Que jamais me aborrea
novamente por arranjar amigas que no sabem ser seno quando o desejam!
A tudo isto, Dona Estefnia respondeu:
- No se aborrea, Dona Clementa, e creia que no  sem mistrio que a senhora
v estas coisas em sua casa. Quando souber da verdade, sei que ficarei
desculpada e vossa merc sem nenhum motivo de queixa.
Nessas alturas eu j vestira as calas e a camisa e Dona Estefnia, tomando-me
pelo brao, levou-me a outro quarto e ali me disse que aquela sua amiga desejava
enganar Dom Lope, com quem pretendia casar-se. Que o engano era dar-lhe a
entender que aquela casa e tudo quanto nela estava lhe pertencia, e disso tudo
pensava fazer seu dote. Uma vez realizado o casamento pouco se lhe dava que
descobrissem o engano, confiada como estava no grande amor de Dom Lope.
- E logo me devolver tudo. No se pode lev-la a mal, nem a nenhuma outra
mulher que procure marido honrado, embora por meio de um embuste.
Respondi-lhe que era uma prova de grande amizade o que tencionava fazer, e que
primeiro pensasse bem, porque poderia, depois, sem ter necessidade, precisar da
justia para readquirir seus haveres. Porm ela respondeu com tantas e tais
razes, mostrando quantas coisas obrigavam-na a servir Dona Clementa - coisas de
pouca importncia,  verdade - que embora de m vontade e com remorso na
conscincia, concordei com o desejo de Dona Estefnia. Assegurou-me ela que a
farsa duraria somente oito dias, durante os quais ficaramos em casa de outra
amiga sua. Acabamos de nos vestir e logo, despedindo-se de Dona Clementa e do
Senhor Lope, disse a meu criado que carregasse o ba e a seguisse. Eu tambm a
segui, sem despedir-me de ningum.
Dona Estefnia parou em casa de uma amiga e, antes que entrssemos, esteve l
dentro um bom tempinho, falando com ela. Depois surgiu uma criada, mandando que
entrssemos - eu e o criado. Levou-nos a um pequeno aposento, no qual havia duas
camas to juntas uma da outra que pareciam uma s. No havia espao para
separ-las; as cobertas pareciam beijar-se. Ali estivemos seis dias e em todos
eles no passou uma hora que no tivssemos alguma discusso. Dizia-lhe da
loucura que fizera em ter deixado a casa e seus pertences, embora fosse para a
prpria me. Durante as discusses, ia e vinha pelo quarto, tanto que a dona da
casa, um dia em que Dona Estefnia fora ver em que p estavam as coisas, quis
saber qual a causa que me levava a discutir tanto com ela e o que fizera que
tanto a ofendia, sobretudo insistindo em dizer que fora loucura notria e no
amizade perfeita. Contei-lhe toda histria, falei que me casara com Dona
Estefnia e do dote que ela trouxera. Quando lhe disse da grande tolice que
fizera em deixar a casa e pertences  Dona Clementa, embora fosse com a boa
inteno de conseguir um marido da importncia de Dom Lope, comeou a benzer-se
e a persignar-se com tanta pressa e com tantos -ai! Jesus,  Jesus!&#8221; que no pude
deixar de ficar grandemente perturbado. Ela ento me disse:
- Senhor Alferes: no sei se vou contra a minha conscincia ao contar-lhe o que
tambm nela pesaria se permanecesse calada. Porm, por Deus e pelo Destino, seja
o que for: viva a verdade e morra a mentira! A verdade  que Dona Clementa  a
verdadeira dona da casa e dos haveres. Mentira foi tudo quanto lhe contou Dona
Estefnia. Ela no possui casa nem bens, nem outro vestido a no ser aquele que
traz no corpo. E, para tornar vivel esse logro, foi que Dona Clementa andou a
visitar parentes seus em Placncio e dali esteve fazendo uma novena a Nossa
Senhora de Guadalupe. Neste espao de tempo deixou Dona Estefnia para cuidar de
sua casa, pois so realmente grandes amigas. Est claro que no se deve culpar a
pobre mulher, pois soube arranjar para marido uma pessoa como o Senhor Alferes.
Aqui ela deu fim  sua conversa e eu dei princpio ao meu desespero, e sem
dvida o teria prolongado se o meu anjo da guarda no acudisse, dizendo ao meu
corao no esquecer que era cristo e que o maior pecado dos homens  o
desespero, por ser pecado dos demnios. Esta considerao, ou boa inspirao,
conformou-me um pouco, mas no tanto que deixasse de apanhar a capa e sasse 
procura de Dona Estefnia, com inteno de dar-lhe exemplar castigo. Porm a
sorte, que no saberei dizer se melhorava ou piorava as coisas, ordenou que em
nenhum lugar onde pensava encontr-la, ela estivesse. Fui a So Lorente,
encomendando-me  Nossa Senhora; sentei-me, depois, num banco e com o desgosto
fui tomado por um sono to pesado que no despertaria to cedo se no me
sacudissem. Fui cheio de pensamentos e de aflio  casa de Dona Clementa, e
encontrei-a to  vontade, como senhora  que era de seus bens; no ousei
dizer-lhe nada porque Dom Lope estava presente. Voltei  casa de minha
hospedeira,  a qual me disse haver contado  Dona Estefnia como eu j sabia
toda sua hipocrisia e falsidade e que ela lhe havia perguntado que cara fizera
eu com a notcia. Havia-lhe respondido que uma cara muito m e que, segundo o
seu modo de ver, eu sara a procur-la com ruim inteno e pior determinao.
Disse, finalmente, que Dona Estefnia levara tudo quanto havia no ba, sem
deixar nele uma s pea de roupa.
Aqui foi a coisa! Aqui teve-me Deus, de novo, em suas mos. Fui ver o ba,
encontrando-o aberto, como um tmulo  espera do cadver. Com boas razes seria
o meu, se no tivesse calma para sentir e ponderar tamanha desgraa...
- Bem esperta foi - disse neste momento, o Licenciado Peralta - por haver Dona
Estefnia, levado tanta corrente e tantos cintos, pois, como se diz, todos os
enterros... etc., etc.
- Nenhuma pena me deu essa falta - respondeu o Alferes - pois tambm poderei
dizer: Pensou Dom Simueque que me enganava com sua filha caolha e, por Deus,
coxo sou eu de um lado...
- No sei a que propsito pode vossa merc dizer isso - respondeu Peralta.
- O propsito  - disse o Alferes - de que aquele embrulho e aparato de
correntes, cintos e brincos, poderia valer, quando muito, dez ou doze escudos.
- Isso no  possvel - replicou o Licenciado - porque a corrente que o senhor
trazia no pescoo parecia pesar mais de duzentos ducados.
- Assim seria - respondeu o Alferes - se a verdade fosse o que a aparncia
mostrava; porm, como nem tudo o que reluz  ouro, as correntes, cintos, jias,
brincos, no passavam de imitaes. Estavam to bem feitas que somente o toque
ou o fogo poderiam descobrir sua qualidade.
- Dessa maneira - disse o Licenciado - entre vossa merc e a Senhora Dona
Estefnia, houve empate no jogo?
- E to empate - respondeu o Alferes - que poderamos voltar a baralhar as
cartas. Mas o estrago est, Sr. Licenciado, em que ela poder desfazer-se de
minhas correntes, e eu no do lao em que ca. Sim, porque, embora muito me
pese, ela  minha mulher.
- Da graas Deus, Sr. Campuzano - disse Peralta - que ela se foi e que no
estais obrigado a ir busc-la.
- Assim  - respondeu o Alferes - porm, com tudo isto, embora no a procure,
tenho-a sempre em pensamento, e onde quer que esteja est presente a desonra.
- No sei o que responder - disse Peralta - seno trazendo-lhe  memria dois
versos de Petrarca, que dizem:
Chi chi prende diletto di far frode,
Non sid lamentar s&#8217;altri l&#8217;inganna.
O que significa em nossa lngua: -aquele que tem o costume e o gosto de enganar
a outros, no deve queixar-se, quando  enganado.&#8221;
- No me queixo - respondeu o Alferes - e sim me lastimo, pois o culpado, nem
por reconhecer a culpa, deixa de sentir a pena do castigo. Bem sei que tentei
enganar e fui enganado, feriram-me com as minhas prprias armas, mas no posso
deixar que tais sentimentos deixem de subir  tona. Finalmente, o que mais
importa no meu romance - que tal nome se pode dar  narrativa das minhas
aventuras -  ter sabido que Dona Estefnia se fora com o primo, o mesmo que se
encontrava em nosso casamento, e que tempos atrs fora seu amigo para todas as
coisas. No quis procur-la, para no encontrar o mal que me faltava. Mudei
pousada e cabelo, em poucos dias comearam a cair-me os plos das sobrancelhas e
clios, e pouco a pouco foram-se eles. Tornei-me calvo antes do tempo: deram-me
uma doena chamada calvcie. Achei-me verdadeiramente limpo: no possua nem
cabelos para pentear, nem dinheiro para gastar. A enfermidade caminhou ao mesmo
passo da minha misria, e como a pobreza atropela a honra e a uns leva a forca,
a outros ao hospital e a outros ainda os faz bater nas portas dos seus inimigos
com pedidos e splicas, o que  uma das maiores desgraas que pode acontecer a
qualquer infeliz, e por no ter podido cuidar das roupas que me protegeriam e
assegurariam a sade ao chegar o tempo em que se do os suadouros no hospital da
Ressurreio, para ele me dirigi e nele tomei quarenta suadouros. Dizem que
ficarei bom, se me tratar. Espada ainda possuo; o resto, Deus remediar.

****

O DR. SABE-TUDO
Somerset Maughan

Estava disposto a antipatizar com Max Kelada antes mesmo de conhec-lo.
Terminara a guerra e era grande a afluncia de passageiros aos navios de
carreira. Dificilmente se conseguia acomodao e quem desejasse viajar tinha que
se conformar com o que as agncias ofereciam.
Ningum pensava na possibilidade de ocupar sozinho um camarote, e me senti feliz
quando me deram um onde havia apenas duas camas. Mas quando me disseram o nome
do companheiro, a minha satisfao se desfez. Era como uma sugesto de vigias
rigidamente fechadas, ausncia de ar no camarote, durante a noite.
J era desagradvel compartilhar de um camarote durante quatorze dias (eu
viajava de So Francisco para Yokoama); mas a partilha ter-me-ia parecido menos
desalentadora se o passageiro se chamasse Smith ou Brown.
Quando embarquei j estava no camarote a bagagem de Mr. Kelada. Desagradou-me o
aspecto; rtulos em excesso nas malas de mo e demasiado grande a mala de
camarote.
Mr. Kelada j retirara do estojo os objetos de toucador, e observei que era
cliente do maravilhoso Mousieur Coty, pois no lavatrio o seu perfume, sua loo
e a sua brilhantina. As escovas do Mr. Kelada, em suportes de bano com o
monograma em ouro, eram o que havia de melhor na matria.
Antipatizei inteiramente com Mr. Kelada. Dirigi-me para a sala de fumar. Pedi um
baralho e pus-me a jogar -pacincia-. Mal comeara, aproximou-se algum,
perguntando-me se o meu nome no era esse mesmo.
- Eu sou Mr. Kelada - acrescentou, com um sorriso em que mostrava uma fila de
dentes brilhantes; e sentou-se.
- Ah, sim, creio que estamos no mesmo camarote.
-  o que chamo de sorte. A gente nunca sabe com quem vai no camarote. Fiquei
contentssimo ao saber que voc era ingls. Gosto muito que ns, ingleses,
fiquemos juntos, a bordo, est entendendo?
Pestanejei.
-  ingls? - perguntei, talvez sem habilidade.
- Totalmente. Acha-me parecido com um americano? Sou ingls at a medula.
Para prov-lo, Mr. Kelada tirou do bolso um passaporte e, ufano, agitou-o junto
ao meu nariz.
O Rei Jorge tem muitos sditos estranhos. Mr. Kelada era baixo e de construo
vigorosa, moreno e escanhoado; possua um nariz carnudo e adunco, e uns olhos
muito grandes, brilhantes e lmpidos.
Os cabelos negros e longos eram reluzentes e encaracolados. Falava com uma
fluncia nada inglesa e os gestos eram exuberantes. Tinha a ntima convico de
que um exame mais detido naquele passaporte britnico me revelaria que Mr.
Kelada nascera sob cu mais azul do que se v geralmente na Inglaterra.
- Que vai tomar? - perguntou-me.
Olhei-o hesitante. A lei seca estava em vigor e, segundo todas as aparncias, o
navio estava integralmente seco.
Quando no estou com sede, no sei se o que me desagrada mais  -ginger ale- ou
limonada. Mas no rosto de Mr. Kelada um sorriso oriental.
- Usque com soda, ou Martini seco,  s dizer a palavra.
De cada um dos bolsos posteriores das calas retirou um frasco, colocando-o
sobre a mesa, diante de mim. Escolhi o martini. Ele chamou o garom e pediu gelo
e dois copos.
- Um timo coquetel - disse eu.
- Pois h em quantidade na fonte de origem, e se voc tiver amigos a bordo,
diga-lhes que descobriu um indivduo que dispe de todo o lcool do mundo.
Mr. Kelada era loquaz. Falou de Nova Iorque e de So Francisco.
Discutiu peas de teatro, filmes, poltica. Era patriota.
O pavilho britnico  um impressionante pedao de pano, mas quando  enfeitado
por um homem de Alexandria ou Beirute, no posso evitar a impresso de que perde
um qu de sua dignidade.
Mr. Kelada era ntimo. No gosto de me fazer importante mas julgo sempre
inconveniente que uma pessoa totalmente estranha no me conceda o tratamento de
senhor. Mr. Kelada certamente para me deixar  vontade, no usava tal
formalidade. No gostei dele. Deixei as cartas de lado quando ele se sentou:
mas, achando que para a primeira vez a nossa conversa j se estendera demais,
continuei com a pacincia.
- O trs no quarto - disse Mr. Kelada.
- Nada h demais desesperante quando estamos jogando pacincia do que nos
dizerem onde devemos por a carta que viramos, antes de termos tempo de olhar por
ns mesmos.
- Est andando, est andando - gritou: - O dez no valete.
Com o corao cheio de dio, terminei o jogo.
Neste momento ele segurou o baralho.
- Gosta de truques com cartas?
- No; detesto truques com cartas, respondi.
- Bem, vou mostrar-lhe s este.
Mostrou-me trs. Depois, disse que ia descer para o salo de refeies e
escolher um lugar.
- Oh, no se incomode - disse ele. J reservei um lugar para voc. Achei que,
como estvamos no mesmo camarote, bem podamos sentar-nos  mesma mesa.
Sim, eu no gostava de Mr. Kelada.
No somente eu compartilhava o camarote com ele e fazia trs refeies por dia
na mesma mesa, como tambm no podia passear pelo convs sem que se juntasse a
mim. Era intil fingir que no o via. Nunca lhe ocorria que no era desejado.
Tinha a convico de que os outros ficavam to contentes de v-lo como ele de os
ver. Se estivssemos em casa, poderamos empurr-lo escada abaixo, batendo com a
porta, sem que surgisse no seu crebro a suspeita de que no era uma visita
desejada.
Era muito socivel e, em trs dias, j se dava com todo o mundo a bordo.
Dominava tudo. Arranjava apostas, dirigia leiles, organizava subscries para
os prmios nas competies esportivas, inventava partidas de chinquilho,
promoveu o concerto e o baile  fantasia.
Estava sempre em toda a parte. Sem dvida, era o homem mais odiado do navio.
Chamavamos-lhe o Dr. Sabe-Tudo, mesmo diante dele.
Mr. Kelada considerava-se elogiado. Mas, nas horas das refeies era que se
tornava ainda mais intolervel. Ento, durante a melhor parte de uma hora,
tinha-nos  sua merc. Era jovial, veemente, loquaz e questionador. Sabia tudo
melhor do que qualquer pessoa; e afrontava a sua vaidade presunosa quem
discordasse dele. No abandonava um assunto, por menos importante que tivesse, a
no ser quando conseguisse reduzir o interlocutor ao seu ponto de vista.
Nunca lhe ocorria a possibilidade de que pudesse estar equivocado.
Era o homem que sabia. Sentvamo-nos  mesa do mdico.
Mr. Kelada sem dvida manteria pacificamente a hegemonia, pois o mdico era
preguioso e eu, frigidamente indiferente; mas havia tambm um homem chamado
Ramsay como companheiro de mesa. Era to dogmtico como Mr. Kelada e irritava-se
amargamente com a inabalvel firmeza do levantino. As discusses que travaram
eram ardentes e interminveis.
Ramsay  estava no servio consular dos EUA em Kobe. Era um americano do meio
oeste, grande e pesado. A gordura esticava-lhe a epiderme, e por sua vez
esticara-lhe seus ternos de confeco.
Viajava de volta para o seu posto, depois de uma rpida visita a Nova Iorque
onde fora buscar a esposa, que estivera passando um ano em sua terra. Mrs.
Ramsay era uma mulher mida e linda, de maneiras agradveis e portadora de senso
de humor. O servio consular  mal pago e ela vestia com simplicidade, mas sabia
tirar partido de seus vestidos. O efeito que causava era de serena distino.
No teria lhe prestado ateno particular se ela no tivesse uma qualidade que
poder ser bastante comum nas mulheres, mas que hoje no  comum no
comportamento delas. No era possvel olhar Mrs. Ramsay sem notar desde logo a
sua modstia. Fulgia na sua pessoa como uma flor na lapela.
Uma noite, durante o jantar, a conversa casualmente recaiu sobre o tema prolas.
Os jornais vinham noticiando a cultura de prolas pelos hbeis processos dos
japoneses e o mdico observou que as prolas cultivadas diminuiriam o valor das
verdadeiras. Aquelas j eram timas; em breve seriam perfeitas. Mr. Kelada, como
era de seu hbito, embrenhou-se no novo tema. Disse-nos tudo o que havia sobre
prolas. Creio que Ramsay soubesse pouco sobre elas, mas no pde resistir 
oportunidade de zombar do levantino e, em cinco minutos, estvamos numa
discusso exaltada.
Eu j assistira a outros gestos de impetuosidade e volubilidade de Mr. Kelada,
nunca, porm, o vira to impetuoso e volvel como agora.
Finalmente, estimulou-o qualquer coisa que Ramsay disse, porque ele deu um soco
na mesa e gritou:
- Bem, acho que entendo do que estou falando. Vou ao Japo exatamente para
tratar desse negcio de prolas. Estou no ramo e no h qualquer homem no ramo
que no lhe afirme que o digo sobre prolas  lei. Conheo as melhores prolas
do mundo e o que no conheo no vale a pena conhecer.
Eram novas para ns, porque Mr. Kelada, apesar de toda sua loquacidade, no
dissera a ningum qual a sua ocupao.
Sabamos apenas vagamente que ia ao Japo a negcios. Olhou a volta da mesa,
triunfalmente.
- Os japoneses jamais conseguiro uma prola cultivada que um perito, como eu,
no conhea, olhando-a com o canto do olho. - Apontou para o colar que Mrs.
Ramsay usava: - Pode confiar na minha palavra, Mrs. Ramsay: -este colar que a
senhora est usando nunca valer um cent menos do que vale agora.-
Mrs. Ramsay,  sua maneira modesta, corou um pouco e empurrou o colar para
dentro do vestido. Ramsay inclinou-se para a frente. Olhou para ns todos. Um
sorriso brincava nos seus olhos.
-  um belo colar, esse da minha esposa, no acha?
- Notei-o logo - respondeu Mr. Kelada - Hanhan, disse c comigo; essas prolas
so verdadeiras.
- No fui eu quem as comprou, naturalmente. Gostaria de saber quanto calcula que
custaram.
- Oh, no comrcio em grosso devem ter andado em quinze mil dlares. Mas se forem
compradas na Quinta Avenida, no me surpreenderia se dissessem que o preo andou
pelos trinta mil.
Ramsay sorriu com crueldade.
- Pois vai surpreender-se ao saber que minha esposa comprou esse colar no balco
da bijuteria de um magazine na vspera de nossa sada de Nova Iorque por dezoito
dlares.
Mr. Kelada ruborizou-se.
- Tolice! O colar  legtimo; , pelo tamanho, um dos mais belos que eu j vi.
- Quer fazer uma aposta? Aposto cem dlares como  imitao.
- Aceito.
- Ora Elmer, voc no pode apostar numa certeza - disse Mrs. Ramsay.
Trazia um leve sorriso nos lbios e o tom de sua voz era levemente splice.
- Acha? Se tenho uma oportunidade como esta de ganhar dinheiro facilmente, seria
um tolo se no aproveitasse.
- Mas como vamos provar? - continuou ela. -  apenas a minha palavra contra a de
Mr. Kelada.
- Permita-me examinar o colar; se for imitao, hei de lhe dizer logo. Posso
perder cem dlares. - Disse Mr. Kelada.
- Tire-o querida. Deixe Mr. Kelada examin-lo  vontade.
Mrs. Ramsay vacilou um momento. Levou as mos ao fecho.
- No posso abrir - disse - Mr. Kelada ter de contentar-se com a minha palavra.
Invadiu-me a sbita suspeita de que estava para acontecer qualquer coisa
infeliz, e no me ocorreu nada para dizer.
Ramsay levantou-se bruscamente.
- Eu abro.
Entregou o colar a Mr. Kelada. O levantino retirou do bolso uma lupa e
examinou-o atentamente. Um sorriso de triunfo espalhou-se pelo rosto liso e
trigueiro. Devolveu o colar. Ia falar quando subitamente reparou no rosto de
Mrs. Ramsay. Estava to plido que parecia que ela ia desmaiar. Encarava-o de
olhos muito abertos, aterrorizados. Transmitia um desesperado apelo; to claro
que estranhei que o marido no o notasse.
Mr. Kelada ficou silencioso, a boca entreaberta. Enrubesceu violentamente. Quase
podia ver-se o esforo que fazia sobre si mesmo.
- Enganei-me - disse -  uma excelente imitao, mas naturalmente, quando
examinei o colar com a lupa, vi que no era legtimo. Creio que vale dezoito
dlares, no mximo.
- Talvez isso o ensine a no ser to auto-suficiente de outra vez, meu jovem
amigo - disse Ramsay tomando a nota.
Notei que as mos de Mr. Kelada tremiam.
A histria espalhou-se pelo navio, como sucede sempre com as histrias e,
naquela noite, ele teve de enfrentar a zombaria de muitos. Era um grande motivo
para hilaridade o ter sido apanhado em erro o Dr. Sabe-Tudo. Mas Mrs. Ramsay se
retirou para o camarote com uma dor de cabea.
Na manh seguinte, levantei-me e pus-me a fazer a barba. Mr. Kelada permanecia
deitado, fumando. Subitamente, ouvi um pequeno roar, e vi uma carta deslizando
por baixo da porta. Abri a porta e olhei para fora. No havia ningum. Tomei da
carta e vi que estava endereada para Mr. Kelada. O nome estava escrito em
letras de imprensa. Entreguei-lhe.
- De quem ? - Abriu-a. - Oh!
Tirou do envelope no uma carta, mas uma nota de cem dlares.
Olhou para mim e tornou a enrubescer. Rasgou o envelope em pedacinhos e os ps
na minha mo.
- Quer fazer o favor de atirar pela vigia?
Fiz o que me pedia e depois olhei-o com um sorriso.
- Ningum gosta de passar por um perfeito idiota - disse ele.
- As prolas eram legtimas?
- Se eu tivesse uma linda mulher, no a deixaria passar um ano em Nova Iorque,
enquanto eu estivesse em Kobe... - disse-me.
Nesse momento, no antipatizei de todo com Mr. Kelada. Ele estendeu a mo, tirou
a carteira, e nela colocou cuidadosamente a nota de cem dlares.

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O Guardanapo dos poetas
Guillaume Apollinaire

Situado no limite da vida, nos confins da arte, Justin Prrogue era pintor. Uma
amiga vivia com ele e poetas o visitavam. Cada um, por sua vez, jantava no
atelier, onde o destino colocara, no teto, percevejos,  guisa de estrelas.
Havia quatro convivas que nunca se encontravam na mesa.
David Picard vinha de Sancerre; descendia de uma famlia judaica cristianizada,
como h tantas na cidade.
Lonard Delaisse, tuberculoso, escarrava sua vida de inspirado com uma expressao
que era para se morrer de rir.
George Ostreole, os olhos inquietos, meditava, como outrora Hrcules, entre as
entidades do beco.
Jaime Saint-Flix sabia muitas histrias; sua cabea era capaz de fazer a volta
dos ombros, como se o pescoo fora parafusado no corpo.
E seus versos eram admirveis.
As refeies no acabavam mais e o mesmo guardanapo servia, um por um, aos
quatro poetas, mas, sobre isso, nada se lhes dizia.
O guardanapo, pouco a pouco, foi ficando sujo.
Eis o amarelo de ovo junto a um rastilho sombrio de espinafre. Sta  a curva de
uma boca avinhada e estas cinco marcas cinzentas foram deixadas pelos dedos de
uma mo em repouso. Uma espinha de peixe rasgou o tecido como se fosse uma
lana. Um gro de arroz secou, colado, num ngulo. E a cinza de cigarro escurece
certas pares mais que outras.
* * *
David, olha o teu guardanapo - dizia a amiga de Justin.
-  preciso comprar guardanapos - dizia Justin - Pensa nisso, quando recebermos.
- O teu guardanapo est sujo, David - dizia a amiga de Justin. - Eu o mudarei da
prxima vez. A lavadeira no apareceu esta semana.
- Leonard, olha o teu guardanapo - dizia a amiga de Justin. - Podes escarrar no
caixo de carvo. Como o teu guardanapo est sujo! Eu o mudarei logo que a
lavadeira trouxer a roupa.
- Leonard, quero fazer o teu retrato escarrando - dizia Justin. - Gostaria at
de fazer uma escultura.
* * *
- George, tenho vergonha de te dar sempre o mesmo guardanapo - dizia a amiga de
Justin. - No sei que fim levou a lavadeira, que no h jeito de me trazer a
roupa.
- Jaime Saint-Flix, sou obrigada a te dar ainda o mesmo guardanapo. No tenho
outro hoje - dizia a amiga de Justin.
E o pintor fazia rodar a cabea do poeta durante todo o jantar, escutando muitas
histrias.
* * *
Passaram-se as estaes.
Os poetas se serviam, um por um, do guardanapo e seus poemas eram admirveis.
Lonard escarrava sua vida mais comicamente ainda e David Picard comeou tambm
a escarras.
O guardanapo venenoso infectou um a um; depois de David, George e Jaime, mas
eles no o sabiam.
Semelhante a um trapo ignbil de hospital, o guardanapo se manchava do sangue
que vinha aos lbios dos poetas, e os jantares no terminavam.
* * *
Na entrada do outono, Lonard escarrou o resto de sua vida.
Em diferentes hospitais, sacudidos pela tosse, como mulheres excitadas pela
voluptuosidade, os outros poetas morreram, com poucos dias de intervalo um do
outro. E os quatro deixaram poemas to belos que pareciam encantados.
Atriburam as mortes, no  alimentao, mas  fome excessiva e s viglias
lricas. Pois, poderia verdadeiramente, um nico guardanapo matar em to pouco
tempo quatro poetas incomparveis?
* * *
Mortos os convivas, o guardanapo tornou-se intil.
A amiga de Justin quis guard-lo na cesta de roupa suja.
Dobrara-o pensando: - Est mesmo muito sujo e comea a ter um cheiro ruim.
Mas, o guardanapo desdobrado, a amiga de Justin surpreendeu-se e chamou o amigo,
que se maravilhou:
-  um verdadeiro milagre! Este guardanapo, to sujo, que se exibe com tanta
complacncia, apresenta, graas  sujeira coagulada e s diversas cores, os
traos de nosso amigo que morreu, David Picard.
- No ? - murmurou a amiga de Justin.
Ambos em silncio, examinaram por alguns instantes a imagem miraculosa e depois,
docemente, viraram o guardanapo.
Mas imediatamente empalideceram, vendo aparecer o espantoso aspecto de morrer de
rir de Lonard Delaisse, esforando-se por escarras.
E os quatro cantos do guardanapo ofereceram o mesmo prodgio.
Justin e sua amiga viram George Ostreole indeciso e Jaime Saint-Flix a ponto de
contar uma histria.
- Largue o guardanapo - disse, bruscamente, Justin Prrogue.
O pano caiu e desdobrou-se no cho.
Justin e sua amiga circularam muito tempo ao redor do guardanapo como astros em
torno de seu sol e esta Santa Vernica, com seu qudruplo olhar, incitava-os a
fugir, alm dos limites da arte, at os confins da vida.

****

O prisioneiro do Cucaso
Leon Tolstoi
  Um nobre servia no Cucaso como oficial. Chamava-se Giline.
Um dia, recebeu uma carta com o remetente de sua casa. Sua me escrevia-lhe:
-Estou velha e desejo antes de morrer, abraar uma vez mais meu filho querido.
Vem dizer-me adeus. Quero que sejas tu a sepultar-me. Depois, com a ajuda de
Deus, voltars ao teu servio. Encontrei uma boa noiva para ti.  inteligente,
bondosa e tem alguns haveres. Talvez ela te agrade, talvez cases com ela, talvez
possas ficar por aqui...-
Giline teve um momento de hesitao: de fato, sua velha me no teria muito
tempo de vida; talvez no voltasse a v-la. Era necessrio partir e, se a noiva
lhe agradasse, era bem possvel que se realizasse o casamento.
Dirigiu-se ento ao coronel, obteve uma licena, disse adeus a seus camaradas,
comprou de seus soldados quatro cantis de aguardente com que festejou a
despedida, e disps-se a partir.
Estava-se ento em p de guerra, no Cucaso. Ningum viajava sozinho, nem de
dia, nem de noite. Assim que um russo saa e se afastava das fortalezas, os
trtaros matavam-no ou levavam-no prisioneiro para as montanhas. Duas vezes por
semana os viajantes iam de fortaleza em fortaleza protegidos pelos soldados da
escolta.
Estava-se ento em pleno vero. De madrugada, formou-se a caravana fora da
fortaleza; os soldados da escolta saram e iniciaram a marcha. Giline ia a
cavalo; uma carroa levando suas bagagens, seguia com a caravana.
Tinham 20 verstas de caminho. A caravana deslocava-se lentamente. Ora se
detinham os soldados, ora se soltava uma roda ou parava um cavalo da caravana,
parando todos para aguardar o retardatrio.
Giline pensou: -Por que motivo no hei de ir s, sem os soldados? O meu cavalo 
esplndido; mesmo que encontre os trtaros, fugirei, galopando.-
Parou a montada. Estava incerto do que fazer... Mas eis que para ele se dirige
Kostiline, outro oficial, tambm a cavalo, que lhe diz:
- Vamos embora, Giline. No agento mais. Estou com uma fome danada. Estou em
brasas. Tenho a camiseta ensopada.
- Tens o fuzil carregado?
- Sim.
- Bom, ento vamos. Apenas com uma condio: no nos separaremos, acontea o que
acontecer.
E partiram, deixando a caravana para trs. Cavalgaram pela estepe, conversando e
vigiando o horizonte. Os olhos perdiam-se ao longe, na imensido plana.
Finalmente foi interrompida a continuidade da estepe. O caminho seguia entre
duas montanhas, atravs de um desfiladeiro. Giline disse:
- Vou dar uma espiada, l do alto da montanha.
O seu cavalo era um animal treinado para caadas. Parecia ter asas, escalando a
encosta abrupta. Quando chegou ao alto, Giline desceu e olhou:  frente deles, a
cem metros, trtaros a cavalo. Trinta homens.
Quis regressas. Mas os trtaros tambm o tinham avistado; lanaram-se sobre ele
e, saltando de um lado para outro, foram retirando os fuzis dos coldres. Giline
fez seu cavalo lanar-se pela encosta, e gritou para Kostiline:
- O teu fuzil! Segura o teu fuzil!
Mas Kostiline, em vez de esperar, deitou-se sobre o cavalo, como  habito dos
soldados das fortalezas. Com o chicote, aoitou-o, fazendo saltar para a
esquerda e para a direita.
Giline compreendeu que a situao se tornava perigosa. O fuzil tinha
desaparecido com Kostiline; apenas um sabre no poderia enfrentar os inimigos.
Dirigiu a montada pelo caminho que levava at os soldados. Essa, a nica
salvao que poderia esperar.
Viu que 6 trtaros de desviavam para lhe cortarem caminho. O seu cavalo era bom,
mas os dos outros eram ainda melhores e eles galopavam, firmemente decididos a
intercept-lo. Reduziu a marcha; quis voltar, mas lanado j na carreira, no
pde sofrear o cavalo. Voou direto aos trtaros.
Viu que um deles se aproximava; distinguiu-lhe uma soberba barba vermelha e
reparou que montava um cavalo cinzento. Gritava. Seu fuzil ainda estava no
coldre.
Giline, apesar de sua pequena estatura, era um homem corajoso. Empunhou o sabre
e lanou o cavalo sobre o trtaro vermelho. Pensava: -Ou o derrubo com o cavalo,
ou o abato com o sabre-. Mas os trtaros que galopavam  sua retaguarda, fizeram
fogo, e atingiram o cavalo. O animal tombou e Giline ficou com a perna presa sob
a montada.
Quis levantar-se, mas j dois trtaros mergulhavam sobre ele. Deu um salto e
desembaraou-se dos inimigos; mas outros 3 saltaram dos cavalos e comearam a
espanc-lo com a coronha dos fuzis. Os trtaros aprisionaram-no. Tiraram das
celas algumas cilhas de reserva, puxaram-lhe os braos para trs das costas,
amarraram-nos firmemente e prenderam-no a uma sela. Tomaram-lhe o chapu de
peles e as botas e rasgaram-lhe todo o vesturio.
Giline contemplou o seu cavalo; tal como tinha cado o pobre animal, assim jazia
pelo cho, agitava espasmodicamente as patas que no podia firmar no solo; tinha
um buraco na cabea do qual jorrava um tal jato de sangue negro que, numa
superfcie de cerca de 1 m2 a terra estava toda ensopada.
Um trtaro aproximou-se do cavalo, tirou-lhe a sela. O animal ainda esperneava.
O trtaro empunhou um punhal e cravou-lho no pescoo. As narinas contraram-se
num relincho abafado; um estremecimento e logo depois o animal expirou.
Ento, o trtaro de barba vermelha montou sobre o seu cavalo. Os outros
escarrancharam Giline na garupa e, para evitar de casse, amarraram-no  cintura
do trtaro com uma correia. Dirigiram-se depois para as montanhas.
Giline nada mais via a sua frente, o sangue coagulara-se sobre os olhos; no
podia nem manter-se direito sobre a montada, nem limpar o ferimento; seus braos
estavam to apertados que as clavculas ameaavam quebrar.
Chegaram ao aoul (aldeia trtara).
Os trtaros apearam-se; surgiram as crianas; cercaram Giline e riram e
gracejaram; lanaram-lhe pedras.
Um arteso dispersou os meninos; retirou Giline de cima do cavalo e chamou um
companheiro.
Depois, um Nogai (os trtaros Nogas habitam as estepes ao norte do Cucaso) com
as mas do rosto muito salientes avanou. Vestia uma camisa esfarrapada que lhe
deixava o peito totalmente desnudo. O trtaro ordenou-lhe algo. O arteso voltou
mais tarde com um cepo para os ps: duas pesadas pranchas de carvalho jungidas
com anis de ferro. Um dos anis terminava numa argola menor na qual era
encaixado um cadeado.
Colocaram o cepo nos seus ps e o arrastaram at a entrada de uma cabana.
Empurraram-no para dentro e fecharam a porta. Giline caiu sobre um monte de
esterco. Arrastou-se, tateou na escurido em busca de um local mais fofo e
deitou.
Giline no conseguiu adormecer; viu a luz do dia por uma fenda. Sentia sede.
Escutou passos e pouco depois abriram a porta da cabana. O trtaro vermelho
entrou, acompanhado por outro, de estatura menor e mais escuro; tinha feies
alegres e ria constantemente. O trtaro moreno estava bem vestido: capa curta de
seda azul-escuro estava ornada com um galo. Na cintura, um grande punhal de
prata e sobre os sapatos de pele finssima, calava outros mais resistentes.
Usava um enorme chapu de pele de carneiro branco.
Giline levando as mos  boca, indicou que tinha sede.
O moreno compreendeu; comeou a rir, olhou pela porta e chamou:
- Din!
Acorreu uma mocinha franzina, talvez uns 13 anos e feies semelhantes ao
trtaro moreno. Era evidente que era sua filha. Tinha, como ele, uns olhos
negros e brilhantes e rosto sempre alegre. Vestia um longo roupo azul, com
mangas largas e sem cintura. Nas abas, no peito e mangas, seu roupo estava
ornado com fitas vermelhas. Usava calas compridas  e uns sapatinhos; e sobre
esses sapatinhos, uns outros de salto alto; em volta do pescoo, um colar feio
de moedas russas de meio rublo. Tinha a cabea descoberta; sua cabeleira negra
estava presa com uma fita da qual pendiam pequenos adornos de metal e um rublo
de prata.
Seu pai lhe deu uma ordem qualquer. Ela se retirou, voltando pouco depois com um
cntaro de lato. Deu-lhe de beber, agachando-se; curvara-se de tal forma que
seus olhos ficavam mais altos do que os ombros. Abriu os olhos, espantada;
observava Giline bebendo, como se ele fosse um animal.
Giline devolveu o cntaro. Ela saltou para trs, como uma cabrita. Seu pai riu.
Levou o cntaro, correu, trouxe po sem levedura numa pequena bandeja circular,
sentou-se de novo com a cabea mais baixa que os joelhos. No baixava os olhos;
fitava sem timidez.
Os trtaros retiraram-se; fecharam a porta. Pouco depois entrou um Noga que
disse:
- Ada!  Senhor Ada!
Mas tambm ele no falava russo. Giline entendeu apenas que lhe ordenava que o
seguisse.
Giline saiu com o cepo; mancava; mal podia caminhar, de tal forma seu p estava
preso. Giline seguiu o Noga, viu ento que se encontrava numa aldeia trtara
com dez casas e a respectiva mesquita com uma torre.  porta de uma das casas, 3
cavalos selados. Um rapazinho segurava-os. O trtaro moreno saiu dessa casa;
acenou para que Giline caminhasse at ele.
Giline entrou na casa. A sala era bonita. As paredes estavam cobertas com uma
argila uniforme. Reparou nas almofadas pintadas, nos ricos tapetes sobre os
quais repousavam os fuzis; reparou nas pistolas e nos sabres. Sobre uma das
paredes, um pequeno vu. O cho era terra batida, mas limpo como uma eira; um
dos cantos estava todo forrado de feltro; sobre o feltro, tapetes e sobre estes,
travesseiros de penas...
Era nesse canto que se tinham sentado os trtaros; o moreno, o vermelho e trs
visitantes. Recostavam-se nas almofadas de pena. Diante deles sobre uma pequena
mesa redonda, bolos de milho, manteiga de vaga e um cntaro com buza (bebida de
farinha fermentada). Comiam com os dedos e tinham as mos empastadas de
manteiga.
Conversavam; ento um dos visitantes voltou-se para Giline e disse-lhe, em
russo:
- Kazi Mahommed aprisionou-te - apontou o trtaro vermelho - e deu-te a
Abdoul-Mourat - apontou o moreno - Abdoul Mourat  agora o teu senhor.
Giline conservou-se em silncio.
Abdoul tomou a palavra. O tradutor disse:
- Ele ordena que escrevas uma carta para tua casa, para que da enviem um
resgate. Quando chegar o dinheiro, ele deixar que partas.
Giline  refletiu e perguntou:
- Ele quer um resgate muito grande?
Os trtaros voltaram a conversar e o tradutor precisou:
- Trs  mil moedas.
- No - argumentou Giline - no posso pagar tal soma.
Abdoul  levantou-se bruscamente; gesticulou e disse algo a Giline, acreditando
que ele o entenderia. O intrprete traduziu:
- Quanto queres tu dar?
Giline guardou silncio por um instante, e ofereceu:
- Quinhentos rublos.
Os trtaros voltaram a discutir. E o interprete transmitiu a resposta:
- para o teu senhor,  pouco. Ele mesmo pagou por ti 200 rublos. Kazi Mahommed
devia-lhe essa importncia. Ele recebeu-te como pagamento da dvida. No poders
partir por menos de 3000 rublos. E se no escreveres, sers lanado a uma fossa
e aoitado.
-Ol! - pensou Giline - com essa turma, o pior  mostrar medo!-. Levantou-se e
gritou:
- E tu, diz a esse cachorro que se ele me quer amedrontar, no lhe dou sequer um
copeque, no escreverei uma nica linha. Nunca tive nem terei medo de vocs,
cachorros!
O intrprete traduziu; de novo os trtaros voltaram a falar ao mesmo tempo.
Discutiram muito; depois o moreno levantou-se bruscamente de Giline:
- Orusse Dgiguitte - disse - Orusse Dgiguitte (para eles, significa jovem
corajoso).
E riu. Disse algo ao intrprete, que o aconselhou:
- D mil rublos!
Giline repetiu:
- No darei mais do que 500. E se me matarem, nem os 500 tereis.
Os trtaros voltaram a discutir; mandaram o arteso embora e ficaram olhando ora
para Giline,  ora para a porta.
O arteso regressou pouco depois; atrs dele caminhava um homem, descalo e
esfarrapado, tambm com um cepo num dos ps.
Giline suspirou. Reconhecera Kostiline. Tambm ele tinha sido aprisionado.
Obrigaram-nos a sentar-se um ao lado do outro. Kostiline contou que seu cavalo
tinha sido abatido, que seu fuzil falhara e que o prprio Obdoul o alcanara e
aprisionara.
Obdoul levantou-se bruscamente; apontou Kostiline e disse algo. O intrprete
explicou que ambos tinham agora o mesmo senhor e que aquele que fosse o primeiro
a entregar o dinheiro seria o primeiro a ser libertado. E argumentou com Giline:
- Tu, tu ests sempre zangado; o teu companheiro  um homem mais razovel; j
escreveu uma carta para os seus; pede cinco mil peas. Ser bem alimentado e bem
tratado.
- Meu companheiro - respondeu Giline - procede como quer; talvez seja rico, mas
eu no sou.  como eu disse. Matem-me se quiserem, mas nada ganham com isso.
Escreverei apenas para 500 rublos.
Os trtaros nada responderam.
De repente, Abdoul levantou-se, irritado, abriu um cofre, pegou uma caneta, um
pedao de papel e tinta; aproximou-se de Giline, deu-lhe um safano e disse:
- Escreve!
Giline concordou.
- Espera - disse Giline ao intrprete; - fala-lhe que  preciso que nos alimente
bem, que nos vista e calce e que nos deixe partir juntos - ser mais divertido
para ns - e que nos tire os cepos.
Olhou para o trtaros seu senhor, e riu. O trtaro riu tambm e concordou com
tudo, exceto no que dizia respeito aos cepos.
- No  possvel tir-los, eles fugiriam. Apenas de noite o farei.
Giline redigiu uma carta, mas nela escreveu um falso endereo. Raciocinava:
-tratarei de fugir, e assim no obrigarei minha me a um sacrifcio to pesado.-
Foi assim que ele viveu com seu companheiro um ms inteiro. Depois, resolveu
evadir-se e comunicou sua inteno a Kostiline.
Este refletiu demoradamente e decidiu-se:
- Pois bem, vamos!
Giline abriu na parede um buraco suficientemente largo para passarem; depois,
aguardaram que o silncio envolvesse a aoul. Evadiram-se, e depois de fazerem o
sinal da cruz, puseram-se a caminho, pensando no terem levantado qualquer
suspeita.
O nevoeiro era frio. Giline calou as botas. Kostiline os ps ensangentados,
caminhava gemendo; vinte vezes pediu ao companheiro que o abandonasse, mas este
acabou por transport-lo sobre os ombros, parando somente junto a uma pequena
fonte que brotava de uma rocha. Giline deps Kostiline no cho e disse-lhe:
- Bebe e permite que descanse um pouco.
Acaba de se deitar quando escutou passos. Com seu companheiro, correu para a
direita, ocultando-se num matagal, sobre uma escarpa.
Distinguiram vozes de trtaros; estes, tinham parado no local onde ambos tinham
abandonado o caminho. Falaram demoradamente; depois, incitaram os ces. Giline e
Kostiline ouviram algo se quebrando no valado. Um co avanava sobre eles,
farejando. Sbito, deteve-se e uivou.
Logo surgiram os trtaros; aprisionaram-nos, garrotaram-nos, colocaram sobre os
cavalos e partiram.
A sua existncia tornou-se horrvel. Jamais lhes retiraram os cepos, jamais os
deixaram sair. Do alto da fossa, lanavam-lhes, como ces, bolos de farinha
crua, e a gua era descida num cntaro. A fossa era pestilenta, quente e mida.
Uma vez, Giline, agachado na fossa, sonhava com a vida livre e estava triste. De
repente, a frente de seus joelhos, tombou um bolo frito, e logo um outro, e
depois cerejas. Olhou para cima e viu Din.
Ela sorriu e fugiu.
E Giline pensou: -Talvez Din possa ajudar-me.-
Arrancou do cho da fossa um pedao de argila e entreve-se a modelar alguns
bonecos. Homenzinhos, cavalos e ces; pensava: -Quando vier Din, dou-lhe estes
brinquedos-.
Porm, no dia seguinte, Din no apareceu. E Giline escutou os homens correrem e
o tropel dos cavalos. Os trtaros reuniram-se na mesquita; discutiram, gritaram
e falaram dos russos. No compreendeu tudo o que ouviu, mas pressentiu que os
russos aproximavam-se e que os trtaros receavam que chegassem a aldeia e vissem
o que tinham feito com os prisioneiros.
Conferenciaram e retiraram-se. De repente, escutou um rudo l em cima. Olhou.
Din estava agachada, os joelhos mais altos que a cabea. Debruada, seus
colares balanavam dentro da fossa. Os olhos brilhavam como estrelas. Tirou da
manga dois bolinhos fritos e atirou-os a Giline.
Giline pegou-os e disse:
- H quanto tempo no te via! Olha, arrumei-te uns brinquedos. Toma a, vai.
E atirou um.
Ela abanou a cabea:
- No era preciso - disse.
Calou-se, ficou sentada por alguns instantes e falou:
- Ivan, eles querem matar-te.
E com a mo mostrava o prprio pescoo.
- Quem quer me matar?
- Meu pai; os velhos assim mandaram. Mas eu tenho piedade de ti.
Giline disse ento:
- Se tens piedade de mim, ento traz-me uma vara comprida.
Ela abanou a cabea para dizer que era impossvel e desapareceu.
 noite, sentiu que lhe jogavam terra sobre a cabea. Olhou para cima. Uma longa
vara estava apoiada na borda da fossa. Empinada, comeou a descer; por fim,
rolou para dentro da fossa.
Voltou a olhar para cima; as estrelas resplandeciam longe, no cu; e no alto da
fossa, os olhos de Din brilhavam na obscuridade como os de um gato. Debruou-se
sobre a fossa e murmurou:
- Ivan! Ivan!
E, com as mos sobre o rosto, fazia sinal para que evitasse fazer barulho.
Giline despertou o companheiro:
- Ei, Kostiline, vamos! Tentemos uma ltima vez, te ajudarei.
Kostiline no o quis ouvir.
- No - respondeu - nem sequer posso sair daqui. Onde iria eu, quando nem foras
tenho para arrastar-me?
- Bem, ento, adeus! No me guardes rancor!
Beijaram-se.
Firmou-se na vara, pediu que Din a segurasse, e iniciou a escalada. Duas vez
caiu. O cepo prejudicava-o. Kostiline susteve-o e, bem ou mal, chegou ao alto.
Com suas pequenas mos,Din puxava-o pela camisa; ela ria.
Giline retirou a vara e disse:
- Pe-na no lugar, Din, se a vem aqui, batem-te.
Ela arrastou a vara e Giline desceu a montanha. Para poder caminhar livremente,
tomou uma pesada pedra e tentou quebrar as cadeias do cepo. No conseguiu, e as
pequenas mos da fiel Din que entretanto o alcanara, tambm nada puderam
fazer. Giline, convencido que era imperioso alcanar o desfiladeiro antes que
surgisse a lua, deixou fora a pedra e resolveu caminhar, apesar o cepo.
- Adeus, pequena Din! - disse ele - lembrarei de ti eternamente.
Din comeou a chorar. Abraou-o desesperadamente e correu pela montanha,
saltando como uma cabritinha. No meio da noite, escutava-se apenas a fita de
moedas que prendia seus cavalos, tilintando de encontro as suas costas.
Giline fez o sinal da cruz, segurou o cadeado do cepo, a fim de evitar qualquer
barulho e iniciou a caminhada. Arrastava a perna, olhando constantemente para o
lado avermelhado do cu de onde deveria surgir a lua.
J conhecia o caminho. Caminhou sem hesitaes durante 8 verstas. Porm,
conseguiria alcanar a floresta antes que a lua aparecesse?
Atravessou o ribeiro; quando brilhou a luz, acabava ele de entrar na floresta.
Novamente tentou abrir o cepo. Feriu as mos, mas no o conseguiu abrir.
Levantou-se e continuou a caminhar. Percorreu uma versta; suas foras estavam
esgotadas; mal se sustinha em p. Andava dez passos e parava.
Caminhou durante toda a noite; encontrou apenas dois trtaros a cavalo; porm,
ouviu-os de longe e ocultou-se atras de uma moita.
J ento a lua comeava a empalidecer; caa o orvalho; o dia estava prximo e
Giline no chegara ao fim da floresta.
- Pois bem! - disse - ando mais trinta passos, escondo-me na floresta e
sento-me!
Caminhou os 30 passos e viu que a floresta terminava um pouco mais  frente. Ao
alcanar a orla da floresta, j era dia.  sua frente, a estepe e a fortaleza; 
esquerda, bem prximo, no sop da montanha, ardiam ou extinguiam-se fogos, o
fumo subindo, homens rodeando as fogueiras.
Olhou fixamente e viu os fuzis que brilhavam: eram os cossacos e os soldados.
Giline sentiu-se invadido pela alegria; reuniu as ltimas foras e iniciou a
descida da montanha. Mas dizia: -Deus me guarde que um trtaro me veja: no
conseguirei passar-.
Mal lhe aflorara este pensamento quando olhou  esquerda. Sobre uma colina, 3
trtaros ocupando duas deciatinas (medida de superfcie russa). Viram-no e
galoparam em sua direo.
Sentiu que desfalecia. Agitou os braos e gritou o que lhe veio ao esprito:
- Irmos, socorro, irmos!
Os russos escutaram-no e montaram. Correram em sua direo, tentando cortar
caminho aos trtaros.
Os cossacos estavam longe e os trtaros bem perto. Mas Giline apelara j para as
derradeiras foras; segurou o cepo com as mos e correu em direo aos cossacos;
fazia sinais da cruz e gritava:
- Irmos! - Irmos! - Irmos!
Os soldados cercaram-no. Um deles ofereceu-lhe po, um outro cerveja, outro
vodca, outro cobriu-o com uma capa e outro ainda libertou-o do cepo.
Os oficiais reconheceram-no e conduziram-no para a fortaleza. Ai Giline contou
toda a sua aventura, e disse:
- E aqui est como eu fui a casa e me casei! Certamente no era esse o meu
destino.
E continuou servindo no Cucaso. Kostiline foi resgatado apenas um ms mais
tarde, por 5mil rublos. Estava mais morto do que vivo...
